MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/08/2012

Derrapando na demagogia populista: “O compadre de Ogum”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de dezembro de 2002)

Na série Brava Gente a Globo está exibindo adaptações de Os pastores da noite (1964). Um dos episódios, O COMPADRE DE OGUM já havia sido transposto para a tevê e por isso mesmo foi publicado à parte pela Record. Agradável e divertido, também serve como amostra de certas limitações de Jorge Amado (1912-2001) como escritor.

O argumento é deveras engenhoso. Massu, um dos “pastores da noite”, quer batizar o filho, deixado aos seus cuidados pela mãe, Benedita, que sumira no mundo e reapareceu muito doente. Escolher a madrinha é fácil (“apenas citou-se Tibéria e as demais  candidaturas foram retiradas”); melindroso é decidir, entre tantos amigos, qual o padrinho.

Massu recorre a Ogum e, para sua surpresa, o santo quer ter ele mesmo a honra. É preciso que alguém o incorpore no dia do batizado e vá à igreja. O escolhido é Artur da Guima, veterano “cavalo” de Ogum. Porém, na data do evento (que mobiliza Salvador, uma vez que é fato inédito um orixá tornar-se compadre de um mortal), Artur recebe Exu, que se passa por Ogum, enganando a todos.

O desfecho não podia ser mais delicioso: padre Gomes, que vai realizar o batizado, foi criado—quando criança—nos ritos do candomblé, mas ao ser mandado para o seminário esqueceu-se de tudo. Mesmo assim, é de quem Ogum se vale para se incorporar (perdoado o trocadilho) à cerimônia e expulsar o inoportuno Exu.

O COMPADRE DE OGUM, ao fim e ao cabo, é uma apologia, como outras realizadas por Jorge Amado, da mestiçagem e da força popular. E ambas acabam sendo idealizadas ALÉM DA CONTA.

Baiano cordial, Amado foi cada vez mais deixando para trás a crítica social, ao ponto da anulação completa: tudo é harmonioso, todo mundo se solidariza, os problemas todos são facilmente resolvidos. É curioso que, no início da estória, o narrador reitere as dificuldades financeiras dos “pastores”, mas que, na hora de realizar as exigências de Ogum e Exu, mais os preparativos bombásticos do batizado, esses problemas econômicos desapareçam magicamente. Será esse o tal do realismo fantástico?

Além do mais, a questão da mestiçagem, que ele via como a grande força brasileira (e especialmente da Bahia, é claro) não passa de uma grande bobagem equivocada: qualquer povo importante na história da humanidade sofreu em alguma altura o processo de miscigenação, é algo inerente à sociedade humana. Tomar um fato circunstancial e contingente como se fosse um destino específico do  povo brasileiro, e ainda mais numa sociedade até agora tão antidemocrática como a nossa, é um dos aspectos mais irritantes da obra do autor de O COMPADRE DE OGUM.

Uma história simpática e bem contada acaba derrapando na demagogia (que, com certeza, Amado devia ver como uma espécie de subversão utópica da ordem social), em trechos como, por exemplo, o que se refere ao bonde que alguns personagens tomam para chegar ao batizado: “O motorneiro, negro forte e jovem, perdera o controle do veículo e pouco se preocupava com isso. Ia o bonde ora numa lentidão de lesma, como se não existissem horários a obedecer,  como se o tempo lhe pertencesse por inteiro, ora em alta velocidade, comendo os trilhos, rompendo todas as leis do trânsito, numa urgência de chegar. O condutor mulato zarolho de cabelo espetado tocava a campainha sem quê nem porquê, em ritmo de música de santo. Pendurado no estribo, recusava-se a cobrar as passagens… Tudo de graça, por conta da Companhia, dizia a rir, como se houvessem tomado o poder, assumido o controle da Circular, os motoristas e condutores, os operários das oficinas. Como se naquela manhã tivesse sido decretado o estado de alegria geral e de franca cordialidade… Uma atmosfera azul cobria a cidade, a madrugada permanecia no ar, a gente ria nas calçadas…”!!!??? Milagres do povo.

Parece que o autor compartilha da mesma filosofia simplória que move seus personagens e que pode ser resumida na frase do Cabo Martim para seu amigo Massu: “Tem alguma coisa mais séria que o rabo de uma dona?” Deve ser por isso que as estórias de Jorge Amado ficam tão à vontade na tevê. Só que, em vez de “brava gente”, poderíamos dizer “rasa gente”.

GABRIELA: CINQÜENTONA E INTEIRONA ou FAZENDO JUSTIÇA A JORGE AMADO

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     Gabriela, Cravo e Canela chega aos cinqüenta anos reeditado pela Companhia das Letras. Situado praticamente no meio da produção ficcional de Jorge Amado, adquiriu status mítico e arquetípico, com seus personagens espalhados inclusive pelo imaginário popular, conhecidos por quem nunca sequer abriu um livro na vida, através das suas adaptações e imitações.

     Por isso, uma tentação muito forte numa releitura é a condescendência, uma vez que certos defeitos já eram gritantes até mesmo para uma visão adolescente (como era a minha ao me ocupar com o romance pela primeira vez, instigado pela adaptação para a tevê nos anos 1970): o texto repetitivo, repisando as mesmas informações várias e várias vezes; as imagens fáceis e preguiçosas (por exemplo, a visão das solteironas de Ilhéus como “aves noturnas paradas ante o átrio da pequena igreja”). E mais ainda: a seqüência Gabriela-Dona Flor-Teresa Batista-Tieta sempre despertou em certa parcela da crítica mais reserva do que entusiasmo, este último destinado a outros títulos do nosso mais popular escritor, como Terras do Sem-fim ou Tenda dos Milagres. Jorge Amado acabou sendo um tipo de avô querido, mas embaraçoso.

    Uma revisão sem preconceitos de Gabriela, Cravo e Canela, porém, não deixa dúvidas: trata-se de um belíssimo e bem-realizado romance, principalmente na primeira parte, na superfície concentrada em dois dias da vida de Ilhéus, em 1925: no primeiro deles (que ocupa o grosso da narrativa nas primeiras 150 páginas), o sol ressurge após um preocupante período de chuvas intensas, que ameaçavam destruir a maior colheita de cacau da história; a cozinheira de Nacib, dono do bar Vesúvio, o abandona; um dos coronéis mais destacados da cidade mata a tiros sua esposa e o amante dela (o dentista da região); o navio que traz o exportador “forasteiro” Mundinho Falcão de volta à cidade onde ele está causando um rebuliço modernizador encalha na barra, e a retirante Gabriela, fugindo da miséria da seca, chega a Ilhéus.

    É simplesmente notável  a maneira como Amado articula todos esses fios da intriga, e ao mesmo tempo nos transporta para o passado violento da região, a época “dos barulhos”, na qual os coronéis se impuseram, tomando a terra e se valendo da jagunçagem. E como no Brasil tudo é muito facilmente esquecido, após vinte anos, já tudo “assentado”, parece que “sempre foi assim”, tanto que certos costumes parecem leis morais e bíblicas: é o que se declara quando Jesuíno Mendonça assassina a mulher, Sinhazinha (detalhes da morta colocam em funcionamento toda uma fábrica de imagens eróticas e fetiches, que correm paralelos ao horror do acontecido) e invoca a lei de que honra se lava com sangue.

    Nessa primeira parte, o autor baiano vai além dos seus painéis anteriores da conquista da terra, como Terras do Sem-fim e São Jorge dos Ilhéus porque justapõe a normalidade do quotidiano ao épico histórico de uma forma mais abrangente e matizada. Todo o discurso sobre o “progresso” que se faz palavra corrente naquele ano de 1925 em Ilhéus, com seus entusiastas e opositores, mostra de forma cabal como essa noção vem sendo utilizada na mentalidade nacional: como moeda de mercado, como uma espécie de jagunçagem ideológica.

    E quanto à falta de polimento da prosa amadiana, as repetições excessivas do texto? Até isso tem seu efeito encantatório, sua eficácia particular: Jorge Amado é mais adepto do prosa barriga de chope do que do prosa tanquinho. Vamos fazer, enfim,justiça ao nosso mais popular escritor,não pedindo a ele o que não pode dar.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto d 2008)

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amado e gabriela

Na seção passada, iniciando meu comentário sobre o cinqüentenário de Gabriela, Cravo e Canela enfatizei o virtuosismo da sua primeira parte, na qual os vários fios da trama eram lançados numa excepcionalmente bem urdida concentração temporal.

    Pois bem, cabe agora ressaltar que não há queda alguma de qualidade ou intensidade na 2ª. (e mais extensa) parte, que começa três meses depois e se estende por quase um ano. Sem ser tão espetacular do ponto de vista da técnica romanesca, é uma exemplo cabal de como um contador de histórias inspirado sabe aproveitar todos os dados de um enredo, sem desperdiçar nenhum. Até personagens relativamente pequenos como Jerusa, neta do coronel-mor de Ilhéus, Ramiro Bastos, ou Aristóteles, o poderoso chefão de Itabuna, que rompe com os Bastos e adere ao “forasteiro” Mundinho Falcão, ou o sábio e saboroso João Fulgêncio, o único a compreender a essência de Gabriela, para além do cravo e da canela, ou ainda o surpreendente Amâncio Leal, braço-direito do velho líder, tornam-se em poucas pinceladas inesquecíveis e reais como gente que conhecêssemos. Felizmente, Gabriela não se contenta com caricaturas como as que a tevê consagrou como estereótipos absolutos da paisagem nordestina: beatas, quengas, jagunços, coronéis, todo mundo meio sestroso, que viraram um padrão de preguiça e atraso estéticos.

    Nesta releitura, proclamo Gabriela, Cravo e Canela como uma obra-prima da nossa ficção porque “pode ficar em pé, não no sentido em que um livro pode ficar pelo volume e tamanho, mas porque (independentemente de todo o resto da obra amadiana, mesmo que não houvesse os outros livros da saga do cacau, ou da mulher do povo arquetípica) constrói um mundo que passa a existir em nossa percepção e consciência, no conjunto e no detalhe. Reiterando o óbvio: qualquer um que leia o texto carregará Ilhéus e a região cacaueira e toda a sua gente, nos diversos estratos sociais, para toda a vida.

    Outro feito de Jorge Amado é a depuração do panfletarismo e do populismo, pistas escorregadias onde ele derrapava em livos como Os pastores da noite, por exemplo. Mesmo tendo feito Gabriela uma representante do povo (o que fica claro no episódio em que ela subverte uma festa formal e “chique” de reveillon da modernizada Ilhéus, levando todos para a rua), o grande romancista baiano não escorrega em proselitismos ideológicos. Tanto que não limita o embate Ramiro Bastos-Mundinho Falcão (e, paralelamente, Nacib-Gabriela) ao palco da luta Direita x Esquerda, e sim do reacionarismo autoritário e do progressismo, do arcaico que persiste nos seus aspectos bons e ruins e do moderno às vezes apressado demais e inautêntico (porque se apressa em, com outras vestes, se apropriar das mazelas do arcaico, o que vemos até hoje em nosso país).

    Enfim essa mulata é luxo só!

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de agosto de 2008)

09/08/2012

O MÁGICO QUE TIRA EXISTÊNCIAS DA CARTOLA: Hermann Hesse (1877-1962)

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(escrito especialmente para o blog em agosto de 2012)

“As pessoas dizem que não tenho noção de realidade (…) realmente me falta o respeito à realidade (…) é aquilo com que a pessoa não deve, em circunstância alguma, ficar satisfeito, aquilo que a pessoa não devem em circunstância alguma adorar e reverenciar pois é acidental, o sobejo da vida…”

“A concepção mágica da vida sempre me foi cara ao coração…”

  Hermann Hesse morreu em 9 de agosto de 1962, aos 85 anos (nascera em 1877).

   Já que estou mencionando datas, delimitações cronológicas, vários acontecimentos seminais de 1922 estão completando 90 anos: temos a Semana de Arte Moderna, Ulysses, The waste land, só para ficar nos casos mais óbvios.

   Em 1922, Hesse publicou um romance que cristalizou a “virada” em sua obra que eclodira em Demian (1919): Sidarta. Hoje em dia quase ninguém colocaria o livro do grande escritor alemão entre os grandes eventos literários daquele célebre ano. Mas décadas depois, na efervescência libertária dos anos 1960, o livro se transformaria num ícone da procura de caminhos alternativos ao materialismo ocidental, e Hesse um guru.

   Novamente décadas depois, Sidarta parece ter seguido o mesmo caminho de O pequeno príncipe, O grande Meaulnes (O bosque das ilusões perdidas) e outros livros que “fizeram a cabeça” de inúmeras pessoas e depois são relegados a uma categoria meio embaraçosa, entre a literatura cor-de-rosa e piegas, a auto-ajuda, o esoterismo e o bicho-grilismo,  e que são colocados na mesma pacotilha de coisas mais duvidosas como Fernão Capelo Gavoita ou O profeta (Gibran). E nada mais injusto, no caso do romance de Hesse, relato límpido, profundo e perfeito, aqui no Brasil magnificamente traduzido (por Herbert Caro).

  Li pouco da produção anterior de Hesse a Demian; sem ter feito uma revisão, penso que ele não entraria para a história da alta literatura do século XX por Peter Camenzind ou Rosshalde.

   E também demorei para apreciar verdadeiramente as qualidades de Demian e Sidarta. Comecei a amar (acho que posso utilizar esse verbo sem cair na pieguice) a obra de Hermann Hesse com a leitura de O jogo das contas de vidro, um dos romances que mais li dos anos 1980 para cá, e indubitavelmente um dos livros que considera absolutos. Ajudou muito eu ter descoberto, mais ou menos na mesma época,  outro livro-chave (pelo menos, para mim), a Correspondência entre amigos, cujo interlocutor era Thomas Mann (esse sim, o livro que li mais vezes em toda a vida, ao ponto de sabê-lo quase de cor).

  Não sou tão apaixonado por Hesse como sou por Mann, entretanto acho que chega bem perto a minha admiração por esse autor às vezes tão irritante, tão idiossincrático e que, ainda assim, cresce a cada releitura. Caso tivesse que fazer a opção da ilha deserta, levaria, claro, O jogo das contas de vidro, mas com uma pontada no coração pensando em Narciso e Goldmund, Viagem ao Oriente, Sidarta, Demian. Quanto a O Lobo da Estepe creio que é o mais arrojado e complexo de seus livros, do ponto de visto propriamente ficcional e literário, aquele onde ele mais ousou e mais está atrelado aos grandes feitos modernistas.

   Agora: entre as edições brasileiras da obra de Hesse, há uma meio espúria (já que feita a partir de uma versão em inglês) lançada nos anos 1970 pela Artenova (a tradução é de Affonso Blacheyre), editora cujos exemplares literalmente se desfazem durante a leitura, pois as páginas vão descolando. Todos os livros que eu possuo da Artenova tem de ser manuseados com muito cuidado, para que páginas não se percam ou fiquem embaralhadas.

   Dando uma folheada, (quase uma revoada de folhas), tentando abstrair a capa medonha,  no meu exemplar de MINHA VIDA [Autobiographical writings], apesar desses percalços da chinfrinzice editorial e de um texto brasileiro que é uma versão de uma versão, fiquei novamente maravilhado com a beleza de certos trechos: Theodore  Ziolkowski (também responsável pela Correspondência Hesse-Mann, lançada no Brasil pela Record, em tradução de Lya Luft) reuniu 12 textos autobiográficos de diversas épocas, feições e níveis de qualidade. Nenhum deles é desperdício de tempo, mas três são especialmente lindos.

  O meu favorito, de longe, é Hóspede do Balneário (1924). Mas como esquecer A infância do mágico (1923)ou Autobiografia resumida (1925)? Este último é muito curioso e instigante: até certo ponto, Hesse parece estar nos contando de uma forma poética e concentrada os caminhos da sua vida, mas em determinado ponto, assim como fez com seus personagens nos romances, ele inventa um destino biográfico para si, fazendo um exercício de biografia conjetural. Assim, por exemplo, a persona, ou eu lírico, que nos narra sua autobiografia mostra como anelou por ser poeta desde a adolescência (“A questão era a seguinte: a partir do meu décimo terceiro ano de idade tornou-se claro que eu queria ser poeta ou nada”). Vocação assumida e até bem sucedida enquanto carreira profissional, por incrível que pareça, de repente uma terrível cisão interna, que a Primeira Guerra acarretou,fez com que abraçasse um pacifismo revoltante para seus concidadãos e amigos, amargando um terrível isolamento (“vi-me denunciado como traidor”).

   O sofrimento e os conflitos, tanto externos quanto interiores (faz um severo exame de consciência, “obrigado a procurar a causa de meus sofrimentos não externamente, mas dentro de mim”) desemboca numa radical transformação pessoal. Nós sabemos, por Demian, que isso aconteceu de fato com Hermann Hesse.  Mas ele transforma seu poeta num pintor, envolvido também com magia, que acaba sendo preso (“Com mais de setenta anos de idade, logo após ter sido escolhido por duas universidades para receber graus honorários, fui levado a julgamento por ter seduzido uma jovem usando mágica”). Na prisão, ele pinta  uma paisagem (atravessada por um trem) na parede da cela e a fantasia biográfica vai se encaminhando para um fim digno de Borges:

“Foi diante desse quadro em minha cela que eu me achava um dia, quando os guardas chegaram mais uma vez, com seu chamamento tedioso e tentaram arrancar-me de minha atividade feliz. Nesse momento senti cansaço e algo como uma revolta contra toda aquela azáfama, aquela realidade brutal e sem espírito. Se não me permitiam ficar com meu inocento jogo de artista, sem ser perturbado, nesse caso devia recorrer àquelas artes mais severas a que havia dedicado tantos anos da vida. Sem a mágica, aquele mundo era intolerável.

   Chamei ao espírito a fórmula chinesa, mantive-me por um minuto com a respiração suspensa e me libertei da ilusão da realidade. Depois solicitei afavelmente aos guardas que fossem pacientes por mais um momento, já que tinha de entrar em meu quadro e procurar alguma coisa no trem. Eles riram como costumavam fazer, pois me  consideravam mentalmente desequilibrado.

   Foi quando me tornei pequeno e entrei em meu quadro, embarquei no trenzinho e segui nele para o túnel pequenino e negro. Por algum tempo a fumaça de fuligem continuou a ser visível, saindo do buraco redondo, depois se dispersou e desapareceu, e com ela todo o quadro e eu com ele.

   Os guardas ficaram para trás, tomados de grande embaraço”.

   Esse texto fantasioso e notável prolonga a descrição de infância de Infância do Mágico, onde são acrescentados aos detalhes reais (ele evoca os pais, o avô de uma forma extraordinária) elementos “fantásticos” que, na verdade, reproduzem as percepções de qualquer criança imaginativa (“Duradouro foi o meu sonho infantil de que o mundo me pertencia, que somente o presente existia, que tudo se achava arrumado em volta de mim para tornar-se um belo brinquedo… Tudo era prenhe de realidade e tudo era prenhe de mágica, os dois cresciam conscientemente lado a lado, ambos me pertenciam… Como era diferente o aspecto da nossa porta dianteira, o barracão do jardim e da rua em uma noite de domingo, confrontado com a manhã de segunda-feira! Que semblante inteiramente diverso o relógio da parede e a imagem de Cristo na sala de visitas apresentavam no dia em que o espírito do vovô dominava, em confronto com aqueles dias quando dominava o espírito de meu pai, e como tudo isto mudava outra vez e por completo naquelas horas quando não havia mais o espírito de pessoa alguma, senão o meu próprio, dando às coisas sua assinatura, quando minha alma brincava com as coisas e lhes conferia nomes e significados novos… Como era pouco o que se mostrava fixo, estável, duradouro…”).

  Em 1924, o futuro amigo íntimo (a essa altura, longe disso; apesar de se conhecerem há muitos e muitos anos) Thomas Mann lançava A montanha mágica. Hesse, por sua vez, sofrendo com a ciática, passou algumas semanas na estação de águas de Baden. Escreveu então uma longa e apaixonante crônica da sua estadia, que parece ser a contrapartida miniatural do enciclopédico e ciclópico livro do colega. Uma joia rara, desde o momento em que ele desce na estação, reconhecendo seus “companheiros” e “concidadãos” no universo da ciática, ao mesmo tempo sentindo-se superior por poder andar um pouco mais desembaraçadamente, sem tantos indícios de invalidez: “Via-me cercado de longe e de perto por colegas sofredores, competidores junto aos quais eu era vastamente sofredor. Que sorte a minha ter vindo a tempo, ainda na primeira etapa de uma ciática camarada, ainda com os primeiros sintomas débeis de artritismo inicial! Fazendo a volta e apoiado na bengala fiquei olhando o leão-marinho por algum tempo, com aquela sensação conhecida de satisfação, provando que a língua não pode ainda exprimir os processos psicológicos, pois os opostos linguísticos, maldade e solidariedade, aqui se encontram unidos com a maior profundeza”.

   A partir daí não há uma página em que o leitor não  tenha um trecho deslumbrante em sua percepção da natureza humana, dos próprios processos íntimos neuróticos (a insônia e seus tormentos, e a premente, mas quimérica necessidade de encontrar um quarto de hotel “tranquilo”). Enfim, uma obra-prima. O que eu posso fazer de melhor é recomendar insistentemente a leitura desses Autobiographical Writings nesse aniversário da morte de Hermann Hesse.

A(s) existência(s) de Joseph Knecht: o chamado da vida e a sabedoria

PRIMEIRA PARTE

 “O coração

A cada chamado da vida deve estar

Pronto para a partida e um novo início

Para corajosamente e sem tristeza

Entregar-se a outros, novos compromissos.

Em todo começo reside um encanto

Que nos protege e ajuda a viver…”

O trecho é de um dos poemas de Joseph Knecht (cujo sobrenome significa servidor), protagonista de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO (Das Glasperlenspiel, 1943, traduzido pela dupla Lavínia Abranches Viotti & Flávio Vieira de Souza), de Hermann Hesse (1877-1962), que está saindo numa nova edição pela Record, aparentemente “revisada” (é o que alardeia a editora). Durante anos, eu esperei por esse acontecimento, uma vez que sendo ótima, antológica, essa tradução vinha há anos (desde sua publicação original pela Brasiliense) sendo reimpressa com vários erros, além de apresentar de cara um detalhe problemático: a transcrição dos nomes próprios: basta dizer que abrasileiraram Joseph Knecht para José Servo!

Entretanto, na nova edição a capa continuou muito feia e poluída, os nomes próprios aparecerem grafados de forma discrepante ao longo do livro (vai ver só se deram ao trabalho de revisar o começo, afinal é um livro muito extenso), e vemos Johann Sebastian Bach virar João Sebastião Bach. Knecht continua Servo. Há omissões evidentes de palavras, trocas (doença por dança, táticas por tácitas, etc) e efetuaram uma divisão de parágrafos no mínimo suspeita. Só aqui e ali se constata uma efetiva e salutar revisão, como a mudança de Livro das Metamorfoses, como antes aparecia, para o título em uso na atualidade, Livro das Mutações, para designar o I-Ching. Só que é muito pouco para um romance dessa importância e para um lançamento caro.

O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO é a obra máxima de Hesse e sintetiza sua filosofia de vida (principalmente pós-Demian): trata-se de uma apologia do que ele chama “despertar”, no sentido dos versos que abrem este artigo. No romance, por causa das guerras do século XX (chamado de era do folhetim) houve uma mudança global. Criou-se uma província pedagógica, aparentemente utópica, a Castália, para preservar os valores culturais verdadeiros! Lá são cultuadas a Matemática, a Música, a Astronomia, e também o Latim. A ciência e a arte são manipuladas através de uma prática esotérica e misteriosa, o Jogo de Avelórios.

O narrador se resolve a contar a vida de Knecht a partir de sua indicação como um dos eleitos para viver na Castália, quando menino e órfão, de origem obscura. Ele se tornará, malgrado uma certa atitude outsider (vive um tempo com um sábio especialista na língua chinesa e no I-Ching), o Magister Ludi (Mestre do Jogo), porém romperá com o mundo da Castália e preferirá tornar-se um mero preceptor no mundo secular (há, porém, um final abrupto e estranho, logo no início da sua nova vida, perto dos 50 anos): “o seu caminho tinha seguido um círculo, uma elipse ou espiral, ou uma trajetória qualquer, menos uma linha reta, pois é evidente que a linha reta pertence apenas à geometria e não à natureza ou à vida”.

Por que Knecht abandona Castália? Porque, antes de ser eleito Magister Ludi, viveu alguns anos como emissário da província num mosteiro beneditino e enfronhou-se no estudo da História (uma disciplina desprezada pelos seus confrades) com o Padre Jacobus, grande personagem que homenageia o historiador Jacob Burckhardt, assim como Thomas van der Trave, o Magister Ludi anterior à Knecht, nos reporta a Thomas Mann (nos anos em que escreveu o livro, Hesse acompanha também o desenvolvimento de José e seus irmãos, conforme podemos ver pela correspondência trocada entre os dois amigos, e por isso nada nos impede de ver no próprio nome Joseph/José, e na sua trajetória, que combina momentos de obscuridade e momentos de glória, descenso e ascensão, uma alusão ao herói bíblico da tetralogia, que foi completada com José, o provedor, publicado no mesmo ano de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, embora as associações na obra de Mann sejam mais procuradas noutra obra dessa fase tardia, Doutor Fausto, de 1947).

Conhecendo melhor História (“estudar História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido”), Knecht se dá conta de que Castália está encastelada numa existência alienada. Apesar de sustentada pelo mundo secular, procura se manter longe das lutas quotidianas e das grandes questões mundiais. Hesse faz, assim, uma contundente acusação à cultura humanística do seu tempo que não soube incorporar a práxis histórica, e se transformou numa cultura de especialistas. E que, no caso alemão, deu espaço para o nazismo e foi derrotada por ele.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 29 de abril  de 2003)

SEGUNDA PARTE

  Na seção anterior comentei os pontos discutíveis da nova edição  “revisada” de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, e também o plano geral da obra e seu “corpo” principal, a biografia do protagonista, Joseph Knecht, o qual, após tornar-se o Magister Ludi, abandona a província pedagógica onde o jogo do título é praticado.

Em Sidarta (1922), o narrador nos diz que o herói do livro teve a percepção do que, na verdade, significa a sabedoria: “Nada era a não ser a predisposição da alma, a faculdade, a arte secreta de conhecer a cada instante em plena vida a idéia de unidade, de sentir a unidade, de encher dela os pulmões”.

Essa é a tônica das três belíssimas histórias que complementam O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, além da história principal (que termina de um modo estranho, como se Hesse não tivesse a energia para inventar uma vida para Knecht pós-Castália) e de um conjunto de poemas.

São três possibilidades de reencarnação de Joseph Knecht, uma no período pré-civilizatório (O conjurador da chuva), outra nos primeiros tempos do Cristianismo (O confessor) e outra numa Índia atemporal (A encarnação hindu). Não é à toa que o livro se fecha com esta última, uma vez que é no pensamento oriental, com sua consciência da impermanência e transitoriedade de tudo (e mesmo assim uma noção de unidade, e não de fragmentação), que Hesse encontra saída para o impasse da razão ocidental, para sua tendência à petrificação e perpetuação.

Mais ainda, todos os caminhos para o despertar individual só podem ser experimentados, jamais ensinados ou doutrinados. Sabedoria que encontra eco num dos filmes mais importantes do nosso tempo, Matrix, no qual Morfeus diz a Neo, o Escolhido, “cedo ou tarde você vai perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo”.

      Em O conjurador da chuva, Knecht é uma espécie de feiticeiro de uma tribo (cuja linha de poder é matriarcal). Sua função: dominar fenômenos da natureza para propiciar a colheita e a prosperidade da aldeia; caso contrário, seu destino é a imolação. É magistral a maneira como Hesse nos mostra Knecht-conjurador (apesar de guiado “mais pelos sentidos do que pelo intelecto”) como ancestral da pesquisa científica, embora algo tenha se perdido pelo caminho: “…aspiravam à mesma meta da ciência e da técnica dos milênios posteriores, ao domínio da natureza e ao manejo de suas leis”, entretanto “não se separavam da natureza nem tentavam descobrir seus segredos à força, nunca se contrapondo a ela ou lutando com ela. Continuavam parte integrante da natureza, com inteira e devota entrega de si próprios”. É assim que se pode fazer jus à condição de conjurador do tempo: “Em períodos de puríssima concordância e harmonia anímica, ele trazia no seu íntimo o tempo dos próximos dias, com exatidão e sem perigo de erro, prevendo-o como se trouxesse no sangue a partitura a ser tocada lá fora”.

O confessor, por sua vez, ao discutir o problema da alteridade, quase nos coloca no universo de Borges (assim como um os poemas de Knecht, Um sonho, no qual um bibliotecário vai desfazendo o que se lê nos livros catalogados). Dos três, é o meu favorito pessoal, e um dos supremos momentos de Hesse. Mostra como um latinizado Knecht (Joseph Flamulus), anacoreta do deserto que ouve sem julgar os pecados dos penitentes, cansa-se da sua condição e resolve procurar Dion, outro confessor, o qual age de forma oposta, anatematizando os penitentes. E é o suposto confessor rabugento que dirá para Flamulus as seguintes e inesquecíveis palavras, das quais Dostoievski teria orgulho: “Nós é que somos pecadores propriamente, nós que sabemos e pensamos, que comemos da árvore do conhecimento (…) não somos nunca inocentes, somos pecadores perpétuos, morando no pecado e no incêndio de nossa consciência (…) Nós não estamos nos ocupando deste ou daquele desvio ou prevaricação, mas continuamente com a própria culpa original. Por isso é que um de nós só pode assegurar ao outro que está a par do que se passa e que o ama como irmão”. Hesse já criara, em 1930, uma elegante e bela coincidentia oppositorum, em Narciso e Goldmund, um dos seus melhores livros. De qualquer forma, quem ler a narrativa, verá que solução genial é encontrada para o dilema de Flamulus.

A encarnação hindu distingue-se de Sidarta porque o personagem não é um buscador da Verdade, dedicado à procura do sagrado e do divino. Pelo contrário, é nas fímbrias do sagrado que o personagem principal, Dasa, vai vivenciar o Maia, a vida ilusória que tomamos como realidade, antes de se tornar servidor de um sábio iogue, cuja presença permeia sua vida, a qual oscila entre a glória e a desgraça: “de súbito todos os longos anos que vivera, os tesouros que guardara, as alegrias que gozara, as dores sofridas, o medo que sentira, o desespero que atingira as raias da morte, eram-lhe tirados, apagados, transformados em nada—e no entanto não se extinguiam! Pois a recordação permanecera, as imagens haviam ficado dentro dele….”Moral: mesmo perseguindo a transcendência, não se pode desembaraçar-se da experiência.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de maio de 2003)

A era tardia do homem europeu e seu possível renascimento

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de maio de 2003)

Outro livro de Hermann Hesse reaparece nas livrarias: O último verão de Klingsor  (1920). Na narrativa-título (no original, Klingsor´s letzler Sommer)—há mais duas—pode-se ler: “Diziam: é esse o homem, ecce homo,o homem cansado, selvagem, infantil e refinado de nossa era tardia, o homem europeu moribundo e que quer morrer, retesado por todos os desejos, enfraquecido por todos os vícios, entusiasmado com a consciência do seu declínio, pronto para qualquer progresso, maduro para qualquer retrocesso, submetendo-se à dor e ao destino como um morfinômano à sua droga, ao mesmo tempo Fausto e Karamázov, animal e sábio… cheio de medo infantil da morte e de uma cansada disposição para morrer”.

     A partir de certo momento, Hesse dedicou-se a narrativas que diagnosticavam o estágio espiritual crítico da Europa pós-Primeira Guerra e que, além disso, montavam uma espécie de Teatro do Eu, projeções expressionistas do enredo em cenários fantásticos, onde os personagens enfrentam suas cisões internas, criadas por princípios dicotômicos. É o caso de Demian, de Klingsor, de Viagem ao Oriente, de O lobo da estepe. E obras que ensaiam uma tentativa de conciliação de forma mais explícita e quase didática (ou antes, pedagógica, para utilizar uma expressão goethiana), como Narciso & Goldmund  e O jogo das contas de vidro (as supremas obras de Hesse).

Para isso, ele teve de matar—num determinado sentido—o artista que havia sido, autor de romances mais tradicionais como Rosshalde (1914), cujo protagonista é um pintor, assim como Klingsor, que morrerá aos 42 anos, após um intenso verão mágico, no qual se interpenetram impasses artísticos, fantasias e aspectos pessoais deformados. Sua última obra será um auto-retrato perturbador. Klingsor tem que morrer para Hesse renascer como artista e renovar seu estilo. O texto também é uma espécie de tomada de posição modernista do grande escritor alemão diante da forma tradicional do relato. Não é à toa que Klingsor reaparecerá transfigurado num dos seus livros mais originais e arrojados, Viagem ao Oriente.

Outro texto poderoso do livro é Klein e Wagner (no original, Klein und Wagner), no qual o “teatro do Eu” que o protagonista tem de enfrentar já prefigura o Teatro Mágico (só para raros e loucos) de O lobo da estepe. Após anos de uma vida medíocre com uma esposa que não suportava, Klein comete um desfalque e foge para a Itália, o sonho romântico dos alemães. Lá se envolve com uma mulher de vida duvidosa, apaixonada pela jogatina, e confronta-se com o dilema da sua existência e dos personagens hessianos típicos: a fragmentação.

O nome Wagner que aparece no título alude tanto ao grande compositor (pelo qual Klein e seu autor mantêm sentimentos ambivalentes de reconhecimento e desprezo) quanto a um assassino famoso, que massacrou a família e que se torna uma espécie de alter ego para Klein.

O texto encaminha-se para uma das duas soluções extremas que desde o início apareciam como acordes dissonantes na libertação de Klein da mediocridade burguesa: assassinato ou suicídio? Hesse, entretanto, surpreende ao fazer do final uma versão ocidental da iluminação de Sidarta: “A única diferença que havia entre a velhice e a mocidade, entre Babilônia e Berlim, entre o bem e o mal, entre o dar e o tomar,a única coisa que enchia o mundo de diferenças, valores, paixões, contendas e guerras era o espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano na fase da mocidade turbulenta, ainda longe do conhecimento, ainda longe de Deus. O espírito humano inventava contradições, inventava nomes. Chamava algumas coisas de belas, outras de feias e para ele algumas coisas eram boas e outras más. Uma parte da vida era chamada de amor, outra de assassinato. Como era jovem, leviano e cômico esse espírito!”

Quanto ao terceiro texto, Alma de criança (no original, Kinderseele; como os outros, traduzido por Pinheiro de Lemos), o qual lembra uma parte de Demian, é um dos mais belos já escritos sobre a angústia, além de ser um ajuste de contas com a figura paterna, coma qual Hesse sempre teve problemas (ele dizia que sua “fonte” era materna). Nele, é narrada uma transgressão: o filho entra furtivamente no quarto paterno, de onde rouba algumas coisas, aguardando depois a sanção inevitável. Se tomarmos como verdadeira a afirmação de que “o menino é pai do homem”, então Alma de criança é o preâmbulo perfeito para se conhecer o universo de Hermann Hesse e de seus principais personagens.

08/08/2012

O Teatro Mágico do “eu” dividido: “O lobo da estepe”

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de setembro de 2000

    Falta pouco para o século terminar e naturalmente tendemos a fazer as contas. Que obras literárias ficarão? Daí a importância do reaparecimento nas livrarias, em nova edição, daquelas em cuja sobrevivência apostamos. É o caso de O LOBO DA ESTEPE (“Der Steppenwolf, 1927; a tradução é de Ivo Barroso), a mais famosa das obras-primas de Hermann Hesse (1877-1962).

   Harry Haller, o protagonista, está chegando aos 50 anos obcecado pela ideia de degolar-se com uma navalha, para fugir da angustiante divisão do seu ser em duas personalidades: uma, burguesa, que deseja calor, companhia (ele, um errante, sempre se hospeda em casas que lembam sua infância); outra, que ele denomina de “lobo da estepe”, misantropa e desadaptada, destinada à solidão e orgulhosa dessa condição. No fundo, é a velha dicotomia entre o “mundo luminoso” e o “mundo sombrio” que atormentava Emil Sinclair em Demian.

    Doris Lessing, a respeito de The golden notebook- O carnê dourado, romance que tem muitas afinidades com O LOBO DA ESTEPE, inclusive por causa da estrutura ousada e complexa, afirmou que às vezes pirar é uma forma de autocura, uma maneira de nosso eu interior eliminar falsas dicotomias e divisões. É o que acontece com Harry Haller: ele é convidado a participar de um Teatro Mágico (o qual o tradutor, Ivo Barroso, interpreta como disfarce metafórico para o uso de drogas, numa decifração meio pobre), “só para raros e loucos”.

     Esse teatro é sua própria personalidade. Hesse investe contra a pretensa unidade do eu. Na verdade, somos um feixe de eus: “Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas.. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma (…) Nosso Lobo da Estepe crê levar também em seu peito duas almas (lobo e homem) e por isso sento o peito demasiadamente oprimido e estreito… Crê, como Fausto, que duas almas são demais para um só peito e podem arrebentar com ele. Mas, ao contrário, são demasiado poucas…”

      E Harry, ao longo do romance, irá experimentar algumas das suas outras almas, numa saudável esquizofrenia, por assim dizer, tendo como guias Hermione e Pablo. Hermione é seu duplo feminino, a cortesã que o obriga imperativamente a usufruir da vida, a dançar, a praticar intensamente o sexo (não com ela, entretanto), a se dissolver “na festa” (lembre-se, leitor, que O LOBO DA ESTEPE se passa nos anos 20 e a euforia desenfreada e desesperada que marcou essa década se insinua no romance de Hesse, embora de forma menos óbvia do que nos textos de Scott Fitzgerald; a atmosfera das experiências de Harry lembra também a dos textos de Arthur Schnitzler, o austríaco que inspirou De olhos bem fechados, de Kubrick). Aliás, a cena do baile à fantaisa é um dos grandes momentos de um livro da mais alta qualidade literária.

Pablo, por sua vez, é o belo músico aparentemente burro e tolo, mas que se revela o guia para os mais recônditos cenários do Teatro Mágico, aqueles onde Harry terá que se deparar com suas almas mais sombrias e estranhas, que paradoxalmente servirão para divertir os imortais Goethe e Mozart, os ídolos artísticos do Lobo da Estepe. Pois uma das “lições” da história de Harry Haller é que se precisa do humor, acima de tudo; para se encarar a vida a sério é necessário não se levar a sério. Como o Mozart do Teatro Mágico diz a Haller: “Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!”

    Contudo, o melhor de O LOBO DA ESTEPE é que não há soluções ou verdades definitivas, nem o personagem acaba bem, apaziguado, conciliado. Esse livro, na terceira leitura, como na primeira (e provavelmente numa quinta ou décima) é um duro e perturbador reaprendizado da sensibilidade e da percepção do mundo e, mesmo numa releitura, sempre se poderá repetir a seu respeito o comentário de Thomas Mann, numa carta de janeiro de 1928 ao amigo Hesse (essa correspondência é um dos amores da minha vida de leitor): O Lobo da Estepe conseguiu me ensinar novamente depois de muito tempo o que significa ler”. E sempre restará ao leitor a esperança de, na próxima leitura, ter aprendido a jogar melhor o jogo da existência, desejo formulado por Harry nas frases finais.

A poética do umbral: um texto-ícone do século XX

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de maio de 2000)

Além de Thomas Mann, outro grande escritor alemão está ressurgindo nas livrarias este ano: Hermann Hesse (1877-1962). A Record deu um novo e melhorado tratamento visual aos seus livros, entre os quais DemianHistória da juventude de Emil Sinclair, um texto-ícone do século XX, aquele que tem a famosa frase (bem nietzschiniana): “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”.

Hesse publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem escreve este artigo tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos detalhes irritantes e literariamente derrisórios: 1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a idéia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair; 2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado; 3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas; 4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um outro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que na verdade não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e “the readness is all”), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dicotômica e dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem, e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo”.

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus grandes romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund & O jogo das contas de vidro, além do especialíssimo Viagem ao Oriente.

Vencidos (parcialmente, é preciso dizer) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura,como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes subjetivo em demasia, agora parece simplesmente individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa.

Quanto à edição nova, é mais do que satisfatória do ponto de vista da qualidade gráfica, além de manter a antiga e bela tradução de Ivo Barroso. Só que em algumas páginas houve troca ou supressão de palavras (isso acontece nas páginas 89, 133 e 163). Além disso, um importante parágrafo (no qual Demian explica suas restrições à história bíblica do Bom Ladrão) ficou truncado na página 78. Ali o leitor encontrará: “A história não passa de um caso devoto, alambicado e falso, untuosamente comovida e com um fundo edificante. Se tivesse de escolher hoje por amigo um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter…” Na parte final da passagem, deve-se ler: “Se tivesse de escolher hoje por amigo a um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias esse choramingas converso. Escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter”.

Palavras velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas, ou o anti-trivial variado

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de junho de 2000)

Além de reimprimir obras de Hermann Hesse (1877-1962) já anteriormente editadas (como Demian), a Record colocou no mercado o inédito Felicidade (Glück, traduzido por Lya Luft), aquele tipo de coletânea que reúne o que chamamos de “trivial variado”, textos escritos à margem da obra principal de um autor, geralmente curtos e envolvendo as mais diversas intenções, com um espectro de assuntos altamente heterogêneo.

No caso das 16 peças que compõem Felicidade e que recobrem um período que vai de 1947 a 1961, temos descrições de paisagens; comentários sobre correspondência pessoal; sobre a qualidade do papel usado para se escrever; anotações cotidianas; reflexões sobre as palavras felicidade e pão; evocações da infância ou de pessoas como o grande escritor francês André Gide (autor do maravilhoso Os subterrâneos do Vaticano e da obra-prima modernista Os moedeiros falsos), o contemporâneo com quem Hesse mais se identificava; uma lenda chinesa irônica narrada sob a forma de um poema etc.

Geralmente as coletâneas do trivial variado são póstumas e eu já por várias vezes sublinhei minha antipatia por essas iniciativas editoriais que poderíamos denominar de culto necrófilo das sobras. O próprio Hermann Hesse, entretanto, nunca poupou os leitores do seu trivial variado. Quem leu sua correspondência sabe que os seus destinatários estavam sempre agradecendo a ele o envio de um novo livrinho (o termo não é pejorativo,não, leitor,  Hesse fazia uso dele).

Só que falar em trivial variado diante de uma crônica como Segredos (o ponto alto de Felicidade) é um pouco complicado. É, sem dúvida, um dos textos mais belos escritos por ele. O gatilho que o detona é uma das milhares de cartas de jovens para quem ele foi um guru, na qual aparece a clássica pergunta: a vida tem sentido: O remetente afirma confiar na resposta de Hesse por ser ele “velho” e “sábio”. A partir disso, o grande escritor alemão vai desconstruindo (ele odiaria esse termo modernoso, mas é o que ele faz) as duas palavras (velho e sábio), procurando, após dessacralizá-las, encarar de frente o dilema formulado pelo remetente (o sentido da vida), “sem estender em torno de sua cama um denso mosquiteiro de sistemas, convenções, simplificações e achatamentos”.

Pré-Clarice Lispector (que, aliás, sofreu forte impacto com a leitura de O Lobo da Estepe) e seus inquietantes textos, e muito à Heidegger, Hesse nos mostra que é impossível manter um enfrentamento direto da realidade do mundo por muito tempo, uma vez que essa experiência “na realidade nua jamais dura muito tempo, pois carrega em si a morte, sempre que ataca uma pessoa e a lança no tremendo redemoinho ela dura exatamente o tempo em que alguém a pode suportar; depois termina com a morte ou a fuga desabalada de volta para o não-real, o suportável, o ordenado, o previsível. Nessa zona suportável, morna e ordenada dos conceitos, dos sistemas, dos dogmas e alegorias, vivemos nove décimos de nossa vida”.

Segredos foi escrito em 1947, portanto em pleno pós-guerra. Nos textos dessa década percebe-se nitidamente todo o estrago psicológico causado pelo desmoronamento da Alemanha (apesar de Hesse ter se exilado na Suíça muito antes do começo da guerra) insinuando-se pelas frinchas e frestas do seu cotidiano de escritor, horas na escrivaninha, como ele mesmo diz. São preocupações sobre o destino de pessoas queridas, sobre as quais não se tem nenhuma notícia, são constatações da transformação irremediável da face da terra (no sentido sociológico, existencial e ecológico).

Em contrapartida, os pequenos fatos do cotidiano perduram e se impõem e até ínfimos percalços (que se tornam objeto de vinhetas anedóticas) nos entretêm na tessitura de Felicidade, como a descoberta de que um livrinho de sua autoria, que ele adornara com um desenho e uma dedicatória especiais para dar de presente a uma pessoa que amava, foi vendido a um sebo: “Eu preferia ter uma lembrança melhor do que a coroazinha de flores que eu pintara com afeto, que fora desdenhada e vendida ao sebo. Fato que já fora resolvido, mas, como então notei, me deixara um sentimento parecido com a mágoa”.

     Num movimento pendular oposto, a reflexão sobre determinadas palavras (“velhas palavras, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas… boas palavras significativas”) como pão (“basta pronunciá-la e entregar-se ao que ela significa, e já todas as nossas forças vitais do corpo e da alma são convocadas e entram em atividade”) ou a audição de uma música (a “Marcha Fúnebre” de Chopin), por exemplo, levam a micro-exercícios proustianos, a um leque de reminiscências poéticas (sem nenhum traço de pieguice). Nessa linha, o texto-título é uma pequena obra-prima.

Portanto, o trivial variado de Hermann Hesse parece planar bem acima da trivialidade. As palavras que desabrocharam nas horas de escrivaninha poderão ser saboreadas aos poucos, sem muita pressa, ainda que ele mesmo duvidasse da sua eficácia: “ao escrever dirige-se ao leitor com a cultivada ilusão de que exista uma norma, uma língua, um sistema que lhe possibilite transmitir seus pensamentos e vivências de modo que o leitor possa partilhar relativamente delas, e apossar-se delas. Habitualmente ele faz como todo mundo, executa seu ofício tão bem quanto pode, e procura não refletir sobre a extensão do terreno no qual está plantando, e em que medida os leitores entendem seus pensamentos e vivências, sentem e partilham deles”. Elas sempre estarão aí para a felicidade do leitor. Velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas.

07/08/2012

Leitura em espelho: DOUTOR FAUSTO e O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO

  

                           I

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 8 de outubro de 1996)

A tradução de Herbert Caro para Doutor Fausto talvez tenha sido o grande acontecimento literário nos anos 80, quando saiu pela Nova Fronteira[1]. Agora que o livro está para comemorar 50 anos (em 1997), não custa nada uma revisão dessa reatualização da lenda do homem que faz pacto com o Diabo. Na versão de Thomas Mann, o tentador propõe ao músico Adrian Leverkühn vinte e quatro anos de genialidade. A “apropriação” da alma de Leverkühn começou ao contrair sífilis com uma prostituta, doença que degenerará em loucura irremediável, tal como Nietzsche. Como se sabe, o grande filósofo teve suas idéias encampadas e deformadas pelo nazismo, graças à sua irmã. E o destino de Leverkühn, tão semelhante, espelhará o destino da Alemanha, que mergulha em duas guerras.

Tudo nos é contado por Serenus Zeitblom que, em meio à Segunda Guerra, propõe-se a escrever a biografia de Adrian.  Como ele mesmo afirma, “minha vida pessoal sempre se me afigurou apenas secundária, e sem que propriamente me descuidasse dela, vivia-a distraído… ao passo que minhas verdadeiras diligências, tensões e preocupações se dedicavam ao bem-estar do amigo da infância”.

Portanto, de imediato salta aos olhos o aspecto de alegoria poderosa da Alemanha rumo à loucura nazista, ainda mais pelo seu mergulho nas raízes luteranas presentes na mentalidade germânica, ao ambientar boa parte da história em cidades saturadas de passado como Halle, Leipzig e Kaisersaschern (onde tudo tem início). Mas há um lado ainda mais instigante em Dr. Fausto: a discussão do problema da arte contemporânea que, por extensão, afeta a própria forma do livro.

Leverkühn tem especial predileção pela paródia. Atualmente, todas as manifestações artísticas estão impregnadas por ela ou pelo seu primo pobre, o pastiche. Dentro da narrativa, discute-se incessantemente se a função genuína da arte não se esgotou e se ela não somente, e isso nos melhores casos, crítica e recombinação paródica das formas passadas. Além disso, discute-se o problema da arte como jogo e diversão ou como forma de conhecimento, ambição dos maiores artistas do século XX. Como romance enciclopédico que é, Dr. Fausto assume essa oscilação e, entre todo o anedotário da narrativa, o leitor passa por discussões sobre teologia, ética, física, astronomia, biologia, sociologia, economia e por aí vai.

Isso não deve assustá-lo, leitor. O próprio Mann revoltava-se contra os que acham árdua a leitura, ou mesmo ilegível a obra. Em carta ao seu editor afirmou, com razão: “O livro não é um tratado insuperavelmente difícil e sim, pelo menos em parte, um romance que entretém e até mesmo emociona. Não seria certamente desejável que o público ficasse atemorizado”.

Quem avançar no texto observará que ele vai se tornando cada vez mais “narrativo” e dinâmico na parte final, ao contar o destino das várias pessoas ligadas a Leverkühn, trazendo, aliás, muitos elementos autobiográficos (a vida das irmãs de Mann,  por exemplo).

E num romance tão extraordinariamente construído, onde um fato aludido em determinado ponto (como as formas híbridas de vida que aparecem no começo) vai ganhar pleno significado mais adiante, Mann também não deixa de espelhar sua obra. Há a decadência da burguesia e a oposição entre esta e o mundo artístico e boêmio (como em Buddenbrooks & Tônio Kröeger), o episódio italiano desagregador (como em Morte em Veneza e Mário e o mágico), aliás uma suprema ironia uma vez que é na Itália, a pátria do humanismo clássico, que Leverkühn tem sua entrevista com o Diabo e sela o pacto; há a presença da doença (como em A montanha mágica); há até a antecipação da obra posterior do genial escritor alemão: Adrian compõe uma obra utilizando a história do papa Gregório, que Mann contará em O eleito, em 1951, poucos anos antes da sua morte, em 1955).

No período anterior à Segunda Guerra, quando Thomas Mann tornou-se um famoso exilado, muita gente afligiu-se porque ele não deixava claro seu posicionamento diante da Alemanha nazista, como se ele precisasse deixar mais claro do que escrever coisas inexcedíveis como Histórias de Jacó & Lotte em Weimar (é que, verdade seja dita, na Primeira Guerra ele se destacara pelo nacionalismo fanático, quase chauvinista), os quais iam contra toda a burrice e intolerância dominantes.

Quando o fez, foi um acontecimento memorável e seu irmão, o também notável Heinrich Mann, o cumprimentou comentando que ele dissera a “palavra final”.

Os maravilhosos romances de Mann anteriores a Dr. Fausto sempre foram acusados de ter um pé no passado e não acompanhar a radicalidade formal de outros grandes romancistas do século (Joyce, Kafka, Proust, Virginia Woolf, Faulkner, Musil, Hermann Broch, Alfred Döblin, Céline). Com Dr. Fausto, o maior dos escritores de ficção, mais uma vez teve a última palavra.

                                II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de setembro de 1993)

Uma obra-prima está comemorando 50 anos: O jogo das contas de vidro (Das Glasperlenspiel, traduzido por Lavínia Abranches Viotti &  Flávio Viera de Souza), de Hermann Hesse que, publicado em plena Segunda Guerra, procura demonstrar como impossível à cultura erudita e ao individuo escaparem da marcha histórica, como tenta fazer a imaginária província de Castália, a qual, num futuro distante, separada do mundo, procura preservar os valores culturais mediante a prática de um jogo esotérico e sofisticado.[2]

Joseph Knecht (infelizmente abrasileirado para José Servo) é um dos “eleitos” para estudar na Castália e depois dos seus anos preparatórios, quando se destaca como um dos melhores jogadores, resolve levar uma existência de outsider, inclusive vivendo durante certo tempo com um sábio eremita, especialista no I-Ching. O que não impede que, com a morte de Thomas Von der Trave, o mestre dos jogos, Knecht se torne o líder de Castália e responsável por sua reaproximação com o mundo e reformulação de seu senso de utilidade. Aliás, num pequeno texto de 1925, Autobiografia resumida, Hesse toca no cerne do impasse pedagógico: “É verdade que nossos mestres  nos ensinavam, naquela divertida disciplina chamada história do mundo, que este sempre foi governado, guiado e transformado por homens que fizeram suas próprias leis e romperam as regras tradicionais, sendo-nos dito que esses homens deviam ser reverenciados. Mas isso era tão enganoso quanto todo o resto da nossa instrução, pois, quando um de nós, com boa ou má intenção, reunia coragem para protestar contra alguma ordem ou mesmo contra algum costume tolo, ou meio de fazer as coisas, não recebia reverência nem louvor como exemplo, mas era castigado, escarnecido e esmagado pela força superior, covardemente usada, dos professores”.

Nestes tempos de picaretagem mística e incapacidade literária, seria bom o leitor constatar que não há nada de novo nessa moda e conhecer um livro ao mesmo tempo profundamente espiritual e de altíssima qualidade estética, o que sempre revela o verdadeiro alquimista, que sabe usar a tradição esotérica sem diluí-la ou pastichá-la.

Mestre do jogo, Hesse brinca com a narrativa,com uma deliciosa ironia, pois o biógrafo-narrador da vida de Knecht faz um extenso elogio à impessoalidade e papel funcional dos membros da ordem castálica, e no entanto mostra a vida de um “funcionário” que era essencialmente uma grande individualidade (o que, à época, ia contra os robóticos membros da Gestapo, que sempre alegavam “estar cumprindo ordens”, executando sua função), transformadora, que percebe que o saber não pode ficar congelado em instituições, tem de fazer parte da práxis humana.

Essa concepção do funcionário zeloso de suas tarefas e de seu papel numa vasta organização, e que também é um indivíduo extraordinário, de certa forma aproxima o livro de Hesse do também magistral Memórias de Adriano (1951),de Marguerite Yourcenar.

Outro aspecto apaixonante de O jogo das contas de vidro é que ele condensa e depura os temas e preocupações de várias obras de Hesse, bem mais famosas, tais como O lobo da estepe, Sidarta & Demian; sem desmerecer esses livros, a história de Joseph Knecht o autor alemão finalmente conseguiu se livrar de um simbolismo às vezes um tanto fácil e esquemático, e de uma certa fraqueza na caracterização dos personagens, na sua relação sempre didaticamente dialética (isto é, um complementa o outro, vale lembrar aqui de Narciso & Goldmund).

As “amizades dialéticas” de Knecht são marcantes: Tegularius, o jogador brilhante e neurótico; o padre Jacobus, membro de uma ordem religiosa para onde Knecht é enviado numa importante missão…

Há também a parte final, constituída de poemas (alguns belíssimos) e da história de três encarnações anteriores de Knecht: uma, no princípio da humanidade,(O conjurador da chuva); uma passada nos tempos iniciais do cristianismo, a lindíssima O confessor, que por si só vale o livro; e uma que se passa na Índia e que lembra Sidarta. Eis, leitor, os “anos dourados” da peregrinação existencial e espiritual. Autoajude-se leitor: leia livros lindos como esse.


[1] Eu , então, li o romance (em 1985), mas a princípio não gostei, como gostara, por exemplo, de A montanha mágica, Os Buddenbrooks, O eleito, A morte em Veneza ou José e seus irmãos, apesar de achar o projeto admirável. Custei um pouco a apreciá-lo devidamente.

[2] Eu o li a primeira vez em 1984. Devo dizer que durante um bom tempo “resisti” a Hermann Hesse, que me parecia algo meio à Castañeda ou Lobsang Rampa, e não gostara de Demian nem de Sidartha (mudei de opinião depois sobre os dois).

04/08/2012

O que é um hooligan? Como se tornar um?

“Nas semanas que precederam o meu retorno, revisitei os caminhos tortuosos das idades. Lembrei-me do sabor das comidas e das piadas, do vinho, dos cânticos, das montanhas e do mar, dos amores e das leituras. E, naturalmente, das amizades que haviam iluminado tantos impasses. Sim, mesmo alguém como eu, nascido sob o signo do intruso, não tinha o direito de esquecer os deleites de Gomorra. O encanto daquele lugar e de seus moradores não era ilusão, O encanto daquele lugar e de seus moradores não era ilusão, isso eu podia atestar. Paul Celan também viveu, em sua época bucarestina do pós-guerra, o tempo do ´trocadilho´, como o chamou depois, com divertida nostalgia. E também Tolstói, naqueles sete meses que passou em Bucareste em 1854 e em Chisinau e em Buzau e em tantas outras de suas paragens. A mistura de magia e tristeza não escapou ao seu olhar juvenil, ávido por livros e por aventuras vulgares, carnais, obcecado por aperfeiçoar o caráter e a escrita,mas obcecado também pela camponesa descalça, deitada no campo, ou por uma noite no bordel. Sim, a intensidade do instante, a vida toda num instante…”

(a resenha abaixo foi publicada, de forma um pouco mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 16 de julho de 2012)

Dois personagens podem ajudar a entender as questões levantadas em O retorno do hooligan [excelente tradução de Eugênia Flavian para Întoarcerea huliganului , 2003], do romeno Norman Manea: Leopold Bloom (Ulysses) e Sabina (A Insustentável Leveza do Ser). Embora irlandês até a medula, Bloom enquanto judeu é tratado ao longo do romance de James Joyce como um estrangeiro, até mesmo um usurpador. Mesmo ausentes exteriormente, os signos que conferem identidade genérica ao “judeu” o perseguem; já a personagem de Milan Kundera, exilada do regime comunista, deplora que o horizonte de “liberdade” do mundo democrático ocidental se transforme num terreno fértil para o kitsch e para a degradação cultural. O exílio é a sua condição de fato, irrevogavelmente.

Nascido em 1936, num país fortemente antissemita (Hanna Arendt, em Eichmann em Jerusalém, afirma que era o MAIS antissemita da Europa Oriental à época da Segunda Guerra), Manea passou parte da infância num campo de concentração. Sua família foi repatriada em 1945, para depois vivenciar a caricatura do socialismo perpetrada por Stálin e sua disseminação pelos satélites da União Soviética.  Por triste ironia, o entusiasmo adolescente como militante comunista é o único momento em que ele não se sentiu à parte como cidadão romeno, tal como Bloom, até perceber o lado farsesco e a retórica mentirosa do regime. Formando-se engenheiro, arrastou-se a contragosto na profissão. Nos anos1970, procurou aval psiquiátrico para abandoná-la:

“De repente, quando menos se espera, você logo perde o controle ou tem a impressão de que o perdeu ou simulou perfeitamente a perda. Agora pode obter finalmente o atestado médico que o envia para casa, para o seu quarto, para a sua célula, o caixão que o separa do meio. E tudo isso por conta do Estado, que gracinha!

   A engenharia teria me protegido? Uma proteção relativa  e cara e mesmo que não tenha sido paga com interrogatórios e prisão e campo de concentração e colônias penitenciárias de ´reeducação´, apenas com os sonolentos truques do cotidiano…”

Exilou-se em 1986, tornando-se—além de um “traidor” da pátria, o que não deixa de ser tristemente engraçado—um  intelectual polêmico nos EUA, devido a um ensaio no qual desmascarou  seu famoso compatriota Mircea Eliade como entusiasta do fascismo na juventude. Manea não é um dissidente “grato”. Como a inesquecível Sabina de Milan Kundera, é um estranho no paraíso, o que fica evidente nas notáveis páginas iniciais do seu relato:

“Será o infantilismo dos talk-shows televisivos em que crianças de cinquenta anos reivindicam sabe-se lá que terrível acontecimento as traumatizou quando tinham cinco ou quinze anos? Crianças incompreendidas, homens incompreendidos, mulheres incompreendidas, abusos por idade e sexo e religião e raça—a Vitimização! O Repertório das Lamúrias Planetárias. Um trauma aos cinco anos de idade é justificativa para a falta de imunidade aos cinquenta e sessenta e seiscentos anos?”

O RETORNO DO HOOLIGAN faz uma ponte intertextual com um texto de 1935, de outro romeno, Mihail Sebastian (Como me tornei um hooligan):

“Hooligan? O que é um hooligan? Alguém sem raízes, um não alinhado, indefinido? Um exilado? Ou o que  consta no dicionário Oxford da língua inglesa: The name of an Irish family in S.E. London  conspicious for ruffianism?” (…) “Sem raízes, exilado, dissidente, é esse o hoolingan judeu?”

“Hooligan” (aquele que perturba o jogo por autoexclusão) consciente, em 1997, reluta em voltar à Romênia do pós-comunismo. Essa perspectiva de se confrontar com sua identidade fraturada de romeno sempre tomado como um forasteiro (feito Bloom) o deprime. Que tipo de retorno poderia aguardá-lo? Ao hesitar diante de tal passo, recapitula sua vida (e a de sua família) de uma forma brilhante. Apesar dos inúmeros textos já escritos nesse filão, ou talvez por causa disso, fiquei impressionado com O retorno do hooligan pelo  menos por 280 páginas (de um total de 430)

Pena que na última parte, quando narra os eventos da visita, o livro não mantenha seu quilate. Manea é bom demais para que O Retorno do Hooligan deixe de interessar até o fim, mas é preciso dizer que seu texto se torna particular e específico demais, sem falar em certos recursos de gosto duvidoso, para não dizer toscos (fantasmas  que lhe aparecem no quarto de hotel, “sombras” do passado!), ao contrário das partes anteriores, que faziam do livro uma espécie de enciclopédia subjetiva do século XX e que podem ser comparadas aos grandes exercícios memorialiísticos-caleidoscópicos de Jorge Semprún (como Um Belo Domingo e A Vida ou A Escrita).

 

São Paulo, sábado, 04 de agosto de 2012Ilustrada
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CRÍTICA / MEMÓRIA

Identidade fraturada inspira relato brilhante

Forasteiro em seu próprio país, o escritor romeno Norman Manea recapitula sua vida em “O Retorno do Hooligan”

ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Dois personagens podem ajudar a entender as questões levantadas em “O Retorno do Hooligan”, do romeno Norman Manea: Leopold Bloom (“Ulysses”) e Sabina (“A Insustentável Leveza do Ser”).

Embora irlandês até a medula, Bloom, enquanto judeu, é tratado ao longo do romance de James Joyce (1882-1941) como um estrangeiro.

Mesmo ausentes exteriormente, os signos que conferem identidade genérica ao “judeu” o perseguem.

Já a personagem de Milan Kundera, exilada do regime comunista, deplora que o horizonte de “liberdade” do mundo democrático ocidental se transforme num terreno fértil para o kitsch e para a degradação cultural. O exílio é a sua condição de fato, irrevogavelmente.

Nascido em 1936, em um país fortemente antissemita, Manea passou parte da infância num campo de concentração. Sua família foi repatriada em 1945, para depois vivenciar a caricatura do socialismo perpetrada por Stálin e sua disseminação pelos satélites da União Soviética.

Por triste ironia, o entusiasmo adolescente como militante comunista é o único momento em que ele não se sentiu à parte como cidadão romeno, até perceber o lado farsesco e a retórica mentirosa do regime. Formando em engenharia, se arrastou a contragosto na profissão.

Nos anos 1970, procurou aval psiquiátrico para abandoná-la. Exilou-se em 1986, tornando-se um intelectual polêmico nos EUA.

Manea não é um dissidente “grato”. Como Sabina, é um estranho no paraíso.

“Hooligan” (aquele que perturba o jogo por autoexclusão) consciente, em 1997 reluta em voltar à Romênia do pós-comunismo.

Essa perspectiva de se confrontar com sua identidade fraturada de romeno sempre tomado como um forasteiro (como Bloom) o deprime.

Que tipo de retorno poderia aguardá-lo? Ao hesitar diante de tal passo, recapitula sua vida (e a de sua família) de forma brilhante.

Pena que, na última parte, quando narra os eventos da visita, o livro não mantenha seu quilate.

Manea é bom demais para que “O Retorno do Hooligan” deixe de interessar até o fim.

É preciso dizer, porém, que seu texto se torna particular e muito específico, sem falar em certos recursos de gosto duvidoso, quando não tosco (fantasmas que lhe aparecem no quarto de hotel), ao contrário das partes anteriores, que faziam do livro uma espécie de enciclopédia subjetiva do século 20.

 

O RETORNO DO HOOLIGAN
AUTOR Norman Manea
EDITORA Amarilys
QUANTO R$ 59,90 (430 págs.)
AVALIAÇÃO bom

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