MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2012

MISÉRIAS MINIMALISTAS: Dalton Trevisan


(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”, em 24 de novembro de 2009)

      A primeira coletânea “’oficial” (parece que havia uns volantes anteriores, uma espécie de literatura-mimeógrafo avant la lettre, que se tornaram famosos na Curitiba da época) de Dalton Trevisan, Novelas nada exemplares, foi lançada em 1959. Neste meio século, ele publicou uma seqüência extraordinária de títulos (Cemitério de elefantes; O vampiro de Curitiba; A guerra conjugal; O rei da Terra; O pássaro de cinco asas; A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos, para citar alguns), fazendo jus, após a morte de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, ao posto de nosso maior prosador vivo, pelo menos para mim, que o adorei de cara, assim que comecei a ler seus textos. Em meados dos anos 80, estava no apogeu quando publicou o inusitado romance A polaquinha, que nasceu com vocação de obra-prima.

Já na época em que minha coluna em “A Tribuna” se iniciou (1993), depois de livros como Dinorá e Ah, é?, eu me perguntava se o grande escritor curitibano não ficara em “ponto morto”. De fato, colocando no mercado praticamente uma obra por ano, a impressão que, ligado o piloto automático, cada uma delas era a mesma com novo título. Por esse motivo, fazia alguns anos que nem me dava ao trabalho de ler seus últimos textos, como Macho não ganha flor ou O maníaco do olho verde.

Violetas e pavões  (não confundir com o belo Violetas e caracóis, de Autran Dourado) se tornou assim, uma bela surpresa. Como já confessei, não li a produção mais recente de Dalton Trevisan e não posso avaliar se as qualidades dessa coletânea estavam presentes nas anteriores; baseando-me apenas nela, no entanto, afirmo que nosso maior contista está dando conta da realidade do século 21. É lógico que parte dos 22 textos ainda se voltam para suas obsessões recorrentes com os fetiches sexuais da pequena burguesia, o que nos proporciona deliciosas, porém manjadas (para o leitor habitual de Trevisan) brincadeiras como, por exemplo, “Lábios vermelhos de paixão”: “Minha putinha é o encontro místico das ondas do céu e das nuvens do mar. Já lambida do licor de abelha rainha –os pentelhos emaranhados, os grandes lábios trêmulos, o vale das sombras no portal das coxas fosforescentes”).

O surpreendente em Violetas e pavões é a substituição dos filhinhos de boa família que se pervertem em fantasias sexuais delirantes, nos bas-fonds de Curitiba, ou dos egressos de um mundo ainda rural insistindo nos seus direitos de macho e vivendo em perpétua e sórdida guerra conjugal, pela terrível realidade que inunda o noticiário atual. Temos agora vidas regidas pelo tráfico onipresente, pela necessidade incessante de drogas como o crack, pelas passagens na polícia, pelas prisões inúteis, pelo flerte com a bandidagem e a contravenção, mesmo de empregadinhos “honestos”. Nesses contos ou nos micro-textos (que ironicamente imitam a diagramação da poesia) é que Trevisan renova sua obra, de uma forma aterradora.

Ainda temos a modernização das temáticas mais antigas: a velha professora que mergulha num inferno dantesco ao ser internada num hospital público (“’Misericórdia”), a filha obrigada pelo pai a substituir a mãe (que se mandou com o amante) como parceira de cama, o que evoca o mundo constitucionalmente patriarcal da obra daltontrevisiniana (“Ele”), a sordidez miserável da guerra conjugal no caso do marido que joga álcool na mulher e a deixa toda queimada, e que, saído da cadeia, a obriga a aturar sua presença sempre por perto e ameaçadora (“Cachaça e pamonha”).

Mas os contos verdadeiramente renovadores são aqueles que, como “A desgraça de Zeno”, “Aprendiz de traficante”, “Não sou o Buba”, “Tenha uma boa noite!” ou “Elas cantam só pra mim”, nos proporcionam numa impressionante miniatura, verdadeiros short cuts os contornos da nossa atualidade. Nesses contos, Trevisan consegue o milagre de chegar quase ao “grau zero de escritura”: geralmente são em primeira pessoa, mas em certo ponto parece que essa voz se torna anônima, e estamos ouvindo conhecidos, gente que escutamos de passagem, jornalistas relatando fatos que adquirem contorno de  “lendas urbanas”.

Parece que chegamos a um estado de mito, em que tudo é ritualizado e reatualizado: a mulher que resolve ir à Bolívia e traficar, e que é roubada por falsos (falsos?) policiais, o rapaz que recebeu seu salário e que, após uns chopes, tem de voltar para casa (e para as reclamações da mulher grávida) através de uma área “barra pesada”, o rapaz que tem de reconhecer o corpo do irmão abatido por traficantes a quem devia, o fotógrafo que gosta de fumar seu baseadinho e que é pego num excesso de zelo por guardas municipais e que se complica porque tem fotos comprometedoras de menores em seu laptop…

Vejamos um exemplo:

“A polícia sabia da casa 749 do tráfico ali perto. Foram até lá. Direto pelo caminho de sangue e os sinais de luta.

     No quarteirão escuro a única de luz acesa.

      A equipe rodeou quietinha. Daí um grito lá dentro: A polícia, turma. Sujou, é a polícia!

     Um deles quis pular a janela e quando viu o cerco, voltou. A casa foi invadida. Tinha ali dois tipos de olho vidrado, três mulheres e uma ou duas crianças. A tevê ligada, um monte de latas de cerveja pelo chão. Até salgadinho e pipoca.

    No canto uma calça jeans –epa! A barra ainda molhada de sangue. Numa gaveta um revólver 38, outro 22, bastante munição.Armas e calça foram apreendidas.  Isso pelas duas e meia da manhã.” (Esse trecho faz parte do relato em primeira pessoa do irmão do assassinado personagem título de “A desgraça de Zeno”; note-se o relato impessoal, em tom de noticiário, que poderia ser feito por qualquer um).

É quase um trabalho de linguagem invisível porque tão parecido com o que se conta e reconta por aí, nas ruas, nos jornais, nos botecos. Dalton Trevisan, o Homero minimalista das pequenas guerras de Tróias compostas por corrupção policial, balas perdidas, dívidas de tráfico e salários curtos.

Aos 50 anos de carreira, o mestre renova sua fórmula.

20120521121252238421o

_________________________

3 Comentários »

  1. O livro do autor Dalton Trevisan ”Violetas e Pavões,trata de assuntos sociais,seu objetivo primordial é retratar a realidade de Curitiba.Mas no conto ”A culpada” ele exagera um pouco ao contar um ato sexual ocorrido com uma menina de 5 anos,onde o personagem justifica o ato feito não deixando alguma moral…acho que devemos cogitar um pouco mais sobre o que o autor quis retratar narrando um ato de pedofilia.

    Comentário por Samanta Rodrigues — 12/08/2012 @ 10:46 | Responder

    • Obrigado pelo seu comentário, embora não tenha entendido muito bem seu objetivo. Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 12/08/2012 @ 12:00 | Responder

  2. Gosto muito da escrita do Dalton, e sua posição na literatura nacional é mais que merecida. Li 10 livros dele, e estou tentado a ir comprando as obras…

    Atualmente não sei, mas dizem que atigamente ele ia aos lugares mais “sujos” (botecos, pontos de ônibus, praças, etc) de Curitiba colher flagrantes da vida cotidiano e assim obter histórias, que são a crueza que ele retrata…

    Cristiano – Maringá-PR

    Comentário por cristiano — 08/08/2013 @ 3:20 | Responder


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