MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/08/2012

Vislumbres do movimento geral: a poética do desfocamento de Joan Didion


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de julho de 1999).

Em Democracia, um dos romances que eu mais aprecio, pode ser lida a seguinte frase: “Não havia razão para qualquer um ficar isento do movimento geral”. Este, poderia ser, ao que parece, o lema nos livros de Joan Didion, como o leitor pode conferir em A ÚLTIMA COISA QUE ELE QUERIA (The lost thing he wanted, 1996, em tradução de Carlos Eduardo Matos para a Record),já de saída uma das traduções importantes de1999.

A princípio implica-se um pouco com A última coisa que ele queria porque parece uma reedição de temas e ritmos narrativos de Democracia: uma mulher norte-americana é colocada numa situação em que perde todos os seus referenciais (ou seja, é arrebatada pelo movimento geral), e que se envolve com um sujeito que atua “por debaixo dos panos” na estratégia política dos EUA, daquele tipo que fornece, como a autora diz: “vislumbres colaterais das longínquas fronteiras da Doutrina Monroe” (leia-se “imperialismo norte-americano”).

Mas atacar o livro por esse ângulo é mais do que inapropriado, é inaproveitável: é o mesmo que dizer que Fellini se repetia na maioria dos seus filmes, ou que Scorsese ao filmar Cassino reeditou Os bons companheiros. Bobagem. Obsessões criativas não criam repetição, criam jogos de espelhos, criam reverberações novas onde parecia que nada mais iria acontecer.

Em A última coisa que ele queria a protagonista que “perde todos os seus referenciais”, que perde sua isenção no movimento geral, é Elena McMahon, que, ao fazer uma visita ao pai, descobre que ele está muito doente e que iria fazer uma grande negociação com armas (na verdade, seria enganado e serviria como bode expiatório de um atentado) para a América Central (é a época do auge do governo sandinista). Ele, então, pede à filha que faça a transação por ele (tornando-a, sem querer, o novo “pato” da trama).

O homem com quem ela se envolve, aquele que mexe os pauzinhos “por debaixo dos panos” é Treat Morrison, que é, afinal, o alvo do atentado.

Como no outro romance, Didion aparece como a narradora que não quer seguir as regras do jogo, que “perdeu a paciência com as convenções do ofício”, que não aceita mais contar uma história. Ela, portanto, a monta, desmonta, contrai e estica, através de frases e imagens que vão e voltam incessantemente, de uma forma que nos remonta ao noveau roman francês, naquele tipo de ficção experimentada por Alain Robbe-Grillet ou Marguerite Duras (embora sejam escritores bem diferentes), uma experimentação formal que muitas vezes tinha um conteúdo bem politizado, como é o caso do próprio Robbe-Grillet e especialmente de Claude Ollier, veja-se, por exemplo, A encenação.

Mas é bem possível que a técnica narrativa de Joan Didion e de seus maravilhosos romances nada deva a esses talentosos experimentadores franceses. A impressão que fica é que ela optou por narrar dessa forma porque os fatos políticos que acontecem em seus livros geram tantas controvérsias, inverdades, “versões” oficiais, que acabam gerando uma necessidade de contá-los levando em conta essas distorções da realidade.

O leitor, ao longo de A última coisa que ele queria, vê dispostas numa mesa várias fotos desfocadas. O trabalho da narradora não foi tanto o de torná-las mais nítidas, contudo (e isso sim é muito mais instigante), quanto de fazer o leitor pressentir os motivos para o desfocamento, o que poderia estar implícito nessas imagens imprecisas. Talvez o elemento condutor, o fio que liga todos esses instantâneos duvidosos, Elena McMahon, não seja tão marcante quanto a Inez Christian Victor, de Democracia, possivelmente a personagem feminina mais fascinante da década de 1980 (pelo menos na ficção norte-americana), mas esse novo vislumbre do movimento geral apanhando na sua rede alguém que parecia isento e imune é quase tão bom quanto o outro.

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