MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/02/2012

John Le Carré em meados da primeira década do nosso século


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Se fossem necessárias provas da sobrevida de John Le Carré com relação à Guerra Fria, que ele retratou tão bem, temos agora em 2005 uma adaptação cinematográfica importante de um de seus livros recentes, O jardineiro fiel (não seria melhor O jardineiro dedicado?)e um novo romance, AMIGOS ABSOLUTOS (Absolute friends, em tradução de Roberto Muggiati para a Record), no qual ele mostra seu dom de localizar os temas mais candentes no momento certo, no caso o clima de paranóia anti-terrorista semeado pelos EUA após os atentados do 11 de setembro.

Qual o problema, então? Após escrever clássicos como O espião que saiu do frio & A garota do tambor, sem falar na série Smiley (Sempre um colegial & A vingança de Smiley, por exemplo), Le Carré patinou um pouco por pistas escorregadias, caso de A casa da Rússia & O gerente noturno, no processo de adaptação de sua ficção aos novos tempos. Aí veio o brilhante NOSSO JOGO (abordando o problema da Chechênia) e tudo indicava que ele atingira um patamar mais alto como escritor. O romance seguinte, O alfaiate do Panamá, foi aguardado (pelo menos por mim) com muita expectativa, revelando-se frustrante e marcando o “tom” dos seguintes (três, até agora): o acerto da temática, a narrativa pesada, arrastada, convencional, laboriosa. Nunca ruim, jamais! Lê-se com respeito, porém sem admiração ou surpresas, mesmo com as tradicionais reviravoltas nas tramas.

AMIGOS ABSOLUTOS funcionará mais para quem não leu os romances da Guerra Fria de Le Carré: seu protagonista, Ted Mundy, é o inglês nascido no Paquistão e que nunca chega a adaptar-se à Inglaterra, preferindo estudar alemão e aventurar-se na Berlim ocidental no auge da contracultura e da contestação, no final dos anos 60, onde conhece Sasha, o responsável pelo título, dizendo (na página 119): “Você é meu amigo absoluto”, sabe-se lá por que, já que essa amizade nunca nos convence totalmente (na ficção recente, há histórias mais fortes de duplas de amigos, em que um leva o outro a conhecer aspectos digamos mais “radicais” da existência, basta lembrar de Leviatã, de Paul Auster, e O filho de deus vai à guerra, de John Irving).

Ted e Sasha perdem contato até que ambos são cooptados como agentes do Serviço Secreto britânico, Sasha traindo a Alemanha oriental comunista.Mundy executará várias missões arriscadas do lado de lá do muro, passando-se por traidor também. E o leitor bocejará inúmeras vezes durante essa parte, excessivamente longa, que repisa algo já visto e revisto. E com o dilema típico do heróilecarresiano: ser e representar se confundem na mesma impostura (“não sabe mais que partes de si estão fingindo”).

Perdem novamente contato, o muro cai, a globalização avança, um Mundy decadente tenta “se tornar real depois de muitos anos de fingimento” e agora é guia de museu, vivendo com uma turca e o filho dela. E Sasha reaparece, com uma nova proposta de trabalho mútuo e o leitor pensa, que bom, chegamos ao fundo da questão, o mercado armamentista que necessita de novos conflitos e guerras, como a  invasão do Iraque (apesar da retórica mentirosa que encobre os motivos reais), para expandir-se. Enfim, um novo colonialismo (devolvendo Mundy ao mundo que conheceu na sua infância). Só que sobrou pouco tempo, o livro está para acabarn e tudo fica muito rápido, confuso, insatisfatório, até inconvincente (Mundy e Sasha são tomados como terroristas fundamentalistas).

O que mais irrita em AMIGOS ABSOLUTOS, afora seus personagens anódinos, é o aspecto “pesquisadinho” e cênico de cada local escolhido para a trama: seja o Paquistão ou cidades alemãs parece que saíram de um caderno de notas, nunca adquirindo a vida que sentimos nos maravilhosos romances de Graham Greene, independente do “exotismo” peculiar ao cenário.

Le Carré parece ter sido acometido “pelo cansaço dos seus fantasmas da Guerra Fria: “Por favor, pensa. Já estivemos aqui. Já fizemos esse tipo de coisa. Na nossa idade não existem mais novos jogos a jogar”. Talvez, ao fim e ao cabo, só o cinema consiga salvá-lo, se não com a medíocre versão de John Boorman, outro cansado de guerra, para O alfaiate do Panamá, pelo menos com a vitalidade e juventude de Fernando Meirelles.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  22 de outubro de 2005)

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