MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/02/2012

O 1984 de Jules Verne ou um Kafka avant la lettre


resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de julho de 1995)

PARIS NO SÉCULO XX ( Paris au XXe. Siècle) é um romance de Júlio Verne escrito por volta de 1863 e recusado pelo seu editor. Publicado com grande repercussão ano passado na França, chega agora ao Brasil pela Ática  (traduzido impecavelmente por Heloísa Jahn), numa edição superior à de sua horrorosa coleção de clássicos luso-brasileiros ou de sua medíocre (em forma e conteúdo) série Vagalume (ou seria Caça-níqueis?).

O romance de Verne é, como se percebe pelo título, uma antecipação visionária do nosso tempo, tomando como base o desenvolvimento urbano-tecnológico de Paris e adotando um tom satírico, principalmente por mostrar uma civilização materialista e utilitária ao extremo[1], na qual ser um artista, um criador, um individualista, é ser um subversivo ou um pária, tal como Michel, o herói do relato, o qual acaba na mais negra miséria, solidão e loucura.

Uma sátira sombria, portanto, com seus prédios monstruosos, suas diversões para grandes massas, tudo controlado pelos capitalistas e pelo Estado tentacular, onde o excedente de população confina-se em quitinetes, em bairros afastadíssimos:

[proprietáriio] …meu filho, é terrível o que está por trás dessa palavra. Quando se pensa que um homem, seu semelhante, feito de carne e osso, nascido de uma mulher, de uma simples mortal, possui uma certa porção de globo terrestre!… Que ele pode queimar suas árvores, beber seus regatos e comer sua relva se lhe der na telha…”

O editor errou, então, ao rejeitar o livro? Eis uma questão espinhosa.

Verne é um autor apaixonante, apesar de todas as restrições que se lhe possam fazer, as quais, entretanto, jamais tirarão o encanto e o impacto para quem o leu na infância, mesmo nos tardios idos dos anos 1970, como foi o meu caso, e sabe que o autor francês, em suas maiores realizações (Viagem ao centro da terra & A volta ao mundo em 80 dias, sobretudo) tem o  dom e o condão de mostrar o mundo como imensidão e, ao mesmo tempo, como passível de ser explorado (no bom sentido, não o da citação acima). É a geografia como aventura.

Mas PARIS NO SÉCULO XX ainda assim é um pouco chato, aborrecido, tem duzentas páginas que parecem quatrocentas. Também é difícil ter simpatia pelo herói. Melhora, e muito, no final adequado e terrível.

Não vale a pena ler o livro? Claro que vale, se o leitor quiser conhecer um clima narrativo que antecipa em meio século o dos textos de Kafka, para não falar no que antecipa das distopias mais inclementes que viriam depois (como 1984), e que, por falta de um termo melhor, pode ser caracterizado como comédia opressiva (e que dá frutos até hoje, basta lembrar o brilhante Brazil, de Terry Gillian).

O trabalho de Michel no Grande Livro de escrituração é um dos inúmeros exemplos do clima pré-kafkiano de PARIS NO SÉCULO XX, que também serve para mostrar o avesso do século XIX, Isto é, os temores de seus artistas, mostrando também o acerto das reflexões de Walter Benjamin (e posteriormente Marshall Berman) sobre Baudelaire, contemporâneo de Verne que colocou Paris no centro da “modernidade” (entendida como desconstrução do passado). Se publicado em sua época, o texto de Verne com certeza teria sido tema de Berman em seu Tudo o que sólido desmancha no ar.

É inútil procurar no romance por acertos na ordem da adivinhação do futuro. Tudo isso é uma questão de imaginação e de detalhes (embora ele tenha previsto coisas como o fax). Importa mesmo é que Verne previu, com acerto, o mais terrível de tudo: a massificação, o esvaziamento do individual pela tirania das estatísticas e da produção em série.

Bem que ele podia ter errado.


[1] O que me lembra uma passagem de Uma cidade flutuante. O narrador está dando um último olhar às cataratas de Niagara (visita que ocupa a maior parte das últimas páginas do relato).Ao seu lado está um engenheiro. O narrador não se contém:

“__ É uma beleza, meu caro! Não é admirável?

__Sim –respondeu ele—Mas que força mecânica inútil! Que moinho se faria girar com uma queda como essa!

  Jamais senti vontade mais feroz de atirar um engenheiro na água!” (tradução de Beatriz Sidou)-nota de rodapé de 2012

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