MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/08/2012

Palavras velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas, ou o anti-trivial variado

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de junho de 2000)

Além de reimprimir obras de Hermann Hesse (1877-1962) já anteriormente editadas (como Demian), a Record colocou no mercado o inédito Felicidade (Glück, traduzido por Lya Luft), aquele tipo de coletânea que reúne o que chamamos de “trivial variado”, textos escritos à margem da obra principal de um autor, geralmente curtos e envolvendo as mais diversas intenções, com um espectro de assuntos altamente heterogêneo.

No caso das 16 peças que compõem Felicidade e que recobrem um período que vai de 1947 a 1961, temos descrições de paisagens; comentários sobre correspondência pessoal; sobre a qualidade do papel usado para se escrever; anotações cotidianas; reflexões sobre as palavras felicidade e pão; evocações da infância ou de pessoas como o grande escritor francês André Gide (autor do maravilhoso Os subterrâneos do Vaticano e da obra-prima modernista Os moedeiros falsos), o contemporâneo com quem Hesse mais se identificava; uma lenda chinesa irônica narrada sob a forma de um poema etc.

Geralmente as coletâneas do trivial variado são póstumas e eu já por várias vezes sublinhei minha antipatia por essas iniciativas editoriais que poderíamos denominar de culto necrófilo das sobras. O próprio Hermann Hesse, entretanto, nunca poupou os leitores do seu trivial variado. Quem leu sua correspondência sabe que os seus destinatários estavam sempre agradecendo a ele o envio de um novo livrinho (o termo não é pejorativo,não, leitor,  Hesse fazia uso dele).

Só que falar em trivial variado diante de uma crônica como Segredos (o ponto alto de Felicidade) é um pouco complicado. É, sem dúvida, um dos textos mais belos escritos por ele. O gatilho que o detona é uma das milhares de cartas de jovens para quem ele foi um guru, na qual aparece a clássica pergunta: a vida tem sentido: O remetente afirma confiar na resposta de Hesse por ser ele “velho” e “sábio”. A partir disso, o grande escritor alemão vai desconstruindo (ele odiaria esse termo modernoso, mas é o que ele faz) as duas palavras (velho e sábio), procurando, após dessacralizá-las, encarar de frente o dilema formulado pelo remetente (o sentido da vida), “sem estender em torno de sua cama um denso mosquiteiro de sistemas, convenções, simplificações e achatamentos”.

Pré-Clarice Lispector (que, aliás, sofreu forte impacto com a leitura de O Lobo da Estepe) e seus inquietantes textos, e muito à Heidegger, Hesse nos mostra que é impossível manter um enfrentamento direto da realidade do mundo por muito tempo, uma vez que essa experiência “na realidade nua jamais dura muito tempo, pois carrega em si a morte, sempre que ataca uma pessoa e a lança no tremendo redemoinho ela dura exatamente o tempo em que alguém a pode suportar; depois termina com a morte ou a fuga desabalada de volta para o não-real, o suportável, o ordenado, o previsível. Nessa zona suportável, morna e ordenada dos conceitos, dos sistemas, dos dogmas e alegorias, vivemos nove décimos de nossa vida”.

Segredos foi escrito em 1947, portanto em pleno pós-guerra. Nos textos dessa década percebe-se nitidamente todo o estrago psicológico causado pelo desmoronamento da Alemanha (apesar de Hesse ter se exilado na Suíça muito antes do começo da guerra) insinuando-se pelas frinchas e frestas do seu cotidiano de escritor, horas na escrivaninha, como ele mesmo diz. São preocupações sobre o destino de pessoas queridas, sobre as quais não se tem nenhuma notícia, são constatações da transformação irremediável da face da terra (no sentido sociológico, existencial e ecológico).

Em contrapartida, os pequenos fatos do cotidiano perduram e se impõem e até ínfimos percalços (que se tornam objeto de vinhetas anedóticas) nos entretêm na tessitura de Felicidade, como a descoberta de que um livrinho de sua autoria, que ele adornara com um desenho e uma dedicatória especiais para dar de presente a uma pessoa que amava, foi vendido a um sebo: “Eu preferia ter uma lembrança melhor do que a coroazinha de flores que eu pintara com afeto, que fora desdenhada e vendida ao sebo. Fato que já fora resolvido, mas, como então notei, me deixara um sentimento parecido com a mágoa”.

     Num movimento pendular oposto, a reflexão sobre determinadas palavras (“velhas palavras, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas… boas palavras significativas”) como pão (“basta pronunciá-la e entregar-se ao que ela significa, e já todas as nossas forças vitais do corpo e da alma são convocadas e entram em atividade”) ou a audição de uma música (a “Marcha Fúnebre” de Chopin), por exemplo, levam a micro-exercícios proustianos, a um leque de reminiscências poéticas (sem nenhum traço de pieguice). Nessa linha, o texto-título é uma pequena obra-prima.

Portanto, o trivial variado de Hermann Hesse parece planar bem acima da trivialidade. As palavras que desabrocharam nas horas de escrivaninha poderão ser saboreadas aos poucos, sem muita pressa, ainda que ele mesmo duvidasse da sua eficácia: “ao escrever dirige-se ao leitor com a cultivada ilusão de que exista uma norma, uma língua, um sistema que lhe possibilite transmitir seus pensamentos e vivências de modo que o leitor possa partilhar relativamente delas, e apossar-se delas. Habitualmente ele faz como todo mundo, executa seu ofício tão bem quanto pode, e procura não refletir sobre a extensão do terreno no qual está plantando, e em que medida os leitores entendem seus pensamentos e vivências, sentem e partilham deles”. Elas sempre estarão aí para a felicidade do leitor. Velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas.

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