MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2012

Perguntas que podiam ser caladas


   Palavra de poeta (Portugal) pertence a uma das categorias mais inúteis de lançamentos editoriais: os livros de entrevistas com escritores. Mesmo exceções significativas como De olhos abertos, as longas conversas que Mathieu Galey  manteve com Marguerite Yourcenar, transformaram-se em desilusão. Sabemos hoje da intenção puramente mercenária e oportunista do livro e que Galey detestava e zombava da autora de Memórias de Adriano. Pior ainda, o resto da vida da grande entrevistada revelou-se uma cruel contrafação do que ali era dito.

   Segundo a Civilização Brasileira, Denira Rozário “não apenas faz perguntas, mas tem empatia profunda com os poetas”. Lorota. Não se percebe tal empatia nas perguntas triviais e absolutamente externas às obras que conduzem as vinte e quatro enfadonhas entrevistas: “Como é o seu dia a dia?”; “O poeta precisa ser intelectual?”; “Considera-se feliz no amor?”; “ Por que começou a escrever poesia?”; “O que você está lendo?”; “Descreva a sua casa”, e a suprema tolice: “Fale alguma coisa sobre as palavras silêncio, solidão, poder, sucesso, liberdade, morte, prazer, medo, loucura, traição, eternidade e poesia”!!!!!!!!!!!!!!!????????????

    “Memórias somos”, o verso de Casimiro de Brito ajuda a iluminar a colaboração dos entrevistados na pesada banalidade do livro. Surpreendemos poetas velhos, cansados da vida e que parecem, como se diz, que morreram e esqueceram de enterrar. Ou poetas blasés que ficam o tempo todo jogando areia nas perguntas (mas também…).

   Há entrevistas com um quê de ridículo, como a de Natália Correia, uma Madame Mim da Nova Era, a julgar pelas fotos que compõem a aterrorizante galeria do volume (será que nenhum deles tinha um retratinho melhor?) e pelas suas impagáveis afirmações: “O poeta tem que se banhar na lunaridade da festa noturna” ou “não permito que nada me separe da escrita, porque o corpo e a palavra estão unidos” (ela escreve à mão, informação absolutamente essencial à nossa vida).

    Alguns entrevistados são simpáticos (Ana Hetherly, David Mourão-Ferreira, Nuno Júdice), mas as quase quatrocentas páginas só valem pela breve antologia. Bem poderia ser mais extensa, uma vez que poucos nomes são conhecidos pelo público brasileiro, caso de Mourão-Ferreira, de Sophia de Melo Brayner Andersen e do grande Eugênio de  Andrade.

   É bom ressaltar esse fato porque em meio a declarações apocalípticas (“O homem das cavernas trabalha agora com computador”; “A terra está a ficar inabitável”), vários deles registram sua dívida para com Carlos Drummond de Andrade. Além dele e do nosso maior poeta vivo, João Cabral de Melo Neto, os mais citados são sempre Manuel Bandeira, Murilo Mendes (redescoberto agora no Brasil) e Cecília Meireles.

   Da bacalhoada toda ficam alguns poemas, a razão de interessarmo-nos por esses cavalheiros e damas mais ou menos simpáticos: “Ergue-se aérea pedra a pedra/ a casa que só tenho no poema // A casa dorme, sonha no vento / a delícia súbita de ser mastro// Como estremece um torso delicado/assim a casa, assim o barco// Uma gaivota passa e outra e outra/ a casa não resiste: também voa// Ah, um dia a casa será bosque/ à sua sombra encontrarei a fonte/ onde um rumor de água é só silêncio”  (Eugênio de Andrade).

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de maio de 1994)

nota de 2012- Hoje eu não seria tão taxativo a respeito dos livros de entrevistas, mas ainda tenho um pé atrás.

5 Comentários »

  1. “nota de 2012- Hoje eu não seria tão taxativo a respeito dos livros de entrevistas, mas ainda tenho um pé atrás.”

    ufa

    =] . porque eu ia citar os livros com as entrevistas da paris review .
    durante uns dias, fiquei andando com o livro pra cima e pra baixo . uma amiga minha até brincou comigo, dizendo que era meu “minutos de sabedoria” .

    oO

    eu gosto muito daquele livro.
    sim, alfredo, há nele entrevista com a doris lessing =] .

    desses livros, em particular, você gosta?

    se bem que eles não foram originariamente pensados como livros, né? eles foram compilações de entrevistas . o que é um outro caso.

    abração .
    bom dia .

    Comentário por niltonresende — 28/03/2012 @ 9:01 | Responder

    • Você matou a charada, os livros que são de entrevistas, mas não pensados como “livros de entrevistas” costumam ser mais interessantes. Eu, no entanto, li alguns que me renderam ao gênero, como aqueles em Borges fala, fala, e nos faz sonhar…
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 28/03/2012 @ 10:02 | Responder

      • vou ver se encontro esse do borges

        =] . abraço .

        Comentário por niltonresende — 28/03/2012 @ 11:34

      • So livros de bolso, que eu sempre dou de presente: Sobre a Amizade,Sobre os Sonhos, Sobre a Filosofia,todos com Osvaldo Ferrari. E eles so a coisa mais linda, d vontade de ler todo dia. Abrao.

        Comentário por alfredomonte — 28/03/2012 @ 12:00

      • anotado, alfredo.

        abração.

        Comentário por niltonresende — 28/03/2012 @ 12:16


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