MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/03/2012

Uma boa hora na obra de García Márquez


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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/26/leituras-em-espelho-a-casa-das-belas-adormecidas-e-memorias-de-minhas-putas-tristes/

https://armonte.wordpress.com/2012/03/15/entre-a-implicancia-e-a-admiracao-a-necessidade-da-releitura/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de setembro de 2006)

Antes de ficar famoso e superestimado com Cem anos de solidão (1967), Gabriel García Márquez já explorara seu universo ficcional de Macondo em alguns livros muito promissores. Um deles, A má hora (conhecido no Brasil como O veneno da madrugada, e traduzido por Joel Silveira), de 1962, foi reeditado agora pela Record.

Nele, García Márquez amplia o virtuosismo técnico que marcara o seu primeiro trabalho, La hojarasca (atualmente A revoada, mas cujo título anterior era O enterro do diabo), no qual três narradores (um menino, sua mãe e seu avô) se alternavam para contar a história. O grande problema: o tom das três narrativas, muito parecido, insinuando-se para o leitor o mal que assola a musa do demiurgo de Macondo: a tendência ao monocórdico.

Curiosamente, essa tendência se realizava de forma muito feliz no brilhante Ninguém escreve ao coronel (narrado numa terceira pessoa que nunca difere muito das primeiras pessoas em García Márquez), talvez o seu melhor texto, apesar da beleza de O outono do patriarca, porque se casava a um relato em que havia uma opressiva e repetitiva espera e um clima de fracasso generalizado.

A má hora (não há como negar que a tradução literal tira a graça do título original, La mala hora) mostra Macondo já como uma cidade derrotada, esquecida no tempo e no espaço. Nessa pasmaceira, pasquins misteriosos delatam crimes e pecados de determinados cidadãos. Há um assassinato e a investigação que o novo Alcaide promove serve como pretexto para impor um estado de sítio e para que ele efetive um sutil plano de corrupção, de forma a enriquecer o mais rápido possível. Ele que fora flagrado a princípio como vítima de um problema dentário que o reduzia à prostração, vai revertendo o quadro aos poucos (e através de pequenas frases, como na cena em que conversa com o empresário de um circo que vem se apresentar na cidade. O empresário diz: É um espetáculo completo, para crianças e adultos”. Seu interlocutor: “Isso não basta. É preciso que seja próprio também para o Alcaide”; numa cena posterior maravilhosa, ele fica indignado com um aviso do barbeiro proibindo discussões políticas no seu estabelecimento: Aqui o único que tem direito de proibir qualquer coisa é o governo. Estamos numa democracia”) até que temos a sensação de que verdadeiramente se apossou de Macondo.

Apesar de um certo arrastamento, A má hora é um livro talentoso e muito melhor do que quase todo o García Márquez posterior (tirando o já citado Outono do patriarca e Crônica de uma morte anunciada o que veio depois sempre deixou a desejar). Ele experimenta um tipo de narrativa-mosaico, onde cada capítulo ganha um crivo coletivo, centrando o foco narrativo em diversas personagens, de uma forma que Macondo emerge como a personagem central do romance, mais até do que os personagens relevantes, caso de padre Ángel ou do Alcaide. Um dos episódios principais, aliás, ganhou outra versão, menos melodramática e colorida, num dos contos (“Um dia desses”) da coletânea Os funerais da mamãe grande: trata-se do momento em que o Alcaide ao invés de humilhar-se para pedir ajuda ao dentista, inimigo do governo, invade a sua casa com policiais armados.

Depois da má hora para a literatura que foi Memórias de minhas putas tristes, o leitor tem a possibilidade de constatar o que perdeu no caminho, de 1962 para cá.

 

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