MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

O CANTO IANQUE-UNIVERSAL DO RESPONDEDOR

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 13 de dezembro de 2011)

“Sou imenso, contenho multidões. Se tivesse de apontar o maior evento editorial de 2011, sem hesitação escolheria a tradução de Bruno Gambarotto para Folhas de Relva-Edição do Leito de Morte, lançada com o capricho habitual da Hedra. É, finalmente, a edição séria, bem cuidada e bonita que a súmula da produção poética de Walt Whitman (1819-1892) exigia. Pois, por incrível que pareça, a única versão integral dessa obra-prima fundamental era a da Martin Claret, com aquele estilo meia-boca e descuidado (quando não suspeito) de que essa editora é useira e vezeira.

Houvera a notável edição da Iluminuras, mas se tratava da tradução (de Rodrigo Garcia Lopes)da primeira edição de Folhas da Relva (em 1855), com 12 poemas. A Edição do Leito de Morte foi a nona edição e abarca cerca de 380 poemas. É a obra de uma vida, é o arremate final na construção do mito Whitman, o maior dos poetas americanos. E que foi esse raro fenômeno: um escritor absolutamente original: nunca antes dele alguém escreveu desse jeito, nem utilizou tal temática ou tal vocabulário. É uma experiência de liberdade absoluta, consoante à do país que se transformaria na maior potência mundial e que já se configurava nos anos de vida de Whitman. Ele representa o que de mais norte-americano (para o bem e para o mal) podemos pensar: o desejo de se expandir, de ter um destino grandioso, de incorporar pessoas, culturas, de simbolizar a “democracia”.

É por isso que lemos no fundante Canção de Mim Mesmo (um dos poemas mais extraordinários já escritos): “Vejo que incorporo gnaisse e carvão e a longa malha de musgo e as frutas e grãos e raízes comestíveis/ Estou inteiro revestido de pássaros e quadrúpedes/E longe do que está atrás de mim por boas razões/Mas chamo qualquer coisa para perto de mim quando quiser.

Em outro trecho: “Grandes têm sido os preparativos para mim/Fiéis e amigos os braços que ajudaram// Ciclos conduziram meu berço, remando e remando como alegres barqueiros/Para me dar espaço as estrelas permaneceram afastadas em suas próprias órbitas/Elas enviaram influências para cuidar do que me havia de dar sustento// Antes de nascer da minha mãe gerações me guiaram…”

A todo esse otimismo cósmico, a essa coesão de tudo, de repente sucede uma quebra trágica: no meio do livro temos os poemas sobre a Guerra de Secessão, a divisão do país, a carnificina impressionante que foram essas lutas, durante cinco anos.  E a partir daí, o tom se torna mais melancólico, elegíaco, os plenos pulmões respirando o ar do universo cedem lugar a uma respiração menos abrangente. O grandioso se fora, mas ficara o tecedor de imagens, cada vez mais voltado para o passado, porém já tendo afirmado sua presença (sua influência abarca poetas tão díspares quanto Pessoa, Neruda, Maiakovski, Borges, para citar alguns): “Tece, tece, minha valorosa vida/ Tece ainda um soldado forte e a postos para as grandes campanhas do porvir/Tece o sangue vermelho, tece tendões como cordas, os sentidos, a visão, tece, tece/ Tece a última certeza, tece dia e noite a trama, o enredo, tece sem cessar, não para( …)/ Pois as grandes campanhas de paz têm do mesmo modo os fios trançados de tecer/Não sabemos o que ou por que, mas tecemos, para sempre tecemos.”

Como Tolstói (apesar das diferenças), esse projeto literário-existencial que é Folhas de Relva acabou alçando Whitman a territórios mais escorregadios como a posição de guru, mestre espiritual e coisas do gênero. Mas eu o prefiro sem tanta reverência, tal como caracterizado nos seu maior poema: “Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo, respirando/ Sem sentimentalismo, sem ficar acima de homens e  mulheres ou distante deles.”

 

 TRADUÇÕES

Como tantos em minha geração, tomei contato com Whitman em língua portuguesa através da seleção/ feita por Geir Campos e publicada pela Brasiliense (à época no auge da popularidade), em 1983: Folhas das Folhas de Relva. Na verdade, esse volume é uma versão refundida de uma edição lançada pela Civilização Brasileira em 1964,  e difere dela pela disposição diferente dada aos versos whitmanianos, que foram “quebrados”, perderam aquele aspecto oceânico, até porque a edição é mais de bolso do que outra coisa, e o verso curto é que mais combina com ela.

Foi uma disposição acertada? Não sei agora, e muito menos poderia sabê-lo aos 18 anos, em 1983. Só sei que Whitman, então,  parecia contrariar tudo o que eu esperava da poesia, portanto me irritou, me enfastiou, e tive muitas dificuldades com ele (então, foi até um acerto que o tradutor e a editora aplainassem um pouco as dificuldades).

Vejamos como Geir Campos traduziu o seguinte trecho de Canção do Respondedor (Song of Answerer), cujo núcleo poético faz parte de Folhas de Relva desde a edição original:

“…as palavras do fazedor de poemas

são o geral da luz e da sombra;

o fazedor de poemas estabelece a justiça,

a realidade, a imortalidade,

ele envolve em sua visão e força

as coisas e a raça humana,

é ele a glória e a essência até aqui

das coisas e da raça humana.

 

Os cantores não criam, o Poeta cria:

cantores são bem-vindos, bem compreendidos,

aparecem com bastante frequência,

mas raros têm sido o dia e o lugar

do nascimento do fazedor de poemas

–o Respondedor.

(…)

Por todo esse tempo e em todos os tempos

ficam à espera as palavras

dos poemas de verdade:

as palavras dos poemas de verdade

não apenas agradam,

os Poetas de verdade

não são acompanhantes da beleza

e sim augustos mestres de beleza.

A grandeza dos filhos

é o que transpira do que têm de grande

as mães e os pais;

as palavras dos poemas de verdade

são o buquê e o aplauso final

da ciência.

 

Intuição divina, vista larga,

a razão como lei,

primitivismo e saúde do corpo,

retraimento, contentamento,

carne curtida ao sol, doçura de ar

–eis algumas palavras de poemas.

O marinheiro e o viajante fundamentam

o fazedor de poemas—o Respondedor;

o construtor, o geômetra, o químico,

o anatomista, o frenologista, o artista,

todos contribuem para

o fazedor de poemas—o Respondedor.

As palavras do  poema de verdade

dão a vocês muito mais que os poemas:

dão a vocês com que possam compor

os seus próprios poemas,

religião, política,

guerra, paz, contos, ensaios,

o dia a dia da vida

e tudo o mais,

dão o balanço de castas, cores, raças,

credos e sexos;

beleza mesmo os Poetas não procuram…”

Na versão de Rodrigo Garcia Lopes para a primeira edição (1855) do livro, publicada pela Iluminuras, tal trecho não será encontrado, já que Whitman, fiel ao seu furor expansionista, aumentou consideravelmente o poema desde então.

Já na versão de Luciano Alves Meira para a Martin Claret (2006), está tal como se segue (com o título Canção do Respondente):

“… mas as palavras do autor de poemas são a própria

                                           [luz e escuridão.

O autor de poemas estabelece a justiça, a realidade,

                                            [a imortalidade,

Sua luz interior e seu poder envolve as coisas

                                            [e a raça humana.

Ele é a glória e o extrato longínquo das coisas

                                             [e da raça humana.

 

Os cantores não criam, apenas os Poetas criam,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos,

                                              [aparecem com bastante

           [frequência, mas são raros os dias ou

                                               [as oportunidades de

Nascimento dos autores de poemas, os Respondentes.

(…)

Todo esse tempo e em todos os tempos, espere

                       [pelas palavras dos poemas verdadeiros,

As palavras dos poemas verdadeiros não são aquelas

                       [que simplesmente agradam,

Os verdadeiros poetas não são os seguidores da beleza,

                       [mas os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exsudação da grandeza

                        [das mães e dos pais,

As palavras dos poemas verdadeiros são a coroa

                        [e o aplauso final

da ciência.

 

Instinto divino, amplitude da visão, a lei da razão,

      [saúde, rudeza do corpo, capacidade de se retirar,

Alegria, pele morena, doçura do ar, essas são

       [algumas das palavras dos poemas.

 

Os marinheiros e os viajantes subjazem

           [aos autores de poemas, os Respondentes,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,

           [o frenologista, o artista, todos esses

      [subjazem ao autor de poemas, o Respondente.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão-te

                    [mais  do que poemas,

Elas são a matéria-prima para que possas fazer

                     [tu mesmo poemas,

     [religiões, política, guerra, paz, comportamento

     [história, ensaios, vida diária e tudo o mais,

Elas põem em equilíbrio as categorias, as cores,

      [as raças, os credos, e os sexos,

Elas não procuram a beleza…”

   E na versão de Bruno Gamborotto volta a ser Canção ao Respondedor, e o trecho fica assim:

“…mas as

          palavras do fazedor de poemas são a luz e a escuridão totais,

O fazedor de poemas instaura a justiça, a realidade, a imortalidade,

Sua visão e poder englobam as coisas e a raça humana,

Ele é a glória e a extrai das coisas e da raça humanas.

 

Os cantores não dão a vida, apenas o Poeta dá vida,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem até demais,

                                                  [mas raro tem sido

    o dia, e também o lugar, do nascimento do fazedor de poemas,

                                                     [o Respondedor

(…)

Hoje e sempre as palavras dos verdadeiros poemas são aguardadas,

As palavras dos verdadeiros poemas não são somente agradáveis,

Os verdadeiros poetas não são seguidores da beleza, mas

                                     [os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exaltação da grandeza dos pais e das mães,

As palavras dos verdadeiros poemas são os louros e

                                      [o aplauso final da ciência.

 

Instinto divino, abrangência da vista, lei da razão, saúde,

                                       [corpo bruto, afastamento,

Felicidade, pele bronzeada, ar fresco, essas são algumas

                                        [das palavras dos poemas.

 

O navegante e o viajante estão na base do fazedor de poemas,

                                                        [o Respondedor,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,o frenologista,

                                                        [o artista, todos dão

        Sustentação ao fazedor de poemas, o Respondedor.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão a você mais do que poemas,

Elas dão a você a formação de seus próprios poemas, religiões,

                         [política, guerra, paz,

           Comportamento, história, ensaios, vida cotidiana e tudo o mais

Eles equilibram hierarquias, cores, raças, credos e os sexos,

Eles não procuram beleza…”

 

A fundação da modernidade: de maldito a clássico

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em 23.06.07, em homenagem aos 150 anos de “AS FLORES DO MAL”)

“Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,

Enquanto eu me queixava um dia à natureza,

E de meu pensamento ao acaso vagando

Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,

Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,

Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,

Trazendo um bando de demônios maliciosos,

Semelhantes a anões perversos e curiosos.

Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,

E, como o povo que na rua olha um demente,

Eu os ouvia rir, entre si cochichando,

Piscando os olhos e também sinais trocando:

“Contemplemos em paz essa caricatura

Que da sombra de Hamlet imita a postura,

Cabelos ao vento e ar sempre hesitante.

Não causa pena ver agora esse farsante,

Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,

Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,

Querer interessar, cantando as suas dores,

Os grilos, os falcões, os córregos, as flores,

E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,

Aos berros recitar na praça os seus monólogos?”

Com meu orgulho sem limite, eu poderia

Domar a nuvem dos anões em gritaria,

Deles desviando a fronte esplêndida e serena,

Caso não visse erguer-se em meio à corja obscena

–Crime que até a luz do próprio sol abala!—

A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,

Que com eles de minha angústia escarnecia

E às vezes um afago imundo lhes fazia. (CCV, “A Beatriz”)

Charles Baudelaire é o precursor e mestre inconteste de toda a corrente principal da melhor poesia do século XX. O século e meio que decorreu desde a publicação original de As Flores do Mal o fizeram passar de “maldito” (processado criminalmente em 1857 devido à “sujeira” contida no livro) a clássico, criador de versos de estarrecedora perfeição quanto à métrica e à rima (e, nesse ponto, bastante diferente de outro fundador da modernidade, Walt Whitman, que apenas dois anos antes, com Folhas da Relva, instaurava o verso livre como método).

Os (cerca de) 160 poemas de As Flores do Mal, entre outras qualidades, colocaram Paris no centro da modernidade (entendida como desconstrução do passado). Neles, a moralidade burguesa e cristã confronta-se com o seu avesso (como mostram os poemas satanistas e/ou ligados ao que antigamente eram conhecidos como “maus costumes”) ; a poesia confronta-se com a miséria do mundo moderno; a apreensão da “poesia das ruas” confronta-se com o recuo, cada vez maior, da natureza, até então a suprema moldura poética; o sublime, se houver, relampeja no quotidiano:

“Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros

As persianas abrigam secretas luxúrias

Quando o sol cruel golpeia redobradamente

Sobre a cidade e os campos, tetos e trigais,

Exercitarei sozinho minha bizarra esgrima

Buscando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas…”

“Tropeçando em palavras como em calçadas”. Foi por ter incorporado ao vocabulário poético as calçadas, as vitrines, o burburinho da multidão, o tédio do habitante da monstruosa metrópole, que Walter Benjamin consagrou Baudelaire como a consciência lírica do século XIX. Será nas calçadas, portanto, a bizarra esgrima do vate moderno, movimentando-se em função do “imprevisto que surge”, do “desconhecido que passa”, movido pelo  spleen, condição fundamental do homem contemporâneo, que tem tudo à mão e sente que algo decisivo lhe escapa nessa atmosfera de saciedade, estragando-lhe a festa.

Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentimento da insuficiência da vida, desse que é, com Gustave Flaubert (cujo Madame Bovary também foi processado e igualmente publicado em 1857, essa incrível coincidência das duas maiores obras da literatura francesa terem aparecido juntas),o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua quotidiana, há esse fervilhar urbano, com seus tipos, seus vícios, suas peculiaridades, que se tornam sob o olhar plástico do maior dos poetas, uma revelação.

Baudelaire faz um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu supremo intérprete, na contundência e beleza das Flores do Mal ((e, um pouco menos, dos Pequenos Poemas em Prosa) o “bebedor de quintessências” que se refocila rejubilando-se.

O Mal e A Relva: a Babilônia satânica e a promessa edênica

(esse foi o  texto de divulgação para um curso que ministrei em Santos em agosto-setembro de 2007):

“…demônios insepultos no ócio

Acordam do estupor, como homens de negócio,

Estremecem a voar o postigo e a janela.

Através dos clarões que o vendaval flagela

O Meretrício brilha ao longo das calçadas;

Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;

Por toda parte engendra invisível trilha

Assim como o inimigo apronta a armadilha;

Pela cidade imunda e hostil se movimenta

Como verme imundo que ao Homem furta o que o sustenta…”

(Charles Baudelaire, O Crepúsculo Vespertino)

“Pelas ruas de Manhattan, vagueio ponderando

Sobre Tempo, Espaço, Realidade —sobre assuntos como esses

[ao lado deles pondero sobre a Prudência.

A última revelação sempre permanece por ser feita a respeito da Prudência,

Pequenos e grandes, semelhantemente, são impelidos em silêncio

[da Prudência que se ajusta à imortalidade.”

(Walt Whitman, Canção da Prudência)

 

Dois poetas contemporâneos, porém tão estranhos um ao outro, Charles Baudelaire (1821-1867) e Walt Whitman (1819-1892), e dois livros fundadores da modernidade poética, As flores do mal (1857) e Folhas da relva (1855), os quais, em comum, tiveram a mesma rejeição inicial, e depois a incorporação crescente de novos poemas, representando a síntese do trabalho de uma vida.

Como aproximar os 162 poemas de rigorosa métrica e rima, e no qual o urbano, o satânico, a sensação de saturação civilizatória e de tédio, e, por fim, o decadentismo, abundam, e os 383 poemas em versos livres, de ampla respiração, em que se parece renomear o mundo e em que o eu se torna o cosmo, abolindo fronteiras entre corpo e alma, cultura e natureza, vida e morte?

O objetivo deste curso é a aproximação pela distância, a comparação pelo contraste, a certeza de que Babilônia e Éden convivem igualmente em nossos corações e mentes.

Serão quatro aulas:

1ª aula- Contexto do surgimento das duas obras, características gerais, impacto na lírica moderna, comparação de poemas fundadores da poética de Baudelaire e Whitman (por exemplo, “Hino à Beleza” e “ Canção de Mim Mesmo”, respectivamente).

2ª aula- Whitman, o poema a plenos pulmões:

“Tece, tece, minha vida intrépida,

Tece ainda um soldado forte e pleno para as grandes campanhas que virão,

Tece o sangue vermelho, tece nervos como se fossem cordas, tece os sentidos, tece a visão,

Tece certezas duradouras, tece dia e noite, a trama, a urdidura, tece incessantemente, não te canses,

Não sabemos qual a utilidade, ó vida, nem sabemos o objetivo, o fim, nem de fato devemos saber,

Mas sabemos o trabalho, a necessidade contínua que há de prosseguir a marcha da paz

[ envolta na morte tanto quanto a guerra contínua,

Pois as grandes campanhas de paz são tecidas com o mesmo fio metálico,

Não sabemos por que, nem o que e, contudo, tece, para sempre tece.”

3ªaulaBaudelaire e os “quadros parisienses”: tropeçando em palavras como em calçadas:

“Aquilo que os homens chamam Amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” (Spleen de Paris)

4ª aula- Filiações e parentescos: Poe como ponte, Pessoa como ponto de encontro.

A COESÃO DE TUDO: antologia whitmaniana

Esses foram os poemas de Whitman que utilizei no meu curso de 2008 (comparando-o a Baudelaire); aqui aparecem em tradução de Luciano Alves Meira (publicada pela Martin Claret), com algumas intervenções e adaptações minhas:

Saudação ao Mundo! (Salut au monde!)

1

Ó pegue minhas mãos, Walt Whitman!

Que maravilhas neste vôo livre! Tais visões e sons!

Tais ligações infinitas e unidas, cada qual ligado ao próximo.

Cada um respondendo a tudo, cada um compartilhando a Terra como todos os demais.

O que se amplia dentro de ti, Walt Whitman?

Que ondas e solos gotejando?

Que plagas? Que pessoas e cidades estão aqui?

Quem são as crianças, algumas brincando, algumas dormindo?

Quem são as meninas? Quem são as mulheres casadas?

Quem são os grupos de homens andando vagarosamente

com seus braços em torno do pescoço uns dos outros?

Que rios são esses? Que florestas e frutos são esses?

Que nomes têm essas montanhas que se erguem tão altas em meio às brumas?

Que miríades de habitações há nelas, repletas com seus moradores?

2

Dentro de mim a latitude se alarga, a longitude se alonga,

Ásia, África, Europa, estão para leste; América está provida no oeste;

E atando a saliência dos ventos da terra, o quente equador,

Curiosamente para o norte e para o sol viram-se as pontas dos eixos,

Dentro de mim está o dia mais longo, o sol gira em anéis oblíquos

e não se põe durantes meses a fio,

Esticado na hora certa dentro de mim, o sol da meia-noite se ergue

bem acima da linha do horizonte e aparece novamente,

Dentro de mim zonas, mares, cataratas, florestas, vulcões, grupos,

Malásia, Polinésia e as grandes ilhas das Índias Orientais.

3

O que ouves, Walt Whitman?

Ouço o trabalhador cantando e a esposa do fazendeiro cantando,

Ouço na distância os sons das crianças e dos animais, de manhã cedo,

Ouço gritos rivais dos australianos perseguindo o cavalo selvagem,

Ouço a dança espanhola com as castanholas na sombra da castanheira

no ritmo da rabeca e do violão,

Ouço os ecos incessantes do Tamisa,

Ouço ardentes canções francesas pela liberdade,

Ouço do remador italiano a recitação musical de antigos poemas,

Ouço os gafanhotos na Síria quando atacam os grãos e as folhas

no avanço de suas nuvens terríveis,

Ouço o copta jejuar até o crepúsculo, meditativo, caindo no seio

da negra, venerável e vasta Mãe que é o Nilo,

Ouço a voz alegre da condutora de mulas mexicana e o som dos sinos da mula,

Ouço o almuadem árabe chamando do alto da mesquita,

Ouço os padres cristãos nos altares das suas igrejas (…)

Ouço o grito do cossaco e a voz dos marinheiros indo para o mar em Okotski,

Ouço a respiração ofegante que vem do comboio de escravos (…)

Ouço os judeus fazendo a leitura de suas exegeses e salmos,

Ouço os mitos rítmicos dos gregos e as poderosas lendas dos romanos,

Ouço a história da vida divina e da morte sangrenta do Cristo,

Ouço os ensinamentos do hindu ao seu discípulo dileto (…)

Tudo aquilo que os poetas escreveram há três milênios.

4

O que vês, Walt Whitman?

Quem são esses a quem saúdas, quem são eles que,um após o outro,te saúdam também?

Eu vejo um grande e circular espanto rolando pelo espaço,

Vejo fazendolas, fronteiras, ruínas, cemitérios, prisões, fábricas, palácios, choupanas,

ocas de bárbaros, tendas de nômade, sobre a superfície,

Vejo a parte sombria no lado em que os adormecidos dormem e a parte ensolarada

do outro lado,

Vejo a rápida mudança entre luz e sombra,

Vejo terras distantes, tão reais e próximas de seus habitantes

quanto as minhas terras para mim.

Vejo águas em abundância,

Vejo picos de montanhas, vejo as serras dos Andes onde elas se enfileiram,

Vejo claramente o Himalaia, Chien Shahs, Altays, Ghauts,

Vejo os pináculos gigantescos do Elbruz, Kazbek, Bazardjusi,

Vejo os Alpes estirenos e os Alpes de Karnak,

Vejo os Pireneus, os Bálcãs, os Cárpatos e para o norte os Dofrafields,

e em pleno mar o monte Hecla,

Vejo o Vesúvio e o Etna, as montanhas da Lua e as vermelhas de Madagascar,

Vejo os desertos da Líbia, da Arábia e o Asiático,

Vejo imensos e terríveis icebergs árticos e antárticos,

Vejo os oceanos superiores e inferiores, o Atlântico e o Pacífico, o mar do México,

o mar brasileiro, o mar do Peru, as águas do Industão,

o mar da China e o golfo da Guiné, as águas do Japão,

a bela baía de Nagasaki,de terras presas entre montanhas,

(…) O Mediterrâneo banhado pela claridade do sol,

de ilha em ilha,

o mar branco e o mar em torno da Groenlândia.

Contemplo os marinheiros do mundo,

Alguns em meio a tempestades, alguns em meio à noite, fazendo a ronda, vigilantes,

Alguns naufragando indefesos, alguns com doenças contagiosas.

Contemplo os veleiros e os navios a vapor, alguns agrupados nos portos,

alguns fazendo suas viagens (…

5

Vejo as trilhas das estradas de ferro da Terra (…)

Vejo os telégrafos elétricos da Terra,

Vejo os fios que trazem as notícias de guerra,

as mortes,as perdas,os ganhos,as paixões, de minha raça.

6

Vejo o local onde se erguia o antigo Império Assírio, e o Persa, e o da Índia,

Vejo a queda do Ganges sobre a borda alta do Saukara,

Vejo o lugar em que floresceu a idéia da Divindade

encarnada por avatares em forma humana,

Vejo os lugares em que se sucederam os sacerdotes da Terra,

sacrifícios, brâmanes, sábios, lamas, monges,

muftis, exortadores,

Vejo por onde os druidas caminhavam nos bosques de Mona, vejo o visco e a verbena,

Vejo os templos das mortes dos corpos dos deuses, vejo os antigos signatários,

Vejo o Cristo comendo o pão em sua última ceia, entre os jovens e os idosos,

Vejo onde o moço forte e divino, o Hércules, labora fiel e longamente antes de morrer,

Vejo o lugar da vida inocente e rica e o destino desafortunado

do maravilhoso filho noturno,o Baco repleto de membros

(…) Vejo Hermes, insuspeito, morrendo, bem amado, dizendo ao povo:

Não chorem por mim, esta não é minha verdadeira pátria, vivi exilado,

Agora retorno para esfera celestial para onde todos irão quando chegar a vez.

7

(…) Vejo os rastros das expedições modernas e antigas.

Vejo construções inomináveis, mensagens veneráveis de eventos desconhecidos

(…) Vejo o lugar das sagas

(…) Vejo os memoriais erigidos para os guerreiros escandinavos,

Vejo-os erguidos na altura, as pedras trazidas das margens de oceanos incansáveis,

Para que os espíritos dos mortos, quando se sentirem cansados

do silêncio de seus túmulos,

possam se levantar e atravessar os mundos (…)

8

(…) Vejo dois barcos com suas redes, flutuando no mar, à beira do litoral de Paumanok

(…) Vejo dez pescadores esperando: eles descobrem agora

um denso cardume de savelhas,

eles atiram as pontas da rede de arrastão dentro da água,

Os barcos se separam, cada qual rema para uma direção distinta,

Cada um fazendo um círculo no sentido da praia, cercando as savelhas;

A rede é conduzida para a praia por um guindaste por aqueles que ficam em terra,

Alguns dos pescadores descansam nos seus barcos,

Outros estão com os pés negligentemente imersos na água, na altura dos tornozelos,

equilibrados sobre pernas fortes,

Os barcos estão parcialmente acima da água, ela bate contra eles;

Sobre a areia, em pilhas enfileiradas, retiradas das águas, jazem as savelhas

com manchas verdes no dorso.

9

Vejo o desesperançado homem de pele vermelha no Oeste

(…) Ele ouviu a codorniz e contemplou a abelha-que-faz-mel

E com tristeza prepara-se para partir

(…) vejo penhascos, geleiras, corredeiras (…) reparo nos invernos longos

e no isolamento.

Vejo as cidades da terra e me lanço ao acaso para me tornar parte delas,

Sou um verdadeiro parisiense,

Sou um habitante de Viena, São Petersburgo, Berlim, Constantinopla,

Sou de Adelaide, Sidney, Melbourne,

Sou de Londres, Manchester, Bristol, Edinburgh…Madri, Cadiz, Barcelona, Porto,

Lyon, Bruxelas, Berna, Frankfurt, Stuttgart, Turim,

Florença, pertenço a Moscou, Cracóvia, Varsóvia

E para o norte em Christiana ou Estocolmo ou na siberiana Irkutski

ou em alguma rua da Islândia

Desço sobre todas essas cidades e, a partir delas, ergo-me novamente.

 

10

Vejo vapores exalando de países inexplorados,

Vejo tipos de selvagens, arco e flecha, seta venenosa, amuleto, cinturão,

Vejo vilas africanas e asiáticas

(…) Vejo o turco fumando ópio em Aleppo

Vejo as multidões pitorescas nas feiras de Khiva e aquelas no Herat,

Vejo Teerã, vejo Medina e o deserto que as separa, vejo as caravanas

sofrendo para ir em frente,

Vejo o Egito e os egípcios, as pirâmides e os obeliscos,

Vejo as histórias entalhadas, registradas pelos reis conquistadores,

Pelas dinastias, cortadas em lajes de pedra de moer ou em blocos de granito

(…) Vejo todos os lacaios da terra trabalhando, os prisioneiros nas prisões,

Vejo todos os corpos humanos defeituosos

(…) Vejo os homens e mulheres por toda a parte,

Vejo as serenas fraternidades de filósofos, a engenhosidade de minha raça,

Vejo os resultados da perseverança e do engenho de minha raça,

Vejo classes sociais, cores, barbáries, civilizações, caminho entre elas,

misturo-me a elas, indiscriminadamente,

E saúdo todos os habitantes da Terra.

11

Tu, sejas quem for!

Tu, filha ou filho da Inglaterra! Tu, do poderoso Império Eslavo! Tu, russo na Rússia,

Tu, negro, alma divina africana, de cabeça bela e grande,

Formada nobremente, com destino soberbo, nos mesmos termos que eu!

Tu, norueguês, sueco, dinamarquês, islandês! Tu, prussiano!

(…) Tu, amante da liberdade da Holanda! (isso, tu, reserva de onde eu mesmo descendo)

(…) Tu, operário do Reno, do Elba…!Tu, operária, também!

(…) Tu, montanhês residindo sem lei no Taurus ou no Cáucaso!

(…) Tu, persa de corpo modelar cavalgando velozmente em tua sela

(…) Tu, mulher da terra, subordinada aos teus trabalhos!

Tu, judeu peregrinando em tua idade avançada em meio a tantos riscos

para erguer-se uma vez em solo sírio!

Tu, outro judeu, esperando em todas as terras por teu Messias!

(…) Tu, homem japonês, ou tu, mulher japonesa!

Tu, que vives em Madagascar, Ceilão, Sumatra, Bornéu!

Todos vós, dos continentes da Ásia, África, Europa,Austrália,indiferentemente de lugar,

Todos vós, nas incontáveis ilhas dos arquipélagos que há no mar!

E vós, dos séculos vindouros, quando me ouvirdes!

E vós, de cada um dos locais que não especifiquei, mas a quem incluo igualmente!

Saúde para vós! Boa vontade para vós todos, enviados por mim e pela América!

Cada um de nós inevitável,

Cada um de nós sem limites, cada um com o seu direito sobre a Terra,

Cada um de nós recebendo os conteúdos eternos da Terra,

Cada um de nós aqui tão divino quanto qualquer um.

12

(…) Vós, escravizados gotejando, gotas doces ou gotas de sangue!

Vós, formas humanas com insondável e sempre impressionante expressão

de brutalidade!

(…) Tu, cafre, berbere, sudanês!

Tu, desfigurado, inculto, deseducado beduíno!

Vós, vítimas aglomeradas de uma epidemia em Madras, Nanquim, Cabul, Cairo!

Tu, nômade ignorante da Amazônia! Tu, patagônio! Tu, fijiano!

Não prefiro outros a ti,

Não digo uma única palavra contra ti, aí no fundo onde te encontras

(tu hás de vir para frente, quando a hora chegar, para estar ao meu lado).

13

Meu espírito compassivo e determinado circundou a Terra inteira,

Procurei os meus iguais e os meus amantes e os encontrei prontos para mim

em todas as terras,

Creio que uma conexão divina me fez entrar em sintonia com eles.

 

Vós, navios a vapor,creio que me ergui convosco e viajamos por continentes longínquos

e neles caímos;

por alguma razão creio que fui convosco carregado, ó ventos;

E vós, águas, toquei com meus dedos cada praia convosco,

Corri através dos mesmos leitos pelos quais já correram todos os rios ou canais do globo

Firmei minha posição nas bases das penínsulas e no alto dos rochedos para bradar de lá:

Salut au monde!

Cidades nas quais penetram a luz ou o calor, eu mesmo as penetro,

Todas as ilhas para as quais os pássaros voam em seu roteiro, eu mesmo vôo

em meu roteiro

Na direção de todos vós, em nome da América,

Eu ergo nas alturas a mão perpendicular, faço o sinal

Para que permaneça visível após mim, para sempre,

Para todos os abrigos e lares da humanidade.

 

O significado de Folhas de Relva

Não para excluir ou demarcar ou selecionar os maus de suas massas formidáveis

(até mesmo para expô-los),

Mas para adicionar, fundir, completar, entender –e celebrar o bom e o imortal

Insolente esta canção, suas palavras e seu escopo,

Para abarcar vastos domínios de espaço e tempo,

A evolução —cumulativa— desenvolvimentos e gerações.

Tendo iniciado em madura juventude e prosseguido continuamente,

Vagueando, perscrutando, brincando com todos —guerra, paz,

absorvendo de dia e à noite,

Nem por uma breve hora abandonando minha tarefa,

Termino-a aqui na doença, na pobreza e na velhice.

Eu canto a vida e, contudo, importo-me bastante com a morte:

Hoje a sombria Morte persegue meus passos, minha forma assentada,

e assim tem sido por anos:

Aproxima-se de mim algumas vezes e ficamos face a face.

 

O que não foi exprimido

Como alguém ousa dizê-lo?

Após os ciclos, os poemas, os cantores, as peças,

Ostentando o que da Jônia, da Índia, Homero, Shakespeare,

As estradas espessamente pontilhadas há muito, muito tempo, as áreas,

As constelações brilhantes e a Via Láctea, as pulsações da Natureza recolhidas,

Todas as paixões retrospectivas, heróis, guerra, amor, adoração,

As sondas de todas as eras lançadas em máximas profundezas,

Todas as vidas humanas, gargantas, desejos, cérebros,

a expressão de todas as experiências;

Após as canções incontáveis, longas ou curtas, todas as línguas, todas as terras,

Algo ainda não narrado na voz da poesia ou nos impressos, algo faltando

(Quem sabe? O melhor ainda sem expressão e faltando).

Canção do Universal

1.

Vem, disse a Musa,

Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,

Canta-me o Universal.

Nesta nossa terra vasta,

Em meio à densidade imensurável e à escória,

Guardada e segura dentro do coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,

Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.

2.

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,

Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,

Emitisse sucessivas ordens absolutas.

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,

Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,

Para ela todas as constelações rolam através do espaço.

Em rotas espirais por entre longos desvios (…)

Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,

Por ela o real tende ao ideal.

Por ela a mística evolução,

Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,

Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,

Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,

Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,

Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,

Apenas o bom é universal.

3.

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,

Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,

Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

Das imperfeições das nuvens mais escuras,

Atira sempre um raio de perfeita luz,

Um brilho da glória celeste.

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,

Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,

Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,

Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

Ó olhos abençoados, corações felizes,

Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor

Através do labirinto.

4.

E tu, América,

Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,

Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

Tu também envolveste todos

Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas

Por estradas largas e novas.

Tendendo ao ideal.

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti…

O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,

Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,

Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,

Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,

Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,

A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,

Saúde, paz, salvação universal!

Será um sonho?

Não, mas a ausência dele é o sonho,

E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,

E o mundo inteiro é apenas sonho.

Ao jardim, o mundo retorna

Ao jardim, o mundo retorna se elevando,

Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,

O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,

Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,

Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,

Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,

Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,

por razões, quase todas, assombrosas

Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,

Feliz com o presente, feliz com o passado,

Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,

Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.

Eras e eras retornando a intervalos

Eras e eras retornando a intervalos,

Intocadas, vagando imortalmente,

Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,

Eu, cantor de canções adâmicas,

Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,

Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,

Oferecendo a mim mesmo,

Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,

Fruto da minha carne.

Como Adão ao amanhecer

Como Adão ao amanhecer,

Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.

Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,

Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,

Não tenhas medo do meu corpo.

Ó meu eu! Ó vida!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,

Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,

Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu

E quem é mais sem fé?)

De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,

Dos pobres resultados de tudo,

Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,

Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,

A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?

Ó meu eu! Ó vida!

 Resposta:

Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.

Desde os rios confinados à dor

Desde os rios confinados à dor (…)

Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,

Mesmo que eu viva solitário entre os homens,

Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)

Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!

Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!

Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!

Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)

(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,

Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,

Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)

A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,

O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)

……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,

A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,

O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,

O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono

(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:

Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,

Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,

Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).

A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)

(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,

Ó deixe-me estar perdido se necessário for!

Ó tu e eu! (…)

O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro

E nos exaurimos se necessário for.)

(…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos

Pelos meus cabelos e minha barba

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem

Até desmaiá-lo pelo excesso

(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,

Desde o abraço do companheiro de cama durante a  noite

(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre

(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir

(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),

Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,

Desde a noite em que vou emergindo fugaz,

Celebro-te, ato divino…………………………………………………………

Do encapelado oceano da multidão

Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,

Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,

Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,

Pois não poderia morrer antes de olhar-te,

Pois temia que mais tarde poderia te perder”.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.

Volta em paz para o oceano, meu amor,

Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,

Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!

Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,

Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,

Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;

Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,

Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.

Meu legado

O homem de negócios de vastas aquisições,

Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,

Preparando para a partida,

Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,

Bens, fundos para uma escola ou hospital,

Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,

Relíquias de pedras preciosas e ouro.

Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,

Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,

Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,

Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,

E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,

Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.

Cidade de orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,

Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,

Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,

Nem teus espetáculos, que me recompensarão,

Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,

Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,

Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa

Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,

O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,

Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,

Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

A certo civil

Pediste-me rimas doces?

Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?

Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?

Pois eu não estava cantando anteriormente

Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora

(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos

São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,

Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,

Conduzindo o funeral dos oficiais);

O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?

Assim sendo, abandona meus trabalhos,

Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,

Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.

Saindo de trás desta máscara (para confrontar um retrato)

1.

Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,

Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,

Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,

Em cada um para cada um

(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,

Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),

Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,

Este filme da fervura de Satã no abismo,

Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,

Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,

Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,

Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,

Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);

Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,

Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,

A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.

2.

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,

De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade

(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),

Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,

Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,

Ou numa janela aberta;

Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,

Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,

E depois viajar, seguir viagem.

Uma aranha paciente e silenciosa

Uma aranha paciente e silenciosa,

Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,

Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,

Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,

Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.

E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,

Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,

Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,

Procurando as esferas para conectá-las,

Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,

Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.

Mannahatta

O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,

Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,

Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente

As rápidas ondas do mar que vêm e vão.

Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo

Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,

Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,

Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,

Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,

As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.

O lugar-comum

O lugar-comum eu canto;

Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!

Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;

O ar livre eu canto, liberdade, tolerância

(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),

O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,

Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,

A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.

Travessia da balsa do Brooklynfragmento

2.

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,

O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,

Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,

As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,

As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões

E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,

A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,

Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,

A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,

Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste

E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,

Outros verão as ilhas grandes e pequenas;

Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,

O sol nascido há meia hora;

Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,

Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,

O retorno do mar no refluxo da maré.

9.

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!

Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!

Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor

Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!

Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!

De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!

Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!

Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!

Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)

Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!

(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos

Pensando em ti;

(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura

Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!

Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,

Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!

Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,

Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!

Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!

Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!

Lançai sombras negras sobre o anoitecer!

Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!

As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,

Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,

Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,

Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,

Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,

Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão

nada mais duradouro que vós mesmos.

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,

Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,

E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,

Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,

Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,

Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,

Fornecei vossas partes rumo à eternidade,

Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.

Até breve!

Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.

Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,

Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.

Quando a América fizer o que foi prometido,

Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,

Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,

Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,

Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.

Pressionei para entrar por meu direito próprio,

Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,

E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.

A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;

E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!

E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.

Anuncio a elevação das pessoas naturais,

Anuncio a justiça triunfante,

Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,

Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.

Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,

Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,

Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra

parecerem insignificantes.

Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,

Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,

Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),

Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,

Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,

Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,

Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.

Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,

Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.

(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,

Parece-me que estou morrendo.

Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,

Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.

Gritando eletricamente, usando a atmosfera,

Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)

…………….curiosas mensagens embrulhadas,

Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,

Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la

Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,

Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,

Promulgando para eles as tarefas que tenho,

Para as mulheres legando certos sussurros de mim…

Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)

Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),

O melhor de mim então, quando não mais visível,

No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.

(…) Haverá um singelo adeus final?

Cessam minhas canções, eu as abandono,

Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.

Companheiro, este não é um livro,

Aquele que toca isto toca um homem (…)

Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,

Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.

(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,

É delicioso, basta.

Basta, ó feito improvisado e secreto,

Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.

Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,

Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,

Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia

E que se retira por um tempo,

Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,

Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!

Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,

Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!

Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,

Amo-te, deixo a materialidade,

Sou eu desencarnado, triunfante, morto.

Canção da estrada aberta

1.

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

A Terra é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.

Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.

2.

Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,

Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,

Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,

O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,

O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,

A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,

O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,

O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,

O regresso da cidade,

Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,

Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.

3.

(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!

Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…

Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!

Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das  docas!

(…)…………………………………………………..Vós, arcos!

Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!

Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós

E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,

De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,

E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.

4.

A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,

Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,

A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar

Nos locais em que não a desejam,

A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.

Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,

Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,

Há de ser mais para mim que meus poemas.

Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre

E também todos os poemas livres,

Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,

Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,

E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,

Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.

5.

Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.

Inalo grandes e espaciais correntes de ar,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim

E eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

6.

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,

Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:

É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,

A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,

A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,

Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,

É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,

Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,

De tal modo a provocar que venha para fora da alma.

Agora eu reexamino filosofias e religiões,

Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,

Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens

E das correntes que fluem.

(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;

Onde está ele, que remove as cascas por ti  e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.

Sabes o que significa ser amado por estranhos?

Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?

7.

Aqui está a emanação da alma,

A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,

Que sempre provocam polêmica,

Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?

Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim

Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?

Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?

Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,

Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?

(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?

O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?

O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?

O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?

8.

A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós

(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,

Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer

Com saudade do contato.

9.

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!

Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

A terra jamais se cansa,

Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)

Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,

Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.

Allons! Não devemos parar aqui,

Por mais doces que sejam os bens armazenados,

Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,

Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas

Não devemos ancorar aqui,

Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.

10.

Allons! As seduções hão de ser maiores,

Navegaremos sem rumo por mares bravios,

Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam

E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,

Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:

Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…

O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.

Allons! Contudo esteja alerta!

Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,

(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,

Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)

11.

Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…

12.

 

Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!

Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,

são as mais grandiosas mulheres,

(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…

Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,

Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,

Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,

Carinhosos condutores de crianças,

Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,

Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,

Cada qual emergindo daquele que o precedeu,

A saber suas próprias etapas diversas…

Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita

Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,

Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,

Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,

Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.

13.

 

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,

Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,

Fundindo tudo na viagem,

Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,

Não concebendo tempo algum (…)

Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)

Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)

Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,

Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,

Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas

perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,

Do progresso das almas dos homens e das mulheres,

Ao longo das grandes estradas do universo (…)

Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,

Mas sei que vão na direção do melhor (…)

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!

É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,

Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas

Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)

Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)

A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,

Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,

Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,

Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.

14.

 

Allons! Através de lutas e guerras!

Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.

Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,

Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,

Escassez, inimigos coléricos, deserções.

15.

Allons! A estrada está diante de nós!

Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!

Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no púlpito!

Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

A AURA PERDIDA: pequena antologia baudelairiana

A perda da aura

“E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”

“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”

“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”

“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”

Ao leitor

A tolice, o erro, o pecado, a usura,

Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,

E alimentam nossos amáveis remorsos,

Como os mendigos nutrem seus piolhos.

Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos

Nós colocamos alto preço nas nossas confissões

E nós entramos alegremente no caminho lamacento

Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas

Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto

Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado

E o rico metal de nossa vontade

É todo volatilizado por esse sábio alquimista.

É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!

Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;

Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,

Sem horror, através de trevas que fedem.

Assim como o devasso pobre que beija e suga

O seio martirizado de uma já gasta vadia,

Nós queremos de súbito um prazer clandestino

Que nós esprememos como uma velha laranja.

Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais

Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,

E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões

Desce, rio invisível, com surdas queixas.

Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,

Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,

O desígnio banal de nossos patéticos destinos,

É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.

Mas entre os chacais, as panteras, os linces,

Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,

Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,

No bestiário infame de nossos vícios,

Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!

Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,

Ele voluntariamente faria da terra um monturo

E numa bocejada engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,

Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé

Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,

Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!

Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861

Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…

Eu disse:

Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…

Quantas vezes…

Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,

Teu gosto pelo infinito,

Que em tudo, no próprio mal se proclama,

Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,

Teus subúrbios melancólicos,

Tuas pensões,

Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,

Tuas igrejas vomitando a reza musicada,

Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,

Teus desencorajamentos;

E teus fogos de artifício, erupções de alegria,

Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,

Teu venerável vício entremeado na seda,

E tua risível virtude, de olhar infortunado,

Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…

Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,

Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.

Teus domos de metal os quais incendeia o sol,

Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,

Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,

Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,

Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,

Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,

Se engolfando no Inferno como Orenocos,

Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos

Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,

Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever

Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.

Pois de cada coisa extraí a quintessência,

Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.

O sol

Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas

Persianas abrigam secretas luxúrias,

Quando o sol cruel atira setas redobradas

Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,

Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,

Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas,

Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.

Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,

Acorda nos campos os vermes como as rosas;

Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,

E enche os cérebros e as colméias de mel.

É ele que rejuvenesce os aleijados

E os deixa alegres e doces como donzelas,

E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem

No imortal coração que sempre deseja florescer!

Quando, como um poeta, ele desce às cidades,

Enobrece a categoria de coisas mais vis,

Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,

Em todos os hospitais e em todos os palácios.

 

O  anoitecer ao crepúsculo

Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;

Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu

Se fecha lentamente como uma grande alcova,

E o homem impaciente se transforma em besta fera.

Ó noite, amável noite, desejada por aquele

Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,

Nós trabalhamos! –É a noite que alivia

Os espíritos devorados por uma dor selvagem,

O sábio obstinado cuja testa entorpece,

E o operário curvado que retoma sua cama.

Entretanto demônios malsãos na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócios,

E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros

Através dos clarões que açoitam o vento

O Meretrício se incendeia pelas ruas;

Como um formigueiro ele trama suas passagens;

Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,

Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;

Ele se desloca no seio da cidade de lama

Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.

Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,

Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;

As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,

Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,

E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,

Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,

E forçar docemente as portas e os cofres

Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.

Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,

E tapa tua orelha a esse bramido.

É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!

A escura Noite os sufoca; vai findando

Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;

O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um

Não virá mais atrás da sopa aromática,

No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.

Ademais a maior parte deles jamais conheceu

A doçura do lar e jamais tinha vivido!

A uma passante

A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.

Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,

Uma mulher passa, com mão suntuosa,

Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.

Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,

No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,

A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade

Cuja mirada me fez subitamente renascer,

Não te verei mais senão na eternidade?

Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!

Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,

Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!

O cisne A Victor Hugo

Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,

Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu

A imensa majestade de tuas dores de viúva,

Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu

Fecundou de súbito minha memória fértil,

Quando eu atravessava o novo Carrossel.

A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade

Muda mais depressa, infelizmente!,  que o coração de um mortal);

Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,

Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,

A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,

E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.

Ali se expunha outrora uma feira de animais,

Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus

Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo

Levanta um escuro furacão no ar silencioso,

Um cisne que havia fugido do seu gradil,

E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,

No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,

Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,

Banhava nervosamente suas asas na poeira,

E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:

“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”

Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,

Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,

Para o céu irônico e cruelmente azul,

Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,

Como se dirigisse censuras a Deus!

II

Paris muda! Mas nada na minha melancolia

Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,

Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,

E minhas recordações são mais pesadas que rochas.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime;

Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,

Como os exilados, ridículo e sublime,

E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,

Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,

Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.

À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;

Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!

Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,

Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,

Os coqueiros ausentes da soberba África,

Por trás da muralha interminável da neblina.

Em qualquer um que perdeu e não recuperou

Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas

E mamam a Dor como uma boa loba!

Nos magros órfãos fenecendo como flores!

Assim na floresta onde meu espírito se exila,

Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!

Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,

Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!

Sonho parisiense

I

Dessa terrível paisagem,

Tal que nenhum mortal jamais viu,

Esta manhã ainda a imagem,

Vaga e longínqua, me arrebata.

O sono é cheio de milagres!

Por um capricho singular,

Eu havia banido desses espetáculos

O vegetal irregular.

E, pintor orgulhoso do meu gênio

Eu saboreava na minha tela

A embriagante monotonia

Do metal, do mármore e da água.

Babel de escadas e arcadas,

Era um palácio infinito,

Cheio de tanques e cascatas

Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;

E cataratas lentas

Como cortinas de cristal

Suspendiam-se, resplandecentes,

Por muralhas de metal.

Não árvores, mas colunas

Os tanques imóveis circundavam,

Onde gigantescas naiâdes,

Iguais às mulheres, se miravam.

Lençóis de água abundando, azuis,

Entre cais rosas e verdes,

Seguindo milhões de léguas

Até os confins do universo.

Havia pedras inauditas

E ondas mágicas; havia

Imensos espelhos ofuscados

Por tudo que elas refletiam.

Negligentes e taciturnos

Ganges, no firmamento,

Vertiam o tesouro de suas urnas

os abismos de diamante.

Arquiteto das minhas feéricas fantasias,

Eu fazia, a meu bel prazer,

Sob um túnel de pedrarias

Passar um oceano represado;

E tudo, mesmo a cor negra,

Parecia polido, claro, irisado;

O líquido engastava sua glória

No raio cristalizado.

Nem astro de alhures, nem vestígios

Do sol, mesmo no baixo céu,

Para iluminar esses prodígios

Que brilhavam com um fogo próprio!

E sobre essas movediças maravilhas

Pairava (terrível novidade!

Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)

Um silêncio de eternidade.

II

Reabrindo meus olhos em febre

Eu vi o horror do meu muquifo

E senti, entrando em minha alma

A pontada de desassossegos malditos.

O pêndulo com acentos fúnebres

Anunciava brutalmente o meio-dia

E o céu vertia trevas

Sobre o triste mundo embotado.

Uma carniça

Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada

Uma bela manhã de verão tão doce:

Na curva de uma vereda uma carniça infame

Num leito semeado de seixos.

De pernas pro ar, como uma mulher safada,

Destilando e suando miasmas,

Abria de maneira desleixada e cínica

Seu ventre cheio de exalações.

O sol brilhava sobre tal podridão,

Como querendo cozê-la ao ponto

Para dar multiplicado à Grande Natureza

Tudo o que num conjunto ela reunira.

E o céu olhava a carcaça soberba

Como uma flor a desabrochar,

O fedor era tão forte que, sobre a relva,

Tu crias desfalecer.

As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,

De onde saíam negros batalhões

De larvas que corriam como um espesso líquido

Ao longo desses vivos andrajos.

Tudo isso descia, subia, como uma onda,

Que espumava cintilando,

Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,

Vivia multiplicando-se.

E o mundo tocava uma estranha música

Como água corrente e vento,

Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados

Agita e repousa em sua peneira.

As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.

Um esboço lento a se delinear,

Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba

Apenas de memória.

Atrás das rochas uma cadela inquieta

Nos fixava um olho irado

Vigiando o momento de reaver no esqueleto

O bocado que ela havia largado.

-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,

A essa horrível infecção,

Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,

Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,

Após os últimos sacramentos,

Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,

Mofar em meio às ossadas.

Então, ó minha bela! Digas ao verme

Que te devorará de beijos

Que eu guardei a forma e a essência divina

De meus amores decompostos!

A musa doente

Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?

Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,

E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez

A loucura e o horror, frios e taciturnos.

O súcubo esverdeado e o rosado duende

Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?

O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,

Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?

Queria eu que exalando o odor da saúde

Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado

E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,

Com os sons numerosos das sílabas antigas,

Onde revivem alternadamente o pai das canções,

Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.

O albatroz

Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem

Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,

Que seguem, indolentes companheiros de viagem,

O navio que desliza por abismos amargos.

Tão logo eles o largam sobre o convés

Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,

Largando lastimosamente suas grandes asas brancas

Como remos arrastados pelos lados.

Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!

Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!

Um, açula seu bico com um cachimbo,

Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!

O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens

Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,

Exilado no solo em meio à balbúrdia,

Suas asas de gigante o impedem de andar.

 

 

 

O letes

Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,

Tigre adorado, monstro de ar indolente;

Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos

Na espessura de sua juba pesada;

Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume

Sepultar minha cabeça dolorida,

E respirar, como uma flor murcha,

O doce ranço do meu amor defunto.

Quero dormir! Dormir de preferência a viver!

Num sono tão doce como a morte,

Eu espalharei meus beijos sem remorso

Sobre teu belo corpo polido como o cobre.

Para engolir meus soluços apaziguados

Nada se compara ao abismo do teu leito;

O esquecimento potente habita teus lábios,

E o Letes corre nos teus beijos.

A meu destino, doravante minha delícia,

Obedecerei como um predestinado;

Mártir submisso, inocente condenado,

Cujo fervor provoca o suplício,

Sugarei, para afogar meu rancor,

O elixir contra a tristeza e a boa cicuta

Nas arestas encantadoras desse colo ferino

Que nunca abrigou um coração.

A viagem A Maxime du Camp

I

Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,

O universo é igual ao seu vasto apetite.

Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!

Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!

Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,

O coração repleto de rancor e desejos amargos,

E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama

Embalando nosso infinito no finito dos mares:

Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;

Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,

Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,

Circe tirânica com perigosos perfumes.

Para não serem transformados em bestas, embriagam-se

De espaço e de luz e de céu abrasados,

O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,

Apagando lentamente a marca dos beijos.

Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem

Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,

De sua predestinação jamais se desviam.

E, sem saber por que, dizem sempre: Avante!                             !

Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,

E que sonham, como um alistado, com o canhão,

Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,

E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!

II

Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola

Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência

A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar

Como um anjo cruel que vergasta sóis.

Singular destino cuja meta se desloca

Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!

Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,

Para encontrar o repouso corre como um louco!

Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;

Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!

Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:

“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.

Cada ilhota avistada pelo vigia

É um Eldorado prometido pelo Destino;

A imaginação que enfeita sua orgia

Não encontra senão um recife na claridade da manhã.

Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!

É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,

Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,

Cuja miragem torna o abismo mais amargo!

Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,

Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;

Seu olhar iludido descobre uma Cápua

Onde a vela ilumina apenas um antro.

III

Assombrosos viajantes! Que nobres histórias

Lemos em vossos olhos profundos como os mares!

Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,

Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.

Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!

Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,

Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela

Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.

Dizei, o que vistes?

IV

“Nós vimos astros

E ondas; nós vimos areais também;

E, apesar de choques e de imprevistos desastres

Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.

A glória do sol sobre o mar violeta,

A glória das cidades ao pôr-do-sol,

Acenderam em nossos corações um ardor inquieto

De mergulhar num céu de reflexo sedutor.

As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,

Jamais continham o atrativo misterioso

Daquelas que o acaso compunha com nuvens

E sempre o desejo nos deixava em desassossego!

Gozar ao desejo acrescenta a força.

Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,

Enquanto engrossa e endurece sua casca,

Teus ramos querem ver o sol mais de perto!

Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa

Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,

Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,

Irmão que considerais belo o que vem de longe!

Nós temos saudado ídolos com trompa,

Tronos constelados de jóias luminosas;

Palácios lapidados cuja feérica pompa

Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.

Costumes que som para os olhos uma embriaguez;

Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,

E jograis sábios que a serpente acaricia.”

V

E depois? E depois ainda?

VI                            “Ó cérebros pueris!

Para não esquecer a coisa essencial,

Vimos por toda parte, e sem haver buscado,

De alto a baixo da escada fatal,

O espetáculo tedioso do imortal pecado.

A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,

A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,

O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,

Escravo do escravo e valeta de esgoto.

O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,

A festa que condimenta e perfuma o sangue;

O veneno do poder obcecando o déspota,

E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.

Muitas religiões semelhantes à nossa,

Todas escalando o céu; a Santidade,

Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,

Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.

A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,

E, louca hoje como o foi outrora,

Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:

“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!

E os menos tolos, temerários amantes da Demência,

Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,

E refugiando-se no vasto ópio!

–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”

VII

Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!

O mundo, monótono e pequeno, hoje,

Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:

Um oásis de horror num deserto de tédio!

É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;

Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,

Para enganar o inimigo vigilante e funesto,

O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso

Como o Judeu Errante e como os Apóstolos

Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,

Para fugir ao Gladiador infame; e há outros

Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.

Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha

Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”

Assim como de outra feita nós partíamos para a China,

Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,

Nós navegávamos no mar das Trevas,

Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,

Escutando essas vozes encantadoras e funestas,

Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer

O Lótus perfumado! É aqui a vindima

Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;

Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira

Dessa sesta que não tem fim?”

De um sotaque familiar se adivinha o espectro:

Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.

“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”

Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.

VIII

Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!

Se o céu e o mar são negros como nanquim,

Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!

Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!

Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,

Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?

No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.

EPILOGO , em Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)

Coração contente, subi a montanha

De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,

Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,

Onde toda enormidade floresce como flor.

Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,

Que por lá não ia espalhar um pranto vão;

Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,

Queria me inebriar da enorme prostituta

Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.

Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias

Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,

Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,

E bandidos, como tais ofereceis prazeres

Que não compreendem os profanos vulgares.

 

“Quero inebriar-me com a enorme prostituta”: A capital do lirismo moderno, Baudelaire e Benjamin

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de agosto de 1995)

I

No meu artigo anterior, comentei Paris no século XX, de Júlio Verne, afirmando que, malgrado antecipação do futuro, o texto na verdade era uma visão crítica dos perigos da própria Paris do século XIX, a qual justamente passava por profundas transformações em seu perfil urbano.

Podemos encontrar tais transformações problematizadas nos “pequenos” poemas em prosa de SPLEEN DE PARIS (1869), de Charles Baudelaire, que reaparece em nova tradução pela Imago (realizada por Leda Tenório da Motta para a coleção Lazuli), e que, lido com o romance de Verne, prova de forma definitiva por que o grande crítico alemão Walter Benjamin, no seu belíssimo Charles Baudelaire- Um lírico no auge do capitalismo (em tradução de Carlos H. Barbosa e Hemerson A. Baptista para o volume 3 das Obras escolhidas de Benjamin, pela Brasiliense), mostra o poeta francês como a consciência lírico-crítica do século passado, por sua apreensão da poesia das cidades: “Aquilo que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa…”

O americano Marshall Berman, no melhor ensaio de seu Tudo o que é sólido desmancha no ar envereda por um caminho similar, mas está longe de escrever como Benjamin e incorre no erro de fazer do texto literário suporte das suas reflexões, o que sempre redunda numa simplificação impertinente e incômoda.

II

Esta vida é um hospital em que cada doente é possuído pelo desejo de mudar de leito”. Um dos grandes temas de SPLEEN DE PARIS é, obviamente, o tédio (spleen) advindo da vida obsessivamente institucionalizada que a burguesia instaurou e que engaiola e manieta o cotidiano de forma árida, amesquinhadora. Tudo é válido para fugir dele: Convite à viagem, um dos mais famosos e interessantes textos do livro, nos fala da plenitude do imaginário País da Cocanha e deve ter influído Manuel Bandeira a sonhar seu clássico e libertário Pasárgada: “Sim, é lá que é preciso respirar, sonhar e prolongar as horas em sensações infinitas/ (…)/ Todo homem tem uma dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, mas do nascimento à morte, quantas horas tem de positivo júbilo…?”

Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentido da insuficiência da vida desse que é, com Flaubert, o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua cotidiana, corresponde também a tentação da metrópole, dessa Paris transformada, desse fervilhante mundo urbano que o artista, na tentativa de descobrir até nos seus aspectos mais repugnantes e degradantes a “revelação” que o transcenda e sublime, explora exaustivamente.

Baudelaire fez um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu intérprete, sua prostituta sagrada e oracular, o bebedor de quintessências, que perde sua auréola (a aura benjaminiana) e se rejubila: “Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você”.

Sendo impossível reproduzir o pensamento de Baudelaire em sua beleza e contundência, a tentação é de citá-lo indefinidamente: “Sabes bem, ó Satã, Senhor de meu desespero…/Queria inebriar-me com a enorme prostituta…/Amo-te, ó capital infame!Cortesãs/ E bandidos, como tais ofereceis prazeres/ Que não compreendem os vulgares profanos…”Ou afirmar com Benjamin: “A conivência com essa dissolução lhe saiu cara. Mas é a lei da sua poesia que paira” em toda a melhor produção poética dos últimos cem anos.

1 Nota de 2012Além dessa tradução, eu tenho a clássica versão de Aurélio Buarque de Holanda, numa edição da Nova Fronteira (mas publicada pela José Olympio em 1950, na coleção Rubáyat) e a de Gilson Maurity, publicada pela Record em 2006 (na coleção Grandes Traduções).Ambas saíram como Pequenos Poemas em Prosa. Pela Hedra em 2007 saiu a tradução de Dorothée de Bruchard que também privilegia no título Pequenos Poemas em Prosa, mas logo ao lado traz O spleen de Paris.

O autor da introdução na edição da Record, Ivo Barroso, lista como a versão brasileira mais antiga a de Paulo M. Oliveira (supostamente), que saiu pela Athena, em 1937.

 

16/05/2012

CIDADÃO CRUZ: os 50 anos de “A morte de Artemio Cruz”

Texto publicado na revista eletrônica dEsEnrEdos número 13, de abril-maio-junho de 2012

revista dEsEnrEdoS – ISSN 2175-3903 – ano IV – número 13 – teresina – piauí – abril maio junho de 2012:

http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/13_-_ensaio_-_alfredo_monte.p

GENERALIDADES

Para a minha geração, a dos nascidos nos anos 1960, a grande referência em se tratando de alta qualidade, quando começávamos a ler a literatura contemporânea (e isso numa época em que a prática teórica—Derrida, Deleuze et caterva—ameaçava engolir o exercício literário, cooptando-o ao seu próprio discurso), eram os autores hispano-americanos. De nomes mais recentes, como García Márquez, Vargas Llosa, Fuentes, Cabrera Infante, Lezama Lima, a outros mais antigos (Neruda, Borges, Paz, Carpentier e Onetti), o boom latino-americano, como ficou conhecido, teve como carro-chefe, é claro, Cem anos de solidão (1967).

Mas já podemos falar em meio-século do boom, uma vez que várias obras que ficaram famosas na esteira dele e de seu maior sucesso chegaram a essa vetusta idade, como foi o caso, no ano passado, de Sobre heróis e tumbas (Ernesto Sábato), como será o caso, ano que vem, de O jogo da amarelinha (Julio Cortázar), e é o caso, neste ano de 2012, de  Histórias de cronópios e famas (Cortázar), La mala hora- O veneno da madrugada  & Os funerais da mamãe grande (García Márquez), O Século das Luzes (Alejo Carpentier).

É o caso, também, dos dois títulos mais sólidos (ainda) da extensa e prolífica carreira do mexicano Carlos Fuentes: A morte de Artemio Cruz & Aura.

Mencionei a geração ao qual pertenço. Pois bem, nos anos 1980, como seria de esperar, eu tinha lido e gostado muito dessa literatura tornada visível para o mundo através do boom e ainda assim mantinha uma atitude de reserva para com Fuentes, atitude que não era só minha, pois embora admirado por muitos, outros o consideravam pretensioso e ruim (ele foi alvo, por exemplo, de várias tiradas sarcásticas do falecido Léo Gilson Ribeiro). Como eu mesmo tivera uma experiência indigesta, com Terra nostra, romance de 1975, resolvi tirar a teima com Hilda Hilst, com quem me correspondia em meados daquela década. E ela me recomendou a leitura dos dois livros que se tornam cinquentenários agora, os quais achava lindos, especialmente Aura.

Com a devida vênia à autora de A obscena senhora D, vou deixar de lado esse pequeno (e perfeito) texto e me concentrar no romance.

A morte de Artemio Cruz representa uma das grandes experiências narrativas através das quais os hispano-americanos nos deram as últimas realizações do espírito do Modernismo, isto é, o romance como totalidade enciclopédica, abarcando o mundo, ou pelo menos dando essa impressão ao leitor. Aliás, como tentarei demonstrar, o romance de Fuentes, publicado quando o autor tinha 34 anos (nasceu em 1928), é uma espécie de síntese do gênero.

Permaneçamos ainda no umbral, sem adentrar o livro propriamente dito: como outros autores do boom, Fuentes apresenta a influência de Faulkner (mais visível do que a de Joyce e John dos Passos) e também podemos notar indícios de que ele lia atentamente as tentativas de renovação da linguagem ficcional do noveau roman e sua contrapartida cinematográfica, a nouvelle vague. Afinal, eram tempos de propostas de revolução: da sociedade, através da militância e do engajamento; das formas artísticas; do comportamento. Tempos que já se nos afiguram nostálgicos.

No caso específico de Fuentes, além de Faulkner e dessas experiências que lhe eram contemporâneas, ainda havia uma presença muito forte, quase opressiva, ainda mais se levarmos em conta o tema que escolheu: em 1955, pouquíssimos anos antes, Juan Rulfo publicara o paradigmático Pedro Paramo, possivelmente o título mais extraordinário da chamada “novela de la tierra”, onde, malgrado a sofisticação da linguagem, o princípio-guia ainda é o regionalismo.como painel de problemas sociais como atraso, miséria, exploração latifundiária e outros fantasmas presentes na vida latino-americana.

 

 

AINDA GENERALIDADES (mas nem tanto)

A morte de Artemio Cruz narra a história de um poderoso latifundiário-empresário-político do século XX, que aos 71 anos está moribundo devido a graves complicações intestinais. Ele não vivia com a esposa (morrerá durante uma operação de emergência) e, apesar de ter dado um emprego ao genro, mantinha distância da família, que está preocupada com o seu testamento, tanto que várias vezes lhe perguntam onde está e Artemio tem o prazer perverso de fazer burlas com elas (a esposa e a filha; houve um filho, Lorenzo, que morreu na Guerra Civil espanhola, lutando pela causa republicana).

Artemio Cruz nasceu em 1889, filho bastardo de um truculento alcaide que foi assassinado por outro do mesmo naipe, que lhe tomou as terras. O menino foi criado por um tio, zelando pelos escassos membros remanescentes da família do pai (com os quais não lhe permitem ter contato), que vivem num casarão arruinado e sobrevivem graças ao trabalho de tio e sobrinho (a caracterização das pessoas do lugar, das relações entre elas, particularmente a da velha senhora, está entre os momentos mais fortes da “presença” faulkneriana no livro, lembrando a atmosfera de romances como Absalão, Absalão!).

Para não entregar toda a história para quem deseje ler o romance, adianto que após os 13 anos, Artemio “cai na vida”, e isso significa a Revolução Mexicana, aquela convulsão do país, no final da qual ele emerge como proprietário de terras através de trâmites faulknerianos (o autor de O povoado e criador de Flem Snopes, reconheceria bem os métodos do protagonista de Fuentes): ele esteve preso com Gonzalo Bernal, filho de Dom Gamaliel, principal dono de terras de Puebla, e o companheiro de cela lhe contou o suficiente sobre o pai. Conseguindo escapar do fuzilamento, e secundado pela mudança de forças no país, Artemio Cruz procura a casa de Gonzalo (primeiro apurando a  situação de sua família na comunidade, onde os colonos são todos devedores de Dom Gamaliel, e ressentidos com tal posição “confortável” mesmo na crise que o país atravessa); Dom Gamaliel,  pressentindo que ali está o homem que irá derrotar sua classe social, que poderá mesmo tomar-lhe as terras, com a autoridade de quem lutou na Revolução, acaba comprando-o através do casamento com a filha, Catalina.

O casamento durará oficialmente a vida toda, mas Catalina (uma personagem curiosa, que parece ao mesmo tempo meio faulkneriana e meio fruto do dramalhão tipicamente mexicano[1]), apesar de amar o marido e ter prazer com ele, manterá uma atitude de desprezo que os afastará, principalmente depois da morte de Lorenzo (Catalina culpará Artemio pela morte do filho, pois ele o criou longe da influência da mãe, para que ele não perdesse seu instinto aventureiro e destemido, e não ficasse um burguesinho mimado e temeroso).

Já antes, mas com mais evidência após o filho ter morrido, Artemio vai se apropriando de terras, vai entrando na política através das negociatas e do fisiologismo, e começa a ser um testa-de-ferro para empreendimentos norte-americanos que exploram o México. Fica cada vez mais rico, mora numa mansão barroca, longe da família, sustentando uma amante jovem (Lilia), após um caso amoroso frustrado com Laura, mulher de um diplomata americano (na juventude, durante seu período “revolucionário”, ele também teve um grande amor, Regina, que ele estuprou, e depois começou a segui-lo de povoado em povoado, até ser enforcada, junto com outras pessoas, como retaliação de uma tropa inimiga).

E, assim chega aos 71 anos para viver sua agonia…

 

ENTRANDO NA NARRATIVA PROPRIAMENTE DITA

Os fatos são esses acima. Ou pelo menos, alguns fatos. Se todos, se alguns, isso não importa muito, pois A morte de Artemio Cruz é construído de uma forma através do qual eles se revelam problemáticos, prismáticos e quase fantasmagóricos.

A narrativa intercala (e, em certos momentos, justapõe) três focos narrativos: o primeiro, geralmente curto, em primeira pessoa; o segundo, também nunca muito extenso, em segunda (um procedimento formal até hoje pouco usual[2]); e longas (a não ser a última) sequências narrativas em terceira pessoa, embaralhadas cronologicamente [3].

Já se tornou lugar comum, ao se falar da obra de Carlos Fuentes, mencionar que o México é um país de tempos simultâneos, onde o passado está junto do presente, e que isso deve se traduzir numa polifonia narrativa que dê conta dessa simultaneidade e interpenetração de compassos temporais diversos (e essa proposição está na raiz de projetos posteriores ambiciosíssimos como Terra Nostra, Cristóvão Nonato e A vontade e a fortuna). Isso nos leva, é claro, inevitavelmente a Mikhail Bakhtin. O próprio Fuentes admite seu conhecimento do grande pensador russo e sua admiração por ele. No ensaio que abre seu Geografia do romance (1993), lemos: “Ninguém definiu melhor, no plano teórico, esta nova fase do romance, do que Mikhail Bakhtin (…) O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se(…)  O romance é a voz de um mundo novo em processo de criar-se. Essa noção dinâmica do romance é, por outro lado, idêntica à natureza incompleta do gênero. Arena de linguagens em que ninguém disse a última palavra. A história não terminou. O reino da justiça ainda não foi alcançado.”[4]

Na primeira pessoa, é o “eu” de Artemio que se recusa a aceitar a morte, que mantém aquela ilusão (que, no fundo, todos temos em maior ou menor medida conforme nosso narcisismo) de que tudo existe porque eu existo. Mesmo assim, já há um esgarçamento entre as fronteiras, e ele tem de debater consigo mesmo, com sua persona constituída, pois  sente que se dissocia de si mesmo, embora relute: “Não, doente não. Não, Artemio Cruz, não. Outro. Num espelho colocado em frente à cama do doente. O outro. Artemio Cruz. Seu gêmeo. Artemio Cruz está doente: não vive; não, vive. Artemio Cruz viveu. Viveu, durante alguns anos (…) Seu gêmeo. Artemio Cruz. Seu duplo. Ontem Artemio Cruz, o que só viveu alguns dias antes de morrer, ontem Artemio Cruz… que sou eu… e é outro… ontem...”[5] . Há um momento em que Artemio, como sensação de estar vivo, ou pelo menos ter vivido, não se vale dos afetos, das lembranças, sequer dos nomes, mas das coisas físicas, dos objetos, que lhe deram prazer por tê-los visto, tocado, apalpado (e, em última instância, possuído).Também nessas seções em primeira pessoa, o horror animal que é se sentir alheado do próprio corpo, como se este fosse algo independente.Aqui, a nossa condição toca seus limites e a mortalidade é o tema onipresente. E mortalidade, não obstante toda a sua gama de perplexidades metafísicas, no sentido corporal. Não fosse o México um país tão “físico”, tão sensorial.[6]

Não é tão difícil entender, e nem parece artifício (embora o seja, e com grande engenho) que esse homem entupido de medicamentos, aprisionado num corpo que morre, ao mesmo tempo estranho a ele, deslize para um “tu” (ou um “você”, de acordo com a tradução escolhida[7]), desdobrando-se; mais ainda, mergulhando numa espécie de “memória da raça”, tornando-se arena entre vozes diversas, as coletivas e a(s) sua(s). Por que, afinal, somos mesmo unos? Alguém poderia afirmar isso? Um trecho como o seguinte poderá servir de exemplo:

“Deverás acreditar na noite e aceitá-la sem a ver, acreditar sem reconhecê-la, como se fosse o Deus de todos teus dias: a noite.. Agora estarás pensando que bastará fechar os olhos para tê-la. Sorrirás, apesar da dor que volta a insinuar-se, e tratarás de estender um pouco as pernas. Alguém te tocará a mão, mas não responderás a essa carícia? atenção? angústia?  cálculo? porque terás criado a noite com teus olhos fechados e do fundo desse oceano de tinta navegará até ti um baixel de pedra que será alegrado em vão pelo sol do meio-dia, quente e sonolento: muralhas espessas enegrecidas, levantadas para defender a Igreja dos ataques dos índios e também para unir a conquista religiosa à conquista militar. Avançará para teus olhos fechados, com o rumor crescente de seus pífaros e tambores, a tropa rude, isabelina, espanhola, e atravessarás sob o sol a ampla espanada com a cruz de pedra no centro e as capelas abertas, a prolongação do culto indígena, teatral, ao ar livre, nas esquinas. No alto da igreja levantada no fundo da esplanada, as abóbadas de tezontle repousarão sobre os esquecidos alfanjes mudéjares, sinal de mais um sangue superposto ao dos conquistadores. Avançarás até a fachada do primeiro barroco, ainda castelhano, mas já rico em colunas de vides profusas e claves aquilinas: a fachada da Conquista, severa e agradável, com um pé no mundo velho, morto, e outro no mundo novo que não começava aqui, mas também do outro lado do mar: o novo mundo chegou com eles, com uma fronte de muralhas austeras para proteger o coração sensual, alegre, cobiçoso. Avançarás e penetrarás na nave do batel, onde o exterior castelhano terá sido vencido pela plenitude, macabra e sorridente, deste céu índio de santos, anjos e deuses índios.Uma só nave, enorme, correrá até o altar folheado a ouro, sombria opulência de rostos mascarados, lúgubre e festivo rezar, sempre recompensado, com essa liberdade, a única concedida, de decorar um templo e enchê-lo com o sobressalto tranquilo, a resignação esculpida, o horror ao vazio, aos tempos mortos (…) Caminharás, na conquista de teu novo mundo, pela nave sem um espaço livre: cabeças de anjos, vides esparramadas, florações policrômicas, frutos redondos, vermelhos,  capturados entre trepadeiras de ouro, santos brancos fixados, santos de olhar assombrado, santos de um céu inventado pelo índio à sua imagem e semelhança: anjos e santos com o rosto de sol e lua, com a mão protetora das colheitas, com o dedo indicador dos cães guias, com os olhos cruéis, desnecessários, alheios, do ídolo, com o semblante rigoroso dos ciclos. Os rostos de pedra atrás das máscaras rosa, bondosas, ingênuas, mas impassíveis, mortas, máscaras: cria a noite, enche de vento o velame negro, fecha os olhos Artemio Cruz…[8]

Um índice desse deslocamento é a volubilidade dos tempos verbais que definem o passado, o presente e o futuro:

“Só quererias recordar, recostado, ali na penumbra de teu interior, o que vai suceder: não queres prever o que já sucedeu. Em tua penumbra, os olhos olham para a frente; não sabem adivinhar o passado. Sim; ontem voarás de Hermosillo, ontem, 9 de abril de 1959[9] (…) e chegarás ao México, DF, às dezesseis e trinta e cinco em ponto (…) levantar-se-á um grito comum, entrecortado por um soluço baixo e as chamas começarão a crepitar até que pare o quarto motor, na asa direita, e todos continuem gritando e só te mantenhas sereno (…) Funcionará o sistema interno com que o motor combate o fogo e o avião aterrissará sem dificuldade, mas ninguém terá percebido que só tu, um velho de setenta e um anos mantiveste a compostura. Sentir-te-ás orgulhoso de ti mesmo, sem demonstrá-lo. Pensarás que fizeste tantas coisas covardes, que a coragem é fácil para ti (…) Gostarias de recordar outras coisas, mas, sobretudo, gostarias de esquecer o estado em que te encontras. Desculpar-te-ás. Não te encontras. Encontrar-te-ás. Serás trazido desmaiado para tua casa; cairás em teu escritório; virá o doutor e dirá que é necessário esperar algumas horas para dar o diagnóstico. Virão outros médicos (…) Ficarás estirado ali, sem tomar banho, sem fazer a barba: serás um depósito de suores, nervos irritados e funções fisiológicas inconscientes. Mas insistirás em recordar o que acontecerá ontem…”[10]

Aparentemente, o foco narrativo em terceira pessoa nos permite, apesar da ordenação cronológica caleidoscópica, conhecer mais objetivamente a trajetória que transformou Artemio Cruz de um bastardo que se engajou na Revolução num burguês que, como se diz por aqui, mama fartamente nas tetas do Estado, através de maracutaias e dos expedientes mais sujos, ainda mais porque possui uma cadeia de jornais. Trata-se, evidentemente, de um personagem que não encontra paralelo na história do nosso país, nós brasileiros não conhecemos esse tipo de pessoa que, regime após regime, governo após governo está sempre ligado ao poder e auferindo lucros! De todo modo, teremos o contorno de uma vida, aquele “fio biográfico”, o qual, segundo Lukács, dá feição à forma do romance.

Mas é só aparentemente.  Os processos tanto de dissociação quanto do dialogismo à feição de Bakhtín ocorrem igualmente nesses segmentos narrativos, ainda que de forma mais sutil. Por exemplo, nos episódios de 4 de dezembro de 1913, há um longo diálogo meio sentimental meio jogo erótico em que Artemio e sua amante, Regina, que o segue pelo caminho das batalhas, voltam sempre ao momento em que se conheceram, numa laguna formada entre as pedras e onde ela viu o reflexo dele, de uniforme, ao lado do seu, e ali na hora se apaixonou. Mais tarde, somos informados de que é um jogo mitômano, pois de fato o que aconteceu foi o seguinte (note-se, porém, como é “desrealizado” no texto pela persistência da magia do relacionamento):

Regressaria às pedras daquela praia, enquanto o álcool branco lhe incendiava o estômago. Regressaria. Para onde? Para essa praia mítica que nunca existira? Essa mentira da menina adorada, essa ficção de um encontro junto ao mar (…) Ele deveria acreditar nessa mentira, sempre, até o fim. Não era real: ele não havia entrado naquela vila sinaloense como em tantas outras, buscando a primeira mulher que passasse, incauta, pela rua. Não era verdade que aquela moça de dezoito anos havia sido montada à força em um cavalo e violada em silêncio no dormitório comum dos oficiais, longe do mar, de face para a serra espinhosa e seca…”

Outro exemplo dos limites dos fatos objetivos na narração em terceira pessoa pode ser encontrado no segmento que narra o dia 3 de fevereiro de 1939, que seria o da morte de Lorenzo, o filho amado, que vai para a Espanha lutar pelo lado republicano, como o pai teria feito, com seu espírito aventureiro, o filho continuando onde o pai parou. Nesse dia, cônscios da derrota iminente, Lorenzo e seu parceiro Miguel, e outras pessoas, inclusive uma moça, Dolores, por quem o filho de Artemio sofre um coup de foudre, tentam atravessar a fronteira para a França, perto da qual Lorenzo, ao tentar um ato heroico, é abatido pela rajada de um avião alemão. Todo o episódio é muito bonito, só que não passa de um devaneio do próprio Artemio, fabricado com alguns poucos elementos tirados de uma última carta enviada pelo entusiástico Lorenzo, que lhe foi enviada de um campo de concentração francês. Aí se insinua um dos temas centrais, e a meu ver, o mais pungente e profundo, de A morte de Artemio Cruz, e que fornece a contrapartida dessas partes biográficas tão ricas e movimentadas: a sensação final de que uma vida não é suficiente (ainda mais com a sensação de traição que acompanha Artemio), que outras vidas paralelas e alternativas teriam sido possíveis, que a própria vida do filho seria um outro caminho na encruzilhada da existência entendida não como mera individualidade e mero cômputo cronológico. E assim a terceira pessoa pode se transformar na primeira num ritmo de “a vida é sonho” , sinalizando que todas as divisões, segmentações são artifícios:

“Para baixo, para baixo, para baixo, Lorenzo, e essas botas novas sobre a terra seca, Lorenzo, e  seu fuzil no chão, e um enjoo dentro do estômago, como se tivesse  o oceano nas entranhas, e seu rosto já sobre a terra com seus olhos verdes e abertos e um sonho pela metade, entre o sol e a noite, enquanto ela grita e você sabe que por fim as botas vão servir ao coitado do Miguel com sua barba loura e suas rugas brancas e dentro de um minuto Dolores se jogará sobre você, Lorenzo, e Miguel lhe dirá que é inútil, chorando pela primeira vez, que devem continuar o caminho, que a vida está do outro lado das montanhas, a vida e a liberdade, porque sim, essas foram as palavras que escreveu: pegaram essa carta, tiraram-na da camisa manchada, ela apertou-a entre as mãos, que calor! se cair neve será sepultado, quando você o beijou outra vez, Dolores, jogada sobre o corpo dele e ele quis levá-la ao mar, a cavalo, antes de tocar no seu sangue e dormir com você em seus olhos….que verde… não se esqueça… Eu diria a verdade, se não sentisse meus lábios brancos, se não me dobrasse em dois, incapaz de conter-me, se suportasse o peso das mantas, se não tornasse a esticar-me, contorcido, de bruços, vomitando essa substância, esta bile: diria que não bastava repetir o tempo e o lugar, a pura permanência; diria que algo mais, um desejo que nunca expressei, obrigou-me a conduzi-lo (…) sim, obrigá-lo a encontrar as pontas do fio que rompi, reatar minha vida, completar meu outro destino, a segunda parte do que não pude fazer…[11]

Como insinuei anteriormente, de certa forma A morte de Artemio Cruz também faz uma síntese enciclopédica da história do romance e de alguns de seus principais rumos.

Esconde um núcleo épico dentro dele, o tempo da Revolução, das suas lutas, dos seus ideais depois corrompidos, num mundo ainda “primitivo”, arcaico, primordial. É o que podemos ler tanto no episódio já citado de 1913 quanto no episódio de 22 de outubro de 1915, no qual Artemio e o jovem herdeiro de Dom Gamaliel Bernal dividem uma cela, mas antes e depois há batalhas sangrentas, fugas e duelos, e no qual se usa sem riso ou mofa palavras como honra, lealdade, hombridade (e o episódio de 1939, com o sacrifício de Miguel, visto sob a ótica devaneante do pai, não deixa de ser um reflexo fantasmático desse período). Porém, malgrado todo esse quadro grandioso (e a perspectiva grandiosa de se mudar um país e sua estrutura profunda), já há uma fratura, um verme no cerne do fruto: não vemos os líderes (e o retrato que deles traça Gonzalo Bernal não é muito animador) e de que personagem entre os tipos que conhecemos, Artemio incluído, poderíamos dizer que “toda ação é somente um traje bem-talhado da alma”, como Lukács (na Teoria do Romance) tão belamente qualifica a movimentação do herói épico pelo mundo? Se eles às vezes nem sabem por que estão lutando ou se o lado no qual estão lutando está ganhando ou perdendo!

E é por esse motivo que nas espirais da narrativa, o épico se volatiliza e o elemento burguês que caracteriza o romance fica tão pronunciado: pois A morte de Artemio Cruz, ao narrar a ascensão social do protagonista nos estertores do sonho revolucionário, é a história de um burguês “que se faz”. Algum dia, algum romancista irá contar a história daqueles que (talvez nem o soubessem na época, vamos dar esse voto de confiança) fizeram da luta contra a ditadura um investimento de vida, um seguro para o futuro melhor que a aposentadoria do cidadão comum, e agora estão colhendo os frutos, enriquecidos e perfeitamente à vontade com as mazelas nacionais que eles ajudam a perpetuar anos depois de gritarem que queriam subvertê-las.

E os segmentos narrativos nos mostram justamente as facetas do romance burguês: a falsidade do casamento de conveniência, a solidão e o vazio de classes sociais que só vivem para a aparência, os ritos sociais que permitem toda a espécie de hipocrisia e cinismo. Há até um segmento (11 de setembro de 1947) que parece saído do mundo de Alberto Moravia, com um Artemio já envelhecido, passando férias com uma jovem amante, contratada por alguns dias. E é nos interstícios desse momento que vemos que o destino vário, multiforme de Artemio, tal como ele persegue em sua agonia, se amesquinhou, e a “forma biográfica” (ainda Lukács) vem a ser mais confortavelmente , dentro dessa estrutura realista, “o fio condutor ao longo do qual o mundo vem enlaçar-se e desenrolar-se na sua totalidade”. É o momento psicológico, também, em que Artemio julga controlar todos os elementos da sua vida, na maneira como ela se conformou, a do homem com poder sobre tudo e todos dentro do México, e que terá seu clímax no segmento onde se narra o 31 de dezembro de 1955, onde ele é a “múmia” (na ótica geral), sentada, mal se movendo, mas observando seus convidados e manipulando os cordéis, como um bom personagem de Orson Welles, Kane ou Mr. Arkadin (ou o marido de Rita Hayworth em A dama de Xangai). E tão solitário quanto eles.

Não falta sequer, para uma aproximação com Cidadão Kane, uma frase misteriosa do moribundo Cruz: “Naquela manhã, esperava-o com alegria. Cruzamos o rio a cavalo”. Como o “rosebud” de Charles F. Kane e seu trenó, sem que se perca a aura de mistério, encontramos a razão da nostalgia dolorosa dessa frase, não num incidente romântico essencial como seria de praxe, mas na vida “edênica” ainda que miserável de Cruz antes de se lançar no tabuleiro revolucionário, nas fraturas de uma vida que se extraviou, que se desenvolveu através de traições e trapaças. Artemio Cruz, a múmia, personagem de si mesmo, enceta um último resquício de ligação com aquele que um dia foi o “verdadeiro” Artemio Cruz e que só podemos conhecer através do esforço nostálgico e idealizador.

(escrito em março de 2012)


[1] Por exemplo, sua atitude de se dar ao marido prazerosamente durante as noites e depois mudar da água para o vinho seu comportamento durante o dia é similar à ritualística dicotomia levada a cabo  por Mrs. Burden, a solteirona de Luz em agosto, em seu relacionamento com o marginal Joe Christmas; diga-se de passagem, o mesmo “ritual” de separação entre dia e noite no tratamento entre si de um casal é observado por Rosalina e Juca Passarinho em Ópera dos mortos (1967), de Autran Dourado.

[2] Há duas traduções brasileiras do romance: uma, de Geraldo Galvão Ferraz, publicada em 1968 pela Edinova e depois reeditada várias vezes (e revisada por Fernando Nuno Rodrigues), pela Abril Cultural e pelo Círculo do Livro; outra, de Inez Cabral, lançada em 1994 pela Rocco. Ambas tem soluções muito diferentes para esse uso do foco narrativo em segunda pessoa: na de Galvão Ferraz, ele opta por “tu”; Inez Galvão opta por  “você” . Resta ao leitor decidir qual ele acha mais convincente:

“Tu não poderás estar mais cansado, mais cansado não; terás caminhado muito, a cavalo, a pé, nos velhos trens, e o país não acaba nunca. Lembrar-te-ás do país:? Lembrá-lo-ás e não é um; são mil países, com um só nome. Saberás disso. Trarás os desertos vermelhos, as estepes de pita e tuna, o mundo do nopal, o cinturão de lava e crateras geladas…” (trecho da edição do Círculo do Livro, pág. 226).

“Você não poderá estar mais cansado, mais cansado não; e é que terá andado muito, a cavalo, a pé, nos velhos trens, e o país não acaba nunca. Lembrar-se-á do país? Lembrá-lo-á e não é um; são mil países com um só nome. Saberá disso. Trará os desertos vermelhos, as estepes de aldobe e tuna, o mundo do nopal, o cinturão de lava e crateras geladas…” (trecho da edição da Rocco, pág. 207).

[3] Pela ordem, temos as doze datas seguintes, dozes estações da via crucis de um personagem que carrega no sobrenome bastardo essa possibilidade interpretativa:

6 de julho de 1941;

20 de maio de 1919;

4 de dezembro de 1913;

3 de junho de 1924;

23 de novembro de 1927;

11 de setembro de 1947;

22 de outubro de 1915;

12 de agosto de 1934;

3 de fevereiro de 1939;

31 de dezembro de 1955;

18 de janeiro de 1903;

9 de abril de 1889.

[4] Utilizo a versão de Carlos Nougué (que traduziu diversos livros de Fuentes), que saiu pela Rocco, em 2007, págs. 28-29.. Na continuação dessa reflexão, ele passa para um registro mais pessoal e revelador: Sempre concebi o romance como uma encruzilhada entre o destino individual e o destino histórico dos seres humanos; A morte de Artemio Cruz e Gringo velho obedecem, notoriamente, a esta estética da encruzilhada em que nenhuma voz, nenhuma pessoa, nenhum tempo têm o monopólio da verdade ou a proposição privilegiada do discurso.”

[5] Utilizo, aqui, e em outras passagens (salvo indicação contrária) a tradução de Galvão Ferraz (na edição do Círculo, pág. 12).

[6] Não é ocioso registrar que, além desses embates íntimos, há uma percepção por parte do narrador em primeira pessoa, da comédia humana à sua volta, a família com seus rancores e seus interesses (o testamento), os médicos que não chegam a um acordo, o padre que vem lhe dar  a extrema-unção., fatos que—até pela suspensão do tempo cronológico, substituído por um tempo meio alucinatório, o tempo de morrer—aparecem e reaparecem, combinados e recombinados, de forma reiterada nos treze segmentos que compõem esse foco narrativo. Há, ainda, uma frase misteriosa dita pelo moribundo,, a qual abordarei no final deste texto.

[7] A focalização através da 2ª. pessoa, que foi celebrizado por Michel Butor em seu belo romance de 1957, A modificação (e utilizado por outro grande nome da literatura francesa, Marguerite Duras, em vários textos, por exemplo A doença da morte) também aparece no outro texto de 1962 de Fuentes, Aura (Olga Savary, na sua tradução, publicada pela L&PM, usa “você”).

[8] Págs. 30-31

[9] Esse “ontem, nove de abril de 1959” indicaria, se a narrativa nos desse alguma certeza, o que não faz,  que Artemio Cruz na verdade está há um ano afastado e muito doente, uma vez ele nasceu em nove de abril de 1889, e se diz que ele está com 71 anos em seu discurso moribundo, inclusive na passagem que estou citando.

[10] Págs. 12-14.

[11]  Nesta citação utilizo a tradução de Inez Cabral (Rocco, pág. 183)

Destaque do Blog: AURA, de Carlos Fuentes

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de março de 2012)

Dois famosos textos de Carlos Fuentes estão chegando ao meio século: o romance A Morte de Artemio Cruz e a novela Aura. Infelizmente, o primeiro não é reeditado há anos no Brasil (há duas traduções, e a mais recente, de Inez Cabral, foi lançada em 1994 pela Rocco[1]). Ainda bem que não acontece o mesmo com o outro, graças à excelente coleção “Pocket” da L&PM, onde encontramos a versão de Olga Savary (lançada originalmente em 1981).

Utilizando a segunda pessoa, um exercício de foco narrativo até hoje relativamente raro e que dá a seu relato um tom encantatório (“Você lê esse anúncio: uma oferta assim não é feita todos os dias. Lê e relê o anúncio. Parece dirigido diretamente a você, a ninguém mais. Distraído, deixa cair a cinza do cigarro dentro da xícara de café que estava bebendo neste café sujo e barato. Torna a ler…” e não paramos mais de ler), o escritor mexicano narra como o historiador (que sobrevive dando aulas) Felipe Montero é atraído por uma oferta de trabalho: organizar os manuscritos memorialísticos deixados pelo general Llorente. Num casarão antigo, quase que completamente às escuras, espremido entre modernidades urbanas, ele conhece a decrépita viúva, senhora Consuelo, refestelada no leito do seu quarto, com um coelho de estimação, cercada de arcas e ninhos de ratos. Ela lhe impõe uma condição: é preciso que more ali enquanto durar sua tarefa, muito bem paga.

Felipe, então, conhece a jovem Aura, que o serve e que o seduz com sua beleza ímpar. Aos poucos, ele vai descobrindo que, mais do que uma relação de parentesco, ela parece ter uma ligação sobrenatural com a velha senhora, a qual é muito mais velha do que seria possível. Ao mesmo tempo, fica cada vez mais difícil abandonar a casa, onde há uma atmosfera funesta, como se pode deduzir do seguinte trecho, no qual Felipe começa a ouvir miados:

“Chega seus ouvidos com uma vibração atroz, dilacerante, de súplica. Você tenta localizar sua origem: abre a porta que dá para o corredor e ali não escuta nada; esses miados escorregam do alto, da claraboia. Rapidamente você sobe na cadeira… e apoiando-se na estante de livros você pode alcançar a claraboia, abrir um de seus vidros, elevar-se com esforço e cravar o olhar nesse jardim lateral, nesse cubo de telhados e plantas emaranhadas onde cinco, seis, sete gatos—você não pode contá-los, não pode se manter ali mais de um segundo—encadeados uns com outros, se revolvem envoltos em fogo, desprendem uma fumaça opaca, cheiro de pelo queimado…”

Portanto, sejam quais forem os sortilégios que permitam a existência da bela Aura, eles também incluem a crueldade. e toda aquela atmosfera recôndita e evocativa de um passado épico e glorioso, começa a se tornar bastante ambígua, beirando a necrofilia.

Fuentes criou uma legítima herdeira das narrativas cujos mestres são Poe e Hoffmann, que se valem do umheimlich, termo que Freud utilizou para estudar a presença do estranho, do sinistro, na ficção que tende para o terror, e como essa estranheza se traduz numa fórmula narrativa que gera muitas interpretações. Não é o caso de associar Aura ao banalíssimo “realismo fantástico” que sempre foi muito associado ao boom hispano-americano[2].  Nada disso, é mais fácil identificar no enredo um cruzamento entre Henry James (aquela atmosfera toda saturada de evocação, como em Os papéis de Aspern) e as histórias góticas de H. P. Lovecraft do que os truques menos felizes, a meu ver, do autor de Cem anos de solidão.

E, curiosamente, em Aura, Fuentes prescindiu dos seus próprios truques. Sempre um autor do excesso, de obras marcadas por uma ambição desmedida (se Artemio Cruz ainda é relativamente equilibrado, o que dizer de monstrengos como Terra Nostra, Cristóvão Nonato, A vontade & a fortuna?), ele parece ter o prazer de provar, através da história da sedução de Felipe Montero pelo passado (no sentido mais literal), que poderia ser um escritor de textos perfeitos, exatos, precisos (e mesmo quem detesta suas obras geralmente poupa Aura). O que não deixa de ser uma  malícia a mais num relato tão cheio de ardilosidades e aleivosias.


[1] A outra, de Geraldo Galvão Ferraz, teve edições pela Edinova, Abril Cultural e Círculo do Livro

[2] Hoje em dia aprecio bastante a obra de Garcia Márquez, mas não vejo contribuição nenhuma ao seu fascínio o lado ‘fantástico”, que é um elemento superficial, tanto quanto o é no romance de estréia de Isabel Allende, A casa dos espíritos. Na minha opinião, o único autor que usou legítima e talentosamente algo como um “realismo fantástico”, no sentido atribuído a Márquez ou Allende, foi o peruano Manuel Scorza em obras notáveis como História de Garabombo, o  invisível (1972). O resto é badulaque.

O deserto e os espelhos: “Gringo Velho”, de Carlos Fuentes

(resenha publicada originalmente na revista cultural GAMBIARRA, número 2, novembro de 1988, editada na Universidade Federal de Viçosa-MG)

A editora Rocco vem se destacando nos últimos anos pelo lançamento de vários romances interessantes, entre eles GRINGO VELHO  [Gringo Viejo (The Old Gringo), em tradução de  Tizziana Giorgini], do mexicano Carlos Fuentes (conhecido no Brasil sobretudo por A morte de Artemio Cruz, de 1962), que é dedicado ao admirável escritor norte-americano Willliam Styron.

GRINGO VELHO entrelaça a história de uma figura real, o jornalista Ambrose Bierce (cujo nome só é mencionado no final) com a da Revolução Mexicana, em 1913. Bierce, aos 70 anos, desaparece na fronteir entre os dois países. O que Fuentes faz é imaginar o depois, fazendo com que Bierce, a partir daí o “Gringo velho” venha trazer mais ambiguidade à convulsão revolucionária, principalmente para outros dois grandes personagens: o general Tomás Arroyo e a professora protestante Harriet Winslow.

Embora a Revolução tenha um peso muito real dentro do livro, ele se reveste de um caráter muito mais lúdico, principalmente porque o deserto e os espelhos estabelecem o “clima” e a linguagem da narrativa. O romance transcorre basicamente no deserto e a palavra fronteira é sempre utilizada para evidenciar que os personagens ultrapassaram certos limites, seus marcos de referência, e estão naquela região psicológica, ou mítica, como se queira, onde tudo se confunde e onde todos os atos poderão ser definitivos e, ao mesmo tempo banais.  No deserto, Arroyo, filho bastardo (como o era Artemio Cruz), destrói a fazenda do seu pai latifundiário, deixando em pé apenas um salão de espelhos, para que seus homens, espoliados a vida inteira, possam ver, pela primeira vez, seus corpos.

O espelho normalmente nos fornece uma dimensão de individualidade: eu existo. Mas muitos espelhos podem fazer essa ilusão cair por terra, com um fenômeno similar ao do deserto, de apagar as diferenças individuais, as fronteiras entre Um e Outro, céu e terra. Nesse livro, cada consciência tem passagem livre para as outras,como a narrativa corporifica diante do leitor extasiado com as possibilidades que ela aponta (e nem sempre cumpre, apresentando aspectos discutíveis), com essa passagem de uma voz para a outra (sim, é uma narrativa de vozes),da narrativa impessoal para a primeira pessoa, do presente para o passado (lembrando Vargas Llosa, que, é preciso dizer, usa o recurso de forma superior).

Mas é graças aos personagens que GRINGO VELHO é um dos romances interessantes de que se falava no princípio: como Arroyo, chamado “filho do silêncio” porque foi obrigado a viver no silêncio a vida toda, já que na fazenda os criados eram açoitados se fizessem barulho ao “fazer amor”, por exemplo; sua amante, a Lua (um dos pontos altos do romance é a sua história); e mais que todos, Harriet, que fica com o legado mais doloroso, após a experiência da Revolução, do deserto e do salão de espelhos: a memória individual. Ela é quem se senta e recorda (o refrão, o fio condutor da narrativa) e confronta sua consciência às dos Outros,num eterno desfiar  de fato e imaginação, de expectativas e resultados irrevogáveis.

E é assim que ela é vista, ao atravessar novamente a fronteira dos Estados Unidos (e também esta “presença”no México deixa sua marca no livro, impossível de rastrear no âmbito de um pequeno artigo): “Não a ouviram gritar quando a ponte ardeu em chamas:  Estive aqui. Essa terra jamais me deixará.  Eles lhe deram as costas e viram-na para sempre entrando num salão de baile cheio de espelhos,  sem mirar a si própria porque na verdade adentrava num sonho.”

nota de 2012– Esta foi uma das minhas primeiras resenhas publicadas. Não obstante seus defeitos gritantes, constato que nem mesmo nessa época me deixei levar por jargões acadêmicos. Lembro de um amigo que me dizia ser péssimo terminar textos críticos com citações  porque quem estava escrevendo parecia que perdia a força. Eu, de minha parte, sempre achei que o texto deveria ter a última palavra.

Um ano depois, vi a versão cinematográfica de Luiz Puezo, que “academizou” por demais a história, mas não é um mau filme, só lhe falta personalidade. Como em tantos outros casos, afora a bela produção, o elenco é que vale o filme: Jimmy Smits está ótimo no papel de Arroyos (aliás, qualquer dúvida sobre a sua competência como ator seria dissipada pela sua atuação na terceira temporada de DEXTER), Gregory Peck deita e rola nas excelências da sua dignidade de veterano, na autoridade inatacável que parece associada à sua figura. Mas o ponto luminoso do filme é mesmo a grande Jane Fonda, arrasadora como Harriet Winslow. Numa década que deixou meio a desejar na sua carreira, com algumas exceções, eu não entendi até hoje como ela não foi indicada e recebeu o seu terceiro Oscar por essa atuação.

E aqui cometo o mesmo erro de sempre, terminando com uma citação:

“A mulher que ele chamava A Lua disse que era estranho ouvir um sino e não saber a origem de seu toque. Foi assim que ela soube que a Revolução chegara a seu vilarejo de Durango: os sinos começaram a repicar numa hora em que ninguém podia identificar com vésperas ou matinas ou qualquer outra coisa: era como um novo tempo, disse, um tempo que não sabíamos imaginar e então ela pensou na regularidade de nosso tempo, geração após geração aferrada às estações tradicionais, às horas consabifas, inclusive os minutos tradicionais: ela foi criada dessa forma, decente, não rica em demasia mas decente, isso sim, seu pai era comerciante de grãos, seu marido um prestamista no mesmo vilarejo onde todos, crianças ou mulheres, levantavam às cinco, para se vestirem quando ainda estava escuro (isso era muito importante, nunca ver o próprio corpo) para em seguida apresentar-se  na igreja às seis e voltar para casa com fome, mesmo quando tinham comido o corpo de Cristo (…) e a senhorita me dirá que não era uma vida ruim; mas quando a vida do homem é selada à vida da menina noiva, aí então miss Harriet, essa vida se torna sombria, repetitiva, como acontece com as coisas quando estancam e já não mais florescem a partir do que eram antes de que o homem, o pai, o marido, estivesse presente para garantir que a pessoa continuaria sendo a noiva menina e que o casamento era uma cerimônia de medo…”

13/05/2012

DEZ DESTAQUES DE 2009

Pessoalmente, sempre acho meio ridículo fazer lista de melhores. O mercado editorial é um oceano e uma pessoa só consegue, no máximo, indicar gotas desse oceano (a metáfora não é muito rica, porém é bem exata). De tudo o que li em 2009, proponho dez destaques, levando em conta o ineditismo dos livros, apesar de 2009 ter sido um ano pródigo em novas traduções: por exemplo, surgiram versões novas de Cem anos de solidão, O  inominável,  Fundação, Zazie no metrô, O turista acidental , Alice no país das maravilhas, e um vasto etc.

Outro destaque à parte foram os livros relacionados ao Evolucionismo  e certamente, nesse quesito, além do seu brilhantismo próprio, Richard Dawkins foi o campeão, com A grande história da evolução & O maior espetáculo da terra (este último, nem comprei ainda…).

Após esse preâmbulo, passo à minha lista de destaques (outros livros vêm à minha mente, mas quero me ater a esse número   redondo):

10)  Após o anoitecer, de Haruki Murakami (Alfaguara)- belo romance japonês que nos mergulha nas cambiâncias da “modernidade líquida” (como Zygmunt Bauman caracterizou nossa época) que não pouparam nem o mundo oriental.

9) Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- deliciosa e provocante coletânea de histórias cuja temática já e indicada pelo título., grande momento do autor espanhol. Espere mais ironia que drama, leitor..

8) Buscas curiosas, de Margaret Atwood (Rocco)- A grande escritora canadense reuniu textos onde comenta outros escritores, a feitura de alguns de seus livros e circunstâncias biográficas. O resultado é tão apaixonante quante sua própria ficção.

7) Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)- O melhor, mais inspirado, romance de Chico até agora, e simplesmente um texto primoroso, de primeira. Um século transcorre diante dos nossos olhos com uma insustentável leveza de estilo, e uma mirada poderosa no racismo latente em nossa sociedade. Maior poeta da nossa MPB, Chico agora também é um dos nossos grandes prosadores.

6) Dois grandes momentos da ficção uruguaia,: o primeiro livro de Juan Carlos Onetti (cujo centenário foi comemorado em 2009), O poço (1939), reunido a Para uma tumba sem nome (1959), numa edição da Planeta; e Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti (Alfaguara), belíssimo romance político, utilizando a forma polifônica (muitas vozes) e comprovando a maestria de uma das grandes perdas do ano passado.

5) Súplicas atendidas, de Truman Capote (L&PM)- Apesar de inacabado e um pouco desagradável, é fascinante esse painel moralista do jet set americano e europeu entre os anos 40 e  70, que apresenta alguns momentos geniais, em meio a fofocas e revanches. Também vale destacar o atraso com que foi traduzido e o descaso com que foi traduzido.

4) Modernismo, de Peter Gay (Companhia das letras)- Foi bastante atacado esse esforço enciclopédico do grande historiador e biógrafo de Freud. Mas eu o acho admirável e necessário. Numa época de fragmentação, é preciso haver esses exercícios de totalização, e o Modernismo é ainda o nosso último horizonte “estável”.  O mundo seria muito mais sem graça se não existissem Peter Gay e Richard Dawkins.

3) Amuleto & Estrela distante, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Embora nenhum dos dois tenha a amplitude suprema de Detetives selvagens, talvez o maior livro dos últimos anos, mostram como Bolaño, junto com W.G. Sebald (aliás,  o grande livro de Sebald, Os emigrantes, foi reeditado este ano, também pela Companhia. das Letras, havendo uma edição anterior pela Record), é o morto mais vivo da ficção contemporânea (ele morreu, pateticamente, aos 50 anos, esperando por um transplante de fígado foi publicada e conhecida quase toda postumamente).

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2) Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra)- É até engraçado colocar o genial Conrad num segundo lugar, uma vez que ele é um dos autor-referência, mesmo nas suas histórias curtas, escritas no início do século passado, e que abordam temas ainda atualíssimos (terrorismo e publicidade, por exemplo).Também é outro caso de atraso lamentável em matéria de tradução. É preciso também destacar o papel importante da editora em colocar títulos surpreendentes no mercado, na mesma série à qual pertence o livro do genial escritor polonês.

1) As aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Companhia das Letras)- Outro caso estrondoso de descaso e atraso  Esse livro de 1953 estbeleceu definitivamente a reputação de Saul Bellow, um dos maiores escritores norte-americanos, e muitos ainda o consideram sua obra-prima. Talvez não seja (eu prefiro por exemplo, O planeta do sr. Sammler, publicado dez anos depois, e há ainda Herzog  & o esplêndido O legado de Humboldt), mas é um dos seus melhores livros. É bom lembrar que outra grande obra de Bellow, Henderson, o rei da chuva, tornou-se cinquentenária agora em 2009, e assim aproveito para corrigir uma omissão que cometi no meu post a respeito das comemorações literárias deste ano. Agora: se o romance de Bellow é o grande destaque do ano, a capa escolhida é uma das piores, simplesmente horrorosa.

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