MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/04/2012

O Jesus do credo determinista


A resenha abaixo, publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 16 de janeiro de 1996, foi escrita quando até então eu nunca ouvira falar na editora Martin Claret; depois da sua nefanda carreira editorial posterior, eu gostaria de nunca ter ouvido falar dela, ainda que agora eles estejam executando alguns tímidos passos para recuperar a credibilidade que perderam com plágios de traduções, tradutores fantasmas e outros horrores.

Publicado em 1863, Vida de Jesus (“Vie de Jesus”), de Ernest Renan (1823-1892), um dos livros mais famosos e influentes do século XIX, ganhou uma bem escolhida capa na edição da Martin Claret, que foge totalmente do clichê, ao reproduzir detalhe de um quadro de Salvador Dali. Além disso, a elogiável edição traz textos adicionais de Renan e reproduções de quadros sobre a vida de Cristo ao longo do volume inteiro. A tradução de Eliana Maria de A. Martins me pareceu bem razoável, ressalvando-se um ou outro erro mais evidente.

No livro, Renan discorre muito sobre a mistura que o desenvolvimento da pregação de Jesus fez, da mensagem profunda e autêntica da qual ele era portador (e que faz dele representante do melhor que a humanidade pode ambicionar) com  as superstições e tolices populares, em que lenda e fato confundem-se.

O autor francês também não deixa de misturar uma tentativa escrupulosa e honrada de relatar objetivamente a vida de um grande homem, a partir de escassas fontes documentais, com análises que pagam pesado tributo à época cientificista na qual ele escrevia, quando preponderavam visões essencialmente deterministas (e que hoje, com seus matizes racistas, hoje seriam consideradas politicamente incorretas), psicologicamente tão frágeis e tolas quanto as crendices populares supersticiosas: “Nós compreendemos pouco, com nossas naturezas frias e escrupulosas, uma tal maneira de ser possuído pela ideia da qual ele se fez apóstolo. Para nós, raças profundamente sérias, convicção significa sinceridade consigo mesmo. Mas a sinceridade consigo mesmo  não tem muito sentido para os povos orientais, pouco habituados às delicadezas  do espírito crítico. Boa fé e impostura são palavras que, em nossa consciência rígida, se opõem, inconciliavelmente. No Oriente, de uma a outra existem mil saídas e desvios… A verdade material não é muito cara ao oriental. Ele vê tudo através de seus preconceitos, seus interesses, suas paixões”. Realmente, como a história prova, franceses e demais povos europeus são espécimes humanos isentos de preconceitos, interesses e paixões, e incapazes de misturar boa fé e impostura.

Aliás, como o mundo é mesmo misturado, como nos advertia Riobaldo, não perdoando nem mesmo a mais alta figura da humanidade, não se deve estranhar que uma iniciativa editorial tão louvável seja avacalhada com um lançamento em forma de kit (incluindo um CD completamente arbitrário, beirando o ridículo), que quase a torna um produto de supermercado, de bazar oriental, ou mais modernamente, um daqueles produtos do telefone 1406 anunciados via tevê.

E qual a importância, afinal, de Vida de Jesus a esta altura do campeonato? Por que não trocá-la pelas magistrais e ainda mais problematizadoras visões de Cristo, realizadas por Kazantzakis, Pasolini ou Saramago? A resposta é simples: porque 130 anos depois de sua publicação original, o livro de Renan é ainda precioso material informativo. E literário. Porque ele aproxima-se bastante (ah, a ironia do tempo), apesar de algumas diferenças metodológicas, da atual situação das pesquisas sobre o assunto. Porque ele, ao provar a existência histórica de Jesus  (na época, um feito original), faz –ao contrário dos que pensam que basta ter fé em Cristo, o que nesses tempos de Edir Macedo e congêneres é muito perigoso—com que seu papel em nossas vidas seja mais impressionante e bonito.

Pena que no livro haja um excesso de retórica, e não apenas por conta do estilo da época: Renan trabalha obviamente em cima do abismo de fatos insuficientes e tem de preenchê-lo muitas vezes com trechos que se revelam constrangedores, como aquele em que compara a elevada meditação de Jesus nas montanhas com a mediocridade das reações e pensamentos que podem ocorrer a um burguês ante a mesma paisagem. Ora, ora. Quando se é um Jesus evidentemente os pensamentos podem ser tudo, menos burgueses. É martelar o óbvio e empobrecer a obra.

Mesmo assim, como tudo é misturado mesmo, Vida de Jesus ainda é uma leitura impactante, nos seus melhores momentos.

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