MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/08/2012

Destaque do Blog: HISTÓRIA DO CABELO


VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/08/01/a-repulsiva-galaxia-da-emocao-barata-e-a-movedica-poesia-da-prosa-historia-do-pranto/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/22/a-realidade-em-ritmo-de-tango/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de julho de 2012)

Depois do esplêndido e caudaloso O Passado (2003), Alan Pauls vem dedicando-se a uma trilogia de textos curtos em que ajusta contas com sua geração (nasceu em 1959): na primeira parte, História do Pranto (2007), desconstruía o sentimentalismo da Esquerda, seus clichês apelos a uma “ternura” fraternal piegas e kitsch, e ao mesmo tempo narrava como, por se precaver contra eles a vida toda, o protagonista acabava por sentir-se distante da experiência direta, vivendo-a através dos outros. Num momento memorável, ele —que já na adolescência era fluente no pensamento e na ideologia marxista— observa o melhor amigo debulhando-se em lágrimas devido à queda do governo Allende, no Chile, assistida pela tevê, e descobre-se, mesmo consternado com o acontecimento, incapaz de dar vazão à suposta emoção, de tanto que exercitou sua imunidade à estratégia chantagista do pranto. Este só virá mais tarde, quando descobrir a verdadeira identidade de um vizinho da sua infância, um militar misterioso com o qual passava muitas tardes, quando sua mãe tinha de sair.

E que estilo! Quando lemos Alan Pauls, e isso faz dele o mais impressionante dos autores hispano-americanos contemporâneos, temos a sensação de que ninguém escreve tão bem, mesmo se lembrarmos de artífices principescos da prosa na cena atual, como o português José Luís Peixoto, a norte-americana Lionel Shriver e o nosso Chico Buarque em seus últimos dois romances. Se a outra grande referência constante entre os autores do resto do continente, o chileno Roberto Bolaño, criou uma espécie de anti-estilo, o argentino parece se comprazer na luxúria das imagens incessantes, das formulações irretocáveis, uma prosa suntuosa e espessa (fantasticamente traduzida por Josely Vianna Baptista).

A expectativa em torno da última parte da trilogia, História do Dinheiro, será implacável, uma vez que Pauls parece ter chegado ao ápice com a segunda, História do Cabelo (Historia del Pelo, 2010), simplesmente genial. Novamente, temos um protagonista em descompasso com o movimento geracional. Portador de um cabelo liso e loiro, ao chegar à adolescência anela pelo corte “afro” que faz o sucesso dos moleques de então que o ostentam, associado como é às figuras transgressoras e às lutas das minorias por direitos civis. Mas ao tentar emular o que se chamava então penteado, ao contrário do melhor amigo, no qual ficou perfeito (pouco depois, este amigo terá o cabelo raspado por transgredir a lei, inaugurando uma existência de altos e baixos, que volta e meia encosta na do personagem principal não-nomeado), instaura-se o desencontro fatal entre a aparência final e seu desejo, que persistirá por muitos anos: ele sempre terá cara de galã antigo de telenovela, de homem eternamente jovem, porém anacrônico, e cada corte de cabelo se torna um suplício. Até que encontra meio  por acaso o paraguaio Celso. E eis que finalmente ganha o corte perfeito, o encontro de seu cabelo com sua identidade: “Quarenta e oito horas mais tarde, intervalo mais do que suficiente para que o trabalho que lhe fizeram mostre a que veio, se é que veio, e o decepcione de uma vez, o corte não só continua vivo e viçoso como melhora. Assenta e floresce ao mesmo tempo, encontra seu ponto e continua prometendo, integra-se a ele, a seu rosto, a suas orelhas rebeldes, a seu nariz torto e a seu ânimo, sempre frágil, sempre arrogante, e parece anunciar algo que ele ainda não consegue decifrar. Dá-lhe esperanças. Está na cara, não tem mais por que ficar calado. Celso é um gênio. O tempo, o travesseiro, o despertar, a ducha, a toalha, a oleosidade, a luz, os espelhos, o cabelo dos outros, o vento, a vida no mundo: não há prova que o corte não tenha superado, e superou todas elas sem o menor esforço, com uma folga aristocrática. É um gênio e isso é admitido até por Eva, sua mulher, refratária por princípio  a toda iniciativa cosmética que ele tome sem consultá-la. Mais de uma vez, enquanto conversam, ele a flagra no mundo da lua, extasiada, olhando para sua cabeça com a boca aberta, ou entrecerrando os olhos para deduzir a artimanha com que Celso resolveu algum problema especialmente complicado…”

Repete-se o milagre uma segunda vez, porém após deixar que o cartão pessoal do cabeleireiro se perca, descobre que ele foi demitido sumariamente por condutas um tanto impróprias e gangsterísticas, entrando em desespero…

A partir daí, História do Cabelo relata uma espiral de acontecimentos insólitos, em função do bizarro vínculo criado entre cliente e cabeleireiro, que fará com que o primeiro conheça outro “dependente” de Celso, o filho de um famoso morto pela ditadura militar, que vivera com a mãe em Paris, e que voltou a uma pátria que mal conhece para uma existência fantasmagórica e insubstancial, à sombra da trajetória do pai, traficando drogas e depois se envolvendo com Celso numa das “ligações perigosas” mais estranhas já vistas na ficção. No final, o protagonista (abandonado pela mulher) e o “veterano de guerra” (como se denomina no texto o amigo de Celso) se veem lançados à praia de uma desolação mútua, náufragos do poder mágico do escorregadio coiffeur.

E o que Pauls realiza, com sua imaginação peculiar e seu estilo irretocável, é a demonstração cabal da verdade da intuição de Michel Foucault sobre como a realidade social de uma época, mais especificamente, as estratégias de poder e ideologia, não precisam ser localizados em blocos estanques e identificáveis, pois estão disseminadas capilarmente (o que vem ao caso, certamente, num livro com esse título e essa história) em todos os nossos gestos cotidianos, nossos hábitos, nossa manifestações de preferência, nossas supostas necessidades interiores. Enfim, as desventuras de um corte de cabelo podem conter os descaminhos de uma geração, seus impasses, e configurá-los tão eficazmente, ou mais, quanto um afresco histórico, desde que haja engenho e arte. E como há.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: