MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/04/2012

O BODE EXPIATÓRIO


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de abril de 2004)

Há alguns anos, resenhei com dureza o romance de Frei Betto, Entre todos os homens, antes de tudo por ser literariamente fraco, e, além disso,   por desfibrar a figura de Cristo, acomodando-a a um catolicismo moderninho e aguado.

Como no momento só se fala do filme de Mel Gibson e da experiência excruciante que é assisti-lo, é interessante comentar as obras literárias de peso que “acertaram” na abordagem da vida de Jesus. Nenhuma delas, como já afirmei  outras vezes,  é mais importante do que A última tentação de Cristo (1956), de Nikos Kazantzakis (1883-1957) .

No capítulo 17, depois de ter sido batizado por João, Jesus vai para o deserto  (onde sofrerá as famosas tentações,  após as quais um derrotado Lúcifer diz: “Ainda vamos nos encontrar outra vez, em breve”, o que acontecerá na crucificação, quando surge o ensejo para a “última tentação”: uma vida como a de qualquer outro homem).  Lá, encontra a carcaça de um bode, não qualquer bode,  mas o chamado bode expiatório que a população das aldeias enche com amuletos e que é escorraçado e apedrejado até morrer no deserto: “Meu irmão, você era inocente e puro, como todos os animais. Mas os homens, esses covardes,  fizeram-no portador de seus pecados, enviando-o para a morte. Decomponha-se em paz. Não lhes guarde rancor. Os homens, esses fracos,  não têm coragem de pagar por seus próprios pecados: preferem pendurá-los no pescoço de um inocente”.

Como se vê,  aí já temos uma prefiguração  do destino: boa parte de A última tentação é composta pelo duro aprendizado  de Jesus como pharmakós, o bode expiatório. É o pressentimento disso que faz  com que ele se furte à sua “missão”  durante  30 anos,  chegando ao ponto de degradar-se  fazendo cruzes para os romanos executarem seus compatriotas rebeldes.

Kazantzakis escreveu uma história de Cristo sob o signo de Dostoiévski e Nietzsche. De Dostoiévski temos a ideia de Deus como um tormento na vida do homem, espicaçando-o, testando seus limites e arrastando os demais nesse dilema (é o que acontece no livro com os discípulos, Madalena, as irmãs de Lázaro: Marta e Maria); de Nietzsche temos a superação do homem para um “além do homem”, com acesso a uma nova forma de existência, através de ensinamentos-relâmpagos que desestabilizam quem os recebe. É o Jesus-Zaratustra incendiário, que vem varrer os princípios da nossa vida, que nada tem a ver com o Jesus fraquinho de Frei Betto, tão politicamente correto.

De certa forma, temos uma espécie de arqueologia narrativa das raízes dos evangelhos, contrariando o princípio moderno de deixar de lado os estratos mais incômodos, realçando apenas aspectos mais tolerantes. O mesmo (guardadas as devidas proporções, é claro) acontece com A paixão de Cristo, praticamente o único filme até hoje a dar uma noção física, por assim dizer, do que foi realmente o sacrifício de Cristo pela humanidade, sem concessões e sem desvios. Só que enquanto Mel Gibson nos torna espectadores aterrados, porém ainda assim meramente espectadores, passivos, de um evento portentoso e incognoscível, que nos supera e nos causa uma sensação de insignificância, o objetivo de Kazantzakis é fazer cada leitor assumir como sua a trajetória de Cristo, o seu processo de auto-esclarecimento em meio a tantas ambiguidades e contradições: “desejava oferecer um modelo supremo ao homem disposto a lutar”.

Daí sua imensa profundidade filosófica, existencial e até teológica, sem falar na autoridade estética (de que temos outras provas, como o magnífico O Cristo recrucificado, o atormentado Testamento para El Greco e os belos Zorba, o grego e O pobre de Deus). É por isso que a versão de Scorsese, de que eu gosto muito, e cujas maiores qualidades derivam do virtuosismo único do diretor, é insatisfatória  porque deixou tanta coisa de lado, entre elas a inimitável atmosfera das aldeias nas quais Jesus viveu, perambulou e pregou, descritas por Kazantzakis com tal força que não é à toa que a suprema tentação de Cristo acabe sendo seu apego telúrico: “Ele abaixou-se, pegou um punhado de terra e cheirou-a. O aroma penetrou até o fundo do seu ser… esfregou aquela terra no rosto, no pescoço, nos lábios. Segurava aquele solo na palma da mão e não queria se separar dele nunca”.

Contudo, para ele, o cordeiro que nasceu para ser abatido, o ciclo das estações e da vida precisa ceder ao rito sobrenatural da Páscoa, no seu significado mais agudo: “A Páscoa, meus fiéis companheiros, significa uma passagem, passagem das trevas para a luz, do cativeiro para a liberdade. Mas a Páscoa que celebramos nesta noite ainda vai adiante. Hoje a Páscoa representa a passagem da morte para a vida eterna”.

O desalentador, na leitura de A última tentação (muito bem traduzido,ainda que não diretamente do grego, por Waldéa Barcellos & Rose Nânie Pizzinga), e após assistir A paixão de Cristo, é que o bode expiatório ainda continua uma muleta para a humanidade: ela nunca executa a passagem, ela nunca muda.

6 Comentários »

  1. só para colar algo que me deixou impessionado e cuja imagem vai ficar grudada em mim:

    “Ele abaixou-se, pegou um punhado de terra e cheirou-a. O aroma penetrou até o fundo do seu ser… esfregou aquela terra no rosto, no pescoço, nos lábios. Segurava aquele solo na palma da mão e não queria se separar dele nunca”.

    Comentário por Nilton Resende — 03/04/2010 @ 1:32 | Responder

    • É, caro Nilton, essa amostra de Kazantzakis, mesmo em tradução, mostra o poder do seu texto. É demais, não? Uma grande Páscoa para você.

      Comentário por alfredomonte — 04/04/2010 @ 15:42 | Responder

  2. Alfredo,

    Comprei “a última tentação…”. e comprei também mais um exemplar de “a caixa preta”, que estou lendo, maravilhado.
    comprei outro para poder emprestar ou dar de presente.

    sempre compro “adrienne mesurat”, do julien green. já tive 5 ou 6 exemplares desse livro, que sempre empresto (a propósito, não sei com quem está o último que emprestei. preciso comprar mais um). outros que sempre “me somem” (voluntariamente) são “ciranda de pedra” e “antes do baile verde”.

    Abração.

    Comentário por Nilton Resende — 08/04/2010 @ 1:56 | Responder

  3. ah, já “sumiram” vários “o morro dos ventos uivantes”.

    acho que precisarei de sebos fornecedores dos livros que falei acima. preciso fazer uma sociedade com algum sebo, usando como argumento a “divulgação da obra literária” rsrsrs.

    Comentário por Nilton Resende — 08/04/2010 @ 1:58 | Responder

  4. Caríssimo Alfredo, não estou comentando. Apenas tento o reencontrar o amigo que, há anos (década de 80), deixei em São Vicente, a capital do sossego, assim apelidada por seu Osvaldo, proprietário da Farámcia Tutankamon, na Mal Deodoro, hoje Linha Amarela. Nesse tempo, o nobre dr. residia na avenida “prefeito José Monteiro” e nós, na rua rio de janeiro.
    Fica meu e-mail, caríssimo dr. informegui@hotmail.com

    Comentário por Guilherme Duque dos Santos — 07/04/2012 @ 9:27 | Responder

    • E reencontrou. Abração, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 07/04/2012 @ 13:34 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: