MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/07/2012

Leituras em espelho: Vidas passadas, Textos mal passados (primeira parte): O ROBE DO DRAGÃO


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https://armonte.wordpress.com/2012/09/21/leituras-em-espelho-vidas-passadas-textos-mal-passados-segunda-parte-a-mulher-que-escreveu-a-biblia/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 1997)

Você já viu essa história muitas vezes antes, leitor: aparece uma mulher misteriosa, desmemoriada, e ela é perseguida por inimigos sem saber por que, provavelmente por guardar em sua cachola revelações terríveis sobre crimes e segredos.

Em O ROBE DO DRAGÃO, de Sonia Rodrigues Mota, a desmemoriada chama-se Elissa e aparece num hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro, onde, ameaçada, foge com a ajuda de uma enfermeira que, mais tarde, consegue a adesão de um psiquiatra e de um policial, os quais investigam o passado de Elissa, ex-bancária de Minas Gerais, filha de um fazendeiro; este, ao morrer, ao invés de deixar sua herança para a filha, deixou-a para o cunhado. Será que foi assim mesmo? Claro que não, pois já se viu essa história antes, leitor. Em meio às investigações e perseguições, Elissa e Mauro, o psiquiatra, apaixonam-se. Você também já viu isso, não? Vale a pena ver de novo?

Valeria se o romance de Sonia Rodrigues Mota conseguisse ser uma evolução no que se chama de “literatura de entretenimento” aqui no Brasil, onde ela mal existe; porém, O ROBE DO DRAGÃO é um dos textos mais poluídos que apareceram nos últimos anos: são tantos os detritos que ele mais parece um terreno baldio no qual foram atulhadas coisas incompatíveis; por isso, é preciso considerá-lo sob diversos ângulos, tentando rastrear o que ficou de legível.

Antes de mais nada, a autora carioca demonstra um domínio acima da média da ação narrativa (principalmente para um romancista iniciante), domínio que compensa até mesmo alguns diálogos frouxos e constrangedores. E aproveitando TODOS os personagens, o que é ainda mais raro. Nenhum fica de fora, até a esposa evangélica do policial Natanael e a mãe e a esposa de Mauro, o psiquiatra, em determinado momento vão ocupar um lugar importante na trama. Nesse quesito, Sonia Rodrigues Mota nada fica devendo a John Grisham, Scott Turow, Michael Crichton ou Martin Cruz Smith. Muito pelo contrário, pois alguns desses autores até sobrecarregam suas narrativas com personagens que nem terão muita importância mais tarde.

Isso não faz com que o clímax da história seja menos absurdo e inacreditável, quando praticamente  TODOS os personagens se reúnem numa operação policial na Pavuna.

A polícia leva até mesmo a filha menor (17 anos) de Natanael no cerco aos bandidos, sem contar que os policiais ficam espancando um criminoso na frente de todo mundo (Elissa, Mauro, a mãe dele, a enfermeira Nadir) e todo mundo acha muito natural…

De fato, a aquiescência dos heróis de O ROBE DO DRAGÃO com a truculência policial tira toda a simpatia que o leitor pudesse ter por eles. Chega a ser revoltante a maneira como a autora cria um clima de simpatia em torno de meganhas boçais, não apenas Natanael, mas a equipe que o ajuda a seguir os suspeitos do caso.

Contudo, por incrível que pareça, o livro tem  problemas mais graves. A autora tenta criar uma espécie de paralelo (no estilo reencarnação) com a história da rainha Dido, a fundadora de Cartago, que teve seu primeiro reino usurpado pelo irmão, Pigmaleão, e depois foi abandonada por Enéias, o fundador de Roma, suicidando-se por causa disso. Segundo O ROBE DO DRAGÃO, Dido só se envolveu com Enéias por não conseguir consumar seu amor por um Conselheiro, o Dragão.

O doutor Mauro seria a reencarnação do Dragão e toda a história do livro seria a consumação, afinal, desse amor! Sonia Rodrigues Mota entrecruza a mitologia grega com orixás e pais-de-santo. Uma mistura igualmente indigesta de teorias de reencarnação com sincretismo religioso brasileiro já derrubara um romance carioca, A PORTA, de Heloísa Seixas. O mesmo ocorre com O ROBE DO DRAGÃO, simplesmente porque os paralelos nunca chegam a convencer o leitor para quem tudo fica gratuito e cheio de informações mal digeridas, e sem dúvida a ação do romance poderia passar tranquilamente sem esse mal regurgitado background digamos erudito.

Se Sonia Rodrigues Mota atulha seu livro com badulaques esotéricos que parecem a linha tele900 do Walter Mercado misturando tarô, astrologia, búzios e runas, seu pior feito (similar, mais uma vez, ao malfadado A PORTA) é fazer da relação entre Mauro e Elissa uma espécie de elogio do passional, em detrimento da razão e do bom senso.

Mauro é cauteloso, contido, fechado em si mesmo. Elissa o desperta para a fúria da paixão e do desejo sexual. Desastrosamente, esse elogio (que parece uma nostálgica idealização da relação homem-mulher, ou melhor, macho-fêmea) descamba para chulas descrições que só atravancam, assim como o esoterismo barato e a ideologia duvidosa, uma narrativa que poderia ser muito boa como mero thriller e fazem dela uma bobagem pretensiosa, em vez de meramente divertida.

No final, o seu livro resulta um bebê de Rosemary surgido da cruza entre o universo de Rubem Fonseca (ele, que derrapa tanto nos seus próprios romances) e o universo de Paulo Coelho. Ambos se tornaram as maiores pragas da literatura brasileira nos últimos anos.

Esperemos que no seu próximo romance, já tendo provado seu fôlego narrativo, Sonia Rodrigues Mota deixe de lado a mitologia greco-romana, a paixão chula, os diálogos inúteis, que nada acrescentam ao texto, e concentre-se nas suas maiores qualidades: a articulação da ação e o aproveitamento dos personagens. Bem entendido, os de aqui e agora. Os do inconsciente coletivo, do mundo das almas, seja lá o que for, ela pode deixar em paz. Eles e os leitores estarão melhor servidos.

 

foto de Sabrina Gledhill: publicada no livro Botanica Los Angeles: Latino Popular Religious Art in the City of Angels, de Patrick Polk. Los Angeles: University of California Los Angeles, Fowler, 2005

4 Comentários »

  1. Por favor colocar o crédito da penúltima foto (do interior de uma loja esotérica) como Sabrina Gledhill. A foto original é de minha autoria, publicada no livro Botanica Los Angeles: Latino Popular Religious Art in the City of Angels, de Patrick Polk. Los Angeles: University of California Los Angeles, Fowler, 2005.

    Comentário por Sabrina Gledhill — 13/04/2013 @ 19:01 | Responder

    • Já coloquei, Sabrina. Caso você deseje, retirarei a foto do post. Desculpe-me, parabéns pelo trabalho, e um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 13/04/2013 @ 19:07 | Responder

      • Obrigada – não precisa retirar a foto. Fico muito lisonjeada.

        Comentário por Sabrina Gledhill — 13/04/2013 @ 19:11

      • Eu é que fico lisonjeado pela sua permissão. Você sabe que a Internet acaba fazendo nos cair nessa cilada da falta de créditos, e fico contento de poder, neste caso, saná-la. Um grande abraço.

        Comentário por alfredomonte — 13/04/2013 @ 19:14


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