MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/04/2012

Que falta fazem os camelos voadores!


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de abril de 1998)

A história de Jesus Cristo já passou por várias revisões e interpretações. Frei  Betto resolveu recontá-la num romance, Entre todos os homens, visando extrair dos evangelhos um Jesus mais humano, anti-sectário, feminista e amigo das minorias, de forma a tornar sua mensagem válida para quem precisa de fé neste final de milênio.

Para quem não tem fé, e não faz questão nenhuma de tê-la, Entre todos os homens torna a história de Cristo mais absurda do que já é, com um Deus que manda um filho encarnado como sinal de seu “pacto” com a humanidade e que faz esse filho ser martirizado e crucificado. Não havia um jeito menos mórbido e masoquista? Era preciso uma trama tão novelesca, com traições, negações e sinais divinos aleatórios?

Se a história é estapafúrdia, pode-se aceitá-la de dois modos: pela crença mística ou admirando a beleza do texto bíblico. Os evangelhos, como outras passagens da Bíblia, são uma poderosa máquina fabulatória e geradora de interpretações.

O grande pecado literário de Entre todos os homens é justamente o de anular a narrativa e impor a interpretação, empobrecendo terrivelmente a força do que tem para contar. Receoso, talvez, de deixar muitas lacunas e soar inconvincente, Frei Betto nos descreve os hábitos alimentares, as paisagens da Palestina, os meandros da lei judaica praticada pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém, aos quais Jesus desafia. Ótimo, ele nos proporciona a verossimilhança histórica. Mas, por que cargas d´água ele coloca na boca de Jesud um tom de missa católica, que faz com que várias passagens soem involuntariamente cômicas?  Não é um Jesus verdadeiro, mesmo sendo um personagem, não é um homem de ação e palavras que vemos diante de nós, se se pode dizer assim, mas um Jesus domesticado pela doutrina católica, só um pouquinho  “modernizado” por um discurso politicamente correto, um Jesus pós-Leonardo Boff, que talvez assuste os católicos mais tradicionais (porque os há ainda), contudo parece tímido e débil depois do atormentado Jesus de A última tentação de Cristo (1956), de Kazantzakis, com seus dilemas dostoieviskianos, ou então, do hiper-humanizado Jesus de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), de Saramago, obras que conseguiram o milagre de questionar o Novo Testamento, mantendo-se num tom de linguagem tão elevado quanto o dele.

Por causa da chocante ruindade do texto de Frei Betto, o que emerge de Entre todos os homens é um Cristo medíocre e acadêmico. Imaginem que ele chega até a explicar suas parábolas e analogias, como se o autor duvidasse da inteligência do leitor. Após ter dito (a respeito dos sacerdotes do Templo e seu apego mais à letra da Lei do que ao seu espírito): “Não se deve pôr remendo novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão torna-se maior. Nem se coloca vinho novo em odres velhos, caso contrário, estouram os odres e o vinho entorna. Vinho novo se guarda em odres novos; assim, ambos se conservam”… apesar do uso das aliterações, esse “Jesus de papel”  conclui, como se fora um professor universitário dos nossos tempos: “Minha proposta não cabe no estreito gargalo do judaísmo tradicional”!!?? Que Cristo é esse? ! Que saudade do  texto bíblico e suas arestas!

Essa banalização interpretativa atinge todos os estratos da narrativa. Basta ver a explicação para o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Frei Betto resolveu explicar o milagre. Não deveria, pois o leitor não seria obrigado a ler a seguinte passagem: “Falaram em multiplicação? Essa gente enxerga camelos voadores onde só vejo pardais.  Não te deste conta de que multiplicar é prestidigitação e que o Mestre não faz mágicas? Havia ali muitos pães e peixes, trazidos pelos comerciantes dos povoados vizinhos ao verem se juntar tantas pessoas. Jesus não pronunciou nenhuma palavra cabalística sobre uns poucos pães e peixes fazendo aparecer, ao lado, uma casa de pão e uma banca de peixe. Operou, sim, um milagre.  Não o da multiplicação, mas o da divisão., raiz de toda justiça.  Levou aquela gente a repartir os pães e  os peixes que trazia consigo“!!??

Teria sido melhor que Frei Betto tivesse, ao escrever Entre todos os homens, enxergado camelos voadores e não os pardais nesse seu vôo raso pela ficção. Não teríamos essa mixórdia que mistura a doutrina católica com a aspiração socialista e acaba endossando, da forma mais implausível, uma ideologia do sofrimento, do martírio e da negação de si mesmo.

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