MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/06/2012

Nem a muleta de uma frase feita ao alcance


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de outubro de 1993)

   Uma enquete sobre a literatura brasileira entre especialistas da área apontou as dez obras de ficção mais importantes, de 1970 para cá. Esquecimentos à parte (a área é sempre minada), foram lembrados livros essenciais como A hora da estrela (Clarice Lispector) e A guerra conjugal (Dalton Trevisan). E também UM COPO DE CÓLERA, publicado pela primeira vez em 1978.

   Raduan Nassar mais do que narrar, presentifica as ações (e emoções à flor da pele) de um homem que tem uma noite de sexo com uma mulher, num relação que parece—a princípio—disciplicente e descomplicada.

  Esse mesmo homem, entretanto, fica à beira de um ataque de nervos (se é que não despenca, pois é um longo capítulo—numa curta novela—chamado O esporro), quando vê sua mulher-fêmea agindo como uma mulher-pessoa, em colóquio com a caseira, sem consciência da presença dele, do seu poder e aura de macho: “e eu já vinha voltando daquele terreno baldio..quando notei que ela e dona Mariana, nessa altura, estavam de conversinha… a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada…ela não só tinha forjado na caseira uma plateia, mas me aguardava também com um arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse, ela ainda foi me dizendo ´não é para tanto, mocinho´, aquele ´mocinho´ foi de lascar”.  Note-se que o termo “conversinha” pretendia instaurar o tom condescendente do Homem com H maiúsculo diante das insignificâncias a que as mulheres se dedicam, e de repente, essa modulação é espezinhada, quando não dinamitada por um tom correspondente da parte dela, ao utilizar o termo “mocinho”.De fato, é de lascar.

   Nos capítulos anteriores, ele exibira toda a sua segurança aparente e o fascínio que exercia sobre a mulher. O relato,  a partir daí, adentra por um labirinto de autojustificativas, de narcisismo ressentido e de pruridos visando à anulação do Outro, que lembram (apesar do figurino mais moderninho) as tentativas de Paulo Honório em coisificar Madalena, em São Bernardo (Graciliano Ramos).

   UM COPO DE CÓLERA chega quase ao tosco, ao primitivo do ser humano. E é também um superior exercício de linguagem, um tour-de-force: absolutamente compreensível, ao ponto de parecer muito simples, consegue no entanto nos transmitir toda a voltagem psíquica de seu protagonista. Não é bem um romance do “fluxo de consciência”, à la Ulisses ou O som e a fúria (nos quais os autores tentam nos passar a “forma” do pensamento, num discurso fragmentado e associativo). Nassar nos comunica, epidermicamente, é verdade, o “conteúdo” conceitualizado do pensamento, fazendo com que percebamos nitidamente os mecanismos que o regem, de forma que o seu livro é um belo desmascaramento existencialista de consciência em plena performance de má-fé, de um protagonista que, em certo momento se vê, majestosamente, como “um ator em carne viva”.

   Por isso mesmo, UM COPO DE CÓLERA sobretudo é uma reflexão sobre a linguagem, pelo que podemos depreender da perplexidade do próprio “ator em carne viva” se debatendo em sua performance existencial: “ao mesmo tempo em que acreditava, piamente, que as palavras…cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original…me ocorreu que nem banheira do Pacífico teria água bastante para lavar (e serenar) o vocabulário, e ali, no meio daquela quebradeira, de mãos vazias, sem ter onde me apoiar, não tendo a meu alcance nem mesmo a muleta de uma frase feita…”

   Nassar só publicou mais um livro até agora, Lavoura arcaica (1975), afirmando que a criação literária não vale a pena. Raul Pompéia é um clássico com apenas um romance, O ateneu. É a essa estirpe avara e severa que o grande escritor paulista pertence.

nota de 2012- A adaptação cinematográfica de Aluízio Abranches, de 1999, é um horror. Eu não sou exatamente fã da versão de Lavoura arcaica, mas ela pelo menos tem uma respeitabilidade inata. O filme de Abranches, até por causa dos maneirismos meio chanchadescos de Alexandre Borges, não tem densidade, força nem impacto. Só apleação.

 

2 Comentários »

  1. Assino embaixo sobre o que você disse da adaptação cinematográfica de “Um copo de cólera” e endosso especialmente seus comentários sobre determinadas interpretações das duas versões para o cinema da obra de Raduan Nassar. É interessante observar como determinados atores que se destacam dando corretas atuações de textos naturalistas e superficiais se “revelam” ao pegar textos densos, poéticos e cheios de nuances como o de Raduan, Clarice, Shakespeare e outros. Nada contra esses atores. O problema, a meu ver, está nas exageradas louvações da crítica e do público que acompanha essa postura sem ter a medida certa das coisas. E de diretores que insistem em convocar atores mais pelo nome do que procurar alguém que tenha o preparo correto para tais textos. O que não é fácil. Pena, Alfredo, que você não seja crítico de teatro e cinema. Muito poucos são como você.

    Comentário por Fabrizio Lyra — 17/06/2012 @ 21:40 | Responder

    • Creio, Fabrizio, que não seria muito querido nem no meio teatral nem no cinematográfico. E obrigado por seu comentário gentil. Acho uma pena o que aconteceu nas versões de Nassar para o cinema porque era um autor que poderia render filmes excepcionais, muito fortes. Mas a gente não vê o que acontece o tempo todo com Nélson Rodrigues?
      Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 18/06/2012 @ 10:55 | Responder


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