MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/05/2012

O FEITIÇO SARAMAGUIANO


(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em  22 de junho de 2010)

Para a minha geração, José Saramago (16 de novembro de 1922- 18 de junho de 2010) é, sem dúvida, o gênio da literatura da língua portuguesa. Eu tinha 17 anos quando ele lançou Memorial do Convento (1982) e começou a ser um autor-referência. Mas o primeiro livro que li dele, em 1985 (só li o Memorial no ano seguinte), ainda em edição portuguesa, O ano da morte de Ricardo Reis (ele o lançara no ano anterior) foi a ratificação absoluta: ali havia um feitiço, um uso inconfundível da linguagem (que só se confirmaria, pois, pró ou contra, quem não reconhecia de imediato o modo de escrever saramaguiano? E pensar que as pessoas perdem tempo implicando com a pontuação pouco ortodoxa, os diálogos indiferenciados nos longos parágrafos, enfim, miuçalhas,  coisas superficiais), e ao mesmo tempo, um domínio da arte da narração, que fazia com que seus romances fossem ao mesmo tempo tão exigentes e tão límpidos, tanto ‘alta literatura’  quanto obras carismáticas, que se tornaram populares, grandes sucessos de venda. E a prova desse feitiço é que ele criou uma legião de leitores apaixonados, assim como detratores passionais, porque era o nosso ponto-de-fuga, enquanto escritor (e infelizmente nenhum brasileiro se ombreou a ele no período): gostando ou não dele, Saramago nos definia para o mundo.

O aspecto mais curioso dessa sua eminência na minha geração é que esse sucesso todo lhe veio aos 60 anos. Era, portanto, um jovem gênio sessentão que despontava com Memorial do Convento e O ano da morte de Ricardo Reis. E isso também faz parte do enfeitiçamento em que ficávamos ao ler a primeira linha que nos caísse aos olhos desse português tão sisudo e tão apegado às suas convicções comunistas: não era um velho no sentido de ser um autor já com uma obra realizada (um João Cabral, ainda vivo na época), não era um autor mais antigo e já morto (como Guimarães Rosa), cujas obras descobríamos: era um autor que estava fazendo a sua obra naquele mesmo momento em que a minha geração se formava.

E que obra! Nem nos recuperáramos da magia daqueles dois livros, e logo vinha o deslumbrante O evangelho segundo Jesus Cristo (1991). Mal acabava a perplexidade de ele ter feito milagres com assunto tão batido, e sendo ateu, ainda por cima, vinha o lindíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), e logo depois a reatualização da lenda de Orfeu em Todos os nomes (1997). E então vinham os equívocos, como a aproximação de Saramago com Kafka (e mesmo com Borges). Certamente foi uma influência, mas se tivéssemos de alinhar o autor português a alguma tendência seria àquela representada por nomes como Thomas Mann, Albert Camus,  Marguerite Yourcenar, Doris Lessing, representantes da vilipendiada literatura humanista, com propósitos nitidamente pedagógicos (mesmo Camus, com seu conceito de absurdo). É por isso que não o considero um autor pessimista, como afirmam, no sentido que é, dentro da linhagem de William Faulkner, pelo peso do fatalismo e do atávico,um António Lobo Antunes (e é curiosa essa continuidade que, pelo menos como eu vejo, se mantém na dupla Saramago-Antunes, da tensão, da brecha existente entre meus dois autores favoritos, justamente Mann & Faulkner).

E depois do Nobel, quando as exigências se complicaram, ainda mais pela presença de um universo tão assombroso quanto o dele, como acabou se provando o de António Lobo Antunes, mesmo assim, de vez em quando tínhamos o grande Saramago, em boa parte de A caverna, Ensaio sobre a lucidez, na maior parte de As intermitências da morte e na totalidade absoluta de um romance tão lindo e raro como A viagem do elefante. E que molecagem deliciosa, aos 86 anos, essa de sacudir a autoridade do Velho Testamento em Caim!

O único senão é a mania de querer transforma rum grande autor em “pensador”. Dono de uma autoridade estética e ética indiscutível, o pensamento de Saramago, o Thomas Mann de nossos dias,  brilha é nas suas narrativas, na sua arte, no seu estilo. Querer extrair “frases”, “pensamentos”, uma filosofia da sua obra é uma tolice. O feitiço está em outra parte. E alimentará outras tantas gerações.

4 Comentários »

  1. belíssimo.
    e é muito interessante isto de “era um autor que estava fazendo a sua obra naquele mesmo momento em que a minha geração se formava”. algo à semelhança de quando esperamos o novo cd da banda predileta, a próxima peça do grupo de teatro que admiramos, o próximo filme da toni collette (rsrsrs).

    abração, alfredo.

    Comentário por niltonresende — 27/06/2010 @ 14:23 | Responder

    • Caro Nilton, acho que esse detalhe que você destaca é um dos fatores da posição especial de Saramago na literatura do último quarto de século. Obrigado, e um abraço.

      Comentário por alfredomonte — 27/06/2010 @ 14:50 | Responder

  2. Brilhante e afetuoso! Bravo! MV

    Comentário por Maria Valéria — 27/06/2010 @ 14:49 | Responder

    • Maria Valéria, do meu ponto de vista pessoal, a sua obra também perpassa a minha vida, e que bom acompanhá-la se fazendo, um grande privilégio.

      Comentário por alfredomonte — 27/06/2010 @ 14:52 | Responder


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