MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/03/2012

LEITURAS EM ESPELHO: “Cartas a um jovem escritor” e “A cortina”


  

  Dois grandes escritores, Milan Kundera e Mario Vargas Llosa, tiveram suas reflexões sobre o ato de escrever publicadas no Brasil em 2006: A cortina e Cartas a um jovem escritor. Ambos acabam de ser preteridos, mais uma vez, pelo comitê que atribui o Nobel. O vencedor foi Orhan Pamuk que, a julgar apenas por um livro,O castelo branco—o qual me desanimou de conhecer outros do autor turco—, comprova  a preferência do prêmio literário mais famoso pelo “quase”, raramente pelo pleno (uma exceção notável foi Harold Pinter, ano passado).

    Cartas a um jovem escritor nos remete, a partir do título, ao clássico Cartas a um jovem poeta, de Rilke, o grande poeta do século 20 ao lado de T.S. Eliot e Fernando Pessoa. Não é a primeira vez que Vargas Llosa escreve sobre  ficção. Um dos seus mais belos livros, A orgia perpétua, é um estudo sobre Madame Bovary, e ninguém escreveu nada melhor sobre Flaubert. Em Contra vento e maré há análises brilhantes sobre Camus, Sartre e Simone de Beauvoir. No recente A verdade das mentiras ele aplica o método que preconiza no seu livro epistolar: usar exemplos concretos, mostrar que uma teoria da ficção só vale mesmo no exercício da exemplificação.

   E é nesse exercício que comprovamos a generosidade do escritor peruano.  Ele se revela um grande leitor dos seus próprios pares latino-americanos: Cortazar, Garcia Márquez, Juan Carlos Onetti, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, entre outros, dos quais utiliza exemplos não só com destreza, mas também com um respeito e interesse pelo universo autoral alheio que por si só já vale como lição para qualquer jovem escritor ou leitor.

Os bons romances, os de peso, não parecem contar uma história, mas nos fazer vivê-la, compartilhá-la, graças à persuasão de que se acham dotados”.

   A modéstia impediu Vargas Llosa de incluir entre os exemplos do poder de persuasão dos “romances de peso” os de sua própria autoria, uma lista impressionante, a partir de A cidade e os cachorros (também conhecido no Brasil por um título melhor: Batismo de fogo): A casa verde, Os filhotes, Conversa na catedral (provavelmente sua obra-prima), Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, Elogio à madrasta, Quem matou Palomino Molero?, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto).

   Mesmo um livro mais fraco como A festa do bode ainda assim dá ao leitor a impressão de um fôlego narrativo dificilmente igualável por qualquer outro escritor contemporâneo. Ou seja, ele preenche completamente seus próprios requisitos para a arte da ficção, essa verdade da mentira, conforme escreve na sétima das 11 cartas: “Em todo romance existe um ponto de vista espacial, um ponto de vista temporal e um ponto de vista de nível de realidade e ainda que não seja muito aparente os três são essencialmente autônomos, distintos entre si, e da maneira como se harmonizam e combinam resulta aquela ocorrência interna que é o poder de persuasão de um romance. Essa capacidade de nos persuadir da sua ‘verdade’, ‘autenticidade’ e ‘sinceridade’ nunca decorre da semelhança ou identificação do romance com o mundo real em que nós, leitores, vivemos. Decorre exclusivamente da sua própria existência, feita de palavras e da organização do espaço, tempo e nível de realidade que ele abriga. Se as palavras  e a estrutura de um romance forem eficazes e apropriadas à história que o autor pretende tornar persuasiva, isso significa que seu texto possui um ajuste tão perfeito, uma fusão tão cabal do tema, estilo e pontos de vista, que o leitor, ao lê-lo, ficará de tal forma sugestionado e absorvido pela história que se esquecerá completamente da maneira como ela é contada, envolvido pela sensação de que aquele romance carece de técnica e de forma, de que se trata da própria vida se manifestando através de personagens, cenários e acontecimentos que nada menos são do que a realidade encarnada, a vida lida. Este é o grande triunfo da técnica do romancista: conquistar a invisibilidade, ser tão eficaz na construção da história que dotou de colorido, dramaticidade, sutileza, beleza e poder de sugestão, que nenhum leitor se aperceba sequer de sua existência, pois sob o feitiço de tamanha perícia, ele não tem a sensação de estar lendo, mas vivendo uma ficção…”

(resenha publicada com ligeiras modificações em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2006)

   Além de Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa, outro passeio pelo bosque da ficção foi publicado em 2006: A Cortina, no qual Milan Kundera depura e amplifica as idéias sobre a função do romance no mundo moderno que já expusera no indispensável A arte do romance (1986). Neste, o romance era uma herança vinda de Cervantes; em A Cortina, recua-se até Rabelais, mas é ainda o autor do Quixote quem inaugura a inquietude básica e provocativa do gênero: desvendar a prosa do mundo, destruir a ilusão lírica e instaurar o ser humano na maturidade existencial:

“Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro andante  em toda a nudez cômica de sua prosa. Assim como a mulher se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, o mundo, quando corre em nossa direção no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado.  E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta de quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que é pré-interpretado como digno de revolta. Pois foi rasgando essa cortina da pré-interpretação que Cervantes colocou em movimento essa arte nova; seu gesto destruidor se reflete e prolonga em cada romance digno desse nome, é a marca de identidade da arte do romance.”

  Como se vê, em Kundera a estética não se aparta da existência. Não é à toa que ele já afirmou que o romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Também não é à toa que ele se aproxime da Filosofia. E assim como Vargas Llosa ele utiliza ampla e generosamente o método da exemplificação, valendo-se de seus mestres (Hermann Broch, Robert Musil, os quais eu li por causa dele, na esteira da leitura dos seus livros, Kafka, Cervantes, Sterne, Diderot, Flaubert, Tolstói) e de seus contemporâneos (entre outros, Ernesto Sabato, Carlos Fuentes, Salman Rushdie), sempre de forma admirativa e lúcida, duas coisas que às vezes são excludentes, mas não quando entra em jogo uma inteligência como a do grande escritor tcheco.

Temos, mais uma vez, um livro em sete partes, como acontecia tanto em A arte do romance quanto na maioria das obras de Kundera. Ele mesmo já esclareceu o assunto, ao contar para Christian Salmon, da Paris-Review que o sete e o cinco são seus números “arquitetônicos”. O sete para os textos com digressões e discussões filosóficas; o cinco para textos que brincam com a estrutura ligeira do vaudeville. Salmon assim sintetizou: “Existem duas formas-arquétipos em seus romances: 1) a composição polifônica que une elementos heterogêneos em uma arquitetura fundada sobre o número sete; 2) a composição vaudevillesca, homogênea, teatral, que roça o inverossímil,e que se funda sobre o cinco”. Kundera: “Sonho sempre com uma grande infidelidade inesperada. Mas até o momento não consegui escapar dessas duas formas .

    A verdade é que, agora obrigado a escrever em francês, se não conseguiu a grande infidelidade inesperada, ele pelo menos tornou sua prosa mais maleável, mais despojada, menos “arquitetônica” (em aparência) nos seus três curtíssimos romances mais recentes (A Lentidão, A Identidade, A Ignorância). No entanto, a essa obsessão devemos além de A valsa dos adeuses e a fascinante coletânea de (sete,é claro) contos Risíveis Amores, alguns dos melhores romances da segunda metade do século XX: A Brincadeira; A vida está em outra parte; A Imortalidade, sem falar no inusitado O Livro do Riso e do Esquecimento e do famoso e às vezes tão injustiçado A insustentável leveza do ser, o qual, entre outros méritos, tem uma das personagens mais inesquecíveis e emocionantes da ficção contemporânea: Sabina (tão bem traduzida no cinema por Lena Olin), aquela que se recusa a aceitar o kitsch que assola o mundo. Todos eles ajudando o leitor a rasgar a cortina pré-fabricada do mundo maquiado, quer no totalitarismo soviético quer na totalitária liberdade capitalista de se comprar o que se pode.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 21 de outubro de 2006)   

1 Comentário »

  1. É curioso: eu não gosto tanto do Llosa ficcionista quanto gosto do Llosa destes ensaios. Adoro a ORGIA PERPÉTUA, que releio sempre.Mas não conheço este CARTAS A UM JOVEM ESCRITOR, que vou procurar adquirir, visto que Llosa me parece ótimo neste aspecto: comentar outros livros e autores e fazer com que os amemos mais ainda.

    Comentário por Chico Lopes — 29/11/2013 @ 10:00 | Responder


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