MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/07/2012

“A SANGUE FRIO” como obra-prima do “romance” e essa abobrinha chamada “jornalismo literário”


 

Philip Seymour Hoffmann ganhou o Oscar, o Globo de Ouro e vários outros prêmios por Capote, filme que focaliza a obsessão com que A sangue frio (1966) foi escrito[1]. O resultado: o melhor romance norte-americano da 2a. metade do século 20 e é bom frisar o termo “romance”, embora a Companhia das Letras tenha lançado uma nova tradução do livro dentro de uma coleção chamada “jornalismo literário”. Ora, ora. Dizer que um escritor do porte de Truman Capote praticava jornalismo literário é o mesmo que dizer que Guimarães Rosa narrava casos de folclore.

Ele mesmo embaralhou muito a questão ao insistir que inventou um gênero, o romance de não-ficção. Permanece o fato de que A sangue frio segue a linha de Flaubert quando escreveu Madame Bovary, ou seja, os acontecimentos reais servem ao gênio narrativo e não o contrário. Ou alguém pode achar crível que Capote consiga “entrar” na mente da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, apenas baseado em documentos e depoimentos ? Ou na mente de cada pessoa da família ? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?  Veja-se um trecho em seqüência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith: “… a compostura que tanto impressionara Nye cedeu; instalou-se nela um desespero bem conhecido. Ela resistiu, adiou seu pleno impacto até o final da tarde e a partida das visitas, até já ter alimentado e banhado as crianças e ter ouvido suas orações noturnas. E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith ? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a idéia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida: enlouqueceria, ou contrairia uma doença incurável, ou perderia num incêndio tudo que valorizava…” Isso é a mais pura ficção, e assim como a lição de Flaubert, Capote coloca em prática a lição de outro mestre, Tolstói, ao se (e nos) interessar até pelo destino da velha égua da moça assassinada, vendida num leilão para um triste fim (puxar arado).

“A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado”. Essa frase, de outro grande romance, A canção do carrasco (1979), de Norman Mailer, cuja ação se situa em outro estado dominado pela religião (Utah), ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e fascinante. De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim (e uma série como Smallville, que transcorre num Kansas “sal da terra”, sinaliza essa mesma mentalidade com roupagem moderninha), mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social (aquele mito americano do fracasso), “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. E, do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”, que até viraram símbolo de uma boa parte da produção artística norte-americana, e que nunca foram tão bem descritos como em A sangue frio e  A canção do carrasco.

E é por isso que num dos trechos-chaves da obra-prima  de Capote, alguém observa: “As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…”


[1] Na verdade, o filme Confidencial (InFamous) explora o assunto de forma muito melhor, com um ator mais convincente  (porque não se nota tanto o peso da “composição”), Toby Jones, entre outras qualidades. Pena que acabou ofuscado pela produção rival, que eu acho apenas mediana, e com um direção amorfa. Os dois filmes foram baseados em duas biografias diferentes.  De qualquer forma, é sempre bom lembrar que há uma adaptação excelente e precisa, feita por Richard Brooks, do livro de Capote.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de março de 2006)

4 Comentários »

  1. meio em continuidade aos comentários no post sobre o mailer, haha! entendo! lendo agora sua matéria sobre a sangue-frio, do capote, fico com a impressão de que sua linguagem parece, como dizer, mais exaltada do que o habitual. por serenidade de juízo quero dizer uma “catholicity”, uma abertura e amplitude para abrigar o mais variado leque da literatura com a mesma curiosidade, paixão e “objetividade”, em que pese a carga do termo. sua passionalidade, ao que entendo, não se opõe nem prejudica essa serenidade tal como a vejo: ela vem da paixão pelas letras, não da defesa de alguma linha ou panelinha.

    interessante, quando li a sangue frio, fiquei muito bem impressionada. claro, com toda aquela revulsão do estômago gerada não só pelos eventos descritos no livro, mas sobretudo pela postura quase obscena do truman capote em querer trabalhar “com empatia” aquele tema tão sórdido. mas achei que era uma obra que se lia muito bem e ficaria, e continuo a achar.

    Comentário por dbottmann — 20/07/2012 @ 10:55 | Responder

    • É, Denise, trata-se de um dos meus livros prediletos, que só foi crescendo com o tempo. Hoje em dia o prefiro, de longe, a UM SONHO AMERICANO. Compreendi perfeitamente a sua caracterização de serenidade, e agradeço muito; já alguns amigos dizem que sofro de um don-juanismo incurável, que persigo leituras diversas e até divergentes, como d.juan perseguia suas conquistas amorosas.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 20/07/2012 @ 14:07 | Responder

  2. Pra mim, é realmente o melhor livro de Capote e provavelmente o maior romance norte-americano que conheço (porque não sou muito fã dos Hemingways, Mailers e outros). Gostaria que você me dissesse o que acha dos romances e novelas de Carson McCullers, que venero, e que me parece hoje em dia uma autora meio esquecida. Carson foi amiga de Capote (mas, claro, como ele era venenoso pra caralho, acabaram brigando e rompendo, ou algo assim, segundo a biografia dele – aliás, excelente – por Gerald Clarke)

    Comentário por Chico Lopes — 12/01/2013 @ 14:12 | Responder

    • Caro Chico, eu só li três livros da McCullers, “O coração é um caçador solitário” (belíssimo titulo), “A sócia do casamento” (péssimo título nacional) e “A balada do café triste”, e confesso que não fiquei muito fã. Tem coisas muito bonitas e coisas que considero meio patéticas demais, especialmente no terceiro deles, o que menos gosto. Apreciei, no entanto, as adaptações para o cinema dos dois primeiros livros (tem também “Os pecados de todos nós”, do John Huston, admirado por uns, ridicularizado por outros, e que considero muito, muito,muito datado). De todo modo, precisaria fazer uma revisão de tudo isso.
      Sinceramente, prefiro seus textos. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 12/01/2013 @ 14:22 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: