MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2012

O LIVRO DOS MANDARINS: sátira deliciosa à linguagem da globalização

(resenha publicada  originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 19 de abril de 2011)

A China e os países islâmicos do norte da África não saem do noticiário. Um dos mais talentosos romances publicados neste novo século entrelaça essa complicada geopolítica em que a palavra “mercado” é a tônica dominante: O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, autor que eu conhecia apenas de uma leitura anterior, Duas praças, que não me preparara para essa explosão de exuberância.

Paulo, o protagonista, é executivo de um banco multinacional. Admirador fervoroso das idéias e da trajetória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele impressiona os superiores com seu visionarismo corporativo “até atingir o cargo de diretor do Setor de Desenvolvimento… .  Sua função era basicamente recolher dados e redigir relatórios para que os outros setores do banco pudessem tomar decisões com maior embasamento… foi designado para ocupar o posto principal do Projeto China, uma espécie de força-tarefa que o banco criou para estudar, em Pequim, como poderia lucrar com o desenvolvimento daquele país tão interessante… porém, ele começou a sentir que era o momento de mergulhar em alguma coisa mais pessoal, mesmo que isso significasse um recomeço. Foi então que surgiu a Confucius, uma empresa de consultoria cujo principal objetivo é dar acompanhamento a executivos e oferecer palestras e minicursos de atualização…” (além disso, ao longo desse percurso, Paulo prepara um “Livro dos Mandarins”,  manual para qualquer um que deseje obter sucesso e realização).

Esse resumo pseudo-sério faz parte da pândega machadiana que permeia o estilo de Lísias em O livro dos mandarins. Como todos aqueles que criam um romance único, ele plasmou uma linguagem original e inimitável para satirizar e demolir a mentalidade capitalista cuja impregnação atávica de ganância e arrivismo é maquiada com chavões do senso comum, manipulados pelos gurus da auto-ajuda e da neurolingüística (Paulo se orgulha até de ter criado a “lingüística corporativa” ao estudar os ideogramas chineses). E ás vezes até quem os utiliza de forma oportunista acredita mesmo nesses chavões, que acabam substituindo a realidade.

Na primeira parte, absolutamente fabulosa, enquanto Paulo vai se qualificando para a vaga que todos cobiçam,elaborando suas idéias-chaves, a narrativa adota um tom prognóstico, antecipando incidentes futuros de sua brilhante carreira na China. Depois, entretanto, tudo se revela uma ficção: ele não foi designado para a China coisa nenhuma, e sim infiltrado no Sudão, de um modo “informal”, para dizer o mínimo, pois ali as condições para negócios são, digamos, mais turvas.

Paulo nunca deixará de dizer que esteve na China, e toda a sua empresa de “mentoring, coaching e counseling” é baseada nessa experiência forjada. Mais ainda, na divertidíssima segunda parte, Sudão e China intercambiam-se o tempo todo na narrativa, e prostitutas sudanesas cujo maior apelo (os homens ficam fissurados) é a mutilação genital praticada ancestralmente, depois de serem chamadas, todas, de Salma (os mesmos nomes são permutados entre inúmeros personagens[1]) recebem as alcunhas de Liu Xan Liu Xin e Liu Xun.  No Brasil, elas (após uma fuga rocambolesca do Sudão, que considero as páginas mais fracas do romance, felizmente são poucas) se tornam “gueixas massagistas” que oferecem relaxamento a empresários na recém-criada Confucius (um dos momentos mais deliciosos de O Livro dos Mandarins  ocorre quando a noiva de Paulo se depara com  o grupo, supostamente oriundo da China, no aeroporto). E farão mais sucesso do que os serviços de “mentoring, coaching e counseling” do visionário Paulo, o que encaminhará a terceira parte para um tom mais de chanchada, sem que o romance perca seu virtuosismo e graça.

O maravilhoso romance de Ricardo Lísias, cujas soluções criativas eu mal arranhei nesta resenha, descortina para o leitor tanto um mundo de mensagens subliminares, um mundo emblematizado por aquela cena de lavagem cerebral de Sob o domínio do Mal, de John Frankenheimer, na qual, sob a aparência de plácidas senhoras tomando chá e discutindo flores, ocultam-se militares chineses manipulando mentes, como também  um mundo dominado pela propaganda, mesmo que a mais mentirosa e absurda, como a de O segredo do bonzo, de Machado de Assis. O mundo em que vivemos.


[1] Eu adoro a maneira como Paulo vai ganhando epítetos que substituem seu nome ao longo da narrativa, ora de forma elogiosa, ora de forma depreciativa:

o homem-paulo; Maozinho; Pau**; Pa***; P****; *****; o branquelo; o grande amigo brasileiro; este aqui (ou neste aqui); Belé; Belé porra nenhuma; Versati (ou Versatinho); o bobo; Paulinho; exceção; o menino; um homem-feito; ming ming; o marido dela; o brasileirinho; o amigo aqui; o samurai chinês; seu malandrinho; o homem mais inteligente do mundo; o desgraçado; grande bvndão; essa mula (dessa mula); aquele cara que foi para a China; o doutor; muito detalhista e metódico; o autor; o escritor de verdade; o torto; o homem realizado; qualquer escritor, além de um ideograma chinês que não conseguirei reproduzir aqui.

Fiquei tentado a fazer várias comparações com autores como Don DeLillo (Cosmópolis), na capacidade de extrair material épico mesmo de situações pós-modernas, ou ainda  com Joan Didion (Democracia & A última coisa que ele queria) ou, em certo sentido,  com certos John Updikes.

Mas creio que a similaridade mais tangível é com Machado de Assis mesmo. O livro dos mandarins é o Quincas Borba do nosso tempo.

13/04/2012

A sede do primordial

Borges é, sem dúvida, o autor mais influente no universo da literatura a partir da segunda metade do século passado. Isso se deveu mais aos seus incomparáveis contos e ensaios. Sua poesia sempre ficou em segundo plano. No entanto, ele foi quase um militante do gênero nos seus livros iniciais (hoje em dia muito retocados, e reunidos em Primeira Poesia) e se dedicou profundamente à poesia nos seus anos derradeiros (nos sete livros que agora compõem Poesia).

No começo dos anos 60, surgiu um dos seus livros mais fascinantes e híbridos, O fazedor, no qual, após anos de exercício da prosa, voltava a mexer com a forma poética. Porém, o grande elo de ligação entre sua primeira fase e as sete coletâneas finais, é O outro, o mesmo, o qual, agora em sua feição definitiva, comporta cerca de setenta poemas que podem ser uma ótima introdução ao universo borgiano.

Eu gosto muito da poesia final de Borges, mas é preciso dizer que é pouco carismática, muito dura e chega a ser desgastante. No entanto, talvez por reunir poemas de tempos diversos, o genial escritor argentino se mostra, em O outro, o mesmo mais fluido, mais “simpático”, se podemos dizer assim,  menos engessado na sua própria figura icônica, ainda que tenhamos a mesma impressão de uma voz intemporal, lapidar, que no centro de sua majestosa erudição e saturação civilizatória comporta os elementos mais primordiais do universo, o vento, a areia, a rocha, o ferro, junto ao elemento mais presente e insondável, o tempo, e o instrumento mais perecível e mais humano, a memória: “Peço a meus deuses ou à soma do tempo/ que meus dias mereçam o olvido/ que meu nome seja Ninguém como o de Ulisses/ mas que algum verso perdure/ na noite propícia à memória/ ou nas manhãs dos homens”.

Mais uma vez Buenos Aires aparece como uma sobreposição, um palimpsesto de tempos passados, de nostalgia pessoal e de cidade real: “E a cidade, agora, é como um mapa/ de meus fracassos e humilhações/daquela porta vi os entardeceres/ e ante este mármore esperei em vão/ Aqui o incerto ontem e o hoje claro/ me ofereceram corriqueiros casos/ de toda a humana sorte; aqui meus passos/ urdem seu impensável labirinto.” Ou ainda: “Antes, eu te buscava em teus confins/ que limitam com a tarde e a planura…/Estavas na memória de Palermo/em sua mitologia de um passado/de baralho e punhal e no dourado/bronze de aldravas nunca utilizadas/ com sua mão e o aro. Eu te sentia/nesses pátios do Sul e na crescente/sombra que desmaece lentamente/ sua longa reta, ao declinar o dia/ Agora estás em mim. És minha vaga/sorte, essas coisas que a morte apaga”.

Como a edição é bilíngüe, dá para ver como o original tem um sabor inigualável (onde está em português “desmaece”, por exemplo, no original temos “desdibuja”).

O grande mérito de Heloísa Jahn (sempre uma ótima tradutora, e que contou com a colaboração de  outro craque, Paulo Henriques Britto, nos poemas ingleses) é propor uma versão em que encontramos uma feição própria, ainda mais num idioma tão próximo, inclusive por um ponderado e feliz uso de vocábulos diferentes, não tão literais, porém mais expressivos na nossa língua (o único senão é que ela elimina, por causa da métrica, de forma contumaz os possessivos borgianos, e isso às vezes altera o sentido de um verso ou uma imagem). É tão bom ler “Para cantar as glórias e lembranças/ amealhava laboriosos nomes/ se era a guerra a conjunção dos homens/ era também a conjunção das lanças” na nossa língua quanto, no original: Para contar memórias o alabanzas/amonedaba laboriosos nombres; la guerra era el encuentro de los hombres/ y también el encontro de las lanzas” . Do encontro à conjunção, nada se perdeu, tudo se enriqueceu.

Aliás, talvez o poema Um soldado de Lee possa ilustrar esse perde-ganha da tradução de Heloísa Jahn. É discutível por exemplo, a maneira como ela verte:

“Lo ha alcanzado uma bala em la ribera

de una clara corriente cuyo nombre

ignora. Cae de boca. (Es verdadera

la historia y más de un hombre fue aquel hombre)…’

    por:

“Atingiu-o uma bala na ribeira

de uma clara corrente cujo nome

ignora. Caiu de boca. (É verdadeira

a história e mais de um homem foi aquele)…”

    Qual o motivo de evitar na tradução a repetição de  “homem”, tão essencial ao verso, a meu ver?

No entanto, vejam como é feliz a tradução, no mesmo poema, do verso:

“caíste como un hombre muerto”

por:

“caíste como cai um homem morto”,porque reforça a aliteração, mas também porque evoca, na nossa própria tradição poética e tradutória, a maneira como Augusto de Campos traduziu um verso da Divina Comédia e que entrou para a história, e que não deve ter passado despercebida a uma tradutora do quilate de Heloísa Jahn quando considerou o verso.

Talvez O outro, O mesmo não tenha o apelo da contemporaneidade, mas é um dos livros mais bonitos do último meio século: “Mais além deste afã e deste verso/ me aguarda inesgotável o universo”.

(resenha publicada de forma ligeiramente mais condensada em “A Tribuna” de 31 de agosto de 2010)

12/04/2012

A TRAMA DO SERÁ, É, FOI

 

 O PARADOXO DE BORGES: sobre “Elogio da sombra”

 

Ninguém pode escrever um livro. Para

Que um livro seja verdadeiramente

Requerem-se a aurora e o poente

Séculos, armas e o mar que une e separa…”

         Assim se inicia um dos poemas do maravilhoso O fazedor (1960). Seu autor, Jorge Luis Borges (1899-1986), tinha horror da subjetividade que parece essencial ao homem do pós-Romantismo (note-se que a própria idéia de “autoria”, isto é, o que há de mais pessoal numa obra, encontra-se problematizada). Por isso, procurou instituir um clima poético que vai justamente na vertente contrária: toda a história e até a eternidade são o mesmo que um único dia (“Em um dia  do homem estão os dias/do tempo, desde o inconcebível/ dia inicial do tempo, em que um terrível/ Deus prefigurou os dias e agonias”; “Dá-me, Senhor, coragem e alegria/ para escalar o cume deste dia”), um indivíduo é toda a humanidade, e a alteridade, o eterno jogo do Mesmo e do Outro se dissipa nessa visão de mundo: “Somos esse quimérico museu de formas inconstantes/ uma pilha de espelhos rotos”, passando enquanto ficam a aurora, o poente, os séculos, as armas e o mar que une e separa, símbolo do imemorial, que foram requeridos para que Borges desse forma a outro grande livro da maturidade, ELOGIO DA SOMBRA (1969), com a mesma mistura de O fazedor de poemas  com pequenos textos em prosa.

         Não é na novidade e no surpreendente que vamos encontramos a grandeza da poesia que permeia ELOGIO DA SOMBRA. É na formulação lapidar de verdades que, justamente da maneira como são trabalhadas por Borges, parecem realmente eternas, vindas do fundo dos tempos, com um potente sopro de sabedoria. Não é à toa que ele foi co-autor de um notável e esclarecedor livro sobre Buda.

         Veja-se o lindíssimo “Heráclito”:

 

O segundo crepúsculo.

A noite que mergulha no sono.

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo.

A manhã que foi a aurora.

O dia que foi a manhã.

O dia numeroso que será a tarde desgastada.

O segundo crepúsculo.

Esse outro hábito do tempo, a noite.

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo…

A aurora sigilosa e na aurora

a inquietude do grego.

Que trama é esta

do será, do é  e do foi.

Que rio é este

pelo qual flui o Ganges?

Que rio é este cuja fonte é inconcebível?

Que rio é este

que arrasta mitologias e espadas?

É inútil que durma.

Corre no sonho, no deserto, num porão.

O rio me arrebata e sou esse rio.

De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.

Talvez o manancial esteja em mim.

Talvez de minha sombra,

fatais e ilusórios,  surjam os dias”.

         Diante de um texto como esse temos de reconhecer que existe a perfeição. E que pouca coisa mudou na humanidade, em termos de especulação ontológica, desde os pré-socráticos. Não há uma única idéia nele, a respeito desse “senhor tão bonito” (como diz a música de Caetano Veloso), o tempo, que já não tenha sido expressa milhões de vezes, mas parece que todos esses milhões condensaram-se numa cifra mágica, numa formulação inexcedível.

         Leitor voraz até ficar cego (“Que outros se jactem das páginas que escreveram/ a mim me orgulha o que li”), Borges sempre concebe o contrário, o “outro lado da moeda”: “…o esquecimento/ é uma das formas da memória, seu impreciso porão…”. Outro grande poeta latino-americano, o mexicano Octavio Paz, pensando em termos de ideologia (essa coisa que tanto horrorizava seu colega argentino), exprimiu esse jogo de contrários exemplarmente ao dizer que “a  idéia fixa embebeda-se do oposto”.

         Na trama do “será, é, foi”, tudo volta a se reciclar e tudo leva de novo às fontes, pelo menos o que conseguimos conceber ou o que carregamos no sangue, como mostra o poema que eleva o sobrenome dos avós, Acevedos, ao mítico, que forma o mundo da memória:

 

Campos dos meus avós e que guardam

Ainda o nome de Acevedo, o nosso.

Indefinidos campos que não posso

Imaginar por inteiro. Meus anos tardam

E não contemplei ainda essas cansadas

Léguas de pó e pátria que meus mortos

Viram cavalgando, esses abertos

Caminhos, seus ocasos e alvoradas.

A planície é ubíqua. Tenho-os visto

Em Iowa, no Sul, em terra hebréia,

Naquele salgueiral da Galiléia

Que palmilharam os humanos pés de Cristo.

Não os perdi. São meus. Eu os detenho

No esquecimento, num casual empenho”.

         Borges, o escritor que amava os paradoxos, não poderia ter inventado um melhor do que escrever um livro luminoso chamado ELOGIO DA SOMBRA.

(resenha publicada em 18 de dezembro de 2001, em A TRIBUNA de Santos,  a respeito de uma edição da Globo com tradução dos poemas por Carlos Nejar & Alfredo Jacques). 

10/04/2012

Tudo o que é sólido afunda no mar: CADA UM POR SI e a luta de classes no Titanic

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 1998)

O leitor pensa: novamente a mesma triunfalidade na partida do Titanic, em abril de 1912, a mesma arrogância do pessoal da primeira classe, os mesmos avisos persistentes sobre icebergs ignorados pelo comandante, a mesma perplexidade diante da constatação de que o navio afundará, o mesmo atropelo, a mesma falta de escalares suficientes para todos, o mesmo avanço inexorável da água a bordo, a mesma quebra do navio em dois,  o mesmo desaparecimento no oceano gelado que arremata o serviço de mortandade…

Qual é a novidade de  CADA UM POR SI (Every man for himself, Inglaterra-1996, em tradução de Carlos Süssekind), de Beryl Bainbridge, após o disaster love (e, a meu ver, um desastre como obra cinematográfica) de James Cameron?

Dessa vez, a história é contada por Morgan, sobrinho do proprietário da Companhia que construiu o Titanic. Adotado pelo tio, com uma infância obscura e constrangedora, ele divide-se entre os interesses cotidianos da sua classe e uma superficial atração pelo socialismo. Durante os poucos dias da travessia, sofre também uma desilusão romântica: era apaixonado pela estranha Wallis. E ficara fascinado por Scurra, um homem misterioso (que me lembrou aqueles personagens de Orson Welles, como  o Mr. Arkadin, de Grilhões do passado), com o qual discutia com franqueza os mais variados assuntos, e o qual lhe deu dicas sobre a Vida (numa certa altura, chegara a suspeitar que ele fosse seu desaparecido pai).

Morgan descobre que Scurra e Wallis são amantes. Por causa dessa situação, Scurra diz a ele a frase-clichê que dá título ao romance. Cada um se vira por si e procura levar a melhor (a Lei de Gérson, em suma).

CADA UM POR SI concentra-se no universo da primeira classe, para a qual foi construído o Titanic e da qual ele é o símbolo, tanto na triunfalidade quanto na fatalidade.

Nada de rapazes pobres da terceira classe que, como Cinderelas, participam de jantares suntuosos e ainda dão lição de moral  para milionários enfatuados (o que a carinha de franguinho mal desovado de Leonardo di Caprio ajuda a tornar mais risível; mas a sua partner não fica atrás: como alguém pode aceitar o filme de Cameron como “romântico” quando se sai com a memória de uma cena em que ela, andando paquidermicamente, com uma aparência assustadora e um machado na mão nos parece transportar para o hotel mal-assombrado de O iluminado?). O mundo de Morgan é um mundo de domínio: “Foi a sublime termodinâmica de engenharia naval do Titanic que nos cortou a respiração. Deslumbrado, eu estava pensando que se o destino do homem se achava ligado à ordem do universo, e se era possível igualar o funcionamento cientificamente construído das máquinas ao do universo, em perfeita reciprocidade, meu Deus, nada poderia dar errado no meu mundo”.

É um mundo restrito: “Veja em volta. Este lugar está abarrotado de gente que frequentou os mesmos colégios, as mesmas universidades, assistiu às mesmas aulas de esgrima, teve os mesmos professores de dança, de música, de latim, os mesmos instrutores de tênis”.

E é um mundo perigosamente alienado. Enquanto há um persistente incêndio nas caldeiras, Morgan nos fala das preocupações do projetista do navio, que está a bordo: “Andrew planejava vários ajustes e alterações. O calçamento de pedras no passeio exclusivo do convés da primeira classe ficara com um colorido um pouco escuro demais; a aparência das cadeiras de vime no lado de estibordo poderia ganhar se tingidas de verde; havia parafusos demais nos cabides para pendurar chapéus dos camarotes…”. E assim por diante.

Portanto, pode haver a mesma triunfalidade na partida, a mesma arrogância da primeira classe,os mesmos avisos ignorados de icebergs, a mesma perplexidade diante da constatação do afundamento iminente, o mesmo atropelo, a mesma insuficiência de escaleres, o mesmo avanço da água, a mesma quebra em dois, o mesmo desaparecimento no oceano gelado, as mesmas mortes. Nem por isso, CADA UM POR SI se deixa levar para o mundo raso da pieguice industrializada que caracteriza a superprodução de James Cameron, onde o público parece uma claque amestrada: hora de rir, pessoal; hora de chorar…

Que alívio ver os momentos mais fortes da tragédia descritos com sobriedade, sem aquela perversidade de transformar tudo em espetáculo e efeitos de última geração.

O mundo de Morgan e seus parceiros da primeira classe é restrito e alienado, mas é justamente das suas preocupações triviais, das suas irrelevantes questões, tão fortuitas, que o livro da autora inglesa tira a sua força. Ao abalroar preocupações corriqueiras que contam com a existência do futuro com o iceberg da fatalidade, ela cria significados irônicos, inesperados.

E um deles se refere ao próprio título (que, a princípio, parecia ser uma provocante negação do heroísmo e da bravura diante da morte iminente, sempre associados a certos atos na tragédia do Titanic). Morgan, com suas ínfimas desilusões sentimentais, poderia dar crédito à afirmação de Scurra, de que na vida é “cada um por si”. Porém, o destino e a fatalidade, que mostram a ele que tudo pode dar errado em seu mundo, ao contrário do que acreditava, acabam por ensiná-lo que todos estão no mesmo barco.

A Europa e o iceberg

Dedico este post a Cássio Queirós

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 1997)

A tragédia do Titanic está na moda novamente. Há filmes sobre o assunto a caminho, há um musical premiado na Broadway. Até mesmo a rainha dos best Sellers, Danielle Steel aproveitou o acidente trágico num de seus últimos caça-lágrimas&níqueis semestrais.

Em Cântico para a última viagem (no original, Salme ved Reinsens Lutt, traduzido por Sissel Cardona), de Erik Fosnes Hansen, o naufrágio ocorrido em 1912 é aproveitado de maneira inteiramente diferente. Aliás, a tragédia propriamente dita ocupa vinte das mais de quatrocentas páginas da narrativa. No romance do autor norueguês, o Titanic serve para reunir as trajetóriaa (e transformá-las em destinos) dos personagens principais, membros da orquestra do navio: Jason, o regente; Alex e David, os violinistas; Spot, o pianista, e Petronius, o baixista. Há, ainda, o francês Georges, que resume para os outros os mitos gregos da criação do mundo, e o irlandês James. Fica evidente, portanto, a intenção de Hansen de fazer um painel simbólico da Europa.

Cada uma das histórias dos membros da orquestra do Titanic exemplifica uma das mais fecundas tradições do romance europeu: o romance de formação. E cada um deles, seja em Londres, em São Petersburgo (Leningrado), em Viena, nas cidades italianas, no interior da Alemanha ou em Paris, vai se confrontar com as escolhas individuais e com as fatalidades exteriores, constatando que as escolhas não são tantas assim.

Por meio dessas trajetórias, os grandes temas do romance europeu (a questão da liberdade individual, da procura do sentido da vida, em meio a uma organização social que não tem sentido algum; a solidão; a morte) são articulados para produzir a grande ironia: no final, a Europa pré-Primeira Guerra Mundial naufraga com seus representantes no Titanic. Um pouco como A montanha mágica, a obra-prima de Thomas Mann, Cântico para a última viagem concentra a discussão sobre o fim do mundo europeu anterior à conflagração de 1914 num único espaço simbólico.

Hansen vai preparando o grande tema do naufrágio e da morte coletiva (e ao mesmo tempo tão solitária) com as referências à arca de Noé e às barcas da peste (que aparecem na história de Jason) e a Ícaro, que sonhou com o sol e acabou afogado no mar por sua excessiva ambição (na história de Spot). Isso sem contar o afogamento da garota que fica grávida de Jason, incidente que nos mostra o desamparo individual frente a uma organização social cristalizada e indiferente. O próprio Jason tem uma prefiguração de seu destino, muito tempo antes de embarcar como regente da pequena orquestra do malfadado Titanic:

Não podia negar: vivia num bairro pobre. Talvez ele já fosse um dos muitos sem-rosto, mas não tinha sido essa a intenção. Pensava no pai e na mãe; certamente haviam imaginado algo melhor para ele. Sim, era um dos sem-rosto. Se fosse aquela noite até a ponte de Waterloo e se desaparecesse nas fortes correntes do Tâmisa, o que teria significado? Nada, nem para Deus, em quem não acreditava, nem para as pessoas, nas quais em momento de tristeza ele também não acreditava”.

Essa oscilação entre a aguda percepção de ser uma individualidade e, ao mesmo tempo, a constatação da insignificância da individualidade, do nada que a gente é, também permeia a trajetória de Spot:

Relembrava, e pensava, e sabia que ele próprio não significava nada, que não era ele. Ao fim e ao cabo, não existia”.

Nesse sentido, a história de Alex, o russo, vai configurar a voluntária supressão da liberdade individual em favor de um líder carismático, o deixar-se ir pela vontade de outro (que, na história européia, acarretará as conseqüências terríveis que conhecemos): ele cai sob a influência de um contorcionista, líder de uma quadrilha…


Como se pode ver, há muita coisa em Cântico para a última viagem. Erik Fosnes Hansen escreveu um livro talentoso. Tinha 25 anos, ao publicá-lo em 1990. Por isso, podem ser perdoadas certas falhas. Entre elas, as que mais atrapalham a leitura são as explicações didáticas de temas complexos, míticos ou filosóficos, em particular, a explicação da Teogonia, de Hesíodo, ruim e forçada, numa espécie de “simplificação para jovens” (ou para o leitor mediano) que, se o livro tivesse sido publicado antes de O mundo de Sofia, poder-se-ia imputar a ele uma influência de Jostein Gaarder. Há também partes bem fracas do livro, como os diálogos de Jason com a menina que depois se suicida ou o início da segunda parte, por exemplo; e há um recurso que o autor utiliza, como se estivesse conversando com os personagens (ou eles consigo mesmo), que é decididamente irritante, cafona mesmo 1:

Esta noite você sonha com ela, David. Ela sonha com você? Estão sós. Não são mais vocês. São Você e Você. Vocês dois nasceram na luz. Agora Você e Você serão criados na escuridão”!!!???

Para não falar na nota final do autor, absurdamente pernóstica e desnivelada do tom do livro.

Cântico para a última viagem não é um A motanha mágica nem mesmo um E la nave va, de Fellini, ou um A nau dos insensatos, de Katharine Anne Porter. No final das contas, porém, Hansen conseguiu o feito primordial de qualquer escritor ou diretor cinematográfico: plasmar um mundo que nos envolve. E a possibilidade do fim do mundo em 2000, tão apregoada, um mundo onde alta tecnologia e miséria extrema convivem, uma possibilidade que torna todos os nossos pequenos problemas mesquinhos tão risíveis, faz com que todos nos sintamos num Titanic, onde grande eventos e miúdas preocupações terão o mesmo destino.

1 Vargas Llosa também é useiro e vezeiro desse recurso, mas o dilui na narrativa com tal habilidade que não chega a atrapalhar.

08/04/2012

Jesus Cristo e o entrechocar de espadas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 1995)

Um leitor mais injuriado poderia acusar o selo “Nova Era” da Record de propaganda enganosa. Na capa traseira de A prova do labirinto (La prueba del laberinto,  Espanha- 1992, em tradução de Luísa Ibañez), de Fernando Sánchez Dragó, afirma-se que ele “conta a história de um detetive de 53 anos, obrigado pelos deuses, pela Confederação de Forças do Além e pelas circunstâncias a partir em busca de Jesus de Nazaré, pregador  judeu que desapareceu misteriosamente no 33º. Ano de nossa Era”. Ainda, segundo a editora, “há mistério, viagens, tensão, incerteza, emboscadas, pessoas boas e más, mulheres bonitas e mulheres piedosas, traidores, exotismo, ocultismo, tiranos, lutas políticas e religiosas, entrechocar de espadas (sic), conspirações, Reis Magos, leprosos, prostitutas, adúlteras, amor, dor, morte e até mesmo uma ressurreição”!!!!!!???????Ufa!

Parece muito para um livro só? E é, claro. Há algumas (poucas) obras que parecem conter a vida inteira: Guerra e Paz, de Tolstoi, é um exemplo, e mais ocntemporâneamente, tivemos A cidade de quatro portas ou Shikasta, de Doris Lessing. Mas o problema com A prova do labirinto é que se promete não apenas muito,  como também o que não está no livro. Tirou-se um trecho de seu contexto e falseou-se totalmente a expectativa do leitor com relação a uma narrativa decerto divertida, simpática. E também extremamente narcisista.

Dragó conta a história de Dionisio, escritor resolvido a não mais publicar e que, todavia, é pressionado por seu editor a se lançar numa pesquisa sobre a vida de Jesus. Por coincidência, esse era justamente o mais íntimo e genuíno projeto da vida de Dionisio, típico representante dos anos 1960 e que vê no retorno ao Cristo (desvinculado dos dogmas da igreja) a última opção, após passar por todas as experiências daquela década mágica e constatar que o mundo dos anos 1990 naufraga cada vez mais no materialismo, num proto-fascismo e no fundamentalismo fanático.

No que se refere aos anos 1960, o livro de Dragó chega a ser imperdível. Passa em revista os caminhos percorridos: drogas, xamanismo, Castañeda, liberação sexual, filosofias orientais, práticas meditativas, ioga; tanto que, para firmar sua decisão de ir a Jerusalém, consulta uma especialista em tarô (uma longa e interessante cena), o I-Ching, e, pasmem, os seus próprios livros, que ele se encarrega de citar, além de se referir amiúde a um grande amigo, o próprio Fernando Sánchez Dragó! Nem Woody Allen cavoucou tanto o próprio umbigo!

Já no que se refere a Jesus, as coisas são mais complicadas e, a partir da viagem, A prova do labirinto degringola, aborrece, enche lingüiça. E prova definitivamente que toda experiência mística é individual, intransferível por definição, isto é, a não ser em raríssimos casos, não dá para outrem afiançar sua veracidade, por mais simpatia que desperte. É por essa razão que 99% da literatura esotérica (e está se falando aqui da bem-intencionada) falha.

Dragó, pelo menos, tem uma sensibilidade literária um pouco mais apurada que a média (e é mais um autor que tem uma dívida com Borges, já a partir do título) e mostra que na literatura espanhola do gênero há vida mais inteligente do que a transmitida pela carreira, digamos, literária, de J.J. Benítez, o pretensioso e enfadonho autor de outra escavação da vida de Cristo, Operação Cavalo de Tróia, que (pelo menos o primeiro volume, parabéns para quem conseguiu ler os outros) é uma tortura de perda de tempo e chatice cujo único similar talvez seja uma sessão dupla e sem intervalos de Mary Poppins com My fair lady.

De todo modo, como reinvenção da figura de Cristo, o livro de Sánchez Dragó é pífio. Aparecem, contudo, algumas “emboscadas” e algumas “conspirações”, tal como prometido pela editora. Quanto ao “entrechocar de espadas”, só se ela estiver se referindo a uma passagem em que o narrador cinquentão risivelmente resolve liberar sua porção mulher que até então se resguardara numa experiência gay que eu não consigo sequer descrever, mas que é considerada por ele uma escala essencial no seu encontro com o “homem de Nazaré”. Ou, segundo as conclusões do relato, com “o homem do Egito”. Que seja. Pouco importa.

O Jesus do credo determinista

A resenha abaixo, publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 16 de janeiro de 1996, foi escrita quando até então eu nunca ouvira falar na editora Martin Claret; depois da sua nefanda carreira editorial posterior, eu gostaria de nunca ter ouvido falar dela, ainda que agora eles estejam executando alguns tímidos passos para recuperar a credibilidade que perderam com plágios de traduções, tradutores fantasmas e outros horrores.

Publicado em 1863, Vida de Jesus (“Vie de Jesus”), de Ernest Renan (1823-1892), um dos livros mais famosos e influentes do século XIX, ganhou uma bem escolhida capa na edição da Martin Claret, que foge totalmente do clichê, ao reproduzir detalhe de um quadro de Salvador Dali. Além disso, a elogiável edição traz textos adicionais de Renan e reproduções de quadros sobre a vida de Cristo ao longo do volume inteiro. A tradução de Eliana Maria de A. Martins me pareceu bem razoável, ressalvando-se um ou outro erro mais evidente.

No livro, Renan discorre muito sobre a mistura que o desenvolvimento da pregação de Jesus fez, da mensagem profunda e autêntica da qual ele era portador (e que faz dele representante do melhor que a humanidade pode ambicionar) com  as superstições e tolices populares, em que lenda e fato confundem-se.

O autor francês também não deixa de misturar uma tentativa escrupulosa e honrada de relatar objetivamente a vida de um grande homem, a partir de escassas fontes documentais, com análises que pagam pesado tributo à época cientificista na qual ele escrevia, quando preponderavam visões essencialmente deterministas (e que hoje, com seus matizes racistas, hoje seriam consideradas politicamente incorretas), psicologicamente tão frágeis e tolas quanto as crendices populares supersticiosas: “Nós compreendemos pouco, com nossas naturezas frias e escrupulosas, uma tal maneira de ser possuído pela ideia da qual ele se fez apóstolo. Para nós, raças profundamente sérias, convicção significa sinceridade consigo mesmo. Mas a sinceridade consigo mesmo  não tem muito sentido para os povos orientais, pouco habituados às delicadezas  do espírito crítico. Boa fé e impostura são palavras que, em nossa consciência rígida, se opõem, inconciliavelmente. No Oriente, de uma a outra existem mil saídas e desvios… A verdade material não é muito cara ao oriental. Ele vê tudo através de seus preconceitos, seus interesses, suas paixões”. Realmente, como a história prova, franceses e demais povos europeus são espécimes humanos isentos de preconceitos, interesses e paixões, e incapazes de misturar boa fé e impostura.

Aliás, como o mundo é mesmo misturado, como nos advertia Riobaldo, não perdoando nem mesmo a mais alta figura da humanidade, não se deve estranhar que uma iniciativa editorial tão louvável seja avacalhada com um lançamento em forma de kit (incluindo um CD completamente arbitrário, beirando o ridículo), que quase a torna um produto de supermercado, de bazar oriental, ou mais modernamente, um daqueles produtos do telefone 1406 anunciados via tevê.

E qual a importância, afinal, de Vida de Jesus a esta altura do campeonato? Por que não trocá-la pelas magistrais e ainda mais problematizadoras visões de Cristo, realizadas por Kazantzakis, Pasolini ou Saramago? A resposta é simples: porque 130 anos depois de sua publicação original, o livro de Renan é ainda precioso material informativo. E literário. Porque ele aproxima-se bastante (ah, a ironia do tempo), apesar de algumas diferenças metodológicas, da atual situação das pesquisas sobre o assunto. Porque ele, ao provar a existência histórica de Jesus  (na época, um feito original), faz –ao contrário dos que pensam que basta ter fé em Cristo, o que nesses tempos de Edir Macedo e congêneres é muito perigoso—com que seu papel em nossas vidas seja mais impressionante e bonito.

Pena que no livro haja um excesso de retórica, e não apenas por conta do estilo da época: Renan trabalha obviamente em cima do abismo de fatos insuficientes e tem de preenchê-lo muitas vezes com trechos que se revelam constrangedores, como aquele em que compara a elevada meditação de Jesus nas montanhas com a mediocridade das reações e pensamentos que podem ocorrer a um burguês ante a mesma paisagem. Ora, ora. Quando se é um Jesus evidentemente os pensamentos podem ser tudo, menos burgueses. É martelar o óbvio e empobrecer a obra.

Mesmo assim, como tudo é misturado mesmo, Vida de Jesus ainda é uma leitura impactante, nos seus melhores momentos.

07/04/2012

Uma humanidade gritante: “O evangelho segundo Jesus Cristo”

  Entre as boas novidades da Companhia de Bolso está uma edição mais popular de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o qual há 15 anos (foi lançado em 1991) permanece como uma das duas obras-primas literárias supremas a ter Cristo como protagonista (a outra é A Última Tentação, de Nikos Kazantzakis, um romance que se torna cinqüentenário em 2006). José Saramago já havia escrito coisas que até Deus duvida antes, e depois continuaria escrevendo, porém talvez nenhum texto seu seja tão deslumbrante. Ao mostrar o Criador como uma potência imperialista lutando pelo controle do mundo, ele literalmente fez o diabo, transformando a tessitura narrativa numa túnica inconsútil da qual é até difícil extrair uma citação.

   “Deus não perdoa os pecados que manda cometer. E Saramago tampouco perdoa: “se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco… o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada…” Mais adiante: Por outras palavras, o teu Deus é o único guarda duma prisão onde o único preso é o teu Deus. E, muito mais adiante ainda: O problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.”

   Ainda assim, a grande força do texto, seu centro de gravitação, é menos a acusação metafísica (já poderosa) do que a afirmação de uma humanidade gritante ao cometer seus pecados. A primeira parte do romance (onze capítulos) é dominada pela figura de José (cujo destino também é morrer crucificado). Nunca antes o pai humano de Cristo ganhara contornos tão nítidos e inesquecíveis.

  O grande autor português, talvez imbuído de “um espírito voltaireano, irônico e irrespeitoso”, ao focalizar o nascimento de Jesus e as atribulações do marido de sua mãe, ao cumprir suas obrigações religiosas, também não esquece  de aquilatar de forma definitiva a crueldade do ser humano para com os animais. José vai ao templo em Jerusalém oferecer sacrifício: uma alma qualquer, que nem precisará ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina…” Consumado o sacrifício: “…tudo voltará ao que era antes, a diferença é haver duas rolas a menos no  mundo e um menino mais que as fez morrer.”

    Não se pense que Saramago  zombe da história de Cristo. Muito pelo contrário. Ele se mostra um formidável adversário daquilo que não aceita e não acredita, mas que não pode evitar enquanto narrador, acicatando “essa cicatriz benévola que é não pensar”. Talvez seu Cristo, ao ocupar a segunda parte da narrativa, não tenha a explosiva mistura Zaratustra-personagem de Dostoievski do Cristo de Kazantzakis; nunca, entretanto, desce a um mero nível de humanização adocicada, como o Cristo de Frei Betto no seu palidíssimo e aguado Entre todos os homens: “Sendo Jesus o evidente herói deste evangelho, que nunca teve o propósito desconsiderado de contrariar o que escreveram outros e portanto não ousará dizer que não aconteceu o que aconteceu, pondo no lugar de um Sim um Não…”

   Sim e Não.  Deus e o Diabo. Kazantzakis já nos advertia: “Sem dúvida foi Deus, Deus.. ou teria sido o Diabo ? Quem consegue distinguir entre os dois ? Eles trocam de cara. Deus às vezes é só escuridão; e o diabo, só luz.”  Saramago, tão diferente dele, no entanto tão igual (como deus e o diabo ?): “…e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro (…) imagine-se o escândalo  se Pastor lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava dentro”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2006)

 

O BODE EXPIATÓRIO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de abril de 2004)

Há alguns anos, resenhei com dureza o romance de Frei Betto, Entre todos os homens, antes de tudo por ser literariamente fraco, e, além disso,   por desfibrar a figura de Cristo, acomodando-a a um catolicismo moderninho e aguado.

Como no momento só se fala do filme de Mel Gibson e da experiência excruciante que é assisti-lo, é interessante comentar as obras literárias de peso que “acertaram” na abordagem da vida de Jesus. Nenhuma delas, como já afirmei  outras vezes,  é mais importante do que A última tentação de Cristo (1956), de Nikos Kazantzakis (1883-1957) .

No capítulo 17, depois de ter sido batizado por João, Jesus vai para o deserto  (onde sofrerá as famosas tentações,  após as quais um derrotado Lúcifer diz: “Ainda vamos nos encontrar outra vez, em breve”, o que acontecerá na crucificação, quando surge o ensejo para a “última tentação”: uma vida como a de qualquer outro homem).  Lá, encontra a carcaça de um bode, não qualquer bode,  mas o chamado bode expiatório que a população das aldeias enche com amuletos e que é escorraçado e apedrejado até morrer no deserto: “Meu irmão, você era inocente e puro, como todos os animais. Mas os homens, esses covardes,  fizeram-no portador de seus pecados, enviando-o para a morte. Decomponha-se em paz. Não lhes guarde rancor. Os homens, esses fracos,  não têm coragem de pagar por seus próprios pecados: preferem pendurá-los no pescoço de um inocente”.

Como se vê,  aí já temos uma prefiguração  do destino: boa parte de A última tentação é composta pelo duro aprendizado  de Jesus como pharmakós, o bode expiatório. É o pressentimento disso que faz  com que ele se furte à sua “missão”  durante  30 anos,  chegando ao ponto de degradar-se  fazendo cruzes para os romanos executarem seus compatriotas rebeldes.

Kazantzakis escreveu uma história de Cristo sob o signo de Dostoiévski e Nietzsche. De Dostoiévski temos a ideia de Deus como um tormento na vida do homem, espicaçando-o, testando seus limites e arrastando os demais nesse dilema (é o que acontece no livro com os discípulos, Madalena, as irmãs de Lázaro: Marta e Maria); de Nietzsche temos a superação do homem para um “além do homem”, com acesso a uma nova forma de existência, através de ensinamentos-relâmpagos que desestabilizam quem os recebe. É o Jesus-Zaratustra incendiário, que vem varrer os princípios da nossa vida, que nada tem a ver com o Jesus fraquinho de Frei Betto, tão politicamente correto.

De certa forma, temos uma espécie de arqueologia narrativa das raízes dos evangelhos, contrariando o princípio moderno de deixar de lado os estratos mais incômodos, realçando apenas aspectos mais tolerantes. O mesmo (guardadas as devidas proporções, é claro) acontece com A paixão de Cristo, praticamente o único filme até hoje a dar uma noção física, por assim dizer, do que foi realmente o sacrifício de Cristo pela humanidade, sem concessões e sem desvios. Só que enquanto Mel Gibson nos torna espectadores aterrados, porém ainda assim meramente espectadores, passivos, de um evento portentoso e incognoscível, que nos supera e nos causa uma sensação de insignificância, o objetivo de Kazantzakis é fazer cada leitor assumir como sua a trajetória de Cristo, o seu processo de auto-esclarecimento em meio a tantas ambiguidades e contradições: “desejava oferecer um modelo supremo ao homem disposto a lutar”.

Daí sua imensa profundidade filosófica, existencial e até teológica, sem falar na autoridade estética (de que temos outras provas, como o magnífico O Cristo recrucificado, o atormentado Testamento para El Greco e os belos Zorba, o grego e O pobre de Deus). É por isso que a versão de Scorsese, de que eu gosto muito, e cujas maiores qualidades derivam do virtuosismo único do diretor, é insatisfatória  porque deixou tanta coisa de lado, entre elas a inimitável atmosfera das aldeias nas quais Jesus viveu, perambulou e pregou, descritas por Kazantzakis com tal força que não é à toa que a suprema tentação de Cristo acabe sendo seu apego telúrico: “Ele abaixou-se, pegou um punhado de terra e cheirou-a. O aroma penetrou até o fundo do seu ser… esfregou aquela terra no rosto, no pescoço, nos lábios. Segurava aquele solo na palma da mão e não queria se separar dele nunca”.

Contudo, para ele, o cordeiro que nasceu para ser abatido, o ciclo das estações e da vida precisa ceder ao rito sobrenatural da Páscoa, no seu significado mais agudo: “A Páscoa, meus fiéis companheiros, significa uma passagem, passagem das trevas para a luz, do cativeiro para a liberdade. Mas a Páscoa que celebramos nesta noite ainda vai adiante. Hoje a Páscoa representa a passagem da morte para a vida eterna”.

O desalentador, na leitura de A última tentação (muito bem traduzido,ainda que não diretamente do grego, por Waldéa Barcellos & Rose Nânie Pizzinga), e após assistir A paixão de Cristo, é que o bode expiatório ainda continua uma muleta para a humanidade: ela nunca executa a passagem, ela nunca muda.

06/04/2012

Que falta fazem os camelos voadores!

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de abril de 1998)

A história de Jesus Cristo já passou por várias revisões e interpretações. Frei  Betto resolveu recontá-la num romance, Entre todos os homens, visando extrair dos evangelhos um Jesus mais humano, anti-sectário, feminista e amigo das minorias, de forma a tornar sua mensagem válida para quem precisa de fé neste final de milênio.

Para quem não tem fé, e não faz questão nenhuma de tê-la, Entre todos os homens torna a história de Cristo mais absurda do que já é, com um Deus que manda um filho encarnado como sinal de seu “pacto” com a humanidade e que faz esse filho ser martirizado e crucificado. Não havia um jeito menos mórbido e masoquista? Era preciso uma trama tão novelesca, com traições, negações e sinais divinos aleatórios?

Se a história é estapafúrdia, pode-se aceitá-la de dois modos: pela crença mística ou admirando a beleza do texto bíblico. Os evangelhos, como outras passagens da Bíblia, são uma poderosa máquina fabulatória e geradora de interpretações.

O grande pecado literário de Entre todos os homens é justamente o de anular a narrativa e impor a interpretação, empobrecendo terrivelmente a força do que tem para contar. Receoso, talvez, de deixar muitas lacunas e soar inconvincente, Frei Betto nos descreve os hábitos alimentares, as paisagens da Palestina, os meandros da lei judaica praticada pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém, aos quais Jesus desafia. Ótimo, ele nos proporciona a verossimilhança histórica. Mas, por que cargas d´água ele coloca na boca de Jesud um tom de missa católica, que faz com que várias passagens soem involuntariamente cômicas?  Não é um Jesus verdadeiro, mesmo sendo um personagem, não é um homem de ação e palavras que vemos diante de nós, se se pode dizer assim, mas um Jesus domesticado pela doutrina católica, só um pouquinho  “modernizado” por um discurso politicamente correto, um Jesus pós-Leonardo Boff, que talvez assuste os católicos mais tradicionais (porque os há ainda), contudo parece tímido e débil depois do atormentado Jesus de A última tentação de Cristo (1956), de Kazantzakis, com seus dilemas dostoieviskianos, ou então, do hiper-humanizado Jesus de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), de Saramago, obras que conseguiram o milagre de questionar o Novo Testamento, mantendo-se num tom de linguagem tão elevado quanto o dele.

Por causa da chocante ruindade do texto de Frei Betto, o que emerge de Entre todos os homens é um Cristo medíocre e acadêmico. Imaginem que ele chega até a explicar suas parábolas e analogias, como se o autor duvidasse da inteligência do leitor. Após ter dito (a respeito dos sacerdotes do Templo e seu apego mais à letra da Lei do que ao seu espírito): “Não se deve pôr remendo novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão torna-se maior. Nem se coloca vinho novo em odres velhos, caso contrário, estouram os odres e o vinho entorna. Vinho novo se guarda em odres novos; assim, ambos se conservam”… apesar do uso das aliterações, esse “Jesus de papel”  conclui, como se fora um professor universitário dos nossos tempos: “Minha proposta não cabe no estreito gargalo do judaísmo tradicional”!!?? Que Cristo é esse? ! Que saudade do  texto bíblico e suas arestas!

Essa banalização interpretativa atinge todos os estratos da narrativa. Basta ver a explicação para o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Frei Betto resolveu explicar o milagre. Não deveria, pois o leitor não seria obrigado a ler a seguinte passagem: “Falaram em multiplicação? Essa gente enxerga camelos voadores onde só vejo pardais.  Não te deste conta de que multiplicar é prestidigitação e que o Mestre não faz mágicas? Havia ali muitos pães e peixes, trazidos pelos comerciantes dos povoados vizinhos ao verem se juntar tantas pessoas. Jesus não pronunciou nenhuma palavra cabalística sobre uns poucos pães e peixes fazendo aparecer, ao lado, uma casa de pão e uma banca de peixe. Operou, sim, um milagre.  Não o da multiplicação, mas o da divisão., raiz de toda justiça.  Levou aquela gente a repartir os pães e  os peixes que trazia consigo“!!??

Teria sido melhor que Frei Betto tivesse, ao escrever Entre todos os homens, enxergado camelos voadores e não os pardais nesse seu vôo raso pela ficção. Não teríamos essa mixórdia que mistura a doutrina católica com a aspiração socialista e acaba endossando, da forma mais implausível, uma ideologia do sofrimento, do martírio e da negação de si mesmo.

« Página anteriorPróxima Página »

Blog no WordPress.com.