MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/06/2012

Quadernasday: o outro 16 de junho

ariano menos solar

16 de junho. Uma data que aproxima Homero, lá na remota Grécia Antiga, o irlandês James Joyce e o paraibano, de alma pernambucana, Ariano Suassuna. Em 1904, nessa data, os personagens de Ulisses (publicado em 1922) se encontravam e desencontravam para reviver num único dia, e dentro da jaula do cotidiano moderno, no aparentemente nada épico espaço urbano, a relação de Ulisses-Penélope-Telêmaco da odisséia homérica; nessa data, há 133 anos, nascia em Taperoá Pedro Diniz Quaderna, narrador e anti-herói de A pedra do reino,  cujo objetivo, errando numa existência degradada de rebento empobrecido, e cheio de expedientes, de antiga e ilustre família, é superar Homero criando a “suprema epopéia da Humanidade”, ao mesmo tempo grega, latina, ibérica e sertaneja. Para dar vida a essa rei/epopeida (como ele mesmo denomina), já que lhe falta a inclinação para o heroísmo, e a ação heróica de qualquer forma parece que ou já foi ou ainda será, nascia há exatos 80 anos Ariano Suassuna.

Labirinto urbano, mundão sertanejo. E Ulisses ainda tenta chegar em casa porque a épica não morre, apenas encontra novas e revolucionárias formas.

   (texto-anúncio de uma palestra no Bloomsday de 2007, na Livraria Realejo, em Santos)

A REDENÇÃO DO SERTÃO SOB O SIGNO DO EXCESSO E DO PICARESCO

Em Geografia do romance, comentando o pensamento de Mikhail Bakhtin, Carlos Fuentes escreve: Numa era de linguagens conflituosas (informação instantânea, sim, integração econômica global, idem, muita estatística e pouco conhecimento), o romance é, será e deverá ser uma dessas linguagens. Mas sobretudo deverá ser a arena onde todas elas podem marcar encontro. O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se .

Tais palavras aplicam-se bem a uma obra publicada em 1971 (embora venha ocupando boa parte da vida do autor, ao que tudo indica, pois ele pretende reformulá-la), bastante comentada e pouco lida efetivamente: Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna.

Escrita sob o signo do excesso, apresenta um narrador, Pedro Dinis Quaderna, o qual, aberta a sua tramela, não se consegue que a feche mais. É um tagarela que se repete, que promete sempre fatos e mais fatos e vai nos engambelando direitinho (às vezes, cansando um pouco a paciência), um Tristram Shandy de Taperoá, no sertão do Cariri, na Paraíba (ele começa a contar sua história, na prisão, em 1935). Rebento de uma estirpe de “fidalgos sertanejos” que tentaram impor uma monarquia paralela (ou em sublevação à nossa recém estabelecida, e autoritaríssima, República), num misto de exaltação política, sexual e mística, Quaderna é um intelectual, o qual, entre querelas com seus dois mestres (Samuel, reacionário e simpático ao Integralismo; Clemente, esquerdista e ligado às causas do povo; ambos, ao fim e ao cabo, comicamente parecidos, pois a idéia fixa se embebeda do oposto, já alertava Octavio Paz), almeja restaurar o Reino da família, através da criação de uma epopeia sertanejo-sebastianista, em forma de romance, transfigurando a pobre realidade do Nordeste.

Ao seu modo picaresco, Ariano Suassuna forja uma linguagem especialíssima  (através da qual se abebera de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira) que é evidentemente uma máscara: Quaderna, no exercício do seu estilo “régio” (delicioso e virtuosístico), acaba revelando o desencanto com seu mundo e sua posição social, como agregado de um rico clã, cujo ramo a que pertence empobreceu devido ao furor sexual do pai, a herança dilapidando-se pelos muitos filhos afora.

Dois aspectos são particularmente notáveis em A Pedra do Reino: um, é o desejo de fazer um “romance”, que une narrador e autor. Curiosamente, num livro tão colorido e exuberante, vemos pouca ação; na verdade, é mais o anúncio eterno de uma ação que virá a ser narrada, tanto quanto o desejo de um Escolhido (o rei Sebastião ou o príncipe Sinésio) reaparecer e convulsionar o Sertão. O autor deste artigo até agora não chegou à conclusão se isso é força ou fraqueza, no sentido literário (inclino-me para a primeira hipótese); o outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico, das pedras às roupas, dos animais de montaria aos animais selvagens. Num mundo sem sentido e sem rumo, tal vontade não deixa de ser comovente.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de junho de 2007)

a pedra do reino

 A NOSTALGIA DA GRANDEZA E E DO ÉPICO: um outro 16 de junho

   A propósito de A Pedra do Reino  comentei, na seção anterior, dois aspectos que nele se destacavam: um, era o desejo do romance, da ação heroica, que mais se anunciava do que se cumpria na narrativa de Pedro Dinis Quaderna (outro aniversariante deste 16 de junho: nasceu no mesmo dia do seu criador, mas há 110 anos).

O outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico.  É a nostalgia do épico puro, das odisseias homéricas,  no qual toda a ação é somente um traje bem talhado da alma” ( na bela formulação de Lukács), embora tudo seja filtrado pelo  (des) encanto  cervantino.

Não deixa de ser também uma forma de sublevação à autoritaríssima (e então recente), República Brasileira (Quaderna começa sua narrativa, preso, em 1938), engrandecendo até os embates, mais para cômicos e caricaturescos, dos dois “mestres” de Quaderna, Samuel e Clemente.

A linguagem de Suassuna, como seu anti-herói, que percorre todas as classes sociais, indo do legítimo e oficial, até o ilegítimo (seus irmãos, frutos do furor sexual de Quaderna-pai, cuja herança dilapidou-se entre os muitos bastardos) e o suspeito, é picaresca e paródica, abeberando-se e apropriando-se de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira, todos os criadores da “realidade do possível”. Nesse ponto, podemos aproximar o mundão sertanejo de Ariano Suassuna do labirinto urbano urdido por James Joyce, no “bloomsday” de Ulisses: o banal se transfigura, o mito é a “aura” de situações comezinhas.

E podemos adaptar ao sertão do Cariri as palavras de Anthony Burgess sobre o romance irlandês: o épico antigo era expansivo, o teatro, contrativo. Homero abrange céu, terra e mar e uma grande fatia de tempo; Sófocles se atém a um pequeno espaço e restringe a ação a um único dia. Joyce se atém a Dublin no dia 16 de junho de 1904, mas também usa o delírio e a imaginação para conter grande parte da história humana e mesmo o fim do mundo. A épica e o teatro cifram-se na estrutura de um romance burguês moderno… Com painel tão amplo, nenhum detalhe humano fica de fora”.

Leopold Bloom e Pedro Dinis Quaderna têm outra seara em comum com o herói de Homero: a astúcia, a capacidade de enfrentar o declínio do heroísmo e o dia a dia com os mais diversos expedientes mentais. Daí, seu “carisma” e fascínio.

(Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em homenagem aos oitenta anos de Ariano Suassuna, em 16 de junho de 2007)

 

 

12/06/2012

O CENTENÁRIO DO BLOOMSDAY

M_Joyce

16 de junho de 1904

Certamente a data mais famosa da literatura. O bloomsday. O dia da ação de Ulisses (1922), no qual acompanhamos as andanças dos protagonistas por Dublin: Stephen Dedalus, 22 anos, que retornara à Irlanda devido à morte da mãe (estava estudando em Paris) e se debate contra o marasmo da pátria e dos seus compatriotas (tema de Dublinenses, 1914, e Um retrato do artista quando jovem, 1916, dos quais vários personagens reaparecem em Ulisses), que ameaça engoli-lo também; Leopold “Poldy” Bloom, 38 anos, corretor de anúncios judeu, o qual, após sair de casa nesse dia, perambula para retardar o momento em que deve voltar, pois sua esposa, Molly, receberá um amante, Blazes Boylan, provável sócio numa turnê musical.

Os dois representam o Joyce da época da narrativa e o Joyce da execução e publicação da obra, 18 anos depois. Etapas e prismas diferentes “da mesma personalidade, numa contransmagnificandjudeibumbstancialidade (na versão de Antônio Houaiss) : a consubstancialidade do Pai e do Filho no catolicismo, de Shakespeare e seu filho morto, Hamnet, transformado em Hamlet, que tem um pai morto. Stephen tem um pai vivo a quem não respeito e do qual permanece alheado. Bloom perdeu um filho onze dias depois do nascimento, cessando suas relações sexuais com a fogosa esposa.

Ao transfigurar a Odisséia dentro do cotidiano pequeno-burguês (cada cena do romance reproduz fielmente episódios homéricos, através de variados e desafiadores recursos estilísticos; por exemplo: após o almoço, a sonolência causada pela digestão evoca os efeitos de esquecimento narcótico dos lótus ingeridos pelos imprudentes companheiros de Ulisses), Joyce configura (consubstancia) uma estranha família para emancipar Stephen da paralisia dublinense; Poldy e Molly o assumem como filho.

Após encontros fortuitos e mal se conhecendo, acabam por reunir-se numa maternidade: Stephen fora procurar companheiros de farra entre estudantes de medicina, Poldy aparecera à procura de notícias de uma conhecida que estava sofrendo para dar à luz. Preocupado com a exploração do jovem (cujo salário, como professor, fora pago no final da manhã) pelos camaradas, e aqui o autor aproxima as agruras de ambos à usurpação e dissipação de bens sofridas por Telêmaco e Ulisses em Ítaca. Poldy o acompanha até um puteiro, permanecendo com ele até o final da noitada e levando-o para casa, fazendo-lhe a oferta de ali se instalar como hóspede.

Stephen recusa, mas a proposta paira como uma possibilidade implícita, cujo raio de alcance é capaz até de renovar a relação entre o casal Bloom: mesmo depois de horas com um amante vigoroso, Molly, que fora servida pelo marido no começo do dia, acaba sendo intimada a fazer o mesmo por ele no dia seguinte. Pois embora tenha havido certas demonstrações de menosprezo por Poldy (o anti-semitismo é exposto cruamente ao longo de Ulisses), entre outros motivos devido a um mal entendido com uma dica de aposta em corridas de cavalos (evocando a astúcia meio desonesta de Ulisses e o Cavalo de Tróia), embora tenha sido um dia de consumação adúltera consentida, e embora Molly inicie o célebre monólogo que fecha a narrativa depreciando as peculiaridades do marido, o fato é que Leopold Bloom deita-se na cama, ao final, no cômputo dos vestígios do dia, como um vencedor, aquele que prevaleceu, mesmo que seu heroísmo tenha sido vencer cada hora desse dia, tendo sido visto em todos os aspectos de um ser humano, até o ponto da defecação e da masturbação ou, num pólo oposto, da alucinação.

outra capa de ulisses

Boa parte de Ulisses não oferece problemas ao leitor mais experimentado, ainda que exija muito dele. Os monólogos interiores das personagens (Stephen na praia, Molly na cama), a cena do enterro (na qual se mostra os mortos muito presentes para os vivos, idéia que domina o conto mais famoso de Dublinenses e que fará praça no posterior e muito joyceano Ironweed, de William Kennedy), as vastas cenas do jornal e da biblioteca (esta última centrada em Shakespeare e Hamlet).

E a lírico-perversa cena em que Bloom se masturba contemplando Getty MacDowell na praia, descobrindo, desiludido (como o Brás Cubas de Machado de Assis com relação a Eugênia, a flor da moita) que ela é coxa (há um reaparecimento dela na zona do meretrício, mais tarde), e a pungente cena em que Bloom ouve o pai de Stephen cantando com sua bela voz, na taberna, e na qual vemos um mundo de possibilidades desperdiçadas numa geração (o que também é muito forte no monólogo de Molly), transcendendo aquele bando de beberrões truculentos do qual o senhor Dedalus faz parte, e a cena pós-noitada, em que aparece um falso Ulisses (o marinheiro mentiroso) em sua volta para casa, e depois sua rebarba, já na casa dos Bloom.

Entretanto, três seqüências quase fazem naufragar a persistência do leitor, de tão difíceis: a cena em que um Cidadão meio alegórico (hostil a Bloom) e equiparado ao ciclope Polifemo através da “garganta”, ou seja, da retórica agigantada; a maior parte da cena da maternidade, na qual se faz o parto da língua inglesa moderna, a partir da paródia de vários estilos, desde o mau latim dos cronistas do início da cristandade, e que na verdade era virtualmente intraduzível; a cena da alucinação de Bloom no puteiro. O que irrita nelas, basicamente, é a necessidade de recorrer a estudiosos para entendê-las minimamente. A tradução de Houaiss também não ajuda em nada.

Em leituras anteriores, eu me identificava com Stephen Dedalus. Certamente por efeito do tempo, agora me sinto mais na pele de Poldy, o marinheiro das ruas de Dublin, esse maravilhoso personagem com “um plano multiacarinhado que ele tencionava um dia realizar numa quarta-feira ou sábado, de viajar para Londres,via alto-mar, para não dizer que jamais houvera viajado  extensivamente nenhuma grande extensão pois que ele era de coração um aventureiro nato ainda que por um logro dos fados tivesse consistentemente permanecido como marinheiro de água doce”.

(resenha publicada na véspera do centenário do Bloomsday, 15 de junho de 2004,  em A TRIBUNA de Santos) notinha pueril:  eu tinha 38 anos

 

 

O JOYCE DE BERNARDINA E OUTROS JOYCES

“… os inventos do Joyce são transparentes e sempre lindamente sonoros, parecem palavras que já deveriam estar na língua há muito tempo… e são necessários para contar melhor sua história, (e procedendo do mesmo modo pelo qual é feita toda a língua inglesa…  aliás, como acho que o Guimarães Rosa faz e já vi muito matuto e muita criança fazer:  simplesmente “aplica” a novas idéias, sentimentos ou matizes os modos de construção, composição e derivação que já estão, como possibilidade implícita, na língua que se fala)  e não pra fazer malabarismos linguísticos,  nada a ver com os roncos  “traduzidos” pelo  Houaiss,..” (Maria ´Valéria Rezende)

I

Causou rebuliço o ousado lançamento de uma nova versão de Ulisses. Outro livro de James Joyce , Um retrato do artista quando jovem (publicado em dezembro de 1916), já tinha sido escrupulosamente traduzido por Bernardina Silveira Pinheiro, também trazendo  arejamento em relação à única versão até então existente (no caso, a de José Geraldo Vieira), contudo  derrapando em soluções esquisitas e insatisfatórias (entre dezenas de exemplos: uma caixa no cap. 5, “pontilhada de vestígios de piolho”; a versão de Vieira parece mais sensata: “com marcas de cupim”; isso não o impediu de estragar o efeito do começo do romance, traduzindo “Certa vez –e que linda vez que isso foi…” quando  seria necessário começar como fez sua sucessora: “Era uma vez e uma vez muito boa mesmo…”).

Por esse motivo, e como Stephen Dedalus, protagonista de Um retrato, reaparece em Ulisses, é  conveniente iniciar um comentário sobre a nova tradução deste último mostrando o que Joyce fez ao depurar um gigantesco romance autobiográfico chamado Stephen hero, em cinco capítulos implacavelmente densos, nos quais mostra Stephen tentando libertar-se dos tentáculos da educação jesuítica, que o encaminharia a um destino clerical, o que seria, aliás, conveniente à sua família empobrecida brutalmente, tendo de mudar-se constantemente (são sempre despejados das casas), vivendo de penhoras. Ao desistir de ser padre, Stephen (anteriormente atormentado pelo sentimento de pecado mortal) passa a viver a culpa de ser um privilegiado dentro do seu próprio lar (essa culpa ainda o persegue em Ulisses, especialmente devido à morte da mãe).

Temos, também, o dilema da Irlanda, atada à sua dependência da Inglaterra. É preciso levar muito a sério Stephen quando afirma: “Esta raça e este país e esta vida me produziram” (mais adiante: “Quando a alma de um homem nasce neste país redes lhe são lançadas para impedi-la de voar… Vou tentar escapar dessas redes… A Irlanda é a velha porca que come a ninhada”).

Não se conseguirá entender a tensão impotência-paralisia/libertação-êxtase alcançada por Joyce no Retrato se não se entender o conceito de epifania, termo literário usurpado da religião (seria a irrupção de Deus no mundo contingente, frente aos sentidos humanos, por um fugaz momento). Stephen Dedalus, vagando com seus grilhões pelos labirintos da culpa e da inação, apartado dos outros, vive alguns momentos excepcionais de existência (o mais famoso deles no final do capítulo 4, logo após decidir não tornar-se padre). Depois, tudo se dissolve e volta ao ramerrão normal. Mas aquele momento adquiriu um valor, uma realidade, o experimentá-lo tornou-se um fim em si mesmo. É o êxtase, momento que gostaríamos de reter, e é impossível.

Para o leitor, são momentos de alívio, também, pois se temos acesso às saborosas discussões de familiares e amigos do seu herói, Joyce não nos poupa de muitas, muitas, muitas páginas onde faz desfilar toda a retórica jesuítica que ameaça aprisionar para sempre a alma de Stephen (“um certo instinto, mais forte do que a educação, se agitava dentro dele a toda aproximação daquela vida, um instinto sutil e hostil, e o armava contra o assentimento. O que aconteceu com o orgulho de seu espírito que sempre o fizera se  conceber como um ser à parte em qualquer ordem? … Durante toda a sua meninice havia meditado sobre aquilo que frequentemente pensara ser seu destino e quando chegara o momento de atender ao chamado ele tomara outra direção, obedecendo a um instinto caprichoso… os óleos da ordenação nunca untariam seu corpo. Ele recusara. Por quê?”), e nem da exposição de uma extensa teoria estética, na qual a idéia de epifania fica sugerida.

Ou seja, temos de nos arrastar na lama e na escuridão para atingir esses momentos de êxtase, que estão entre os mais belos da literatura:sua alma se erguera do túmulo da meninice, rejeitando suas vestes mortas. Sim! Sim! Sim! Da liberdade e da força de sua alma criaria orgulhosamente, como o grande artífice de cujo nome era portador, uma coisa viva, nova e bela, planando nas alturas, impalpável, imperecível!”

retrato do artista

II

Comentando Ulisses em outras oportunidades, ninguém mais do que eu  achava necessária um novo texto em português. Durante muitos anos, a versão de Antônio Houaiss imperou, mas tutelada pelos concretistas (Haroldo e Augusto de Campos & Cia. Ltda.), os quais, mesmo criticando-a pontualmente, sempre valorizaram o aspecto pesadamente lingüístico que a revestia, como se Joyce se limitasse a isso, e sua obra-prima não fosse uma das mais ousadas tentativas de abarcar a totalidade da existência através da representação literária (Osman Lins: “romance: mundo imerso no mundo”). E assim o leitor teve de conviver com soluções medonhas de transposição de palavras: “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cheiilambrigrudosos”, “cintilibrilhichispeantes”, “subobscurinfra”, “liquilactichuposos”, “undialvas” e outros ultrajes vocabulares.

Houaiss até estragara o fim do livro, pluralizando o “Sim” que fecha o monólogo-fluxo-de-consciência de Molly Bloom: “sim eu quero Sims”!!!! Para não morrer de tédio e exasperação, na tentativa de uma leitura completa, era preciso recorrer à ajuda da tradução castelhana de J. Salas Subirat e, mais recentemente, da circunspecta versão portuguesa de João Palma Ferreira (a de Houaiss também tinha forte sabor lusitano).

Ainda assim, a tradução de Bernardina Silveira Pinheiro decepciona em larga medida. Se a de Houaiss dava a impressão de uma intoxicação lingüística (quase ao ponto da overdose), a dela padece de certa inanição. É muito prosaica. Veja-se, como exemplo um trecho. Em Houaiss: “Vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal desde o topo da escada ao mar que ele contemplava. Da borda para fora o espelho do mar branquejava, esporeado por precípites pés lucífugos” (esta última palavra comprova o dito acima e resume os defeitos da sua versão). Em Subirat: “Sombras vegetales flotaban silenciosamente en la paz de la mañana, desde la escalera hacía el mar que él contemplaba. Partiendo de la orilla del espejo del agua blanqueaba, acicateado por fugaces pies luminosos”.

alfa_ulisses

Em Bernardina tudo fica chocho: “Sombras-do-bosque flutuavam silenciosamente através da paz da manhã vindas do topo da escada em direção ao mar que ele contemplava. Dentro da praia e ao largo o espelho das águas esbranquiçadas, repelidas por pés apressados com calçados leves.” Por que esse “sombras-do-bosque”? Era até preferível “bosquessombras”.

Um dos maiores pecados bernardianos foi cometido na transposição da expressão-chave “agenbite of inwit”, que representa a culpa que Stephen Dedalus carrega desde Um retrato do artista quando jovem (pois como diz Cranly, o primeiro dos seus amigos provocativos e sexualmente ambíguos, antes do Buck Mulligan, de Ulisses: “sua mente está supersaturada da religião que você diz descrer”), impedindo-o de usufruir sua liberdade da miséria familiar (a narrativa vai se encarregar de lhe dar como pais simbólicos Leopold e Molly Bloom ao final do dia 16 de junho de 1904, o famoso “bloomsday”). Já José Antonio Arantes (na sua tradução de Homem comum enfim, de Anthony Burgess, dedicado a Joyce) notava que era difícil de traduzir a palavra arcaica “inwit” e acabava por misturar duas soluções: de Houaiss (“remordida do imo-senso”) e Augusto de Campos (“remorsura do ensimesmo”) em “remorsura do imo-senso”. Subirat passou longe com seu     “mordiscón ancestral del subconsciente”. E Bernardina mais ainda, num esquálido e espantoso “remorso de consciência”!!!! O maior prazer da sua tradução acaba sendo consultar as notas que acompanham cada página e que comprovam a teia quase infinita de alusões e signos tecida por Joyce, numa época em que nem se pensava em computadores, e que mostram que há muito com que se ocupar em futuras releituras.

(resenhas publicadas em A TRIBUNA de Santos, respectivamente em 25 de junho e 2 de julho de  2005)

11/06/2012

O Livro do Mundo e o heroísmo do cotidiano

De todos os acontecimentos literários importantes de 1922 (e são muitos) o principal é Ulisses, de James Joyce (1882-1941), um dos livros que mais justificam uma bela definição de Osman Lins (em A rainha dos cárceres da Grécia“romance: mundo imerso no mundo”). Ao recortar  “do mundo” um dia da vida de Dublin (16 de junho de 1904), Joyce deu forma a um imenso universo literário e recriou a Odisséia de Homero, mostrando que heroísmo é enfrentar o dia-a-dia.

O livro começa com Stephen Dedalus (de Um retrato do artista quando jovem), que se sente culpado com a morte da mãe e a miséria da família, mas está preocupado muito mais em não ser  engolfado pelo marasmo em que se debate a Irlanda. Portanto, Stephen, que é um candidato a escritor (e alter ego de Joyce) luta contra várias dependências emocionais e intelectuais: contra a dependência familiar, nacional e lingüística.  Depois dele, apresenta-se para nós Leopold Bloom, corretor de anúncios para jornal, judeu, casado com uma cantora de segunda categoria, Molly Bloom, com quem não teve mais relações sexuais desde que o filho deles morreu, ainda criança.

Como Ulisses é uma imagem da vida real, mundo imerso no mundo, acompanharemos tudo o que se passa na mente e no corpo de Bloom: ele pensa, come seu desjejum, defeca, sai pelas ruas de Dublin, vai a um enterro, ao jornal onde trabalha, a um banho público, pensa em masturbar-se, almoça, vai à biblioteca, a uma taverna (enquanto isso, sua mulher encontra-se com o amante, Blazes Boylan), à praia, onde efetivamente se masturba, ao hospital e depois à zona do meretrício, antes de voltar para casa. Nessa trajetória, ele encontra indiretamente Stpehen várias vezes, antes do encontro verdadeiro, no qual vai se estabelecer o que muita gente considera o tema central do romance: a procura de um pai espiritual por parte de Stephen e de um filho simbólico para o casal Bloom.

E por que Bloom seria um candidato ideal para preencher tal papel? Porque ele tem o heroísmo de enfrentar o cotidiano com a delicadeza e a sutileza de um gato (tem em comum com esses felinos, também uma certa rejeição por parte da maioria das pessoas). De toda forma, o encontro para o qual a narrativa vai se armando simboliza também o destino fechado de Bloom (já adaptado ao marasmo) e o destino aberto, prenhe de possibilidades, de Dedalus (afinal, o grande arquiteto escapou da prisão).

      Ulisses não termina aí. Ainda falta o momento mais célebre do romance, quando temos acesso aos pensamentos de Molly, a senhora Bloom, num processo chamado de fluxo de consciência, cuja função é transformar o texto numa aparentemente caótica corrente de associações mentais. O romance que nos fez tatear labirinticamente por Dublin ao longo do dia, termina numa atmosfera de sonolência, de semi-sonho, adequada a um autor que admira Shakespeare. E não foi o autor de A tempestade (e de Hamlet, tão citado ao longo de todo Ulisses) que colocou na boca de um de seus personagens “somos feitos da matéria com que são feitos os sonhos”? Ou, como pensa Dedalus (com Aristóteles na mente, como conhecedor de São Tomás de Aquino, por formação jesuítica): “na escuridão da minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranqüila. A alma é de certa forma tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranqüilidade súbita, vasta, candescente, forma das formas”.

Infelizmente, graças aos esforços de uma panelinha de tradutores vanguardistas xiitas . Ulisses ficou famoso no Brasil mais por causa de mirabolantes técnicas lingüísticas do que pelo seu lado de representação admirável do mundo real.

É evidente que toda obra literária é uma construção lingüística (e, no Brasil, quem pode esquecer de Grande Sertão: veredas e sua peculiar linguagem?), e a de Joyce mais que qualquer outra, porém pode-se abordar Ulisses “apenas” como um dos romances totais da nossa época, em que um máximo de representação da realidade dá a impressão de que a vida toda está contida neles. Esse é, aliás, o aspecto preferencial (o de representação, não de experimentação lingüística para iniciados) que eu resolutamente prefiro extrair desse livro extraordinário e difícil.

É por isso que a tradução de Antônio Houaiss (ao contrário da do português João Palma-Ferreira) é tantas vezes detestável. Ela ajuda a tornar mais ilegível e distante o texto de Joyce para o leitor brasileiro. Até Augusto de Campos, um dos gêmeos-mórbida semelhança do Concretismo (um dos movimentos mais chatos e autovangloriadores da nossa literatura, e que parece ter feito de Joyce uma possessão particular) reconheceu: Houaiss exagerou na dose, criando palavras feias, de sonoridade desagradável e pesada, que não ajudam em nada o texto: “cordissentidos”, “pluvirociada”, “marifrígidos”, “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cintibrilhichispeantes”, “subobscurainfra”, “cheiilambigrudosos”, só para citar algumas soluções medonhas da tão celebrada (a)versão.

Ao leitor que ultrapassar tais inconvenientes sobrará a sensação de estar lendo o Livro do Mundo e alguns momentos da mais alta poesia: “tal qual ele era eu, esses ombros caídos, essa desgraciosidade. Minha infância aconchega-se ao meu lado. Muito longe para eu pousar nela a mão uma vez ou de leve. A minha é distante, a dele é secreta, como nossos olhos. Segredos, silentes, pétreos, moram nos palácios sombrios dos corações de ambos nós dois; segredos exaustos de sua tirania; tiranos desejosos de serem destronados”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de abril de 1997, nos 75 anos do livro)

10/06/2012

O Henry James argentino

(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 03 de setembro de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

É curioso que José Geraldo Couto, um grande conhecedor da obra do norte-americano Henry James, tenha traduzido Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares, e nos seus comentários não faça nenhuma referência à similaridade gritante entre os dois escritores: o discreto uso do fantástico, a necrofilia das imagens amorosas, e uma visão das relações de amizade bastante inquietante, em que às preocupações mais transcendentes (a possibilidade de vida após a morte, a criação literária) se agregam  a rivalidade, o despeito, a mesquinharia, a maledicência e o fuxico. Algumas das melhores narrativas de James (A lição do mestre; O desenho do tapete; A vida privada; A coisa autêntica) exemplificam bem essas características.

Já nos quatorze relatos selecionados de Histórias Fantásticas, podemos destacar Os entusiasmos, no qual o narrador é apaixonado pela mulher do amigo, um cientista que procura a maneira de fixar a alma, obtendo sucesso ao transmitir a do seu amado cachorro (motivo de discórdia com a esposa) para um bastidor. Cansado da vida doméstica, faz o mesmo com a própria alma, mantendo-se escondido dentro de um busto, e influenciando sua casa, até que Milena descobre tudo (ao pressentir a paixão do cunhado, confidente das intenções do marido): “Perguntou-me se eu compreendia o abismo de miserável resignação, de cegueira a todas as belezas da vida, que tal ato revelava. Afirmou que Eladio pertencia a uma horrível classe de homens que pensa muito, entende tudo, não se irrita, não sente; a uma classe de homens incapazes de perceber que uma coisa tão insólita como alguém que esteja sobrevivendo num bastidor de níquel, de vinte centímetros de altura, é abominável.” O narrador (Bioy Casares prefere as narrativas em primeira  pessoa)  mostra-se ambivalente o tempo todo, ora tendendo para o lado de Milena ora para o de Eladio, o que incorpora uma nota conspiratória (extremamente jamesiana) ao texto.

Os personagens do grande escritor argentino gostam de congelar imagens, de paralisar o fluxo do tempo. Não bastasse a máquina criada por Morel, o bastidor de Eladio, temos, no texto mais antigo da coletânea,Em memória de Paulina, o fantasma da mulher evocado por dois rivais: Paulina, que o narrador considerava sua “alma gêmea”, o abandona por um escritor que seu enamorado considera medíocre. Ele viaja para a Inglaterra. Ao voltar, recebe a visita de Paulina. Mais ainda, visionariamente percebe que a imagem de Paulina persiste frente a seu espelho. Descobre adiante que ela está morta, assassinada no dia da sua partida pelo aparente vencedor da disputa e que a imagem que o visita é a projeção do ciúme do seu rival.

Noutro conto magnífico, O perjúrio da neve, um dinamarquês perdido com sua família nos confins da Patagônia, ao saber que a filha está condenada (o médico lhe dá três meses de vida), impõe um regime ditatorial de “eterno retorno”: todos na fazenda repetirão a mesma rotina e assim a morte não chegará: “O homem desceu da carroça e, quando o vi caminhar até a porteira, ínfimo e diligente, tive a estranha impressão de que naquele ato único via sobrepostas repetições passadas e futuras e que a imagem que o binóculo me ampliava estava na eternidade”. Dois literatos destruirão essa eternidade. Qual deles desvirginou a filha moribunda do fazendeiro e acarretou sua morte? A interpenetração de duas narrativas e de duas interpretações diferentes transformam esse enigma numa questão tão insolúvel quanto a culpa de Capitu ou as intenções do Mestre de Henry James ao dar a sua lição ao discípulo literário.

Nesse mundo assombrado pela ambigüidade mais do que pelo sobrenatural, é deliciosa a aparição de um ET, em O calamar opta por sua tinta: ele vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 50), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra. O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2007)

BIOY CASARES E A MULTIPLICAÇÃO DA SOLIDÃO

Blogbioycasares2

(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 03 de setembro de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

A SOLIDÃO POVOADA POR FANTASMAGORIAS

Apesar de um hotel-museu, de uma piscina, de uma capela, o relato de A invenção de Morel segue o modelo básico do náufrago à Robinson Crusoé: o homem solitário que passa por dificuldades para sobreviver numa ilha longínqua (o narrador chegou a ela como fugitivo). Ali podia viver anos, sossegado, escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”.  Mal sabe ele como é bendita essa solidão. Como advertiu Bakhtin, “na solidão é impossível estar morto”. O mundo existe diante de nós, pois estamos vivos, e nada testemunhará a nossa morte, se ela vier, dando-lhe forma e realidade. O mundo apenas se apagará.

Mesmo que Adolfo Bioy Casares (1914-1999) seguisse esse caminho já pisaríamos num terreno perigoso. O leitor brasileiro pode acompanhá-lo por rumos ainda mais perturbadores, pois a CosacNaify iniciou uma série chamada Prosa de Observatório justamente com nova tradução desse grande clássico de 1940 (publicado antes como A máquina fantástica; só numa outra edição, nos anos 1980, é que o título original foi finalmente respeitado).

ainvencao_morel_gdea invenção de morel da rocco

O narrador descobre que há um grupo de 15 pessoas, fora os criados, visitando a ilha. Há uma mulher fascinante, Faustine. Ele admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres com mau tempo: “sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”. Tenta chamar a atenção de Faustine. E, ignorado, sentindo-se invisível (alguém quer melhor imagem do pária ?), indaga-se, como Freud já se indagou: “Mas que será que ela quer?”. A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio às “lânguidas conversas das aparições.

Sim, porque em determinado momento, ele percebe que não são reais essas pessoas, que repetem os mesmos gestos, as mesmas falas (o que não seria nada estranho no mundo de Alain  Resnais e seus colaboradores Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, grandes nomes da nouvelle vague e do noveau roman, os quais nunca deixaram de ser gratos a Bioy Casares).

“Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês. Ampliei a monstruosidade anterior: a de que esse idioma fosse um atributo paralelo entre os nossos mundos, dedicado a diferentes fins (o francês como idioma de mundos paralelos é uma impagável ironia e é uma expressão de ruína, no sentido dado a essa palavra por Walter Benjamim, por ser o idioma da civilização, em determinada época, que se congela e se mantém inerte na ilha; além disso, o idioma “dedicado a diferentes fins” denuncia a luta de classes, essa sim nunca inerte e congelada).

As aparições se transformam no pior dos pesadelos porque são artificiais: foram criadas por Morel, que preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha. Mundo-simulacro, reduzindo o viver a uma insustentável leveza: “Acostumado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual”. Assim, Morel, que não possuiu Faustine, a vampirizou e matou ao torná-la imortal: de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual “espectador desprevenido”.

E se o autor deste artigo lembrar que colocou A invenção de Morel na sua lista dos 100 maiores livros do século XX, alguém porventura estranhará?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 16 de setembro de 2006)


09/06/2012

O quinto elemento do melhor Neruda: o lirismo legítimo

“Alguns homens foram só estudo,

livro profundo, apaixonada ciência,

e outros homens tiveram

como virtude da alma o movimento.

Lênin teve duas asas:

o movimento e a sabedoria.

Criou no pensamento,

decifrou os enigmas,

foi rompendo as máscaras

da verdade e do homem (…)”  (Pablo Neruda, Ode a Lênin)

   Pablo Neruda (1904-1973), quer tenha morrido de causas naturais ou assassinado (como suspeitam alguns), viveu fecundamente e deixou uma obra tão prolífica quanto irregular: momentos da mais pura genialidade convivem com apelações piegas, com proselitismos esquerdistas risíveis, com meros e reles “versinhos” (o que talvez seja o seu lado mais imperdoável, essa banalização do fazer poético que o filme O  carteiro e o poeta terminou por cristalizar).

Inédito até agora no Brasil, Navegações e Regressos (Navegaciones y Regresos, 1959[1], em tradução de José Rubens Siqueira para a Coleção Folha  Literatura Ibero-americana) é uma grata surpresa e já um dos destaques de 2012 pelo equilíbrio do conjunto e pelo resgate do legítimo lirismo, o qual surge como o quinto elemento do real, ao lado do ar, do fogo, e sobretudo da terra e do mar.

Há um prólogo e um epílogo à Walt Whitman, num tom abarcante e convocatório (“A todos tenho que dar algo/(…) estou limpando minha redoma/ meu coração, minhas ferramentas.// Tenho orvalho para todos), 34 odes intituladas como tais e 15 poemas que escaparam da classificação. Destes últimos, gostei de poucos. Há dois que não consigo entender por que foram incluídos numa seleção tão boa (“As águas do Norte Europeu” e “Esquecimento”), há um poema alegórico  ruim de chorar (“O barco”) e só destacaria mesmo “Tempestade com silêncio”(“Canta e conta a chuva.// As letras de água caem/ rompendo as vogais/contra os tetos. Tudo/foi crônica perdida/ sonata dispersa gota a gota:/ o coração da água e sua escritura.// Terminou a tormenta./Mas o silêncio é outro”) e o raivoso “\O índio” (“levanta-te, grandalhão, vamos./ Vai de uma vez para teu buraco/na terra, já sabes/ que tu não tens céu./Vamos!Vive!”).

As odes, por sua vez, são uma beleza, apesar de os dois piores momentos de Navegações e Regressos pertencerem a esse lote, com todos os defeitos a que aludi acima: “Ode à terra” e “Ode ao violino da Califórnia”.

Em compensação, as coisas desgastadas, quebradas, naufragadas, obsoletas e sem uso ganham versos maravilhosos. É o caso dos destroços incendiados de uma barca (“Ode à última viagem de La Bretona”: “se tornaram milagre:/com um estranho azul se despediram/com um alaranjado indescritível/com línguas de água verde que saíam/ a devolver o sal que consumiram”), de uma âncora, de um sino caído, dos objetos e utensílios que se quebram dentro de casa. Até as imundas águas do porto merecem versos inauditamente lindos, tanto quanto a milenar muralha da China na névoa (“nasceu do artifício/depois foi natural como a lua/ficou desenterrada/como um cadáver grande demais// (…) Quiseste ser caminho?/O sangue derramado/ O silêncio, a chuva/ te converteram em réptil de pedra?//(…) Me parece que aí onde cresceste/como um rio inumano/ espantaram-se os nômades/estabeleceu-se o silêncio/ e um grande calafrio/baixou sobre os montes…”). E num livro cujo mote são as idas e vindas pelo mundo, o reencontro com o Ceilão (onde ele morou quando jovem, como se pode ler em Confesso que vivi) propicia um de seus momentos liricamente mais pungentes (“Eu o solitário/fui/da floresta/a testemunha/ do quanto não acontecia/o diretor/de sombras/que só/em mim/existiam”).

Cavalos, elefantes, cachorros merecem odes que só posso qualificar de mágicas, todavia o prestidigitador chileno guarda seu melhor truque para o gato (é claro). Todos os seres nascem incompletos:O gato/só o gato/apareceu completo/ e orgulhoso:/nasceu completamente terminado/ caminha sozinho e sabe o que quer”.

O que dizer da “Ode a Lênin”, que chega a ser ridícula e vai se encaminhando para o delírio messiânico, mas que mesmo assim tem abala profundamente quem a lê? É um poema problemático em seu tom grandiloquente. Eu me senti patético ao emocionar-me com ele, e não adiantou nada essa autoadmoestação. Congregou em mim uma série de sentimentos ainda muito fortes, que eu gostei muito de constatar que ainda estavam ali. Devolveram-me o Neruda que me tomaram.

E, onipresente, o mar: “Um sonho, sim,mas/o que é o mar senão um sonho?” (“Ode a um só mar”).


[1] Mesmo ano em que ele lançou também os Cem sonetos de amor; diga-se passagem, em 1958, ele publicara uma coletânea com um dos mais belos e instigantes títulos de que ele era useiro e vezeiro (Estravagario).

A IMPLACÁVEL SIMPLICIDADE DE “A TRÉGUA”

“…Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos…”

Haverá modo de escrever mais fácil do que a imitação do formato de um diário? O escritor finge registrar o dia a dia e assim temos um livro… Esse é um dos equívocos mais freqüentes com relação à ficção. Tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos! O mesmo com a poesia, ainda mais moderna, sem rima, verso branco. Todo mundo acha fácil escrever… E tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de um Carlos Drummond de Andrade ao utilizar o cotidiano como matéria-prima!

Em A trégua (La Tregua, 1960)  que já fora traduzido há alguns anos (em edições pela Brasiliense e pela Martins Fontes) e agora ressurge com grande alarde, boa tradução (de Joana Angélica D´Avila Melo) e péssima capa pela Alfaguara, um poeta/ficcionista, o uruguaio Mario Benedetti, exercitou a forma de diário. E, como os autores acima mencionados, mostra cabalmente a complexidade e finura estilística que são necessárias para criar uma narrativa nesse feitio, toda calcada na poesia do cotidiano.

Trata-se de um ano na vida do senhor Santomé, o ano em que comemora seu cinqüentenário e pode se aposentar, viver no ócio. O que o espera? Nem ele sabe, acostumado a uma rotina opaca (sem lugar para “a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo”). Basta mencionar que um motivo de emoção irônica para ele, esse drummondiano que vive pela “paixão medida” e que trabalhou durante um quarto de século numa seção de contabilidade, é verificar a mudança na sua letra de Heródoto contábil“Em 1929, eu tinha uma caligrafia escarranchada: os t minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os d, os b ou os h, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos f, dos g e dos j pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. Os M e o H eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um farsante, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro.”

Viúvo, morando com os três filhos, descobre que um deles é gay e apaixona-se (e é correspondido) por Laura Avellaneda, subalterna com metade da sua idade. A salamandra arde em chama fria (a velhice já soprando em sua vida), porém há que se prestar atenção no que pode significar a “trégua” do título, ainda mais se pensarmos que o autor já afirmou ser o pessimista “um otimista bem-informado”.

A trégua é um romance formidável porque Benedetti poetiza o cotidiano com uma prosa sintética, regular, disciplinada, clara, calibrada com a mais absoluta precisão, e no entanto essa poetização se faz com objetivos mortíferos, pois realça o que há de absolutamente angustiante, asfixiador e amorfo no cotidiano (sem chegar aos extremos do seu compatriota genial, Juan Carlos Onetti). E o senhor Santomé, apesar da sua inteligência, é presa dos preconceitos e das superstições de um habitante pequeno-burguês da Montevidéu de meados do século passado. Falando do filho: “Já que o homem da família lhe falhara, dedicou-se a negar o homem que havia em si mesmo. Ufa! Que explicação complicada para desenvolver um fato tão simples, tão ordinário, tão indiscutível. Meu filho é um maricas… Eu preferiria que ele me saísse ladrão, morfinômano, imbecil.”

Mas assim como ele prefere a “assustadora franqueza” da feiúra arquitetônica do Palácio Salvo, até nas suas limitações pessoais ele sobressai como um dos grandes personagens da literatura latino-americana.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  19 de maio de 2007)

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (segunda parte): “Ensaio sobre a lucidez”

Uma idéia genial e sedutora (ainda mais com a insatisfação generalizada com qualquer esfera do poder, seja executiva, legislativa ou judiciária) fundamenta o argumento de Ensaio sobre a lucidez: sem combinação prévia,  mais de oitenta por cento do eleitorado vota em branco na capital de um país europeu, o mesmo que já sofrera uma epidemia de cegueira quatro anos antes, como narrado em Ensaio sobre a cegueira.

Desnorteado, após medidas autoritárias ostensivas e vãs, o governo coloca a cidade em estado de sítio e retira-se, deixando-a por sua conta e risco: “… com esta ação radical a cidade insurgente ficará entregue a si mesma, terá todo o tempo de que precisa para compreender o que custa ser segregada da sacrossanta unidade nacional, e quando não puder agüentar mais o isolamento, a indignidade, o desprezo, quando a vida lá dentro se tiver tornado num caos, então os seus habitantes culpados virão a nós,  de cabeça baixa, a implorar o nosso perdão”. Contrariando todas as expectativas, tudo funciona perfeitamente.

O caos fica por conta dos detentores do poder. Incapazes de compreender o que se passa,  ou de procurar novas posturas e novas metas, eles procuram desmoralizar os habitantes da cidade,  chegando ao ponto de efetuar um atentado, mandando aos ares uma estação de metrô. Não conseguindo os resultados esperados, e ainda enfrentando a deserção de representantes da autoridade constituída (como acontece com o Presidente da Câmara Municipal, num dos melhores momentos do romance), os ministros procuram um “culpado”, um bode expiatório, e a escolhida é a mulher  que não cegara no romance anterior, justamente a pessoa que manteve a lucidez no meio da desagregação social e pessoal desencadeada pela cegueira.

O problema é que o Comissário encarregado  do inquérito (que, na verdade,  é arbitrário e extra-oficial) não se convence da culpabilidade dela e ainda por cima é cativado pela suposta subversiva. Só que o Poder, em qualquer uma de suas encarnações, sempre leva a melhor, sempre chega a qualquer extremo para poder se manter…

Além da fluência extraordinária da narrativa (essa também era uma das qualidades do emocionante Ensaio sobre a cegueira, talvez o mais límpido dos grandes textos saramaguianos, porém ele tratava de uma matéria bem mais desagradável, mais terrível, mais opressiva), que confirma a maestria do escritor (aos 81 anos), o achado maior de Ensaio sobre a lucidez, que nos faz perdoar até algumas pequenas quedas na voltagem do texto, algumas puerilidades, algumas páginas banais, é o fato de que ele jamais penetra na mente das pessoas que votaram em branco na cidade (até mesmo a mulher que não cegou permanece uma figura esfíngica, quase oracular). O governo reúne-se, age, persegue, executa, mas nunca temos acesso ao lado oposto.

Só podemos ter uma pista, já que com certeza trata-se de atitudes do inconsciente coletivo, não de um movimento político (pois todos são desacreditados pelo texto), se pensarmos nas seguintes passagens de Ensaio sobre a cegueira“está visto que aqui já ninguém pode se salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. E mais adiante: “mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, já estamos meio mortos, disse o médico. Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Os eleitores que votam em branco, que se recusam a imergir no caos patrocinado pelo poder público, talvez tenham redescoberto a esperança, talvez tenham lembrado a si mesmos que estavam meio vivos, e que essa “meia-vida”  pode ser uma plataforma lúcida  para outra forma de vida, simbolizada de uma forma lúdica (a molecagem do voto em branco). Saramago, entretanto,  mantém o mistério da cidade. E da sua personagem mais fascinante.

É uma tristeza  para o leitor que, pela própria lógica  do poder, o destino dela tenha de ser trágico (e sempre acompanhada pelo  cão que lhe bebia as lágrimas  durante a outra situação), pois  a partir da entrada do Comissário em cena, o tom leve, quase farsesco, e cheio de bonomia, de Ensaio sobre a lucidez, que destoa completamente  das outras obras de Saramago,  vai adensando-se  e melancolizando-se, como neste diálogo entre o Comissário e a mulher que ele investiga: “Imagino que a vão estigmatizar perante a opinião pública. De não haver cegado há quatro anos. Bem sabe que para o ministro é altamente suspeito  que a senhora não tenha cegado quando toda a gente estava a perder a visão, agora esse fato tornou-se motivo mais do que suficiente, desse ponto de vista, para a considerar responsável , no todo ou em parte, do que está a suceder. Refere-se ao voto em branco. Sim, ao voto em branco. É absurdo, é completamente absurdo. Aprendi neste ofício  que os que mandam  não só não se detêm  diante do que nós chamamos absurdo como se servem dele para entorpecer as consciências e aniquilar a razão”.

    Contraposta à cegueira que nos governa, a lucidez é a possibilidade de se engendrar atos de insurreição ética.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de maio de 2004)

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/atos-de-insurreicao-etica-primeira-parte-ensaio-sobre-a-cegueira/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/entre-a-insurreicao-etica-e-a-vaidade-jose-saramago-1922-2010/

SUICÍDIOS EXEMPLARES: Vila-Matas e a boa e velha arte de contar estórias

E pensar que eu nem tinha muito entusiasmo em ler SUICÍDIOS EXEMPLARES (a versão de Carla Branco para Suicidios Ejemplares), não obstante o título tentador. Pois a mim aborrecia, e ainda aborrece, o  lado enfatuado, cabotino, o fastidioso rótulo de “escritor para escritores” que Enrique Vila-Matas carrega, e que não passa de complacência mútua entre escritores: posso muito bem aceitar, como diz Paul Auster na Trilogia de Nova York, que uma estória no fundo tenha mais a ver com outras estórias do que com a realidade. Mas criar uma obra baseada em “conversa entre escritores”, já me parece o que na adolescência chamávamos de punhetagem intelectual, se me for perdoada a grosseria.

Após ler Paris não tem fim (que é de 2003),Bartleby e Companhia (2004),  e A viagem vertical (1999), já tinha a minha cota de Enrique Vila-Matas. Creio que o problema está naquilo que foi exaltado recentemente por Leyla Perrone-Moisés num extenso artigo sobre uma suposta “literatura exigente” em que o componente principal de um certo tipo de prática ficcional é a desconfiança, sob cujo prisma todos os elementos da narrativa (e seus elos com uma realidade sempre entre aspas) são colocados sob suspeita, dissolvidos num texto basicamente paraliterário. Não deixando de observar que nem nos seus momentos mais irritantes, Vila-Matas se limitou a ser apenas isso, um escritorzinho da literatura exigente e desconfiada, nem por isso ele se isenta dessa ideologia aberrante; nessa linha de raciocínio, uma ode à literatura “exigente” (para mim, sempre tem que vir com aspas um termo tão arrogante) se assemelha muito com aquelas apologias da consumação do capitalismo, em que se apregoa que o mercado é a nossa realidade última e que todas as alternativas são pruridos de um utopismo míope e de uma fixação infantil numa Grande Narrativa já desmantelada (que, em termos literários, significaria a literatura de enredo e mimética).

Pela ordem da publicação no Brasil, SUICÍDIOS EXEMPLARES foi o quinto lançamento. No entanto, era mais antigo que os demais. Sua publicação original foi em 1991.

Em 1991, portanto, Vila-Matas podia já trazer inoculado o vírus da desconfiança e do fazer literário como “conversa entre escritores” que tanto mal fez à sua feição posterior como um todo (embora eu tenha gostado bem mais de Doutor Pasavento e Dublinesca do que daqueles livros já citados), mas ele acreditava suficientemente na arte de criar e contar estórias para nos dar o seu livro (entre os que eu conheço, é claro) mais brilhante, o livro que talvez o redimirá no futuro de todo o enfatuamento, toda a “pose”, do personagem cabotino que ele adora representar.

Considero o admirável SUICÍDIOS EXEMPLARES uma obra-prima (coloquei-o, inclusive, na minha lista para o jornal A TRIBUNA de Santos, dos  dez destaques de 2009). Só não precisava (e esse é um indício do mal que estava por vir) das molduras, uma no começo (Viajar, perder países, que quase me fez desistir da leitura) e no fim (Mas não façamos literatura, onde se cita Mário de Sá-Carneiro escrevendo a Fernando Pessoa, porque, claro, a literatura “exigente” é uma “conversa entre escritores”).

Tirando essas inutilidades, que podem servir para os acadêmicos entreterem-se mutuamente em congressos e revistas especializadas, gozando as delícias das referências infinitas,  temos dez estórias a um só tempo deliciosas e inquietantes, poéticas e dissolventes. Sempre gostei da máxima de Guimarães Rosa (citada por Autran Dourado em Uma poética de romance: matéria de carpintaria), “faça pirâmides não faça biscoitos” que serviria de divisa para vários monumentos modernistas (A montanha mágica, Em busca do tempo perdido, Ulisses, O homem sem qualidades, o próprio Grande sertão: veredas); também há um lado “biscoito fino” que os leitores um dia deveriam provar (aqui já estamos em Oswald de Andrade), que sempre me encantou em certas obras, como a de Calvino, o exercício da leveza como improvável veículo da ficção, um veículo intrigante e quase paradoxal (e aqui não enveredarei pelas dicotomias estéreis e caducas, para não dizer arrogantes, entre “literatura exigente” e “literatura mais palatável e mimética”). Quando um escritor consegue fabricar um biscoito dessa qualidade, nós pressentimos a pirâmide fantasmática que enseja esse feito.

São, então, dez estórias da mais alta qualidade. Todas são da mesma qualidade? Penso que não, entretanto todas ganham força no conjunto.

A minha favorita absoluta entre as dez (embora eu deva destacar que foi o impacto da primeira, Morte por saudade, que me fez reavaliar toda a desconfiança que mantinha sobre Enrique Vila-Matas; por isso creio que ela deveria figurar como hors concours) é a terceira Rosa Schwarzer volta à vida: a protagonista, vigilante de museu em Düsseldorf  e uma dona de casa profundamente infeliz, sente o chamado do “país dos suicidas” em que vive “O príncipe negro” do quadro de Klee:

“Influi nisso tudo a segunda-feira que viveu ontem? Eu diria que sim. Ontem, Rosa Schwarzer fez cinquenta anos, e como o museu fecha às segunda, achou que teria toda a manhã para preparar o almoço de aniversário. Mas já desde o primeiro momento tudo se complicou enormemente.”

Deixo para a imaginação ou para futura leitura o que complica o aniversário de Rosa, mas só adianto que ela vai ficar perto do suicídio várias vezes nesse dia e que Enrique Vila-Matas criou um conto antológico. Se um dia eu preparasse, para meu próprio deleite, um volume com meus textos curtos prediletos, esse seria um dos que eu escolheria.

Também poderia escolher a estória anterior, Em busca do parceiro eletrizante, onde o narrador fica famoso como “tipo” cômico por sua magreza. Quando sua carreira (e conta bancária) entra em declínio por ter engordado, procura um parceiro de tipo oposto. Mas só o encontrará sob a forma de um fantasma, numa das reviravoltas sensacionais da narrativa.

Gosto demais também da nona estória, Os amores que duram por toda uma vida, na qual a maneira como o autor encena a coisa toda, com a narrativa dos fatos, feita/enfeitada? pela neta e ouvida/desacreditada? pela avó, torna tudo mais opressivo e denso.

No mesmo nível ainda temos Uma invenção muito prática, a sétima estória, com uma narradora missivista que bem poderia pertencer ao universo de Ricardo Lísias, na sua performance através de uma corda bamba de loucura e lucidez corrosiva (e eu me pergunto, perplexo, como Enrique Vila-Matas pode ser tomado/valorizado sobretudo como escritor metalinguístico quando já demonstrou a capacidade de criar situações e personagens assim!).

E, como já disse, foi a primeira estória, Morte por saudade, que me conquistou irresistivelmente. Trata-se de um texto riquíssimo sobre a infância, sobre as vidas possíveis, sobre as escolhas irrevogáveis e traz uma modalidade de suicídio absolutamente poética e admirável, que poderia ser praticada nas cidades invisíveis de Calvino, malgrado transcorra numa cidade bem concreta, Lisboa.

E o autor espanhol ainda se deu ao luxo de escrever um curto e belíssimo texto de extração quase cortazariana, A hora dos cansados, a sexta estória, em que Barcelona se torna o palco de perseguições insólitas entre vários personagens que nem se conhecem.

Já não gosto tanto, apesar da sua qualidade e refinamento, de  A arte de desaparecer (a quarta estória) e O colecionador de tempestades (a décima e última). São inteligentes, interessantes, mas a primeira delas já me parece trazer o lado artificioso de Vila-Matas (é a estória de um escritor secreto, o qual, quando sua obra se dá a conhecer a um editor, resolve desaparecer e recriar sua vida em outro lugar; o detalhe mais interessante é que ele é um nativo de Umbertha, palco da trama, mas construiu toda uma vida, após a guerra, fingindo ser estrangeiro); a segunda, onde um suicídio longamente preparado parecia finalmente chegar a bom termo, num livro em que as disposições efetivas não se efetivam (e quem de fato se mata está fora de cena), é sustado por um acidente, parece uma paródia daquelas  estórias de invenções bizarras (até o cenário da câmara mortuária ajuda a criar esse efeito), de Poe a Wells, narrada numa espécie de evocação à Henry James. Gosto, mas não sou apaixonado por elas.

E as duas estórias de que menos gosto, que definitivamente não me “pegaram” e que valem basicamente por estar num conjunto  poderoso são a quinta, As noites da íris negra, onde há um “clube do suicídio” a respeito do qual alguns membros que não conseguiram se matar mantém uma nostalgia que se resolve através da hostilidade mútua e um clima de mistério e intriga para o casal protagonista, e Pedem que eu diga quem eu sou, a oitava, em que me parece (posso estar enganado) uma reflexão sério-jocosa sobre a questão do exotismo, da atração por uma paisagem muito nitidamente geográfica e colorida por parte de uma parcela de artistas europeus (além de se valer de forma pícara e às avessas do tema fáustico, apresentando como personagem Satam Alive—brincadeira com o próprio nome de Vila Matas lido de trás pra frente). Veja bem, leitor, o fato de elas não terem me conquistado muito, ou eu não os ter compreendido muito bem, não lhes tira o nível de refinamento literário ou lança qualquer suspeita sobre sua qualidade. É uma questão de preferência pessoal.

Agora eu torço para encontrar outro SUICÍDIOS EXEMPLARES na obra de Vila-Matas. Expectativa talvez injusta, mas fazer o quê?

TRECHOS DAS ESTÓRIAS

“__Os últimos minutos da vida do meu avô—dizia-me Horácio—foram os mais intensos de uma vida intensa.

__E o que aconteceu nesses minutos?—supunha-se que eu devia perguntar. Mas não o fazia. Estava bastante atormentado com tantas histórias do avô. Mas era contraproducente não perguntar, porque então o mais habitual era que voltasse à carga com uma nova aventura do avô. Acabou conseguindo que eu perdesse a paciência, e uma tarde impedi sua passagem num canto do pátio quadrangular do colégio, dizendo-lhe:

__ Vamos acabar com isso, acho que já chega.Se o que você queria era me atormentar, é claro que conseguiu. Vamos acabar com isso de uma vez, me conta como o seu avô morreu, a vida dele eu já sei de cor, me conta agora esses minutos finais tão intensos da vida dele.

__Sério? Quer que eu conte mesmo? –me perguntava enquanto lançava um olhar terrível, como se fosse um crime que naquele pátio, onde só se respirava um tédio profundo, eu lhe exigisse (precisamente eu, que nunca terminava nada) completar um quadro, a história da vida de seu querido avô…” (Morte por saudade)

“Contribuiu para minha irresistível ascensão a cômica e exagerada magreza de meu corpo (as pessoas riam porque, quando eu andava, parecia uma folha levada pelo vento), mas esse mesmo traço físico não demoraria a se voltar tragicamente contra mim (…) Tive namoradas, dancei boleros, acariciei morenas, cantei o amor. Mas o infortúnio espreitava no ângulo mais iluminado de meu festivo jardim, e sem me dar conta, comecei a me abandonar. Como se existisse uma relação secreta entre a casa e a obesidade, comecei pouco a pouco a engordar, e quando me dei conta já nenhuma dieta era capaz de frear o irreversível processo, minha trágica transformação. E assim cheguei à última sexta-feira da década de sessenta: a ver navios, sem namoradas, transformado em um Brandy Mostaza desconhecido, um gordo infame que havia perdido sua veia cômica…” (Em busca do parceiro eletrizante)

“Não, também não seria dessa vez que tiraria sua vida. Seu pobre filho, seu querido Hans, merecia jantar comida quente aquela noite. Levantou-se, jogou o que restava da peruca no lixo, riu feito uma louca, e provou o pão de centeio.

  Porém, ao cair da tarde, seu pobre e querido Hans voltou para casa e nem sequer se interessou pelo leitão assado, nem perguntou  por que ela tinha demorado tanto no cabeleireiro, tampouco se queixou de ter tido de comer o frango frio da geladeira, nada, nem sequer a olhou e, portanto, não teve oportunidade de ver o escandaloso cabelo de piaçava branco que sua mãe exibia. Apenas a cumprimentou sem entusiasmo e pediu que ela pregasse os botões da camisa. Mas não a olhou. Rosa Schwarzer compreendeu que seu filho não se interessava nada por ela…” (Rosa Schwarzer volta à vida)

“Entre as medidas para poder viver como escritor secreto, a mais curiosa era o que havia tramado há mais de quarenta anos: a de morar em seu próprio país, a pequena e sedutora, mesmo que terrivelmente mesquinha, ilha de Umbertha, fazendo-se passar por estrangeiro. Foi fácil enganar todo mundo, porque o trágico e brutal desaparecimento de toda  sua família na guerra o ajudou na mudança de identidade. De repente, certa noite, todos mortos, Anatol compreendeu que estava só, completamente só no mundo, e sentiu essa sensação de extravio que se vive quando, no caminho, voltamos atrás e vemos o trecho percorrido, a via indiferente que se perde num horizonte que já não é o nosso….” (A arte de desaparecer)

“É da incumbência—li em voz mais baixa, quase sussurrante—de todos os sócios de nossa entidade saber que quando a carta do número 3 dos Notáveis chegou à sede central desta Sociedade de Simpatizantes da Noite da Íris Negra de Port del Vent, que tenho a grande honra de co-presidir, não tardamos em nos reunir, os Notáveis restantes, para ver o que faríamos a fim de satisfazer plenamente, e com a maior prontidão possível, os desejos desse amigo que, antes de tornar-se o assassino de si mesmo, desejava que seus íntimos acudíssemos a visitar sua casa e, falando toda a noite de filosofia, o acompanhássemos nas horas anteriores à desse gesto valente e final com que desejava ser fiel à máxima de nossa Sociedade, ou seja, desaparecer digna e serenamente depois de uma grande festa do espírito de uma vibrante homenagem à amizade e ao amor à filosofia, à maneira de um Catão ou de um Sêneca, cujas mortes são, ainda em nossos dias, o mais perfeito exemplo e modelo do suicídio clássico e sereno, profundamente mediterrâneo…” (As noites da Íris Negra)

Perto de uma das portas laterais da catedral, localizo perseguido e perseguidor. Recupero a calma ao retomar o terceiro lugar na singular procissão, mas não é uma calma total, já que do golpe contra o muro ficou uma dor que vai ganhando intensidade, e se não se pode dizer que eu vejo estrelas, vejo sim um foco de luz, como um lustre de milhares de lâmpadas. Meio cego pela luz, vejo que o velho se detém em frente a uma das portas laterais, tira da maleta um chaveiro magnífico e entra no que deve ser a sacristia da catedral. Tudo acontece muito rápido. E depois de uma sonora batida da porta, o velho desaparece da minha vista sem nem sequer dedicar-me um olhar de desculpas por ter arruinado a minha diversão. Sem nem sequer um adeus, um olhar de desprezo ou de compaixão. Nada. Desaparece como um raio, e me deixa perseguindo o negro. Penso que eu talvez esteja enganado, que o velho na verdade não perseguia ninguém, talvez estivesse apenas transportando uma bomba que fará voar pelos ares a catedral…” (A hora dos cansados)

“Fiquei tão sozinha que, de repente, os sons do andar de cima e do de baixo, começaram a me obcecar seriamente: no sétimo andar, sapatos de salto alto e brincadeiras aquáticas, entre outros horrores; no quinto, gritos e brigas entre pai e filho, de grande dramaticidade. Tudo isso foi me consumindo num desespero maníaco que me levou a tentar catalogar as diferentes modalidades de ruídos dos vizinhos.

   Sequelas, talvez, de sua má vizinhança naquele verão em Alicante? Não sei, mas a verdade é que me bateu um maníaco desespero. Depois de setenta anos respeitando muitíssimo os outros, tentando sempre, mesmo que fosse apenas por educação, não incomodar nunca e, definitivamente, perdendo a vida por delicadeza, começou a parecer tremendamente injusto que o prêmio para a minha conduta irrepreensível e a minha discrição perfeita fosse essa contínua perturbação dos vizinhos (…) Achei muito penoso que tudo isso acontecesse comigo, precisamente comigo, que jamais quis incomodar ninguém e sempre tentei passar por este mundo com passos de bailarina, leve, nas pontas dos pés pela vida. E quis me matar, é verdade, você não está enganada…” (Uma invenção muito prática)

“__ E o que o senhor sabe de mim?

    Com essa pergunta, conseguiu que eu voltasse a me indignar. Continuava resistindo em me ver como um homem instruído. Por que eu não podia conhecer de memória a sua obra?

__Sei, por exemplo, que o senhor jamais esteve em Babàkua, nem sequer em pintura.

__Puxa, em pintura sim é que estive—brincou com cinismo, sem dúvida inquieto e surpreendido ao ver que eu, um pobre-diabo, sabia bastante sobre sua vida.

__ E também sei—disse—que se tivesse se incomodado alguma vez em pisar nessa terra diabólica, saberia o quão intensamente equivocadas são todas as suas pinturas. Não posso deixar de rir quando penso em todos esses críticos que o consideram o último realisa…” (Pedem que eu diga quem eu sou)

“E em parte ela tem razão. Atropelo-me ao contar, estou nervosa.  Deveria contar as coisas de um modo mais calmo, para que pudesse me entender melhor; deveria contá-las do jeito que ela faz, ainda que na verdade a coitada tampouco as conte de um modo perfeitamente ordenado; além disso, repete-se, repete-se muito. Uma amiga me disse que minha avó só tinha uma história e por isso se repetia tanto. Se isso é verdade, supero minha avó em histórias, porque tenho, no mínimo, duas: a da cédula que voou (com a qual talvez se pareça muito o resto das histórias que até agora inventei) e a deste fim de semana em Cerler. Deus meus, tenho duas. Mas a segunda preferia não ter. E também acho que deveria demorar menos para contá-la. Porque está certo que vá preparando minha avó para a terrível notícia final, mas não acho que seja necessário ir tão devagar…”  (Os amores que duram por toda uma vida)

“Uma semana depois, Mestre deixou de aparecer na hora costumeira no mercado. Passados três dias sem que fosse visto, seus amigos forçaram a porta do palácio e desceram à cripta, que encontraram aberta. Entre descargas de trovões e visões de tempestades distantes, encontraram o cadáver do Mestre que, segundo todos os indícios, tinha sido surpreendido por uma taque do coração quando estava enlaçando duas arandelas com um cronômetro.

   Não teve tempo de concluir seu grande projeto. A morte—sempre tão estupidamente cômica—o surpreendeu antes de poder ver terminada a obra. Toda Bergamo ficou impressionada pela cenografia e magnitude da cripta. Nela o enterramos…” (O colecionador de tempestades)

« Página anteriorPróxima Página »

Blog no WordPress.com.