MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/07/2012

O VIRTUOSO CONSELHEIRO GOMES


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de junho de 1994)

   O CHALAÇA (na verdade, Galantes  memórias e admiráveis aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça) varre o bolor da ficção nacional e renova o frescor da leitura. O autor estreante, José Roberto Torero, assume a “voz” de Francisco Gomes da Silva, Conselheiro-alcoviteiro de D. Pedro I, e que, no início do livro, está em Paris, após ter sido expulso (segundo ele, por intrigas do Marquês de Barbacena). Em plena pindaíba, aposta suas fichas no casamento com uma nobre francesa, a qual desventuradamente morre, obrigando-o a retornar a Portugal, onde D. Pedro está em luta com seu irmão pelo trono.

   Gomes alterna o relato do dia a dia na Corte portuguesa com a rememoração, assaz seletiva, da sua ascensão social no Brasil, que se confunde com momentos da Independência, aqueles momentos todos que nos acostumamos a pensar em letras maiúsculas (assim como a função de “Conselheiro”, ao contrário da outra que Gomes exerceu ao redor do nosso primeiro imperador): o Grito do Ipiranga, a Constituinte (ambos alvos de deliciosas vinhetas), a Abdicação…

   É uma proeza de Torero delinear a época sem praticamente recorrer a explicações ou descrições: tudo se depreende da narrativa gaiata, quase canalha, do Chalaça, personagem.

   O Chalaça-narrador consegue esse efeito de verossimilhança histórica (não importa quão mentiroso nos pareça) e, ao mesmo tempo, uma inacreditável leveza e graça, unindo malandramente a nossa tradução do picaresco (a partir do paradigma que é Memórias de um sargento de milícia) com a avaliação retrospectiva de um burguês, tal como ocorre em textos de Machado de Assis, como Memórias de Brás Cubas (ou, para dar um exemplo mais moderno, como fez Thomas Mann no seu Félix Krüll).

   É machadiano o mendigo que explica sua filosofia de vida ao protagonista. É machadiana, também, a tendência do Chalaça concebido por Torero de propor teorias, de ter ideias fixas e de fazer analogias, como a das ideias que perpassam pela mente num momento importante com a pizza quatro queijos (onde o gosto que sobressai é o do gorgonzola), que destrói inteiramente a dramaticisade da morte de D. Pedro: “Diversas ideias confundem o nosso cérebro, e nós poderíamos afirmar, sem risco de erro, que todas elas estão sendo devidamente vividas; uma dessas, porém, é a ideia-gorgonzola, e o nosso entendimento é traído às vezes por fazer crer que só ela importa… A tristeza pela sua morte era o queijo gorgonzola… O provolone, por exemplo, foi a Duquesa D. Amélia…O parmesã foi a casaca do Almeida Silveira, muito bem cortada, e a mozarela foi o tornozelo da mulher do Saldanha, muito rijo para uma senhora da sua idade…”

   Oswald de Andrade fez casamento similar em fatura bem diferente nas Memórias sentimentais de joão Miramar. Ambos logram um efeito irreverente e engraçado no diálogo entre malandragem e respeitabilidade, desvendando na jocosidade sentimental do discurso a desfaçatez do parasitismo social.

  Ao contrário do que se afirma na “Veja”, O CHALAÇA não se resume a uma brincadeira. Brás Cubas & João Miramar são brincadeiras? O perfil do Chalaça simboliza um tipo de homem público ainda muito atual por aqui: com um discurso quatro queijos onde, sob o gorgonzola da filantropia e do comprometimento com causas sociais, se escondem as camadas mais provolônicas, parmesônicas e mozarélicas da vaidade, do egoísmo, da ganância, da obsessão com o luxo e com afogar o ganso de qualquer maneira. È a Política que se torna politicagem e fisiologismo.

   Dentro da linha de incursão histórica, O CHALAÇA se revela muito mais criativo e bem-realizado do que o celebrado, ambicioso e aborrecido Boca do Inferno, de Ana Miranda, e ainda mais talentoso do que seu colega norte-americana em humor e verve, Allen Kurzwell, autor de Uma caixa de curiosidades, comentado recentemente aqui nesta coluna.

  Humor e verve, mas também uma bela experiência de linguagem.

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