MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/07/2012

Lengalenga poderosa: “Intruso no pó”, de Faulkner


Não bastasse o deplorável logotipo (um S encimado por um olho!), os (ir)responsáveis pelo visual das edições Siciliano escolheram para O INTRUSO uma capa que parece ter sido concebida para um disco da “telúrica” Baby Consuelo. É uma lástima porque esse romance de William Faulkner (1897-1948), publicado em 1948, é um dos grandes lançamentos do ano.1

O INTRUSO, na verdade, é Intruso no pó (Intruder in the Dust). Pelo menos não fizeram como em Portugal, onde ganhou o título telenovelesco de O mundo não perdoa (o que nos leva a suspeitar que algum fundamento existe nas piadas sobre lusitanos).

Mas de fato o mundo não perdoa mesmo o negro Lucas Beauchamp por não se comportar dentro dos estereótipos da sua raça, não apresentando um comportamento respeitoso (ou pelo menos, falsamente subserviente) para com os brancos. Quando é apontado como provável assassino de um branco há a chance de restabelecerem-se as regras do jogo: “…agora os brancos vão pegá-lo e queimá-lo, tudo como de costume e em ordem, e os próprios brancos vão se comportar como ele está convencido de que o Lucas gostaria que se comportassem: como brancos; todos observando implicitamente as regras; o negro agindo como um negro e os brancos agindo como brancos e nem um sentimento real e forte depois que o furor passar…”

Portanto, o leitor pode se preparar para ler uma tremenda inquirição sobre o “problema” do racismo no sul dos EUA.

Contudo, o livro é de Faulkner e temos, igualmente, uma amplitude que ultrapassa os estreitos limites de um drama social (ou representativo da história das mentalidades, como hoje se poderia dizer) no imaginário condado de Yoknapatawpha, Mississipi: “…homem algum teria como se pôr entre outro homem e seu próprio destino…”; temos, ademais, o pessimismo puritano característico do autor norte-americano a respeito da existência: “…dessa agonia das terminações nervosas não anestesiáveis e nuas que os homens chamam de estar vivo por falta de melhores palavras…”

Essa conjugação denúncia-retórica trágica-sentimento de resignação pelo irremediável da vida desagradou profundamente Simone de Beauvoir. Como nos conta em A força das coisas, grande admiradora de Faulkner durante certa época (relatada em Na força da idade), no após-guerra vê no autor de O INTRUSO tudo o que há de desagradável na condução dos assuntos do mundo pelos norte-americanos, além de uma visível queda de qualidade (em relação aos livros que admirara, como Luz em agosto) e uma tendência para o conformismo e a lengalenga.

Sim, é certo que há esse lado lengalenga no romance (como em outras obras faulknerianas dessa safra: Desça, Moisés; Réquiem por uma freira; Uma fábula) e até mesmo na filosofia de vida do autor de Enquanto agonizo. Só que, durante a leitura, deparamos com momentos de estilo (preservados na excelente tradução de Leonardo Fróes) que nenhum outro romancista foi capaz de alcançar. E há a capacidade deslumbrante, prodigiosa, inigualável com que ele arma seus enredos, que sempre foi um dos seus maiores atrativos. Pois Faulkner é um dos poucos prosadores maiores do Modernismo que ainda se preocupa com uma trama bem urdida.

Um dos pontos-chave de O INTRUSO está no fato de que um garoto (o protagonista do livro, Chick), um outro negro (Saunder) e uma velha (Eunice Habersham) não apenas acreditam na inocência de Lucas Beauchamp, mas também agem de forma a salvá-lo (desenterrando o corpo da suposta vítima). A idéia é que os “adultos” estão ocupados e imersos demais na alienação, nos próprios interesses, e na pasmaceira que se aceita tudo para que o ramerrão continue, e que apenas os que estão excluídos de uma forma ou de outra são capazes de criar uma rede de solidariedade.

Uma ideia muito bela, também explorada (talvez com mais sutileza e poesia) por Guimarães Rosa no seu Recado do Morro (em No Urubuquaquá, no Pinhém, um dos volumes de Corpo de Baile), no qual o herói é salvo por uma rede mais ou menos similar á que Faulkner estabelece e sobre a qual ele discorre incessantemente nessa sua poderosa lengalenga.

1 Esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de setembro de 1995.

Logo depois, a mesma tradução ganhou uma edição pelo Círculo do Livro, com uma capa menos horrenda. E agora foi relançada pelo selo da Saraiva, o Benvirá, junto com outra tradução publicada antes, a de Wladir Dupont para Os invictos para acompanhar uma inédita, a de Knight´s Gambit, que se tornou Lance Mortal. [nota de 2012]

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2 Comentários »

  1. O que seria uma lengalenga em Faulkner?

    Comentário por Ricardo Rocha — 25/07/2012 @ 9:49 | Responder

    • No dizer de Simone de Beauvoir, a visão fatalista, determinista, que indica destinos fixados, presos num círculo. Para ela e para Sartre, que estavam provando as delícias do engajamento no pós-guerra (após a “alienação” dos anos 1930, quando adoravam o universo faulkneriano), isso é imperdoável e inclusive uma falha estética.
      Abraço, Alfredo Monte

      Comentário por alfredomonte — 25/07/2012 @ 9:53 | Responder


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