MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

“Quero inebriar-me com a enorme prostituta”: A capital do lirismo moderno, Baudelaire e Benjamin


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de agosto de 1995)

I

No meu artigo anterior, comentei Paris no século XX, de Júlio Verne, afirmando que, malgrado antecipação do futuro, o texto na verdade era uma visão crítica dos perigos da própria Paris do século XIX, a qual justamente passava por profundas transformações em seu perfil urbano.

Podemos encontrar tais transformações problematizadas nos “pequenos” poemas em prosa de SPLEEN DE PARIS (1869), de Charles Baudelaire, que reaparece em nova tradução pela Imago (realizada por Leda Tenório da Motta para a coleção Lazuli), e que, lido com o romance de Verne, prova de forma definitiva por que o grande crítico alemão Walter Benjamin, no seu belíssimo Charles Baudelaire- Um lírico no auge do capitalismo (em tradução de Carlos H. Barbosa e Hemerson A. Baptista para o volume 3 das Obras escolhidas de Benjamin, pela Brasiliense), mostra o poeta francês como a consciência lírico-crítica do século passado, por sua apreensão da poesia das cidades: “Aquilo que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa…”

O americano Marshall Berman, no melhor ensaio de seu Tudo o que é sólido desmancha no ar envereda por um caminho similar, mas está longe de escrever como Benjamin e incorre no erro de fazer do texto literário suporte das suas reflexões, o que sempre redunda numa simplificação impertinente e incômoda.

II

Esta vida é um hospital em que cada doente é possuído pelo desejo de mudar de leito”. Um dos grandes temas de SPLEEN DE PARIS é, obviamente, o tédio (spleen) advindo da vida obsessivamente institucionalizada que a burguesia instaurou e que engaiola e manieta o cotidiano de forma árida, amesquinhadora. Tudo é válido para fugir dele: Convite à viagem, um dos mais famosos e interessantes textos do livro, nos fala da plenitude do imaginário País da Cocanha e deve ter influído Manuel Bandeira a sonhar seu clássico e libertário Pasárgada: “Sim, é lá que é preciso respirar, sonhar e prolongar as horas em sensações infinitas/ (…)/ Todo homem tem uma dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, mas do nascimento à morte, quantas horas tem de positivo júbilo…?”

Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentido da insuficiência da vida desse que é, com Flaubert, o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua cotidiana, corresponde também a tentação da metrópole, dessa Paris transformada, desse fervilhante mundo urbano que o artista, na tentativa de descobrir até nos seus aspectos mais repugnantes e degradantes a “revelação” que o transcenda e sublime, explora exaustivamente.

Baudelaire fez um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu intérprete, sua prostituta sagrada e oracular, o bebedor de quintessências, que perde sua auréola (a aura benjaminiana) e se rejubila: “Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você”.

Sendo impossível reproduzir o pensamento de Baudelaire em sua beleza e contundência, a tentação é de citá-lo indefinidamente: “Sabes bem, ó Satã, Senhor de meu desespero…/Queria inebriar-me com a enorme prostituta…/Amo-te, ó capital infame!Cortesãs/ E bandidos, como tais ofereceis prazeres/ Que não compreendem os vulgares profanos…”Ou afirmar com Benjamin: “A conivência com essa dissolução lhe saiu cara. Mas é a lei da sua poesia que paira” em toda a melhor produção poética dos últimos cem anos.

1 Nota de 2012Além dessa tradução, eu tenho a clássica versão de Aurélio Buarque de Holanda, numa edição da Nova Fronteira (mas publicada pela José Olympio em 1950, na coleção Rubáyat) e a de Gilson Maurity, publicada pela Record em 2006 (na coleção Grandes Traduções).Ambas saíram como Pequenos Poemas em Prosa. Pela Hedra em 2007 saiu a tradução de Dorothée de Bruchard que também privilegia no título Pequenos Poemas em Prosa, mas logo ao lado traz O spleen de Paris.

O autor da introdução na edição da Record, Ivo Barroso, lista como a versão brasileira mais antiga a de Paulo M. Oliveira (supostamente), que saiu pela Athena, em 1937.

 

2 Comentários »

  1. acertado esse seu “(supostamente)” para paulo m. oliveira: afinal, tratava-se de um pseudônimo para ninguém menos que aristides lobo.

    Comentário por denise bottmann — 08/06/2013 @ 15:14 | Responder

    • É, eu fiquei sabendo depois. Mas é oportuno que você traga à baila, completando as informações do post. Obrigado, Denise.

      Comentário por alfredomonte — 09/06/2013 @ 1:57 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: