MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/02/2012

John Le Carré em meados da última década do século


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https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de abril de 1996)

Na guerra entre as superpotências do best seller John Le Carré, com seu O gerente noturno, perdeu feio para seu arqui-rival Frederick Forsyth e seu O punho de Deus.

Le Carré, assim como Morris West outrora, é autor raro na lista dos mais vendidos: nos seus melhores momentos, sabe dosar senso de oportunidade no tratamento dos assuntos, angústia existencial, apelo popular e inequívocas qualidades literárias. Em O gerente noturno algo desandou. Tinha-se a nítida sensação de que ele escreveu algumas partes do livro e contratou outro para escrever o restante. O começo era excelente e havia cenas admiráveis como uma em que Jonathan, o herói, está tão imbuído de seu disfarce, preparado por agências de investigação da Inglaterra e dos EUA, e no qual deveria aparecer como salvador do filho de um traficante de armas, que realmente encarna emocionalmente o papel que tem de representar quando chega a hora do pretenso salvamento. Como em outras vezes no mundo de Le Carré (os memoráveis O espião que saiu do frio & A garota do tambor), ser e representar confundem-se. Depois disso, o leitor tinha de aturar trechos rasteiros como “estavam deitados depois de terem feito amor, embora Deus saiba que não era amor o que tinham feito, e sim algo mais próximo do ódio”.

No seu novo romance, NOSSO JOGO (Our game, em tradução de Eduardo Francisco Alves para a Record, que finalmente tomou vergonha e deu ao autor britânico um tratamento editorial adequado e bonito), ele está visivelmente mais inspirado, fazendo com que o leitor mergulhe com prazer na história de Tim & Larry, funcionários aposentados do Serviço Secreto e órfãos da Guerra Fria, e para os quais ainda persiste a confusão entre ser e representar, compreensivelmente quando se experimentou uma vida dupla por tantos anos.

Tim narra, a partir do desaparecimento de Larry. Na verdade, ele acredita tê-lo assassinado porque o homem que foi seu aprendiz de espião e com quem manteve relações das mais dúbias reapareceu na sua vida e seduziu Emma, sua esposa.

A sedução de Emma é bem mais do que sexual. Larry a coopta para a causa dos povos muçulmanos do norte do Cáucaso —chechenosn e inguches— esmagados pela reorganização da ex-URSS. Um dos aspectos magistrais de NOSSO JOGO é o contraste entre a narrativa obcecada e sobretudo venenosa de Tim a respeito do envolvimento Larry-Emma (que lembra relatos de Nabokov) e a tragédia desses povos, que, segundo um personagem, vira mera estatística, uma vez que ninguém se interessa pelo seu destino, a não ser quando ocasionalmente aparecem nos noticiários.

Larry passa por vigarista, após um golpe milionário para levantar fundos para a causa inguche (e quem acredita hoje em dia num visionário com uma causa nobre?). E o relato de Tim vai adquirindo um tom digno do Kafka de O processo: Larry e Emma sumiram e ele é quem recebe a culpa como mentor do golpe. É obrigado a fugir, mudar de identidade e seguir os rastros do amigo-rival na Rússia e depois no Cáucaso, numa dessas regiões das quais ninguém ouviu falar. E que é impossível esquecer depois de ter lido  o final de NOSSO JOGO, quando Tim tem um ajuste de contas com Larry que não poderia ter sido melhor solucionado.

NOSSO JOGO é, talvez, o melhor relato desse tipo desde O terceiro homem, de Graham Greene, onde também havia um amigo supostamente morto que levava o “herói” a envolver-se nos bastidores e submundos de uma guerra. John Le Carré soube renovar sua fórmula, aprimorar seu estilo e atingir uma tensão que faz do seu novo livro um dos mais absorventes da década. Desta vez, todas aquelas características (senso de oportunidade, angústia existencial, apelo popular e qualidade literária) uniram-se exemplarmente e produziram uma obra-prima.

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