MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/06/2012

O Livro do Mundo e o heroísmo do cotidiano


De todos os acontecimentos literários importantes de 1922 (e são muitos) o principal é Ulisses, de James Joyce (1882-1941), um dos livros que mais justificam uma bela definição de Osman Lins (em A rainha dos cárceres da Grécia“romance: mundo imerso no mundo”). Ao recortar  “do mundo” um dia da vida de Dublin (16 de junho de 1904), Joyce deu forma a um imenso universo literário e recriou a Odisséia de Homero, mostrando que heroísmo é enfrentar o dia-a-dia.

O livro começa com Stephen Dedalus (de Um retrato do artista quando jovem), que se sente culpado com a morte da mãe e a miséria da família, mas está preocupado muito mais em não ser  engolfado pelo marasmo em que se debate a Irlanda. Portanto, Stephen, que é um candidato a escritor (e alter ego de Joyce) luta contra várias dependências emocionais e intelectuais: contra a dependência familiar, nacional e lingüística.  Depois dele, apresenta-se para nós Leopold Bloom, corretor de anúncios para jornal, judeu, casado com uma cantora de segunda categoria, Molly Bloom, com quem não teve mais relações sexuais desde que o filho deles morreu, ainda criança.

Como Ulisses é uma imagem da vida real, mundo imerso no mundo, acompanharemos tudo o que se passa na mente e no corpo de Bloom: ele pensa, come seu desjejum, defeca, sai pelas ruas de Dublin, vai a um enterro, ao jornal onde trabalha, a um banho público, pensa em masturbar-se, almoça, vai à biblioteca, a uma taverna (enquanto isso, sua mulher encontra-se com o amante, Blazes Boylan), à praia, onde efetivamente se masturba, ao hospital e depois à zona do meretrício, antes de voltar para casa. Nessa trajetória, ele encontra indiretamente Stpehen várias vezes, antes do encontro verdadeiro, no qual vai se estabelecer o que muita gente considera o tema central do romance: a procura de um pai espiritual por parte de Stephen e de um filho simbólico para o casal Bloom.

E por que Bloom seria um candidato ideal para preencher tal papel? Porque ele tem o heroísmo de enfrentar o cotidiano com a delicadeza e a sutileza de um gato (tem em comum com esses felinos, também uma certa rejeição por parte da maioria das pessoas). De toda forma, o encontro para o qual a narrativa vai se armando simboliza também o destino fechado de Bloom (já adaptado ao marasmo) e o destino aberto, prenhe de possibilidades, de Dedalus (afinal, o grande arquiteto escapou da prisão).

      Ulisses não termina aí. Ainda falta o momento mais célebre do romance, quando temos acesso aos pensamentos de Molly, a senhora Bloom, num processo chamado de fluxo de consciência, cuja função é transformar o texto numa aparentemente caótica corrente de associações mentais. O romance que nos fez tatear labirinticamente por Dublin ao longo do dia, termina numa atmosfera de sonolência, de semi-sonho, adequada a um autor que admira Shakespeare. E não foi o autor de A tempestade (e de Hamlet, tão citado ao longo de todo Ulisses) que colocou na boca de um de seus personagens “somos feitos da matéria com que são feitos os sonhos”? Ou, como pensa Dedalus (com Aristóteles na mente, como conhecedor de São Tomás de Aquino, por formação jesuítica): “na escuridão da minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranqüila. A alma é de certa forma tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranqüilidade súbita, vasta, candescente, forma das formas”.

Infelizmente, graças aos esforços de uma panelinha de tradutores vanguardistas xiitas . Ulisses ficou famoso no Brasil mais por causa de mirabolantes técnicas lingüísticas do que pelo seu lado de representação admirável do mundo real.

É evidente que toda obra literária é uma construção lingüística (e, no Brasil, quem pode esquecer de Grande Sertão: veredas e sua peculiar linguagem?), e a de Joyce mais que qualquer outra, porém pode-se abordar Ulisses “apenas” como um dos romances totais da nossa época, em que um máximo de representação da realidade dá a impressão de que a vida toda está contida neles. Esse é, aliás, o aspecto preferencial (o de representação, não de experimentação lingüística para iniciados) que eu resolutamente prefiro extrair desse livro extraordinário e difícil.

É por isso que a tradução de Antônio Houaiss (ao contrário da do português João Palma-Ferreira) é tantas vezes detestável. Ela ajuda a tornar mais ilegível e distante o texto de Joyce para o leitor brasileiro. Até Augusto de Campos, um dos gêmeos-mórbida semelhança do Concretismo (um dos movimentos mais chatos e autovangloriadores da nossa literatura, e que parece ter feito de Joyce uma possessão particular) reconheceu: Houaiss exagerou na dose, criando palavras feias, de sonoridade desagradável e pesada, que não ajudam em nada o texto: “cordissentidos”, “pluvirociada”, “marifrígidos”, “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cintibrilhichispeantes”, “subobscurainfra”, “cheiilambigrudosos”, só para citar algumas soluções medonhas da tão celebrada (a)versão.

Ao leitor que ultrapassar tais inconvenientes sobrará a sensação de estar lendo o Livro do Mundo e alguns momentos da mais alta poesia: “tal qual ele era eu, esses ombros caídos, essa desgraciosidade. Minha infância aconchega-se ao meu lado. Muito longe para eu pousar nela a mão uma vez ou de leve. A minha é distante, a dele é secreta, como nossos olhos. Segredos, silentes, pétreos, moram nos palácios sombrios dos corações de ambos nós dois; segredos exaustos de sua tirania; tiranos desejosos de serem destronados”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de abril de 1997, nos 75 anos do livro)

2 Comentários »

  1. […] agora não sobre a tradução de Caetando Galindo em particular, mas sobre o romance de Joyce: O Livro do Mundo e o heroísmo do cotidiano. CompartilheEmailFacebookTwitterPrintGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. […]

    Pingback por O “Ulysses” de Galindo no Monte de Leituras « trajes lunares — 11/06/2012 @ 23:39 | Responder

  2. Interessante que eu comecei, parei e recomecei o Ulysses umas tres vezes (trad. Houaiss),eu achava algo como um Oblomov empolado,espero que a nova tradução que está para sair seja mais ‘light’ e não use aqueles ‘terminhos’ feios que voce cita (cintibrilhichispeantes?????? ah,por favor!),hoje eu percebo que o livor é dificil,conversando com muitas outras pessoas que não conseguiram le-lo percebo que não sofro de nenhum retardo
    abs

    Comentário por Francisco Nogueira — 12/06/2012 @ 14:15 | Responder


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