MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/04/2012

O QUE JAMES SABIA


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A um correspondente que escrevera sobre A volta do parafuso, de Henry James, Marguerite Yourcenar (a formidável autora de A obra em negro e Memórias de Adriano)  respondeu: “… tendo eu  outrora traduzido para o francês Pelos olhos de Maisie tive a ocasião de refletir sobre essa outra história de voyeurismo infantil, dessa vez  não com espectros,  mas com adultos bem vivos e ligados pela menina por estranhos laços de conhecimento cúmplice”.

A associação entre a Companhia das Letras e a prestigiosa Penguin traz de volta a sensacional tradução de Paulo Henriques Britto de Pelos olhos de Maisie (1897), um dos mais geniais exercícios do foco narrativo (o ponto de vista pelo qual é construída e filtrada uma narrativa) já levados a cabo.

Os pais de Maisie divorciaram-se e ela passa períodos com cada um deles, que após um tempo voltam a casar com outras pessoas. Os novos cônjuges, madame Beale e sir Claude, são belos e encantadores, como as crianças de A volta do parafuso, e assim como elas, dúbios; ela, especialmente, vai revelando, na evolução dos acontecimentos (que só conhecemos de forma alusiva, uma especialidade de James que irrita muito o leitor moderno, infelizmente) o mesmo “charme corrupto” dos vilões de Retrato de uma senhora, madame Merle e Gilbert Osmond.

Nas relações que Maisie estabelece com esses ambíguos pais substitutos, está em jogo não apenas uma complexa discussão ético-moral sobre até que ponto uma criança compreende e é corrompida pela conduta sexual dos adultos (daí o título original, What Maisie Knew– O que Maisie sabia, que espantosamente foi deturpado por aqui, sem razão aparente), como também a própria projeção afetivo-erótica de Maisie com relação a Claude, que tornará madame Beale uma rival (obliquamente odiada), apesar do fascínio que a menina tem por ela, como se não bastasse já a mãe. Quem tenta apurar, no que Maisie sabe ou poderia saber, o grau de senso moral da menina é madame Wix, a governanta, numa daquelas associações típicas do universo jamesiano, onde todos adotam um tom conspiratório, entre o fofoqueiro e o investigativo.

O enviesamento narrativo oculta a modernidade e o radicalismo da sondagem psicológica de James do universo infanto-juvenil (cuja influência é rastreável, por exemplo, em textos de Lygia Fagundes Telles, tanto em romances como Ciranda de pedra quanto em textos curtos como O menino e O jardim selvagem).  Cabe ao leitor de 2010 levantar os cortinados e rendas meramente decorosos e mergulhar nas dores e delícias do “conhecimento” de Maisie, do percurso da sua (de)formação e da precocidade do seu desejo, e então compreender como nossa educação é uma estratificação de fracionamentos. É por isso que acho tão acertadas as palavras de Marguerite Yourcenar, quando se refere ao voyeurismo infantil e aos laços de cumplicidade. Com sua elegância e discrição, Henry James, nas obras-primas dessa fase da sua produção, Maisie e A volta do parafuso, rompe com o sentimentalismo que sempre cercou (e ainda cerca) a infância, mesmo quando se mostrava a crueldade do mundo, como em Dickens. E nem havia Freud ainda. O que James sabia do ser humano é assustador:  “Era da natureza das coisas nunca poderem ser explicadas a uma criancinha, mesmo quando desde o início fora infundido na criancinha em questão o temor infundado de que ela estivesse sabendo até demais. No momento, as coisas eram tão fiéis à sua natureza que quase todas as perguntas eram impróprias.”

Resenha publicada em “A Tribuna” de Santos em 02 de novembro de 2010, a partir de uma resenha anterior, publicada em 24 de maio de 1994

7 Comentários »

  1. alfredo, estou lendo “pelos olhos de maisie” – que narrativa maravilhosa. é coisa de pântano. logo no começo a maisie ouvir o pai chamar a ex-esposa (mãe dela) de vaca é muito incrível. é fogo isso de ir sendo construída uma realidade no íntimo da menina. é algo quase pornográfico. estou ainda na metade do livro, mas estou achando-o erótico demais. a menina vira massa de modelar na mão de todos – e sente imenso prazer por isso. é como se ela usasse uma roupa grudada à pele, de um tecido limpo, e todos fossem deixando suas nódoas no tecido, ao tocá-la (com palavras e gestos), e a garota fosse orgulhando-se do desenho que se vai imprimindo em sua roupa. é algo impressionante.
    ela adora o desenho que se vai formando, porque, afinal, ela é uma tela à espera de um desenho – todos nós o somos. e ela parece ser uma tela adequada ao que se desenha nela.

    na contracapa da edição que estou lendo (da penguin/companhia das letras), fala-se da coisa da dissolução familiar, do divórcio.
    mas, acho que isso minimiza o livro.
    acho que ele trata mais da tela em branco que somos nós. mas, tela com vocações. vocações para um ou outro tipo de pintura. por enquanto, parece-me ser mais um livro sobre como escrever o outro (pintá-lo).

    bem.
    após acabar de ler, volto aqui e de repente mudo tudo que disse hauhauaha.

    =0

    “a volta do parafuso”, eu li há muito tempo e detestei. eu era adolescente e esperava uma coisa e vi outra. vou reler. qual das traduções você me recomendaria?

    abração.

    Comentário por niltonresende — 14/11/2010 @ 23:05 | Responder

    • Caríssimo Nilton, quase (mas quase, que sou muito vaidoso pra isso) que fico com a tentação de substituir minha resenha pelo seu comentário, tão mais agudo e original. Um forte abraço.

      Comentário por alfredomonte — 15/11/2010 @ 18:24 | Responder

  2. hauhauhauahuahuahu!

    =]

    abração, alfredo.

    e sobre “a volta do parafuso”, sugere alguma tradução em particular?

    Comentário por niltonresende — 15/11/2010 @ 18:34 | Responder

    • Sim, eu sugiro a verso do Chico Lopes, pela Landmark. A edio feiinha, mas bilnge. Espero algum dia fazer um post sobre Diabol; est na hora do Brasil conhecer um escritor que tem a perversidade jamesiana para tratar da infncia… Abrao.

      ________________________________

      Comentário por alfredomonte — 15/11/2010 @ 18:56 | Responder

  3. feito: acabei de encomendar a tradução do chico lopes.

    e quanto ao “diabolô”, ainda estou revisando. a capa tá pronta, a orelha também. a apresentação tá arretada (apenas eu que estou agoniado com entregar o texto, parir… revisar).

    acredito que saia até o meio de 2011 (ou em outubro, durante a bienal daqui, quando anunciam os vencedores da nova edição do LEGO).

    obrigadão pelas palavras.
    você foi importantíssimo na minha apreensão dos meus textos.

    assim que ele sair, envio de imediato um exemplar para você.

    Comentário por niltonresende — 15/11/2010 @ 19:10 | Responder

    • Já é tempo de suas Maisies sairem do armário.

      Comentário por alfredomonte — 15/11/2010 @ 19:22 | Responder

  4. […] do blog O bule, leu Respiração Artificial, de Ricardo Piglia. Alfredo, do blog Monte de leituras, falou sobre Pelos olhos de Maisie, de Henry […]

    Pingback por Links da semana « Blog da Companhia das Letras — 17/01/2011 @ 14:26 | Responder


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