MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

O Mal e A Relva: a Babilônia satânica e a promessa edênica


(esse foi o  texto de divulgação para um curso que ministrei em Santos em agosto-setembro de 2007):

“…demônios insepultos no ócio

Acordam do estupor, como homens de negócio,

Estremecem a voar o postigo e a janela.

Através dos clarões que o vendaval flagela

O Meretrício brilha ao longo das calçadas;

Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;

Por toda parte engendra invisível trilha

Assim como o inimigo apronta a armadilha;

Pela cidade imunda e hostil se movimenta

Como verme imundo que ao Homem furta o que o sustenta…”

(Charles Baudelaire, O Crepúsculo Vespertino)

“Pelas ruas de Manhattan, vagueio ponderando

Sobre Tempo, Espaço, Realidade —sobre assuntos como esses

[ao lado deles pondero sobre a Prudência.

A última revelação sempre permanece por ser feita a respeito da Prudência,

Pequenos e grandes, semelhantemente, são impelidos em silêncio

[da Prudência que se ajusta à imortalidade.”

(Walt Whitman, Canção da Prudência)

 

Dois poetas contemporâneos, porém tão estranhos um ao outro, Charles Baudelaire (1821-1867) e Walt Whitman (1819-1892), e dois livros fundadores da modernidade poética, As flores do mal (1857) e Folhas da relva (1855), os quais, em comum, tiveram a mesma rejeição inicial, e depois a incorporação crescente de novos poemas, representando a síntese do trabalho de uma vida.

Como aproximar os 162 poemas de rigorosa métrica e rima, e no qual o urbano, o satânico, a sensação de saturação civilizatória e de tédio, e, por fim, o decadentismo, abundam, e os 383 poemas em versos livres, de ampla respiração, em que se parece renomear o mundo e em que o eu se torna o cosmo, abolindo fronteiras entre corpo e alma, cultura e natureza, vida e morte?

O objetivo deste curso é a aproximação pela distância, a comparação pelo contraste, a certeza de que Babilônia e Éden convivem igualmente em nossos corações e mentes.

Serão quatro aulas:

1ª aula- Contexto do surgimento das duas obras, características gerais, impacto na lírica moderna, comparação de poemas fundadores da poética de Baudelaire e Whitman (por exemplo, “Hino à Beleza” e “ Canção de Mim Mesmo”, respectivamente).

2ª aula- Whitman, o poema a plenos pulmões:

“Tece, tece, minha vida intrépida,

Tece ainda um soldado forte e pleno para as grandes campanhas que virão,

Tece o sangue vermelho, tece nervos como se fossem cordas, tece os sentidos, tece a visão,

Tece certezas duradouras, tece dia e noite, a trama, a urdidura, tece incessantemente, não te canses,

Não sabemos qual a utilidade, ó vida, nem sabemos o objetivo, o fim, nem de fato devemos saber,

Mas sabemos o trabalho, a necessidade contínua que há de prosseguir a marcha da paz

[ envolta na morte tanto quanto a guerra contínua,

Pois as grandes campanhas de paz são tecidas com o mesmo fio metálico,

Não sabemos por que, nem o que e, contudo, tece, para sempre tece.”

3ªaulaBaudelaire e os “quadros parisienses”: tropeçando em palavras como em calçadas:

“Aquilo que os homens chamam Amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” (Spleen de Paris)

4ª aula- Filiações e parentescos: Poe como ponte, Pessoa como ponto de encontro.

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