MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/06/2012

A PARÁBOLA PARADOXAL: “Lavoura Arcaica”


(resenha publicada, com ligeiras alterações, em  A TRIBUNA  de Santos, em  22 de janeiro de 2002)

    As concorridas sessões da versão cinematográfica de Luiz Fernando Carvalho para o extraordinário LAVOURA ARCAICA, de Raduan Nassar, me fazem esperançoso de que sempre haverá público se também houver o interesse em exibir filmes mais difíceis e intrigantes.

     Texto belíssimo (publicado originalmente em 1975), já com status de clássico da nossa ficção, LAVOURA ARCAICA subverte a linguagem das parábolas bíblicas, das fábulas que contêm um ensinamento moral e edificante (é o que o pai do narrador, André, gosta de fazer durante as refeições familiares), como a da “volta do filho pródigo”, que enaltece o lar, a tradição e o dever filial. Contudo, que moral, que ensinamento edificante pode ter uma parábola onde o filho sai de casa por cometer incesto com a irmã (e uma atmosfera incestuosa já existia entre ele e a mãe) e, ao ser persuadido a voltar, na mesma noite volta a agir incestuosamente, desta vez com o irmão caçula?

    Portanto, o leitor é obrigado a enfrentar uma história sobre o dever filial, o peso da tradição, da família e da propriedade, onde os julgamentos morais estão suspensos e onde a perplexidade é o fator dominante. Por um lado, o pai diz que “o amor na família é a suprema forma de paciência”; por sua vez o filho afirma que “o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e não seria nenhum disparate concluir que o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina”.

     LAVOURA ARCAICA, como texto que privilegia muito mais o discurso do que a narrativa,  é um confronto entre duas linguagens, ambas oriundas de uma matriz bíblica (no sentido de uma Lei que nos rege): uma, petrificada, solene, categórica (a do pai), onde a palavra é semente que alimenta e consola; outra, a do filho, tateante, passional, na qual a palavra, como semente, “traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos”. Esse perigo latente na linguagem (que aparece no reencontro com o irmão, quando André percebe que ele procura um bordão qualquer para se acalmar diante de suas revelações), também rege o discurso do narrador de UM COPO DE CÓLERA (o único outro livro que o avaro Nassar publicou): “…acreditava piamente que as palavras… cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original… me ocorreu que nem banheira do Pacífico teria água bastante para lavar (e serenar) o vocabulário, e ali, no meio daquela quebradeira, de mãos vazias, sem ter onde me apoiar, não tendo a meu alcance nem mesmo a muleta de uma frase-feita”.

    Luiz Fernando Carvalho criou o equivalente visual perfeito para o irredutível  desencontro de linguagem entre pai e filho no filme, o pai (vivido com majestosa gravidade por Raul Cortez) uma figura impecável, limpa, sempre com gestos medidos, perfeito para aparecer associado a terras cultivadas, ordenadas; por sua vez, André (Selton Mello), está sempre associado à terra no que ela tem de musgo, húmus, coisas viscosas, que deixam nódoas e marcas no corpo, folhas mortas, insetos, que combinam com uma movimentação nervosa e convulsiva, sem repouso.

    Com isso, Carvalho criou um filme importante e surpreendente (pelo menos para quem, como eu, se aborrecia mortalmente com seus dramalhões televisivos), quase sem concessões ao público, mas que peca na escolha do ator central: é decerto admirável o esforço de Selton Mello, ainda mais com a presença massacrante do seu personagem em cena; só que nenhum esforço sobrevive a uma dicção horrível, e em certas cenas capitais (como na capela, masturbando-se diante da irmã, ou na cena da crise epiléptica) reúne o que há de pior na impostação teatral, exagero e respiração ofegante, histérica.

      Além disso, o diretor exagera nos efeitos visuais (como já acontecia nos seus trabalhos anteriores) e os 183 minutos de um filme no qual deveria prevalecer a densidade acabam sendo cansativos e torturantes pelos motivos errados. É inegável, porém, que LAVOURA ARCAICA, o filme, se destaca na última safra do cinema nacional por sua ousadia e radicalidade.

      Quanto ao livro, na época em que foi publicado, apareciam algumas grandes experiências com a linguagem narrativa em nosso país. É o caso de Maíra (Darcy Ribeiro), de A hora da estrela (Clarice Lispector), de Novelário de Donga Novais (Autran Dourado) ou de A rainha dos cárceres da Grécia (Osman Lins), obras-chaves da segunda metade da década de 70. Entretanto, LAVOURA ARCAICA e UM COPO DE CÓLERA representam algo de majestoso (tal como o pai de André) e único, mesmo no confronto com as obras citadas. Os dois textos de Raduan Nassar são um cadinho iningualável de experiência, memória e  linguagem: “…qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória…” 

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