MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/02/2012

A volta ao mundo Júlio Verne


 

Jules Verne (ou melhor, Júlio Verne, para as muitas gerações de aficcionados brasileiros) morreu em 1905, embora sua decadência física tivesse começado quase uma década antes com um suspeitíssimo acidente no qual seu sobrinho Gaston o atingiu com um tiro. O homem que transformou a geografia em aventura não era muito de se deslocar, ainda que se possa ver uma projeção irônica no fato de que seu mais famoso herói, Phileas Fogg,  inglês metódico e sedentário, ser justamente aquele que percorre mais intrepidamente o mundo.

Está saindo uma coleção de banca das obras de Jules Verne. Os dois primeiros título logo de cara são duas das três obras que mais povoaram meus sonhos de pré-adolescente: A volta ao mundo em oitenta dias e Vinte mil léguas submarinas (a outra, claro, é Viagem ao centro da terra).

Há poucos anos (justamente no centenário da morte de Verne),  reli A volta ao mundo em oitenta dias, numa primorosa edição da Melhoramentos, com boa tradução (alguns escorregões visíveis, é verdade, mas nada grave). Por mais bonita que seja a edição que se encontra nas livrarias, da Ediouro, é preciso deixar para a garotada a adaptação de Paulo Mendes Campos.

volta ao mujndo em 80 dias

Pensando bem, seria necessário mesmo adaptar e reduzir Júlio Verne para a garotada,  pelo menos a história de Phileas Fogg ou a do professor Lidenbrock ou a do Capitão Nemo ? Após a releitura de A volta ao mundo em oitenta dias, é possível dizer que não. Verne é um mestre da narrativa, nem descrições (sempre enxutas no romance, e muito expressivas) nem didatismos (discretíssimos) nem a mentalidade eurocêntrica atrapalham. É óbvio que se a aposta de Phileas Fogg mostra o homem europeu como senhor do mundo, o que hoje propicia um grau de ironia para a leitura,  isso não afeta em nada a perfeita construção do enredo, seu ritmo preciso, a distribuição notável dos episódios entre o patrão fleumático e generoso (Fogg) e o criado passional e trapalhão (Passepartout). O inglês e o francês. É o francês quem dá mais humanidade ao relato e quem vê o mundo, totalmente ignorado pelo inglês, nesses oitenta dias.

Verne não dispensa uma certa malícia ao retrato de um Fogg tão autômato, tão impassível, tão confiante na exatidão, típico homem de um momento de glorificação da ciência, do planejamento, do progresso (e que no entanto adere sem hesitação a uma idéia fixa, a uma meta fantástica): “Sir Francis Cromarty teria dado com prazer informações sobre os costumes, a história, a organização da Índia, caso Phileas Fogg fosse homem de fazer perguntas. Mas o cavalheiro nada perguntava. Não viajava, descrevia uma circunferência. Era um corpo pesado que percorria uma órbita ao redor do globo terrestre, de acordo com as leis da mecânica racional. Neste momento, refazia de cabeça o cálculo das horas gastas desde sua partida de Londres, e teria esfregado as mãos, se fosse da sua natureza fazer gestos inúteis”.

Também há malícia no relato da travessia dos EUA (de San Francisco a Nova York) que aparecem tão pitorescos e exóticos quanto a Índia ou o Japão (e com a fascinação dos escritores europeus pelo universo mórmon, como também vemos em Conan Doyle). Mas o que arremata mesmo o encanto de A volta ao mundo em oitenta dias, esse livro maravilhoso, é o humor. Fogg resolve atrasar sua viagem para salvar a bela Auda (que será o seu grande amor), vítima da seita da deusa Kali, porque está “doze horas adiantado” ! Sir Francis Cromarty diz a ele: “O senhor tem um bom coração!” E a resposta já valeria o livro: “Às vezes. Quando tenho tempo.”

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de maio de 2005)

            

 

5 Comentários »

  1. oi, tenho 13 anos e sou fã de julio verne, acho que as pessoas deviam se interessar mais por ficção científica e tambem pelos livros de julio verne , eles são d+, eu estou lendo viagem ao centro da terra e tenho o filme em dvd, eu ja li tambem vinte mil léguas submarinas,bjos

    Comentário por ana claudia cavalcanmte diniz — 07/07/2010 @ 16:52 | Responder

    • Cara Ana, enquanto houver leitores como você, Júlio Verne e todos os clássicos permanecerão. Obrigado. Bjs.

      Comentário por alfredomonte — 11/07/2010 @ 15:20 | Responder

    • eu sou tambem super fa dele tenho todos os livros dele amo 20000 leguas submarinas amo d+ d+ bjs julio verne no coraçao!!!!!!!!!!!!!

      Comentário por marcela — 09/05/2011 @ 20:40 | Responder

  2. Bela resenha. A lembrança da frase de Fogg e de como Verne tratou humoristicamente os mórmons trouxe-me recordações da leitura entusiasmada desse magnífico autor na minha adolescência. Obrigado!

    Comentário por Júlio Santos — 08/05/2012 @ 19:30 | Responder

    • Valeu,Júlio, pelo seu comentário. Muito obrigado. Abração, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 09/05/2012 @ 7:36 | Responder


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