MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/08/2012

O PACTO FICCIONAL ENTRE AUTOR E LEITOR


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de fevereiro de 2006)

Todos têm seus bordões, e nesse ponto não sou diferente de ninguém, também tenho os meus e um dos que mais gosto de repetir é tirado de um pedaço de frase do admirável A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), última obra de Osman Lins, que agora, 30 anos depois, recebe nova edição: “romance, mundo imerso no mundo”. Em Áporo, de Carlos Drummond de Andrade, lemos: “Um inseto cava / cava sem alarme / perfurando a terra / sem achar escape // Que fazer, exausto, / em país bloqueado / enlace de noite / raiz e minério ? // Eis que o labirinto / (oh razão mistério) / presto se desata: // em verde, sozinha, / antieuclidiana, / uma orquídea forma-se.” Num país bloqueado (estamos nos anos “barra pesada” da ditadura militar), o narrador refugia-se num diário no qual procura analisar o romance inédito A rainha dos cárceres da Grécia, deixado pela sua falecida amante, Julia Enone, a respeito de uma “irmã em destino” da Macabéa de A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, também nordestina e miserável, chamada Maria de França, a qual passa anos da sua vida pleiteando um benefício do antigo INPS, em vão, não conseguindo romper a temível malha burocrática, mesmo porque não tem instrução ou equilíbrio psicológico (passa por períodos de loucura e internação): “Fazem-lhe, ainda na Riachuelo, nova sugestão: recorrer à Assistência Judiciária, antes obtendo atestado de pobreza. Ela ouve o conselho, desce as escadas, as escadas sujas, repetindo-o. Ao chegar embaixo, já se esqueceu de tudo.”

Tanto quanto o jogo metalingüístico fascinante (que faz de Osman Lins um irmão de Nabokov e Paul Auster), A rainha dos cárceres da Grécia impressiona por sua dimensão política, apesar da sombria constatação do seu protagonista: “Assim, coincide melhor com as linhas gerais do romance outra visão –mais chã—do isolamento do escritor, não voltada para ele, e sim para a sociedade, que o recusa.”

     Inseto cavando sem alarme, perfurando a terra, escavando na obra de Julia Enone, sua orquídea antieuclidiana para desatar o labirinto (mito arquitetônico que foi um dos vários legados da civilização grega), o narrador comenta e transcreve notícias de jornal, nunca se referindo diretamente ao regime militar. Nenhuma obra dos anos 70, entretanto, captou tão poderosamente o clima opressivo da época e a degradação da informação enquanto valor na nossa sociedade, pois a maioria dos ficcionistas optou pela simplificação do “romance-reportagem” (Infância dos mortos, O crime antes da festa, Lúcio Flávio, Acusado de homicídio, alguém lembra desses títulos ?), onde, na tentativa de driblar a censura e oferecer um “retrato” da realidade nacional, o supostamente factual e referencial sufocava a narração e acabava-se reconfortando o leitor, mais do que o levando a uma atitude crítica, ao perseguir uma impressão de veracidade absoluta.

Flora Süssekind radiografou muito bem essa perspectiva naturalista e redutora no seu memorável estudo Tal Brasil, qual romance? Ora, ao eleger a distorção dos fatos, até do espaço narrativo (Julia Enone funde Recife e Olinda como se fossem uma cidade só), o narrador de A rainha dos cárceres da Grécia dinamita essa mentira referencial, do que é “baseado na vida real”, e firma com o leitor um pacto ficcional, em que se finge a dor que deveras se sente. Ao descascar camadas e camadas de artifícios narrativos, ele nos transmite muito mais realidade ( transbordante, simbólica, delirante que seja) do que qualquer medíocre relato de casos da época. É o triunfo do romance, mundo imerso no mundo, e, em última instância, da verdadeira literatura, sobre a reportagem que se disfarça (mal) de ficção.

2 Comentários »

  1. Gostei da sua crítica e sou um dos que se lembra de ‘Infância dos mortos’, ‘Lúcio Flávio, o passageiro da agonia’ e ainda ‘Aracelli, meu amor’, todos de José Louzeiro. O Osman Lins morou em Marília, onde vivo atualmente. Outro dia, quase sai na mão com um leitor no sebo: ele acabara de encontrar disponível para venda, ali entre tantos outros livros usados, ‘A rainha dos cárceres da Grécia’ AUTOGRAFADO pelo próprio Osman. O cara teve um sorte… Ainda volto ao sebo para ver se terei a mesma sorte.
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    Um abraço, gostei do seu blog
    Ramon

    Comentário por Ramon Barbosa Franco — 18/08/2010 @ 15:48 | Responder

    • Obrigado, Ramon, e que pena que você não ficou com o exemplar. Eu adoro a obra de Osman Lins, e tenho mais material para postar no blog sobre ele, que aliás escreveu (e muito bem) sobre outro autor da minha preferência, Lima Barreto.
      Um abraço.

      Comentário por alfredomonte — 18/08/2010 @ 16:40 | Responder


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