MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/03/2012

Entre a implicância e a admiração: A NECESSIDADE DA RELEITURA


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https://armonte.wordpress.com/2013/04/26/leituras-em-espelho-a-casa-das-belas-adormecidas-e-memorias-de-minhas-putas-tristes/

https://armonte.wordpress.com/2012/03/15/uma-boa-hora-na-obra-de-garcia-marquez/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 29 de dezembro de 2007)

Na resenha da semana passada desta coluna, sobre  as obras-primas que chegam ao cinqüentenário em 2007, poderia ter  incluído  Ninguém escreve ao coronel. Muito mais destaque, porém, se deu na mídia ao longo dos últimos meses aos 40 anos de Cem anos de solidão, obra bem mais famosa de Gabriel García Márquez. E agora o centro das atenções é O amor nos tempos do cólera(“El amor en los tiempos del colera” ,em tradução de Antonio Callado) publicado originalmente em 1985, por causa da adaptação cinematográfica que me parece uma daquelas saladas internacionais, propiciando misturas que dificilmente ficarão digeríveis.

O saldo de uma primeira leitura à época e que persistiu como impressão durante 20 anos era que se tratava de uma ladainha interminável, uma lengalenga narrativa redimida aqui e ali por micro-histórias notáveis. O clima de novelão e a cafonice de antemão estabelecida nas relações do trio central (Florentino Ariza que alimenta por 50 anos seu amor por Fermina Daza, esposa e depois viúva do médico Juvenal Urbino) estragavam o conjunto. Nessa visão negativa, também entrava certa implicância renitente com relação ao autor colombiano.

Pois uma segunda leitura, e um pouco mais de experiência de vida, fizeram com que esse juízo crítico sofresse uma revisão. Ainda há coisas que me incomodam, desacertos entre este leitor em particular e o universo de García Márquez, ainda há um lado cansativo na empreitada de ir até o fim do livro. O que não se pode negar, a essa altura, é que O amor nos tempos do cólera é um livro admirável, na maior parte do tempo.

Trata-se também de um excelente romance histórico no sentido mais legítimo, porque García Márquez não se propôs meramente a escrever sobre a passagem do século 19 para o 20 no Caribe: ele nos deu a mentalidade, a percepção, a linguagem da época, inclusive nos anacronismos de suas personagens, defasadas às vezes no quesito vestuário ou comportamento.

É fascinante a maneira como a “flor” da civilização humana, o amor, no sentido de depuração, de sublimação, até mesmo de cosa mentale (Florentino cultivando sua devoção a Fermina, por exemplo, e bordando e rebordando o tema nas inúmeras correspondências que leva a cabo na trama), e todo o comportamento romântico, são contrastados o tempo todo com a materialidade quase nauseante do mundo, que se presentifica em epidemias e endemias, em falta de higiene, charcos, mangues, esgotos, cloacas, cheiros corporais, monturos, doenças venéreas (sem contar a decadência, o arrivismo, as hierarquias e hipocrisias), até chegar à grande sensação de “waste land” por conta da degradação ambiental que a mesma civilização que cultiva o amor deixou como rastro apocalíptico na natureza outrora exuberante, como se vê na grande viagem fluvial que fecha de forma brilhante a narrativa: É o pouco que nos vai restando do rio, disse o comandante. Florentino Ariza…percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores do mundo, não passava de uma ilusão da memória…em vez do emaranhado de árvores colossais que o assombrara na primeira viagem, havia planícies calcinadas, destroços de selvas inteiras devoradas pelas caldeiras dos navios, escombros de povoados abandonados de Deus… Em lugar da algaravia dos louros e do escândalo dos micos invisíveis que em outros tempos aumentavam o bochorno do meio-dia, só restava o vasto silêncio da terra arrasada.”

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