MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/02/2012

NAS PEGADAS DE ARNE SAKNUSSEMM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de julho de 2008)

“Desce à cratera do Youcul de Sneffels que a sombra do Scartaris vem beijar antes das calendas de julho, ó viajante audaz, e tu chegarás ao centro da Terra. Eu o fiz. Arne Saknussemm. O leitor deste blog pode não acreditar, contudo há mais de trinta anos estas palavras estão gravadas na minha mente. E mais do que qualquer outra coisa na ficção, o Scartaris, as calendas de julho e Arne Saknussemm permanecem impávidos, mudem os gostos ou as vontades.

São essas as palavras que, decifradas de um criptograma, levam o adoravelmente irascível professor Liddenbrock e seu sobrinho Axel (o narrador) à Islândia em Viagem ao Centro da Terra (1864), uma das maiores devoções literárias de quem aqui escreve e talvez o livro que melhor define o fascínio que Júlio Verne exerce ao transformar a geografia em aventura.

Pena que há pouca esperança de que algum dia se faça uma adaptação fiel ao livro (até mesmo a versão com James Mason, ótima, modifica totalmente a história). O curioso é que ele consegue isso com três personagens (além do prof. Liddenbrock e de Axel, o guia Hans). Como esquecer a primeira indicação de que o manuscrito de Saknussemm é verdadeiro, quando a pequena expedição encontra seu nome na geleira do Sneffels (em caracteres rúnicos, e essa é uma das palavras que ficaram indelevelmente marcadas na mente do autor deste artigo, antes mesmo de saber o que eram exatamente, como hulha, Hamlet, etc), as dúvidas e questionamentos de Axel (contrapostos ao entusiasmo renitente do tio), o momento em que ele se perde dos demais, a descoberta do mar “interior”, a construção da jangada que permite a sua travessia, os monstros pré-históricos (como se pode ver, não falta nada em Viagem ao Centro da Terra e ele alimentou inúmeras imitações), a tempestade magnética, o naufrágio, a descoberta de um crânio humano, as iniciais A.S. indicando a passagem de Saknussemm, e o plano de subir à superfície utilizando pólvora numa explosão. Que os lança, via Stromboli, na Sicília. E onde fica exatamente o centro da Terra? Só lendo o livro.

Há algo até ingênuo nesse tipo de ficção especulativa, que utiliza a ciência, não deixando que ela ofusque a imaginação. Como sintetiza bem Geraldo Galvão Ferraz, “Verne nunca deixou de usar uma fórmula que funciona até hoje: seus romances misturavam sólida informação factual com descrições pormenorizadas de máquinas e lugares; muita ação (seus heróis estão sempre tendo de vencer obstáculos de toda a natureza); um leve toque de romance (há Graüben, como interesse romântico, é só ler o capítulo “Um passeio pelo Elba”, pois o relato começa em Hamburgo); e uso constante do humor, que tempera e alivia o tom didático do texto.

Tom didático? Talvez não. Mais do que educar, Verne deseduca: ele tira o leitor dos eixos, obriga-o a pensar no mundo como vastidão e mistério, nessa nossa cultura que tudo quer explicar, medir, pesar. Talvez ele tenha acreditado na “sua” ciência. Os leitores agradecidos acreditam bem mais em sua fabulação e por isso, passada a infância, a adolescência, a inocência e o desconhecimento factual, ainda querem descer à cratera no ponto revelado pela sombra do Scartaris nas calendas de julho, nas pegadas de Arne Saknussem.

07/02/2012

A travessia do Atlãntico de Jules Verne: UMA CIDADE FLUTUANTE

 

    Uma cidade flutuante (Une ville flottante) é um dos textos mais originais de Jules Verne: publicado de forma seriada em 1870, e em livro um ano depois, situado—portanto—entre os formidáveis Vinte mil léguas submarinas (1870)& A volta ao mundo em 80 dias (1872), é um relato de viagem muito vívido e colorido que tenta se disfarçar de ficção, de romance. Hoje em dia, como a narrativa jornalística ganhou uma dignidade maior, ele seria mais bem aceito; creio que, na sua época, suas características híbridas levaram a considerar um romance falhado e uma narrativa de viagem um tanto falseada.

   A origem do texto está na viagem que Verne fez em 1867 no transatlântico (era o Titanic da época) Great Eastern. Assim, o grande escritor francês visitou os EUA, Nova York, Albany, as cataratas do Niágara. Mas a grande aventura mesmo é o próprio transatlântico, que reproduz balzaquianamente a sociedade do século XIX em seus conveses e cobertas. Esse caráter de microcosmo quase alegórico é o que ele enfatiza e parece tê-lo fascinado: o fato de algo artificial, criado com toda a tecnologia disponível (que, entretanto, falha tantas vezes) acabar espelhando a sociedade que o criou: “Se o Great Eastern não é apenas uma máquina náutica, se é um microcosmo e carrega um mundo consigo, um observador não se espantará de ali encontrar, como num teatro maior, todos os instintos, todos os ridículos, todas as paixões do homem” [1]. Daí o título, daí a seleção de  incidentes e vinhetas que Verne recolhe da viagem, se não contarmos com o puerilíssimo entrecho sentimental (que também tem algo de melodrama balzaquiano): o casal contrariado em seu amor, Fabian MacElwin e Ellen Drake. Apaixonada por ele, ela foi obrigada pelo pai a se casar com o aventureiro, apostador inveterado e mau-caráter Henry Drake.

  O narrador conhece de outros carnavais Fabian e o encontra, melancólico e sorumbático a bordo do Great Eastern. No folclore da viagem, há a aparição de uma mulher de preto chorosa, que ninguém sabe de onde veio. Ao longo da travessia marítima, que é bem menos veloz do que se esperava, o narrador tem a oportunidade de saber que Henry Drake também está viajando no transatlântico e ele e outro amigo (Corsican) tentam evitar o encontro-confronto.

   Porém, as coisas se complicam (devido à mania de apostas de Drake) e um duelo é inevitável. Descobrimos que a mulher de preto é a própria Ellen, vítima de uma loucura temporária.

   Tudo é uma bobagem divertida e o clímax então é maravilhoso: na hora exata do duelo, há uma tempestade impressionante e Drake é fulminado por um raio. Isso é que é solução deus ex-machina!

   Todavia, o que importa mesmo, a meu ver, na leitura de A cidade flutuante são as pequenas observações digamos “sociais”, o lado meio A montanha mágica de como a rotina e o cotidiano são disciplinados a bordo, até com contratempos, possibilidades desastrosas, atrasos etc. Nesse aspecto, Verne mostra seus dotes de escritor e não apenas de visionário: “Eram os primeiros dias bonitos.  O sol, que já teria coberto de verde os campos do continente fez brotarem no navio trajes mais frescos. A vegetação às vezes atrasa, a moda jamais. Logo surgiram numerosos grupos de pessoas passeando pelas avenidas. Como nos Campos Elísios…” etc etc.

   Para dar um realce mais pitoresco a essas vinhetas, Verne lança mão de um personagem peculiar e com opiniões desconcertantes, o dr. Dean Pitferge, que está sempre na expectativa do naufrágio do navio (isso será aproveitado no delicioso final da narrativa): “Desenfreado, o médico teria continuado muito tempo nesse tom, mas outros passageiros  desfilavam diante de nossos olhos e provocavam novas observações do tagarela. Que variedade de tipos nessa multidão de passageiros! Nenhum flâneur, é claro, porque ninguém se desloca de um continente  a outro sem um motivo certo. A maioria, sem a menor dúvida,  estaria indo atrás de fortuna nessa terra americana, esquecendo que aos 20 anos um yankee já tem uma posição e aos 25 está velho demais para entrar na luta…”

   Tenho em mãos duas edições brasileiras recentes: uma, da coleção de Verne lançada em bancas pela obscura RBA. Essa coleção a principio nem trazia nome de tradutores, porém a certa altura eles começaram a aparecer. O volume em questão traz, além de Uma cidade flutuante, outro pequeno romance híbrido, Os violadores do bloqueio. O tradutor é Pedro Guilherme dos Santos Dinis.

   A tradução que tenho citado aqui é a de Beatriz Sidou lançada numa simpática coleção chamada “Em conserva” pela Artes & Letras de Curitiba: são pequenos volumes que vêm dentro de uma lata. É uma pena que a revisão e os cuidados editoriais com o texto propriamente dito sabotem a iniciativa tão atraente. Há inúmeros erros ao longo do texto, não se deram ao trabalho de colocar nem ao menos o título original e não há nenhuma informação sobre o texto de Verne que o apresente ao leitor de hoje. Suponhamos um jovem leitor que fique atraído (compreensivelmente) pela lata que contém Uma cidade flutuante: caberá a ele todo o trabalho de localizar no tempo, no espaço e na literatura esse título. Convenhamos que um leitor interessado e inteligente faz isso naturalmente, contudo a editora (já que teve essa iniciativa tão bacana) podia dar uma forcinha, uma apresentação básica e didática. Pois o fato de que Verne embarcou ele mesmo nessa viagem não é de modo algum  irrelevante para o tipo de narrativa que estamos lendo, não é?


[1] Utilizo uma tradução de Beatriz Sidou. Há uma analogia do transatlântico com Londres, que lembra até um trecho dickensiniano (o início de Casa soturna, por exemplo): A coberta  ainda não era mais do que um imenso canteiro de obras entregue a um exército de trabalhadores. Eu não conseguia me convencer que estava a bordo de um navio. Muitos milhares de homens, operários, pessoal da tripulação, mecânicos, oficiais, manobristas e curiosos se cruzavam, acotovelavam-se sem se incomodar, uns no passadiço, outros nas máquinas, estes correndo os camarotes, aqueles espalhados pela mastreação, todos numa confusão que foge a qualquer descrição. Aqui, as gruas móveis erguiam enormes peças de ferro fundido e ali, pesados pranchões de madeira eram içados com a ajuda de guindastes a vapor (…) Construía-se,ajustava-se, martelava-se, aparelhava-se a embarcação, polia-se tudo, no meio de uma desordem incomparável (…) Decidi então visitar todos os buracos daquele imenso formigueiro, e comecei meu passeio como teria feito um turista em alguma cidade desconhecida. Uma lama negra—esse lodo britânico que se gruda no pavimento das cidades inglesas—cobria todo o convés do vapor. Regatos fétidos escorriam aqui e ali. Podia-se acreditar estar em um dos piores trechos da Upper Thames Street, nas vizinhanças da ponte de Londres…”

A volta ao mundo Júlio Verne

 

Jules Verne (ou melhor, Júlio Verne, para as muitas gerações de aficcionados brasileiros) morreu em 1905, embora sua decadência física tivesse começado quase uma década antes com um suspeitíssimo acidente no qual seu sobrinho Gaston o atingiu com um tiro. O homem que transformou a geografia em aventura não era muito de se deslocar, ainda que se possa ver uma projeção irônica no fato de que seu mais famoso herói, Phileas Fogg,  inglês metódico e sedentário, ser justamente aquele que percorre mais intrepidamente o mundo.

Está saindo uma coleção de banca das obras de Jules Verne. Os dois primeiros título logo de cara são duas das três obras que mais povoaram meus sonhos de pré-adolescente: A volta ao mundo em oitenta dias e Vinte mil léguas submarinas (a outra, claro, é Viagem ao centro da terra).

Há poucos anos (justamente no centenário da morte de Verne),  reli A volta ao mundo em oitenta dias, numa primorosa edição da Melhoramentos, com boa tradução (alguns escorregões visíveis, é verdade, mas nada grave). Por mais bonita que seja a edição que se encontra nas livrarias, da Ediouro, é preciso deixar para a garotada a adaptação de Paulo Mendes Campos.

volta ao mujndo em 80 dias

Pensando bem, seria necessário mesmo adaptar e reduzir Júlio Verne para a garotada,  pelo menos a história de Phileas Fogg ou a do professor Lidenbrock ou a do Capitão Nemo ? Após a releitura de A volta ao mundo em oitenta dias, é possível dizer que não. Verne é um mestre da narrativa, nem descrições (sempre enxutas no romance, e muito expressivas) nem didatismos (discretíssimos) nem a mentalidade eurocêntrica atrapalham. É óbvio que se a aposta de Phileas Fogg mostra o homem europeu como senhor do mundo, o que hoje propicia um grau de ironia para a leitura,  isso não afeta em nada a perfeita construção do enredo, seu ritmo preciso, a distribuição notável dos episódios entre o patrão fleumático e generoso (Fogg) e o criado passional e trapalhão (Passepartout). O inglês e o francês. É o francês quem dá mais humanidade ao relato e quem vê o mundo, totalmente ignorado pelo inglês, nesses oitenta dias.

Verne não dispensa uma certa malícia ao retrato de um Fogg tão autômato, tão impassível, tão confiante na exatidão, típico homem de um momento de glorificação da ciência, do planejamento, do progresso (e que no entanto adere sem hesitação a uma idéia fixa, a uma meta fantástica): “Sir Francis Cromarty teria dado com prazer informações sobre os costumes, a história, a organização da Índia, caso Phileas Fogg fosse homem de fazer perguntas. Mas o cavalheiro nada perguntava. Não viajava, descrevia uma circunferência. Era um corpo pesado que percorria uma órbita ao redor do globo terrestre, de acordo com as leis da mecânica racional. Neste momento, refazia de cabeça o cálculo das horas gastas desde sua partida de Londres, e teria esfregado as mãos, se fosse da sua natureza fazer gestos inúteis”.

Também há malícia no relato da travessia dos EUA (de San Francisco a Nova York) que aparecem tão pitorescos e exóticos quanto a Índia ou o Japão (e com a fascinação dos escritores europeus pelo universo mórmon, como também vemos em Conan Doyle). Mas o que arremata mesmo o encanto de A volta ao mundo em oitenta dias, esse livro maravilhoso, é o humor. Fogg resolve atrasar sua viagem para salvar a bela Auda (que será o seu grande amor), vítima da seita da deusa Kali, porque está “doze horas adiantado” ! Sir Francis Cromarty diz a ele: “O senhor tem um bom coração!” E a resposta já valeria o livro: “Às vezes. Quando tenho tempo.”

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de maio de 2005)

            

 

05/02/2012

WISLAWA SZYMBORSKA (1923-2012)

Filed under: Homenagens,traduções — alfredomonte @ 12:04
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  A morte de Wislawa Szymborska nada tem de triste ou terrível, decerto. Uma senhora que “morreu tranquilamente, enquanto dormia“,  na sua casa (em Cracóvia) aos 88 anos (completaria 89 em dois de julho), apesar do câncer do pulmão, viveu uma longa  vida. E nesse caso específico uma longa vida no sentido da sabedoria poética, da consolidação em fórmulas líricas das percepções mais sagazes, lúcidas e pertinentes.

   Mesmo assim, sempre há um rastro melancólico, Para mim, porque faz pouco tempo que “descobri” a poesia de madame Szymborska (foi exatamente em outubro do ano passado).

   Minha queridíssima amiga (também grande escritora) Maria Valéria Rezende escreveu-me, afirmando  que eu “inoculei o veneno” da admiração por Zymborska nela. E me deu um grande presente: uma antologia de versões em várias línguas, que ela mesmo preparou.

    Para começar, vou transcrever algumas versões dos poemas que eu já tinha apontado como notáveis na minha resenha sobre o livro Poemas, a seleção feita por Regina Przybycien, e na minha pequena antologia de um poema para cada dia da semana da grande poeta polonesa. Há versões em francês, italiano, espanhol e inglês, e versões diferentes em português,  embora infelizmente nem sempre indicação do responsável pela versão, o que contraria meu costume aqui no blog, mas o que se há de fazer?, nem sempre é possível ser rigoroso.

UN CHAT DANS UN APPARTEMENT VIDE

 

Mourir. Il ne faut pas faire cela à un chat.

 que peut-il faire

Dans un appartement vide ?
 Grimper aux murs 
 se frotter contre les meubles?
 Apparement rien n’a changé 
 et pourtant rien n’est pareil.

 rien n’a été déplacé
 et pourtant rien n’est en place.

 et le soir pas de lampe allumée.

 un bruit de pas dans l’escalier
 mais ce n’est pas le bon.

 une main

Met le poisson dans l’assiette
 mais ce n’est pas la bonne. 
 Quelque chose ne commence pas 
 à l’heure habituelle,
 quelque chose ne se passe pas
 comme cela devrait.

 quelqu’un était là depuis toujours
 et soudain n’est plus
 s’obstinant à rester disparu. 
 On a fureté dans les armoires
 fouillé les étagères
 on s’est faufilé sous le tapis

Pour vérifier.

 on a même bravé l’interdit

En allant au bureau
 et en mettant les papiers en désordre  
 que faire maintenant ?
 Dormir et attendre.

 attendre qu’il revienne  s’il ose!
 Et lui faire savoir

Qu’on ne fait pas ça à un chat. 
 On avancera vers lui
 l’air détaché un peu hautain
 en faisant semblant de ne pas le voir.

 on marchera très lentement
 la patte boudeuse
 et surtout pas un bond

Pas un ronron, 
 du moins au début

  UN GATO EN UN PISO VACÍO


MORIR, ESO A UN GATO NO SE LE HACE.

PORQUE, ¿QUE PUEDE HACER UN GATO
EN UN PISO VACÍO?
SUBIRSE POR LAS PAREDES.

RESTREGARSE CONTRA LOS MUEBLES.

NADA AQUÍ HA CAMBIADO,
PERO NADA ES COMO ANTES.

NADA HA CAMBIADO DE SITIO,
PERO NADA ESTÁ EN SU SITIO.

Y LA LUZ SIGUE APAGADA AL ANOCHECER.

SE OYEN PASOS EN LA ESCALERA,
PERO NO LOS ESPERADOS.

UNA MANO DEJA PESCADO EN EL PLATO
Y NO ES, TAMPOCO, LA DE ANTES.

ALGO NO EMPIEZA
A LA HORA DE SIEMPRE.

ALGO NO SUCEDE
SEGÚN LO ESTABLECIDO.

ALGUIEN ESTABA AQUÍ, ESTABA SIEMPRE,
Y DE REPENTE DESAPARECIÓ
Y SE EMPEÑA EN NO ESTAR.

SE HA BUSCADO YA EN LOS ARMARIOS,
SE HAN RECORRIDO LOS ESTANTES.

SE HA COMPROBADO BAJO LA ALFOMBRA.

INCLUSO SE HA ROTO LA VEDA
DE ESPARCIR PAPELES.

¿QUÉ MÁS SE PUEDE HACER?
DORMIR Y ESPERAR.

¡AY, CUANDO ÉL REGRESE,
AY, CUANDO APAREZCA!
SE ENTERARÁ DE QUE ESTAS NO SON MANERAS
DE TRATAR A UN GATO.

COMO QUIEN NO QUIERE LA COSA,
HABRÁ QUE ACERCÁRSELE,
DESPACITO,
SOBRE UNAS PATITAS, MUY, MUY OFENDIDAS.

Y, DE ENTRADA,  NADA DE BRINCOS NI MAULLIDOS

IL GATTO IN UN APPARTAMENTO VUOTO

 

Morire . Questo a un gatto non si fa.

Perché cosa può fare il gatto

In un appartamento vuoto?
Arrampicarsi sulle pareti
strofinarsi contro i mobili?
Qui niente sembra cambiato
eppure tutto è mutato
niente sembra spostato
eppure tutto è fuori posto
la sera la lampada non è più accesa
si sentono passi sulle scale
ma non sono quelli
anche la mano

Che mette il pesce nel piattino
non è quella di prima. 
Qualcosa non comincia
alla sua solita ora
qualcosa non accade
come dovrebbe
qui c’era sempre qualcuno. Sempre.

E poi d’un tratto è scomparso
e si ostina a non esserci
in ogni armadio si è guardato
si è cercato sulle mensole
e infilati sotto il tappeto

Ma non ha portato a niente
si è  persino infranto il divieto

Di  entrare nell’ufficio

E si sono sparse carte dappertutto.

Cos’altro si può fare
aspettare e dormire 
che provi solo a tornare
che si faccia vedere se osa !
Deve imparare che

Questo non si fa a un gatto.

Gli si andrà incontro

Con aria distaccata

Un po’ altezzosi

Come se non lo si vedesse

 camminando  lentamente
sulle zampe molto offese
e soprattutto

Non un salto nè un miagolio.

Almeno non subito.

 CAT IN AN EMPTY APARTMENT

TRAD. 01
Die – you can’t do that to a cat.

Since what can a cat do
in an empty apartment?
Climb the walls?
Rub up against the furniture ?
Nothing seems different here,
but nothing is the same.

Nothing has been moved,
but there’s more space.

And at nighttime no lamps are lit.

Footsteps on the staircase,
but they’re new ones.

The hand that puts fish on the saucer
has changed, too.

Something doesn’t start
at its usual time.

Something doesn’t happen
as it should.

Someone was always, always here,
then suddenly disappeared
and stubbornly stays disappeared.

  

Every closet has been examined.

Every shelf has been explored.

Excavations under the carpet turned up nothing.

A commandment was even broken,
papers scattered everywhere.

What remains to be done.

Just sleep and wait.

Just wait till he turns up,
just let him show his face.

Will he ever get a lesson
on what not to do to a cat.

Sidle toward him
as if unwilling
and ever so slow
on visibly offended paws,
and no leaps or squeals at least to start.

Cat in an empty apartment

TRAD 02

Dying–you wouldn’t do that to a cat.

For what is a cat to do

in an empty apartment?

Climb up the walls?

Brush up against the furniture?

Nothing here seems changed,

and yet something has changed.

Nothing has been moved,

and yet there’s more room.

And in the evenings the lamp is not on.

 

One hears footsteps on the stairs,

but they’re not the same.

Neither is the hand

that puts a fish on the plate.

 

Something here isn’t starting

at its usual time.

Something here isn’t happening

as it should.

Somebody has been here and has been,

and then has suddenly disappeared

and now is stubbornly absent.

 

All the closets have been scanned

and all the shelves run through.

Slipping under the carpet and checking came to nothing.

The rule has even been broken and all the papers scattered.

What else is there to do?

Sleep and wait.

 

Just let him come back,

let him show up.

Then he’ll find out

that you don’t do that to a cat.

Going toward him

faking reluctance,

slowly,

on very offended paws.

And no jumping, purring at first.

 

 

Museu

 Há pratos, mas falta apetite
Há alianças, mas falta reciprocidade
pelo menos desde há 300 anos.
Há o leque – onde os rubores?
Há espadas – onde há ira?
E o alaúde nem tange à hora gris.
Por falta de eternidade juntaram
Dez mil coisas velhas.
Um guarda musgoso cochila docemente,
com os bigodes caindo sobre a vitrine.
Metais, barro, plumas de ave
Triunfam silenciosamente no tempo.
Apenas um alfinete da galhofeira do Egito ri zombeteiro.
A coroa deixou passar a cabeça.
A mão perdeu a luva.
A bota direita prevaleceu sobre a perna.
Quanto a mim, vivo, acreditem por favor.
Minha corrida com o vestido continua
E que resistência tem ele!
E como ele gostaria de sobreviver!

 In Quatro poetas poloneses. Organização e tradução Henrik Siewierski e José Santiago – edição da Secretaria de Cultura do Paraná, 1995.

 

    

  Quarto do suicida 

 

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta – um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

 

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os rnoralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos. 

 

 E  não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo – ou seja, ainda viva. 

 

 Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma –
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

 

Tradução: Ana Cristina Cesar em colaboração com a polonesa Grazyna Drabik.

 

  

 

La habitación del suicida

 

 

 

Seguramente crees que la habitación estaba vacía.

 

Pues no. Había tres sillas bien firmes.

 

Una lámpara buena contra la oscuridad.

 

Un escritorio, en el escritorio una cartera, periódicos.

 

Un buda despreocupado. Un cristo pensativo.

 

Siete elefantes para la buena suerte y en el cajón una agenda.

 

¿Crees que no estaban en ella nuestras direcciones?

 

 

 

Seguramente crees que no había libros, cuadros ni discos.

 

Pues sí. Había una reanimante trompeta en unas manos negras.

 

Saskia con una flor cordial.

 

Alegría, divina chispa.

 

Odiseo sobre el estante durmiendo un sueño reparador

 

tras las fatigas del canto quinto.

 

Moralistas,

 

apellidos estampados con sílabas doradas

 

sobre lomos bellamente curtidos.

 

Los políticos justo al lado se mantenían erguidos.

 

 

 

No parecía que de esta habitación no hubiera salida,

 

al menos por la puerta,

 

o que no tuviera alguna perspectiva, al menos desde la ventana.

 

 

 

Las gafas para ver a lo lejos estaban en el alféizar.

 

Zumbaba una mosca, o sea que aún vivía.

 

 

 

Seguramente crees que cuando menos la carta algo aclaraba.

 

Y si yo te dijera que no había ninguna carta.

 

Tantos de nosotros, amigos, y todos cupimos

 

en un sobre vacío apoyado en un vaso. 

 

 

 

 

 le tre parole più strane

 

 quando pronuncio la parola  f u t u r o

 

la prima sillaba già va nel passato.

 

quando pronuncio la parola  s i l e n z i o

 

lo annullo.

 

quando pronuncio la parola  n i e n t e

 

creo qualcosa che non entra in alcun nulla.

 

discorso ufficio oggetti smarriti – adelphi

 

 

As três palavras mais estranhas

 

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.

 

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

 

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

 

Tradução: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves 

 

de Alguns gostam de poesia- Antologia- Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska, Cavalo de Ferro, 2004

 

     

 

Las tres palabras más extrañas

 

 

 

Cuando pronuncio la palabra Futuro,

 

la primera sílaba pertenece ya al pasado.

 

Cuando pronuncio la palabra Silencio,

 

lo destruyo.

 

Cuando pronuncio la palabra Nada,

 

creo algo que no cabe en ninguna no-existencia.

 

 

 

Versión de Abel A. Murcia

 

 

 

 

 

 

Opinión sobre la pornografía

 

 

 

No hay mayor lujuria que el pensar.

 

Se propaga este escarceo como la mala hierba

 

en el surco preparado para las margaritas.

 

 

 

No hay nada sagrado para aquellos que piensan.

 

Es insolente llamar a las cosas por su nombre,

 

los viciosos análisis, las síntesis lascivas,

 

la persecución salvaje y perversa de un hecho desnudo,

 

el manoseo obsceno de delicados temas,

 

los roces al expresar opiniones; música celestial en sus oídos.

 

 

 

A plena luz del día o al amparo de la noche

 

unen en parejas, triángulos y círculos.

 

Aquí cualquiera puede ser el sexo y la edad de los que juegan.

 

Les brillan los ojos, les arden las mejillas.

 

El amigo corrompe al amigo.

 

Degeneradas hijas pervierten a su padre.

 

Un hermano chulea a su hermana menor.

 

 

 

Otros son los frutos que desean

 

del prohibido árbol del conocimiento,

 

y no las rosadas nalgas de las revistas ilustradas,

 

pornografía esa tan ingenua en el fondo.

 

Les divierten libros que no están ilustrados.

 

Sólo son más amenos por frases especiales

 

marcadas con la uña o con un lápiz.

 

De “Gente en el puente” 1986         

 

Versión de Abel A. Murcia

 

  

 

 

Tortures

 

 

 

Nothing has changed.

 

The body is susceptible to pain,
it must eat and breathe air and sleep,
it has thin skin and blood right underneath,
an adequate stock of teeth and nails,
its bones are breakable, its joints are stretchable.

 

In tortures all this is taken into account.

 

Nothing has changed.

 

The body shudders as it shuddered
before the founding of Rome and after,
in the twentieth century before and after Christ.

 

Tortures are as they were, it’s just the earth that’s grown smaller,
and whatever happens seems right on the other side of the wall.

 

Nothing has changed. It’s just that there are more people,
besides the old offenses new ones have appeared,
real, imaginary, temporary, and none,
but the howl with which the body responds to them,
was, is and ever will be a howl of innocence
according to the time-honored scale and tonality.

 

Nothing has changed. Maybe just the manners, ceremonies, dances.

 

Yet the movement of the hands in protecting the head is the same.

 

The body writhes, jerks and tries to pull away,
its legs give out, it falls, the knees fly up,
it turns blue, swells, salivates and bleeds.

 

Nothing has changed. Except for the course of boundaries,
the line of forests, coasts, deserts and glaciers.

 

Amid these landscapes traipses the soul,
disappears, comes back, draws nearer, moves away,
alien to itself, elusive, at times certain, at others uncertain of its own existence,
while the body is and is and is
and has no place of its own.

 

 

 

torture

 

 

 

Nulla è cambiato.

 

Il corpo è suscettibile al dolore

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

Ossa rompibili e giunture estensibili

 

Nelle torture  di tutto ciò si tiene conto.

 

Nulla è cambiato.

 

I! Corpo trema come tremava

 

Prima della fondazione di roma e dopo

 

Nel ventesimo secolo  prima e dopo cristo

 

Le torture sono così da sempre

 

 solo la terra è cresciuta di meno

 

E qualunque cosa accade

 

Sembra giusta dall’altra parte del muro.

 

Nulla è cambiato  c’è soltanto più gente

 

Oltre le vecchie offese  ne compaiono di nuove

 

Reali  immaginarie  temporanee e inesistenti

 

Ma il grido con cui il corpo  risponde loro

 

 era  è  e sarà un grido di innocenza

 

Secondo eterni registri e misure

 

Nulla è cambiato

 

Se non forse i modi  le cerimonie  le danze

 

Anche se !l gesto delle mani

 

Che proteggono il capo

 

È rimasto lo stesso.

 

Il corpo si torce  dimena e  divincola

 

 le gambe cedono  cade  le ginocchia in aria

 

Livido  gonfio  sbava e sanguina.

 

 nulla è cambiato tranne i confini

 

La linea dei boschi  litorali  deserti e ghiacciai.

 

Tra questi scenari l’anima (animula vagula blandula) vaga

 

Sparisce  ritorna  si fa più vicina  si allontana

 

Estranea a sè stessa  elusiva

 

Ora certa  ora incerta del proprio esistere

 

Mentre il corpo  c’è  e   c’è   e   c’è

 

E non ha un posto suo…

 

 

 

 

 

  

LA BREVE VITA DEI NOSTRI ANTENATI

 

 

 

Non arrivavano in molti fino a trent’anni.

 

La vecchiaia era un privilegio 
di alberi e pietre.

 

l’infanzia durava quanto 
quella dei cuccioli di lupo. 

 

Bisognava sbrigarsi

 

Fare in tempo a vivere
prima che tramontasse il sole,
prima che cadesse la neve.

 

Le genitrici tredicenni, 
i cercatori quattrenni di nidi

 

Fra i giunchi, 
i capicaccia ventenni-
un attimo prima non c’erano, 
già non ci sono più.

 

I capi dell’infinito si univano in fretta.

 

Le fattucchiere biascicavano esorcismi
con ancora tutti i denti della giovinezza. 

 

Il figlio si faceva uomo sotto 
gli occhi del padre.

 

Il nipote nasceva

 

Sotto l’occhiaia del nonno.

 

E del resto non si contavano gli anni. 

 

Contavano reti, pentole, capanni, asce. 
Il tempo, così prodigo 
con una qualsiasi stella del cielo, 
tendeva loro la mano quasi vuota, 
e la ritraeva in fretta, come dispiaciuto. 

 

Ancora un passo, ancora due
lungo il fiume scintillante,
che dall’oscurità nasce 
e nell’oscurità scompare. 

 

Non c’era un attimo da perdere, 
domande da rinviare
e illuminazioni tardive, 
se non le si erano avute per tempo.

 

La saggezza non poteva aspettare 
i capelli bianchi.

 

Doveva vedere con chiarezza, 
prima che fosse chiaro,
e udire ogni voce, prima che risuonasse.

 

Il bene e il male –
ne sapevano poco, ma tutto: 
quando il male trionfa, il bene si cela;
quando il bene si mostra, 
il male attende nascosto.

 

Nessuno dei due si può vincere 
o allontanare ad una distanza definitiva.

 

Ecco il perchè d’una gioia 
sempre tinta di terrore, 
d’una disperazione mai disgiunta 
da tacita speranza.

 

La vita, per quanto lunga, sarà sempre breve.

 

Troppo breve per aggiungere qualcosa.

 

 

 

  

The Turn of the Century

 It was supposed to be better than the others, our 20th century,

But it won’t have time to prove it.

Its years are numbered,

its step unsteady,

its breath short.

 

Already too much has happened

that was not supposed to happen.

What was to come about

has not.

 

Spring was to be on its way,

and happiness, among other things.

 

Fear was to leave the mountains and valleys.

The truth was supposed to finish before the lie.

Certain misfortunes

were never to happen again

such as war and hunger and so forth.

 

These were to be respected:

the defenselessness of the defenseless,

trust and the like.

 

Whoever wanted to enjoy the world

faces an impossible task.

 

Stupidity is not funny.

Wisdom isn’t jolly.

 

Hope

Is no longer the same young girl

et cetera. Alas.

 

God was at last to believe in man:

good and strong,

but good and strong

are still two different people.

 

How to live–someone asked me this in a letter,

someone I had wanted

to ask that very thing.

 

Again and as always,

and as seen above

there are no questions more urgent

than the naive ones.


 
 

“Curta demais para se acrescentar algo”: a poesia essencial de Wislawa Szymborska

uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de dezembro de 2011

“Quem quis se alegrar com o mundo/ depara com uma tarefa/ de execução impossível (…) // Era para Deus finalmente crer no homem/ bom e forte/ mas bom e forte/ são ainda duas pessoas.// Como viver—me perguntou alguém numa carta/ a quem eu pretendia fazer/ a mesma pergunta.// De novo e como sempre…/ não há perguntas mais urgentes/ do que as perguntas ingênuas”.

   (trechos de Ocaso do século, de Wislawa Szymborska)

A primeira coisa que chama a atenção em POEMAS é essa senhora na capa soltando uma satisfeita baforada, com seu cigarro, com uma expressão beatífica-iogue, com um toque solerte e matreiro. Uma capa que celebra—não sei se deliberada ou inconscientemente—a resistência ao patrulhamento e intolerância crescentes no mundo. Não sou fumante, e por isso posso falar tranqüilamente: acho um horror essa perseguição aos fumantes e a interferência do governo em lugares privados e comerciais. Ninguém  é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas nunca verei o porquê de não haver “lugares para fumantes” e que eu possa ter o direito de estar neles com meus amigos que fumam, por minha conta e risco. Ninguém é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas somos obrigados a aturar tevês ligadas em bares e restaurantes, gente berrando, ou gente ouvindo música ruim a decibéis incríveis, gente que não tem a mínima noção de espaço pessoal. É esse o mundo higienizado, com a cara desanimada e nada saudável dos Dráuzios Varellas.Urgh!

Essa senhora fumante, polonesa, atualmente com 88 anos, foi a responsável por minhas mais intensas emoções literárias em 2011. Premiada com o Nobel em 1996,  Wislawa Szymborska é muito mais do que um nome exótico e quase impronunciável (somos informados de que a pronúncia certa seria vissuáva chembórska, mas eu não abro mão do muito mais bonito vislava zimbórska, e aliás, nunca saberei polonês, e por isso pronuncio como quiser, é incrível essa mania do brasileiro de querer “falar certinho” o idioma e os nomes estrangeiros, atitude que não é retribuída pelos falantes de outras línguas: meu ilustre professor na pós-graduação, o francês Pierre Rivas não se vexava de pronunciar Macunáima ou mariô e ninguém levantava dúvidas sobre sua estatura intelectual),  é autora de uma obra poética ímpar, como demonstra a magra e  preciosa antologia  – que  abarca oito de seus livros— publicada  pela Companhia das Letras, um feito memorável  da tradutora Regina Przybycien (por falar em impronunciabilidade), também responsável pela seleção dos quarenta e quatro poemas.

Assim como Drummond e Bandeira, nos seus grandes momentos, Wislawa Szymborska se vale de uma requintada  simplicidade para enlaçar o cotidiano a todos os temas primordiais e importantes: o tempo, a morte, a guerra, a comunicação entre as pessoas, a solidão, a desumanização crescente do mundo, o que é de fato a civilização…

“Não eram muitos os que passavam dos trinta/ A velhice era privilégio das pedras e das árvores/ A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos/ Era preciso se apressar, dar conta da vida/ antes que o sol se pusesse/ antes que a primeira neve caísse. // Meninas de treze anos gerando filhos/ meninos de quatro anos rastreando ninhos de pássaros na moita/ jovens de vinte servindo de guias nas caçadas/ ainda há pouco não existiam, já não existem (…)// De todo modo, não contavam os anos/ Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados / O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu / estendia-lhes a mão quase vazia/ e a retirava rápido, como se tivesse pena (…)// Não havia nem um instante a perder/ perguntas a postergar e iluminações tardias/ a não ser as que tivessem sido antes experimentadas/ A sabedoria não podia esperar os cabelos branco/ Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse/ e ouvir toda  voz, antes que ela se propagasse // O bem e o mal/ deles sabiam pouco, porém tudo/ quando o mal triunfa, o bem se esconde/ quando o bem aparece, o mal fica de tocaia (…)/ Por isso, se há alegria é com um misto de aflição/ se há desespero, nunca é sem um fio de esperança/ A vida, mesmo se longa, sempre será curta/ Curta demais para se acrescentar algo.”  (trechos de A curta vida dos nossos antepassados)

De Gente na ponte (1987), do qual foram selecionados doze poemas, diversos deles maravilhosos, já temos o tom wislawiano: “Foi descoberta uma nova estrela/ o que não significa que ficou mais claro/ nem que chegou algo que faltava (…) // A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela/ tudo isso quiçá seja suficiente/ para uma tese de doutorado/ e uma modesta taça de vinho/  nos círculos aproximados do céu/ o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas / ambiente informal, traje casual/ predominam na conversa os temas locais/ e mastiga-se amendoim (…)/ A estrela não tem conseqüência/ Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo/ na mudança de governo, na renda e na crise de valores // Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada / Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência/ Excedente em face dos dias contados da vida/ Pois o que há para perguntar / sob quantas estrelas um homem nasce/ e sob quantas logo em seguida morre // Nova / Ao menos me mostre onde ela está / Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada / e aquele galhinho de acácia mais à esquerda / Ah—exclamo.” (Excesso)

Essa face filosófica, com seu quê de pré-socrática, oculta brechas para uma ironia quase provocativa, não fosse tão maliciosamente suave e até mesmo serena, como em Opinião sobre a pornografia, que começa com versos antológicos: Não há devassidão maior que o pensamento/ Essa diabrura prolifera como erva daninha/ num canteiro demarcado para margaridas”. E depois de considerar “simplório” o pornográfico anatômico, ela afirma: “É chocante em que posições/ com que escandalosa simplicidade; um intelecto emprenha o outro!/ Tais posições nem o kamasutra conhece”.

Que privilégio é ser emprenhado pelo intelecto lírico de Wislawa Szymborska. Enalteci Gente na ponte, mas há poemas admiráveis tirados de Muito divertido (como A alegria da escrita), de 1967; Um grande número (como O quarto do suicida[1] ou Utopia), de 1976; e Fim e Começo (1993), do qual cito versos iniciais do meu poema predileto entre todos, o lindíssimo e eloqüente Gato num apartamento vazio: Morrer—isso não se faz a um gato/ Pois o que há de fazer um gato/ num apartamento vazio…/ Nada aqui aparece mudado/ e no entanto algo mudou…// Algo aqui não começa/ na hora costumeira/ Algo não acontece/ como deve/ Alguém esteve aqui e esteve/ e de repente desapareceu/ e teima em não aparecer//”.

  Quem disse que não há mais poesia no mundo? Pelo menos na Polônia ela foi preservada, intacta e contundente. E muito divertida.


[1] “Vocês devem achar que o quarto estava vazio /Pois havia ali três cadeiras de encosto firme/ Uma boa lâmpada contra a escuridão / Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais / Um Buda alegre, um Jesus aflito/ Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho/ Você acha que nele não estavam nossos endereços? // Acham que faltavam livros, quadros ou discos? / Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras / Saskia com uma flor cordial/ Alegria, centelha divina/ Na estante Ulisses num sono reparador / depois dos esforços do Canto Cinco / Os moralistas / seus nomes inscritos em letras douradas / nas lindas lombadas de couro/ Ao lado, também os políticos perfilados // Não parecia que o quarto fosse/ sem saída, pelo menos pela porta/ nem sem vista, pelo menos pela janela/ Os óculos para longe largados no parapeito/ Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva//  Devem achar que ao menos a carta explicasse algo / E se eu lhes disser que não havia carta / éramos tantos os amigos e coubemos todos / no envelope vazio apoiado no lado do corpo.”

Um poema de Wislawa Szymborska para cada dia da semana

Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska,  minha companheira numa viagem em outubro de 2011 para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei  passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.

PARA O DOMINGO:  “Museu”

“Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezento anos.

Há um leque –onde os rubores?

Há espada– onde a ira?

E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias (…)

A coroa sobreviveu à cabeça.

A mão perdeu para a uva.

A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

Minha competição com o vestido continua.

E que teimosia a dele!

Como ele adoraria sobreviver!”

PARA A SEGUNDA “A alegria da escrita”

“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?

Vou beber da água escrita

que lhe copie o focinho como papel-carbono?

Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?

Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade

sob meus dedos apura o ouvido.

Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel

e afasta

os ramos que a palavra bosque originou (…)

as frases acossantes,

perante as quais não haverá saída (…)

Outras leis, preto no branco aqui vigoram.

Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)

Existe então um mundo assim

sobre o qual exerço um destino independente?

Um tempo que enlaço com correntes de signos?

Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.

O poder de preservar.

A vingança da mão mortal.”

PARA A TERÇA:  “A vida na hora”

“(…) Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado–

eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo–pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)

E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”

PARA A QUARTA:  “Utopia”

“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Nao há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa

de galhos desenredados desde antanho.

A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples

junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista

do Vale da Evidência (…)

Domina o vale a Inabalável Certeza.

Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a  Ilha é deserta

e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias

se voltam sem exceção para o mar (…)”

PARA A QUINTA: “Torturas”

“Nada mudou.

O corpo sente dor,

necessita comer, respirar e dormir,

tem a pele tenra e logo abaixo sangue,

tem uma boa reserva de unhas e dentes,

ossos frágeis, juntas alongáveis.

Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.

Treme  o corpo como tremia

antes de se fundar Roma e depois de fundada,

no século XX antes e depois de Cristo,

as torturas são como eram, só a terra encolheu

e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .

Nada mudou.

Só chegou mais gente,

e às velhas culpas se juntaram novas,

reais, impostas, momentâneas, inexistentes,

mas o grito com que o corpo responde por elas

foi, é e será o grito da inocência

segundo a escala e registro sempiternos(…)”

PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear ndecente de temas delicados,

a desova das idéias–é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triangulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

PARA O SÁBADO:  “As três palavras mais estranhas”

“Quando pronuncio a palavra FUTURO

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra NADA

crio algo que não cabe em nenhum ser”.

E  PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”

“Morrer–isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no  entanto algo mudou.

Nada parece meido

e  no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repent desapareceu

e teima em não aparecer (…)

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos (…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas (…)”

04/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (segunda e última parte)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 1995)

  O filme Assédio Sexual é baseado no romance Revelação (o extremamente sem graça título nacional para Disclosure, 1994, em tradução de Sônia Coutinho para a Rocco),  de Michael Crichton, que conta uma questão envolvendo o cargo de Diretor da Divisão de Seattle da DigiCom, companhia de alta tecnologia: Tom Sanders vai ao serviço, numa segunda-feira, acreditando que será promovido a esse posto, enquanto a sua empresa está sendo incorporada por uma editora, contudo descobre que Meredith Johnson, namorada de anos atrás (quando ainda não era casado, com dois filhos e sequer morava em Seattle) foi a indicada para ocupá-lo. Como está havendo problemas na linha de produção de drives de CD-ROM (responsabilidade de Sanders), ele se reúne com a nova “chefe”, que sem perda de tempo o ataca sexualmente. Meio dubiamente, tergiversando, Sanders resiste e se manda, para no dia seguinte descobrir que Meredith o acusa de assédio sexual.

    REVELAÇÃO narra, portanto, como Sanders procura provar ter sido ele o assediado, mas principalmente como ele vai percebendo que sua disputa com Meredith encobre uma conspiração maior,  envolvendo justamente a fusão de companhias e a linha de produção dos drives (alterada meses antes por Meredith e, por isso, com a qualidade comprometida). Para entreter o leitor com tal trama, Crichton repete o recurso que aperfeiçoou ao extremo num best seller anterior, Sol nascente (que resultou num filme inócuo, inexpressivo, de Philip Kaufman): tudo acontece em poucos dias,o que nos arrasta num clima claustrofóbico e aflitivo, quando se devoram centenas de páginas em poucas horas. O clímax, então (o confronto entre Sanders e Meredith numa reunião decisiva) mostra que Crichton seria um autor de telenovelas insuperável.

    Ele nos faz torcer por um “herói” que não passa de um homem medíocre,  sem maiores horizontes na vida do que ser um bem-sucedido acionista da sua empresa e derrotar sua chefe. É sua habilidade narrativa que dribla essa falta de estofo, de substância humana, e também sua capacidade de nos levar  a domínios inéditos e ambientações originais (como a cena no corredor de realidade virtual, onde várias personagens se encontram e descobrimos os objetivos de Meredith).

    Além de hábil, Crichton é um grande sacana: para mostrar como Sanders (e os machos em geral, por extensão) é oprimido pela nova situação da mulher (preparando, assim, o espírito do leitor a favor de Sanders contra Meredith,  a qual, aliás, é convenientemente incompetente), inicia REVELAÇÃO  mostrando como seu protagonista chega atrasado no serviço (num momento-chave) por ter de suprir a inabilidade da esposa em lidar com os filhos.

    A disposição maliciosa, quase indecorosamente machista de Crichton foi suavizada no filme (que alterou, com inteligência, a participação da esposa), que não chega a ser ruim. Seu problema é ser dirigido pelo anódino Barry Levinson. Depois de oscilar entre o razoável (Diner, Os rivais, Avalon) e o ruim (Rain Man), e de ter conseguido seus melhores resultados como empregado da inspiração alheia (nos belos O enigma da pirâmide e Bugsy), Levinson resolveu imitar o estilo soturno, conspiratório e muitas vezes confuso e amorfo de certos thrillers de Alan J. Pakula (estou me referindo a coisas como A trama, Amantes & Finanças ou O dossiê Pelicano, não a filmes mais rigorosos e expressivos como Klute ou Todos os homens do presidente).  O resultado: tudo parece antiquado, apesar da tecnologia de ponta.

   O filme peca, também, por ser pudico no tratamento da verdadeira várzea  de vulgaridade que são a linguagem sexual e as maledicências administrativas, que ficam claríssimas no romance e que talvez sejam o seu aspecto mais marcante. É até um desperdício porque suas duas estrelas, Michael Douglas e Demi Moore, os quais têm atrás de si alguns dos filmes mais desprezíveis já feitos (Atração fatal, Chuva negra, Instinto Selvagem, Ghost, Proposta indecente), poderiam ter encampado facilmente esse aspecto sórdido e baixo com mais impacto do que uma mera ceninha para chocar o público médio.

    Pois o que faz Michael Crichton ser um pouco mais do que um escritor oportunista e ardiloso é o fato de levantar questões incômodas sobre o comportamento do homem moderno (pelo menos, o homem moderno norte-americano). É evidente, igualmente, que ele quer ganhar muito dinheiro, e por isso embala-as em enredos calculistas e vertiginosos (do ponto-de-vista da leitura fácil). Tão vertiginosos, de fato, que nenhum filme até agora baseado neles (a não ser Jurassic Park porque transformaram totalmente a história) conseguiu recriar seu pique. E essa é mais uma razão para Crichton ser interessante: seus romances ainda não são meros veículos para adaptações cinematográficas. Valem por si mesmos, pense-se o que quiser sobre a moralidade, a ideologia ou a disposição mercenária do autor.

03/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (primeira parte)

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 02 de novembro de 1993)

   Após Spielberg suavizar radicalmente o apocalipse genético de O parque dos dinossauros, outro livro, um pouco mais antigo, de Michael Crichton chega ao cinema: SOL NASCENTE (Rising Sun, 1982, em tradução de Aylide Soares Rodrigues para a Rocco), um sushi étnico que, nas telas, foi preparado por Philip Kaufman, que já fez um dos melhores filmes norte-americanos, Os eleitos, e a surpreendentemente bela adaptação de A insustentável leveza do ser.

    SOL NASCENTE é uma consumada combinação de oportunismo e talento. Conta a investigação de um assassinato cometido em Los Angeles, durante uma festa da Cia. Nakamoto, um dos gigantescos conglomerados japoneses que estão tomando de assalto a economia mundial, vencendo os EUA. Dentro da própria casa, como descobre o tenente Smith (o narrador), que tenta solucionar o caso o auxílio do capitão Connors, que não só fala fluentemente japonês como também tem uma relação toda especial com os japoneses e que no filme tem Sean Connery interpretando-o com a cara de… Sean Connery!

    O crime aparentemente prejudicava a imagem da Nakamoto e os homens da empresa usam todos os meios (pressão, suborno, difamação, manipulação de vídeos e eliminação) para arquivar o caso. Aos poucos, Smith & Connors descobrem que o crime, na verdade, foi executado para favorecer a Companhia, envolvida na compra de uma empresa americana de alta tecnologia.

    Crichton  tem a mania de narrar e ser didático ao  mesmo tempo, informando-nos sobre recursos tecnológicos utilizados pelos personagens e outros aspectos técnicos. Isso atrapalhava um tanto, a meu ver, O parque dos dinossauros, porém acaba assentando bem à trama de SOL NASCENTE, talvez porque o autor use o didatismo de forma mais enxuta e equilibrada, talvez porque seja um livro mais reflexivo, com pouca ação. Pois é o efeito das descobertas a respeito do crime sobre os personagens e seu comportamento para com os japoneses que importam na tessitura do romance. Que acaba sendo uma leitura absorvente porque o autor utiliza com mão de mestre um de seus recursos habituais, concentrar a ação em pouquíssimos e contados dias, o que dá um ar urgente, opressivo, à narrativa, e arrasta o leitor (além de conferir um efeito já de antemão cinematográfico, pois ele não é nada bobo).

 

   Seu ponto fraco continua sendo os personagens. Nenhum deles emociona ou interessa particularmente. Mas é uma grande cena aquele em que ele mostra a opressão da mídia e das pesquisas sobre o senador Morton, uma das chaves do mistério, porque era um amante da assassinada e um oponente da Nakamoto.

   O livro põe em xeque questões como soberania nacional, xenofobia, corrupção, decadência cultural e econômica, o futuro do mundo (visto como uma vasto mercado global em guerra), assuntos que nos tocam de perto, mesmo na periferia do império. Como lemos no texto, “todo mundo na América se concentra nas coisas sem importância. Como a situação com o Japão. Se você vender o país para o Japão, eles serão os donos, quer o povo queira ou não. E quem é o dono de uma coisa faz o que quer com ela.”

  Opinião do personagem que narra ou do autor?

02/02/2012

O que terá acontecido a Baby Sauro?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de junho de 1993)

  Já se conhece o argumento de O parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1990, em tradução de Celso Nogueira para Best Seller) devido ao filme se Steven Spielberg: a manipulação do DNA, fundamento genético da existência, permite a um empresário povoar uma ilha com seres pré-históricos. O resultado combina King Kong (primitivo versus civilizado) & Frankenstein (ambição desmedida da ciência) e é igualmente trágico.

    Michael Crichton já escreveu dois pequenos clássicos da ficção científica (O enigma de Andrômeda & O homem terminal) para chegar, em O parque dos dinossauros, apresentando em poucas páginas todo um leque de geografias e personagens, muitos dos quais não reaparecerão na história. Complicação inútil, muito comum em best sellers construídos tal como Crichton construiu o seu.

   Um pequeno senão. Mais insidioso e encorpado como um brontossauro é o exibicionismo didático. Não é defeito uma ficção ter fundamento científico, contudo é enfadonho quando o autor inventa trechos inteiros de cenas para que os personagens possam explicar ao leitor teorias, hipóteses e terminologias, o que soa falso porque atravanca o ritmo narrativo. Há até um daqueles geniozinhos (um guri de 12 anos) típicos do imaginário norte-americano. A ciência, aqui, é uma prima-dona empostada, chegada à canastrice. Não dá folga nem ao agonizante Ian Malcolm, que estrebucha filosofando sobre os rumos da pesquisa científica.

    O mérito “ético”, por assim dizer, é chamar a atenção da disneylandização do lazer: mais e mais o aparato tecnológico, o espetáculo aparente, substituem as emoções reais, a imaginação, a riqueza dos seres vivos.

   A narrativa, após os primeiros passos tartamudeantes, adquire velocidade impressionante, a partir do enguiço dos veículos dos visitantes em plena selva jurássica. O leitor passa a se sentir um predador, querendo saber o que vai acontecer, quem vai morrer em seguida, o que compensa a falta de um personagem de relevo, do qual se diga: podem morrer todos os outros, mas esse tem de se salvar, como a de Sigourney Weaver no primeiro Alien.

   A cena mais espetacular é o ataque do Tiranossauro, porém a de maior voltagem de emoção é a dos memoráveis Velociraptores, os psicopatas jurássicos, principalmente no Refeitório. Aliás, se é de dar inveja a Bret Easton Ellis e a Thomas Harris o detalhamento de mutilações e devorações (tem até um bebê devorado), Crichton se compraz no sadismo com as crianças. É verdade que elas não são das mais encantadoras (a menina, então, era capaz de causar indigestão se acabasse como aperitivo dos dinos), só que dá pena ver como são quase massacradas, sofrem mordidas, pancadas, fraturas, passam fome, são ignoradas pelas equipes de resgate, e ainda ficam encontrando pedaços de gente pelo livro afora.

    O parque dos dinossauros termina com um cataclismo, Crichton distribuindo uma justiça que soa meio ingênua, dado o cinismo desnudado ao longo do romance inteiro.

   Como não sei ainda o que restará das melhores qualidades do livro, apesar dos seus inúmeros aspectos discutíveis e apelativos, em meio às computações gráficas hollywoodianas, é bom ressaltar a inesquecível (de dar nó na garganta) cena final dos terríveis e maravilhosos Velociraptores, as criações de maior força dessa engenharia ficcional calculista, ambiciosa e competente.

01/02/2012

HOLOCAUSTO MEDIANO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 1994)

 Não fosse Império do Sol, seu único genuíno grande filme (para mim, pelo menos), Steven Spielberg seria o cineasta menos indicado para realizar A LISTA DE SCHINDLER, pois, numa carreira discutível, algumas fotografias (e toda a parte técnica, é evidente) indiscutivelmente belas e trilhas sonoras extraordinárias (de John Williams) embalaram ora bobagens divertidas (Caçadores da arca perdida, Jurassic Park), ora bobagens de qualidade duvidosa (Contatos imediatos do terceiro grau, Indiana Jones e o Templo da Perdição),para não falar nos tempos mortos de Tubarão (e na complementar e paradoxal histeria de evitar tempos mortos em coisas do tipo Indiana Jones e a última cruzada) ou nas apelações de E.T. e A cor púrpura.

   Como se sabe, o livro do australiano  Thomas Keneally (Schindlers´s Ark,  1982, em tradução de Tati Moraes para a Record, que o publicara antes como Um herói do Holocausto) conta a história real de Oskar Schindler, transformada pela Segunda Guerra em magnata da indústria e que resolve proteger os judeus que trabalham como escravos na Emália, sua fábrica em Cracóvia (Polônia). Usa muito dinheiro, comida, bebida e produtos do mercado negro (e da própria Emália) para subornar oficiais da SS. Nessas transações, é de grande valia seu temperamento de playboy, bon vivant e mulherengo.

   Schindler liga-se ao repelente Anton Goeth, comandante do campo Plaszóvia, de onde são fornecidos os judeus para Emália. Goeth é um sádico psicopata, capaz de atirar em qualquer um sem motivo. Com a derrocada do esforço de guerra alemão, a desativação de Plaszóvia é inevitável e Schindler faz uma lista dos “seus” judeus, procurando transferi-los e salvaguardá-los da “solução final”, isto é, do extermínio.

   Os detalhes do livro vão nos acachapando de uma forma que me lembrou muitas vezes a leitura de Brasil: Nunca Mais. É desesperador saber que foi possível ter acontecido. Um crime psicótico individual choca, mas o que pensar da maldade organizada pelo Estado? Se há um mérito indiscutível em obras como essa é fazer evaporar qualquer veleidade do leitor em concordar, por mais que a democracia seja difícil, com os obtusos que sentem nostalgia da “ordem” proporcionada por uma ditadura.

   Porém, Keneally não é um grande escritor e A lista de Schindler não tem a estatura de A escolha de Sofia, de William Styron (lembro dele aqui porque deu origem à última grande produção hollywoodiana abordando o assunto antes do filme de Spielberg), que aproveitava as experiências de uma sobrevivente não-judia de Auschwitz para uma vasta reflexão sobre a luta de Eros e Tânatos no espírito humano), e nem de Império do Sol, de J.G. Ballard, fonte da obra-prima spielberguiana. De fato, o leitor se pergunta se Keneally é sequer um bom escritor: é incapaz, por exemplo, de dar vitalidade à figura-chave, totalmente apagada na economia do romance pelo hiperbólico Goeth e pelas vinhetas (não passam disso) sobre os judeus que participam da esfera de proteção do playboy-ganster-salvador. O autor tende, também, a fazer reflexões patéticas e mixurucas quando certas situações falam por si, sem precisar de ênfase ou muletas.

   Se o resultado literário é mediano, o que esperar da adaptação se o roteirista Steve Zaillian já transformou um relato real e deveras impressionante do dr. Oliver Sacks (Despertando, um livro importantíssimo) numa bomba lacrimogênea chamada Tempo de despertar? Vendo as imagens divulgadas do filme de Spielberg, constatamos que ele tem uma fotografia indiscutivelmente bela (e toda a parte técnica, é evidente) e uma extraordinária trilha musical de John Williams. Oxalá não seja só isso desta vez.

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