MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/06/2012

A molecagem do sisudo Saramago:”Caim”

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 8:00
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Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor     

       O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.

      Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e  questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um  momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”

    Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.

    Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.

      Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.

      Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.

       Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.

(resenha publicada  originalmente  em “A Tribuna” em 03.11.09) 

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1 Comentário »

  1. Adorei a visão dos dois romances…quem sabe um dia eu leia esse Lobo Antunes sem medo!

    Comentário por edu — 07/10/2010 @ 11:11 | Responder


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