MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/06/2012

BIOY CASARES E A MULTIPLICAÇÃO DA SOLIDÃO


Blogbioycasares2

(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 03 de setembro de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

A SOLIDÃO POVOADA POR FANTASMAGORIAS

Apesar de um hotel-museu, de uma piscina, de uma capela, o relato de A invenção de Morel segue o modelo básico do náufrago à Robinson Crusoé: o homem solitário que passa por dificuldades para sobreviver numa ilha longínqua (o narrador chegou a ela como fugitivo). Ali podia viver anos, sossegado, escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”.  Mal sabe ele como é bendita essa solidão. Como advertiu Bakhtin, “na solidão é impossível estar morto”. O mundo existe diante de nós, pois estamos vivos, e nada testemunhará a nossa morte, se ela vier, dando-lhe forma e realidade. O mundo apenas se apagará.

Mesmo que Adolfo Bioy Casares (1914-1999) seguisse esse caminho já pisaríamos num terreno perigoso. O leitor brasileiro pode acompanhá-lo por rumos ainda mais perturbadores, pois a CosacNaify iniciou uma série chamada Prosa de Observatório justamente com nova tradução desse grande clássico de 1940 (publicado antes como A máquina fantástica; só numa outra edição, nos anos 1980, é que o título original foi finalmente respeitado).

ainvencao_morel_gdea invenção de morel da rocco

O narrador descobre que há um grupo de 15 pessoas, fora os criados, visitando a ilha. Há uma mulher fascinante, Faustine. Ele admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres com mau tempo: “sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”. Tenta chamar a atenção de Faustine. E, ignorado, sentindo-se invisível (alguém quer melhor imagem do pária ?), indaga-se, como Freud já se indagou: “Mas que será que ela quer?”. A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio às “lânguidas conversas das aparições.

Sim, porque em determinado momento, ele percebe que não são reais essas pessoas, que repetem os mesmos gestos, as mesmas falas (o que não seria nada estranho no mundo de Alain  Resnais e seus colaboradores Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, grandes nomes da nouvelle vague e do noveau roman, os quais nunca deixaram de ser gratos a Bioy Casares).

“Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês. Ampliei a monstruosidade anterior: a de que esse idioma fosse um atributo paralelo entre os nossos mundos, dedicado a diferentes fins (o francês como idioma de mundos paralelos é uma impagável ironia e é uma expressão de ruína, no sentido dado a essa palavra por Walter Benjamim, por ser o idioma da civilização, em determinada época, que se congela e se mantém inerte na ilha; além disso, o idioma “dedicado a diferentes fins” denuncia a luta de classes, essa sim nunca inerte e congelada).

As aparições se transformam no pior dos pesadelos porque são artificiais: foram criadas por Morel, que preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha. Mundo-simulacro, reduzindo o viver a uma insustentável leveza: “Acostumado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual”. Assim, Morel, que não possuiu Faustine, a vampirizou e matou ao torná-la imortal: de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual “espectador desprevenido”.

E se o autor deste artigo lembrar que colocou A invenção de Morel na sua lista dos 100 maiores livros do século XX, alguém porventura estranhará?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 16 de setembro de 2006)


1 Comentário »

  1. Fala Alfred,

    Vou roubar essa, blz?

    Muito boa, o “A invenção de Morel” está na fila aqui, vai galgar umas posições…

    Comentário por Thiago Cabello — 21/09/2009 @ 22:08 | Responder


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