MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/08/2012

A poética do umbral: um texto-ícone do século XX

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 14:00
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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de maio de 2000)

Além de Thomas Mann, outro grande escritor alemão está ressurgindo nas livrarias este ano: Hermann Hesse (1877-1962). A Record deu um novo e melhorado tratamento visual aos seus livros, entre os quais DemianHistória da juventude de Emil Sinclair, um texto-ícone do século XX, aquele que tem a famosa frase (bem nietzschiniana): “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”.

Hesse publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem escreve este artigo tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos detalhes irritantes e literariamente derrisórios: 1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a idéia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair; 2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado; 3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas; 4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um outro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que na verdade não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e “the readness is all”), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dicotômica e dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem, e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo”.

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus grandes romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund & O jogo das contas de vidro, além do especialíssimo Viagem ao Oriente.

Vencidos (parcialmente, é preciso dizer) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura,como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes subjetivo em demasia, agora parece simplesmente individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa.

Quanto à edição nova, é mais do que satisfatória do ponto de vista da qualidade gráfica, além de manter a antiga e bela tradução de Ivo Barroso. Só que em algumas páginas houve troca ou supressão de palavras (isso acontece nas páginas 89, 133 e 163). Além disso, um importante parágrafo (no qual Demian explica suas restrições à história bíblica do Bom Ladrão) ficou truncado na página 78. Ali o leitor encontrará: “A história não passa de um caso devoto, alambicado e falso, untuosamente comovida e com um fundo edificante. Se tivesse de escolher hoje por amigo um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter…” Na parte final da passagem, deve-se ler: “Se tivesse de escolher hoje por amigo a um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias esse choramingas converso. Escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter”.

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