MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/06/2012

O Henry James argentino


(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 03 de setembro de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

É curioso que José Geraldo Couto, um grande conhecedor da obra do norte-americano Henry James, tenha traduzido Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares, e nos seus comentários não faça nenhuma referência à similaridade gritante entre os dois escritores: o discreto uso do fantástico, a necrofilia das imagens amorosas, e uma visão das relações de amizade bastante inquietante, em que às preocupações mais transcendentes (a possibilidade de vida após a morte, a criação literária) se agregam  a rivalidade, o despeito, a mesquinharia, a maledicência e o fuxico. Algumas das melhores narrativas de James (A lição do mestre; O desenho do tapete; A vida privada; A coisa autêntica) exemplificam bem essas características.

Já nos quatorze relatos selecionados de Histórias Fantásticas, podemos destacar Os entusiasmos, no qual o narrador é apaixonado pela mulher do amigo, um cientista que procura a maneira de fixar a alma, obtendo sucesso ao transmitir a do seu amado cachorro (motivo de discórdia com a esposa) para um bastidor. Cansado da vida doméstica, faz o mesmo com a própria alma, mantendo-se escondido dentro de um busto, e influenciando sua casa, até que Milena descobre tudo (ao pressentir a paixão do cunhado, confidente das intenções do marido): “Perguntou-me se eu compreendia o abismo de miserável resignação, de cegueira a todas as belezas da vida, que tal ato revelava. Afirmou que Eladio pertencia a uma horrível classe de homens que pensa muito, entende tudo, não se irrita, não sente; a uma classe de homens incapazes de perceber que uma coisa tão insólita como alguém que esteja sobrevivendo num bastidor de níquel, de vinte centímetros de altura, é abominável.” O narrador (Bioy Casares prefere as narrativas em primeira  pessoa)  mostra-se ambivalente o tempo todo, ora tendendo para o lado de Milena ora para o de Eladio, o que incorpora uma nota conspiratória (extremamente jamesiana) ao texto.

Os personagens do grande escritor argentino gostam de congelar imagens, de paralisar o fluxo do tempo. Não bastasse a máquina criada por Morel, o bastidor de Eladio, temos, no texto mais antigo da coletânea,Em memória de Paulina, o fantasma da mulher evocado por dois rivais: Paulina, que o narrador considerava sua “alma gêmea”, o abandona por um escritor que seu enamorado considera medíocre. Ele viaja para a Inglaterra. Ao voltar, recebe a visita de Paulina. Mais ainda, visionariamente percebe que a imagem de Paulina persiste frente a seu espelho. Descobre adiante que ela está morta, assassinada no dia da sua partida pelo aparente vencedor da disputa e que a imagem que o visita é a projeção do ciúme do seu rival.

Noutro conto magnífico, O perjúrio da neve, um dinamarquês perdido com sua família nos confins da Patagônia, ao saber que a filha está condenada (o médico lhe dá três meses de vida), impõe um regime ditatorial de “eterno retorno”: todos na fazenda repetirão a mesma rotina e assim a morte não chegará: “O homem desceu da carroça e, quando o vi caminhar até a porteira, ínfimo e diligente, tive a estranha impressão de que naquele ato único via sobrepostas repetições passadas e futuras e que a imagem que o binóculo me ampliava estava na eternidade”. Dois literatos destruirão essa eternidade. Qual deles desvirginou a filha moribunda do fazendeiro e acarretou sua morte? A interpenetração de duas narrativas e de duas interpretações diferentes transformam esse enigma numa questão tão insolúvel quanto a culpa de Capitu ou as intenções do Mestre de Henry James ao dar a sua lição ao discípulo literário.

Nesse mundo assombrado pela ambigüidade mais do que pelo sobrenatural, é deliciosa a aparição de um ET, em O calamar opta por sua tinta: ele vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 50), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra. O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2007)

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