MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/01/2012

SHERLOCK HOLMES À FRANCESA

ANOTAÇÕES DO DIA 23.11.09

“O que há de mais mortal, mais destruidor que a ordem para o espírito curioso, para o olhar esquadrinhador, que encadeia elos aparentemente disparatados, mas na realidade profundamente complexos?” (Alexis Decaye, SHERLOCK HOLMES & MARX).

Em 1974, Nicholas Meyer engenhosamente imaginou um encontro entre Sherlock Holmes e Freud, em razão do vício do primeiro em cocaína, em Uma solução sete por cento (A seven per-cent solution, um dos três livros em que ele reinventou o detetive de Conan Doyle) , que depois seria, infelizmente,  adaptado por Herbert Ross, com sua habitual preguiça de criar qualquer coisa de pessoal ou marcante, num desperdício da inteligência do texto e também do maravilhoso elenco (Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Laurence  Olivier, etc). O  filme virou por aqui Visões de Sherlock Holmes e lhe faz falta a  mistura da pena da galhofa & da tinta da melancolia que o mestre Billy Wilder imprimiu a um filme contemporâneo: A vida íntima de Sherlock Holmes.

Em 1981, foi a vez de Marx. O autor francês Alexis Lecaye escreveu o imaginativo SHERLOCK HOLMES & MARX, traduzido há alguns anos por André Telles e publicado numa interessante série da Zahar,  “Creme do Crime” (há outra aventura lecayana de Homes, Sherlock Holmes & Einstein).

Lecaye imagina Marx (que morou em Londres boa parte da sua vida) contratando os serviços de um muito jovem Holmes (aliás, ele comete uma ousadia: faz do detetive o próprio narrador das suas aventuras: “É a primeira vez, e muito provavelmente a última, que pego da pena, pelo menos no que se refere à redação de um capítulo das minhas Memórias. Outros se encarregaram disso por mim. Por que, então, esse súbito prurido de escrever, esta necessidade irreprimível de traçar eu próprio os contornos esmaecidos de um passado irrevogavelmente morto?… O caso que vou recordar aqui… exerceu, mais que qualquer outro, grande influência em minha mocidade. Essa influência chegou inclusive a se estender para além da minha pessoa. O episódio talvez tenha alterado toda a história européia deste fim de se´culo. Será que o próximo também sentirá o seu peso?”), na época da eclosão da comuna de Paris (em 1871), quando a capital francesa ficou sitiada por meses, após a derrota francesa na guerra com a Alemanha. Um assassino, a soldo de uma potência estrangeira, pretende eliminar Marx, e este envia Holmes à França durante esses meses revolucionários que o autor de O Capital descreverá com uma retórica majestosa (às  vezes muito exagerada, porém como foi escrito no calor do momento) nos seus panfletos que consituirão A GUERRA CIVIL NA FRANÇA. Dessa mesma época temos as cartas que ele escreveu para seu admirador , o ginecologista L. Kugelmann, “que tomou parte em sua juventude no movimento revolucionário de 1848 e por toda a sua vida se considerou um ardente seguidor de Marx” (trecho do prefácio de Lênin a essa correspondência).

       Antes de mais nada: o romance de Lecaye é ótimo. Eu teria o maior prazer de indicá-lo (sem que isso represente uma diminuição ou visão paternalista) para jovens leitores: é uma aula de como abordar uma aventura histórica sem pedantismos e sem explicações inúteis, confiando apenas na narrativa e na curiosidade e inteligência do leitor.  Em 170 páginas consegue nos transmitir uma imagem perfeita da Londres vitoriana, dos dias da comuna, da paisagem francesa (que Holmes atravessa para poder chegar a Paris e cumprir sua missão), das querelas ideológicas daquele momento, e, sobretudo, da transformação de Holmes em.. Sherlock Holmes, com as características que o consagrara, através de um relato retrospectivo que é um pouco também um balanço de vida, uma espécie de “ilusões perdidas” ou “educação sentimental” do detetive inglês. Gostei muito e recomendo (depois teríamos um “jovem Sherlock Holmes” muito interessante, também, na visão de Chris Columbus que resultou no filme, para mim e para vários amigos, memorável, porém pouco apreciado pela crítica: O enigma da pirâmide, talvez por ter sido realizado por outro diretor tão bisonho e nulo quanto Herber Ross: Barry Levinson).

E, por falar em “jovem” Sherlock Holmes, abaixo temos uma foto do “jovem” Marx, longe do estereótipo de velho barbudão, meio Jeová, consagrado pela posteridade:

A GUERRA CIVIL NA FRANÇA, fixando definitivamente o conceito de “luta de classes” vai tentar interpretar, mesmo no calor da hora, como afirmou Engels (num texto escrito vinte anos mais tarde), a “significação histórica da Comuna de Paris”“A 28 de maio os últimos combatentes da comuna sucumbiam ante a superioridade de forças do inimigo… O desarmamento dos operários era considerado o primeiro dever para os burgueses que se achavam na frente do Estado… Era a primeira vez que a burguesia mostrava a que extremo de crueldade e vingança é capaz de chegar sempre o que o proletariado se atreve a defrontar-se com ela como uma classe independente, que tem seus próprios interesses e reivindicações… O Segundo Império fora o apelo do chauvinismo francês: a reivindicação das fronteiras do Primeiro Império, perdidas em 1814… isso implicava a necessidade de guerras periódicas e de ampliação de fronteiras… não havia extensão territorial que tanto deslumbrasse a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alemãs da margem esquerda do Reno… Defraudado em suas esperanças de  ´compensações territoriais´ por Bismarck e por sua própria política demasiado astuta e vacilante, não restava a Napoleão [não o original, bem entendido, e sim o seu desprezível arremedo] outra saída a não ser a guerra, que se deflagrou em 1870… A consequência inevitável foi a revolução de Paris de 4 de setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas e foi novamente proclamada a República…. A 25 de março foi eleita, e a 28, proclamada, a comuna de Paris… Como os membros da comuna eram todos, quase sem exceção, operários, ou representantes reconhecidos, as suas resoluções se distinguiam por um caráter marcadamente proletário. Uma parte de seus decretos eram reformas que a burguesia republicana não se atrevera a implantar por vil covardia e que lançavam os fundamentos indispensáveis para a livre atuação da classe operária, como por exemplo, a implantação do princípio de que, com relação ao Estado, a religião não é senão um problema de foro íntimo; outros tinham o objetivo de salvaguardar diretamente os interesses da classe operária, algumas vezes mesmo abrindo profundas brechas na velha ordem social. Mas tudo isso, numa cidade sitiada, não podia ir além de um início de realização… Paris estava submetida a incessante bombardeio e pelas mesmas pessoas que haviam estigmatizado como um sacrilégio o bombardeio da capital pelos prussianos… E então atingiu o seu ponto culminante aquela matança de homens desarmados, mulheres e crianças… Logo quando se viu que era impossível matar a todos, vieram as detenções em massa, iniciaram-se os fuzilamentos de vítimas arbitrariamente escolhidas entre as fileiras de prisioneiros e a transferência dos demais para grandes campos de concentração, onde aguardavam o comparecimento diante dos conselhos de guerra.” (utilizo aqui o texto constante nas Obras Escolhidas, volume 2, de Karl Marx & Friedrich Engels, publicadas pela Alfa-Õmega; nãohá indicação de tradutor).

No primeiro dos onze capítulos de SHERLOCK HOLMES & MARX, o detetive novato recebe uma carta de alguém que ele ignora completamente quem seja: Marx, marcando uma reunião no dia 13 de abril de 1871. O indivíduo que se apresenta, com cerca de 55 anos,  tinha “estatura ligeiramente inferior à média, vestido com um casacão escuro, um pouco puído, e levemente folgado nos ombros, como se seu proprietário o tivesse pego emprestado de um amigo mais gordo, ou então subitamente emagrecido. Sua tez amarelada, doentia, e as olheiras roxas me fizeram inclinar pela segunda hipótese. Colarinho branco e botinas reluzentes, o restante do seu traje era irrepreensível. Uma grande barba precocemente grisalha, muito na moda em alguns círculos do continente, nele bastante crespa e encimada por um bigode basto e negro, engolia-lhe a parte inferior do rosto, sem conseguir dissimular uma grande boca, de expressão irônica”. Holmes fica admirado diante das “incrível vitalidade de sua expressão… Acima de espessas sobrancelhas, erguia-se uma testa imensa e ossuda, com pequenas entradas. O enorme cérebro escondido por trás daquela fronte devia encerrar uma inteligência prodigiosa. O que quer que tivesse vindo me propor, certamente eu não estaria perdendo meu tempo em escutar”.

Em 12 de abril de 1871, Marx escrevia a seu amigo Kugelmann, a respeito da sua saúde: “atualmente estou submetido ao tratamento do Dr. Matheson, o qual diz que meus pulmões estão em excelente estado e que a tosse é relacionada com bronquite, e pode afetar o fígado.” Ele informa seu correspondente também que, embora  genro (Lafargue) esteja em Paris, sua filha, Laura (guardem esse nome, terá grande importância neste post) não o acompanhou. Nesta carta lemos ainda: “Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício desses parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causada mais pela traição que pelo inimigo externo, eles levantam-se por sobre as baionetas prussianas, como se nunca houvera uma guerra entre a França e a Alemanha  e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não tem exemplo semelhante de tamanha grandeza…” (utilizo a edição conjunta, publicada pela Paz & Terra de O 18 Brumário & Cartas a Kugelmann, estas últimas traduzidas por Renato Guimarães).

ANOTAÇÕES DO DIA 24.11.09

“A diferença entre criminosos e inocntos não está na concepção, mas no poder e na força de transformação de um pensamento em ato. Se tivesse respeitado essa verdade eterna, infelizmente inacessível a um espírito de 23 anos, inexperiente, ainda imbuído de princípios rígidos, incapaz de imaginar uma passagem, uma passarela entre o mundo do Bem e o do Mal, a seqüência de minhas aventuras teria, uma vez mais, sido outra” (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX, mas aí na esteira dessas reflexões, precisaria ter uma pitada de Freud na perspicácia sherloquiana).

(para o leitor se orientar: estou comentando o livro SHERLOCK HOLMES & MARX, de Alexis Lecaye, mas utilizando como apoio dois textos de Marx da época da comuna de Paris de 1871: A guerra civil na França & Cartas a Kugelmann)

“É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos 60 anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, logo recomeça a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada… como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A comuna, exclamam, pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na dos expropriadores.  Queria fazr da propriedade individual e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é comunismo, o irrealizável comunismo! … Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil, se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas,  conseqüências inevitáveis da produçao capitalista, que será isso, cavalheiros, senão counismo, comunismo realizável?

      A classe operário não esperava da comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir, por vontade popular… Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu bojo…”

(Karl Marx, A guerra civil na França)

Ontem, contei que no romance de Lecaye, Marx marca um encontro com o jovem Sherlock Holmes em 13 de abril de 1871. Querendo contratar os seus serviços, o informa de que, sob as ordens de Bismarck, um anarquista russo, “com status de desertor, um homem estranho, aristocrata arruinado, anti-semita e xenófobo” se prepara para assassiná-lo. Seu nome: Rupelski: “O que eu quero lhe pedir… procurar o assassino, desmascará-lo sem que ele suspeite de nada e fazê-lo desaparecer… Quando digo ´desaparecer´, entendo com isso esconder, dissimular, raptar se quiser, subtrair  à atenção e colocá-lo fora de circulação… O senhor o guardará durante algumas semanas, o tempo necessário para eu concluir um trabalho que me é caríssimo. Depois poderia soltá-lo…o importante é ele não me matar agora, o que representaria um golpe fatal para o movimento.” Que movimento? A Internacional dos trabalhadores. Marx fica espantado com o desinteresse e ignorância políticos de Holmes:  “Vocês, britânicos, são incríveis! Concedem asilo, quase irrefletidamene, ao cérebro de uma organização que, com ou sem razão, faz tremerem todos os burgueses e governos do continente, e não sabem sequer da sua existência…O senhor, jovem burguês briânico, inteligente e culto, não apenas não têm medo, o que concebo perfeitamente, como sequer tem conhecimento da nossa existência!” Numa carta de 27 de julho do mesmo ano a Kugelmann, Marx diz: “O trabalho da Internacional é imenso, e além disso Londres está abarrotada de refugiados, pelos quais tenho de olhar. Mas estou sobrecarregado por outras pessoas, jornalistas e gente de toda espécie, que querem ver o monstro com os próprios olhos. Acreditou-se até agora que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império romano foí possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada. É precisamene o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que em um instante difundem invenções por todo o mundo fabricam mais mitos (o gado burguês acredita neles e aumenta com base neles) em um dia do que antes se fazia em um século.”. Numa preciosíssima  carta anterior (de 18 de junho), ele escreve: “Você sabe que durante o período da última revolução de Paris fui denunciado continuamente como o grand chef da Internacional, pelos jornais de Versalhes, e por extensão, pela imprensa aqui da Inglaterra… tenho a honra nesse momento de ser o mais bem caluniado e ameaçado homem de Londres. Isso faz um sujeito sentir-se bem, depois de um idílio entediante de 20 anos em seu antro…”

Voltando ao romance, após algumas peripécias londrinas (inclusive, um atentado contra sua vida), Holmes aceita a proposta de Marx, que é a de viajar para Paris, onde Rupelski, ou X (porque não há certeza firme da sua identidade) está camuflado, nos meios anarquistas, “em pleno coração da Paris revolucionária. Hoje em dia é o melhor lugar para se esconder e se urdir complôs, no meio da desordem e da efervescência populares”. Holmes vai para o continente com um colaborador francês da Internacional,  Philibert Longuet, e depois de algumas aventuras pelo interior da França (há até um duelo, mas deixo os detalhes para o leitor do romance), entra disfarçado em Paris, através de túneis subterrâneos antiquíssimos. acompanhado pelo desdenhoso e intrigante Vigot. Entre os comparsas da viagem de Holmes está a família Gottlieb, e madame Gottlieb, contrariando o marido, diz a seguinte frase, que vem a propósito, quando pensamos na missão do detetive e nas palavras que Marx escreveu em suas missivas a Kugelmann: “Se perguntar aos operários parisienses, não encontrará muitos que sequer conheçam o nome do senhor Karl Marx”.

Em Paris, Holmes refugia-se no apartamento de Vigot, conhecendo a irmã dele, Isabelle, uma pintora passional (e aqui podia-se temer que houvesse uma convencionalíssima aproximação amorosa, mas Lecaye se mostrou muito mais hábil do que se podia esperar, fazendo com que haja uma fixação por parte dele, enquanto os interesses dele irão por outros caminhos; ele a deixa indignado com sua “inocência” inglesa, não “entendendo” o que ela quer dele, e mantendo-se fleumático e racional: “Aquela desordem dos sentimentos, que nada seria capaz de explicar, bem diferente da apaixonante desordem de uma investigação criminal que esconde de fato elos secretos e encadeamentos rigorosos… O que há de mais fascinante que isolar o fio vermelho do crime da meada incolor da vida?”; mais adiante, numa daquelas considerações que são típicas das narrativas retrospectivas, ele se auto-congratula pelas decisões que moldaram sua existência: “felicito-me a cada instante por ter sido capaz, à minha revelia talvez, mas é o resultado que conta, de evitar os escolhos da paixão para me ater ao conforto de uma sólida e viril amizade“, referindo-se aqui, é claro, à sua relação com o doutor Watson).

       Enquanto conhece melhor os irmãos (chega a posar para quadros de Isabelle, entre um e outro arrufo), ele perambula por Paris, tentando estabelecer contatos (que Marx forneceu) e localizar X/Rupelski. E ele consegue se introduzir num círculo de niilistas (“o senhor viu a cidade que se diverte, vai descobrir a cidade que pensa”), que se reúnem nas catacumbas da Igreja Santo Eustáquio,  e ouvir o discurso inflamado, visando diretamente a figura de Marx, do tal Rupelski, um exemplo cabal dos eternos derrotistas, daqueles que teorizam para não agir e para impedir os outros de agir: “Entre esses homens, há um particularmente cuja ação e palavra devem ser imperativamente refreadas, tal é a astúcia diabólica que mostra na apresentação de seu programa e de suas idéias: trata-se de Karl Marx, gênio mau de todos os que aspiram ao movimento livre e espontâneo da revolta… Seguia-se então uma longa enumeração dos vícios imperdoáveis do pensamento e da ação de Karl Marx, um catálogo em que se misturava confusamente tudo o que Rupelski podia recriminar ao revolucionário alemão, inclusive sua origem judaica e seua pretensa lascívia (…) Apesar do tom virulento de Rupelski, a despeito do silêncio religioso que acolhia cada palavra sua, tive a estranha impressão de ter assistido a um sermão dominical, em que o fato de estar presente e escutar bastava para garantir a consciência limpa e sustentar a fé de todos os participantes. Decerto não era ali que se elaboravam os complôs e as decisões irrevogáveis.”

E Holmes consegue capturar Rupelski e mantê-lo preso num porão abandonado do edifício em que moram os irmãos (Isabelle até se torna uma amiga do niilista russo). A missão estava completa? Holmes tem a sensaçao que não, sua intuição lhe diz que não aprisionou um tigre, mas um reles chacalzinho, astuto e escorregadio, porém inofensivo. Por isso, decide esperar instruções do próprio Marx…

Holmes recebe, então, uma carta de Laura, a filha de Marx casada com o jornalista e colaborador da Internacional Paul Lafargue, dizendo que está em Paris e deseja encontrá-lo no Hotel de Bordeaux. Lá, ele sofre um “coup de foudre”: é amor à primeira vista, fica idiotizado, desajeitado, completamente tomado por aquela mulher (e a coisa pelo visto é recíproca): “sou incapaz de achar as palavras adequadas para explicar as razões daquela súbita e vergonhosa perda de autocontrole”). Mesmo embasbacado, há assuntos urgentes:  ela traz uma carta do pai, escrita no seu estilo característico (pitoresco e misturando palavras de vários línguas, uma das várias coisas que me fazem aproximar na minha cabeça, às vezes, as figuras de Marx e James Joyce). Nessa carta, ele diz que a missão realmente pode ser encerrada, pois ele não corre mais riscos. Holmes informa à Laura que capturou Rupelski (ela até chega a vê-lo no porão onde está trancafiado, embora tenha ficado desconfiada e mesmo em pânico quando Holmes a encaminhou até ali). De qualquer forma, Holmes está apaixonado, citando Werther e completamente indeciso quanto a voltar para a Inglaterra…

ANOTAÇÕES FINAIS (dia 25.11.09):

“Já era tempo de botar para funcionar aquela massa cinzenta de que tanto me orgulhava e de que até então fizera tão pouco uso”.        (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX)

Holmes e Laura Lafargue, née Marx, iniciam um ardente romance em plena Paris sitiada.  Um dia ela desaparece misteriosamente. Em busca da mulher amada, ele  vai a Bordeaux, na qual  casal Lafargue reside, e descobre que teve em seus braços uma falsa Laura, pois conhece a verdadeira filha de Marx: “Era falsa a carta de Marx à sua filha que eu lera em Paris, falsas as boas novas. mais terrível ainda: falsa, a identidade da mulher que eu adorava e cuja doçura e entega haviam adormecido em mim todas as desconfianças, atenção e vigilãncia. Falso,  o rapto! Falsidade! Falsidade! Falsidade! Era tudo uma mistificação. Mas então quem era aquela mulher? O que ela pretendia? Quais eram seus motivos, seus interesses? “

Na verdade, a falsa Laura é o verdadeiro X, é ela quem pretende assassinar Marx (não vou revelar os motivos aqui). Para chegar a Londres e impedi-la (o que acontecerá, com Holmes assumindo a identidade do autor de O capital, numa demonstração das suas habilidades no disfarce), Holmes, voltando a Paris, tem de sobreviver (e seus amigos também, e mais o pobre Rupelski, que era inocente) à invasão bárbara que a cidade sofre, e ao massacre dos seus habitantes, narrados de uma forma ao mesmo tempo concisa e eficiente por Lecaye. Na figura de X, a falsa Laura, vemos também uma alusão àquelas formidáveis e atraentes mentes criminosas femininas que tanto obsedaram o Holmes de Conan Doyle, embora nenhuma delas chegasse a ser tão destrutiva.

QUANDO SHERLOCK CHOROU: Holmes, a “vã filosofia” e o poder da emoção

“Sem dúvida, Holmes estava procurando por algo no vasto índice de sua memória. Como os conteúdos de um arquivo enfiados bem no fundo de um armário esquecido, as circunstâncias específicas de quando Matsuda abandonou a família e a terra natal, uma vez recuperadas e conhecidas, iriam dar lugar a uma quantidade inestimável de informação”. 

    Em 1947, Sherlock Holmes viaja para um Japão destruído pela Segunda Guerra com o objetivo de pesquisar in loco a cinza espinhosa, que pode aumentar a longevidade e sobretudo diminuir os estragos do tempo no cérebro. Pois o mítico detetive, a mente mais famosa de todos os tempos, aos 93 anos não consegue deter o desgaste da sua memória, os vazios, os lapsos, as confusões: “Apesar de tudo, Holmes não deixava de perceber a falibilidade cada vez maior de sua memória”[1] Por essa mesma razão, há décadas cultiva colméias na propriedade para a qual se retirou no Sussex (Watson já morreu há muito tempo), pois acredita que a sobrevida da sua potência raciocinadora e seu bom estado físico (apesar de utilizar bengalas) vêm do consumo constante da geléia real.

    Essa obsessão de Holmes com a preservação da sua capacidade mental, vai entrar em choque com os objetivos do seu correspondente japonês (aparentemente bastante interessado na tal cinza espinhosa), Sr. Umezake, que o atraiu para o seu país sob falso pretexto (na verdade, queria que o detetive o esclarecesse sobre o paradeiro do pai, que abandonara a família no início do século), com a amizade que desenvolve com o adolescente Roger, filho da mulher que cuida de sua propriedade (e que também se apaixona pelo apiário), apesar da antipatia que tem pela mãe, a quem trata com hostilidade (ela o cansa com todos aqueles imperativos cotidianos e tarefas banais que foram e são apanágio da existência “feminina”; e com uma narrativa com a qual luta (já não há um Watson para escrever a seu modo sobre suas façanhas), de um caso antigo, que deixou nele uma sensação de insuficiência, de amargor, de vida desperdiçada, o caso de uma mulher deprimida por abortos involuntários e cujo marido acredita que está sendo explorada por uma professora de música, pois ela está obcecada com as aulas em que está aprendendo a tocar harmônio de vidro:

“Havia algo sobrenatural nos olhos azuis dela, e sua pele pálida, e toda a sua conduta—os movimentos lentos e sinuosos de seus membros quando ela o deixou, o modo com que ela vagueou, como uma aparição, pelo atalho. Sim, algo sem propósito, calmo e incompreensível, ele tinha certeza, quando ela se afastou dele e desapareceu atrás da cerca viva. Agora com o crepúsculo cobrindo o chão, ele sentia uma perda. Não era para terminar tão de repente; ele tinha suposto que seria interessante para ela, único—uma alma gêmea, talvez. O que era aquela falta dentro dele? Por que, quando parecia que toda molécula dentro dele era atraída por ela, ela o tinha deixado rapidamente? E o que era, então, isso que o fez persegui-la no atalho, mesmo quando pareceu que ela o considerava um estorvo? Não podia dizer, nem podia compreender por que sua mente e seu corpo estavam, naquele momento, em discordância: um sabia mais que o outro, contudo a mais racional permanecia menos determinada”.

 

    Já se fizeram incontáveis variações,  paródias e pastiches da figura de Sherlock Holmes. Entretanto, nessa massa toda de releituras e desconstrucionismos, Um pequeno truque da mente (A slight trick of the mind-2005, traduzido por Lea P. Zylberlicht), de Mitch Cullin, é uma das experiências mais originais e interessantes (eu sei que essa última qualificação é tida como vaga e meramente confortável, apenas uma muleta para não se dizer coisa alguma nem se comprometer, mas eu ainda acredito na sua eficácia, quando alguma coisa é realmente digna de interesse). Uma pista para se entender a intenção que movimenta essa visão de um Sherlock nonagenário, desesperado em manter sua mente lúcida,  é uma informação que aparece no início do capítulo 9. Ficamos sabendo que Holmes, que gostava de se disfarçar e era histriônico, participou de uma montagem de Hamlet, em 1879, representando o papel de Horácio. Ora, é a esse amigo que é dirigida a proverbial admoestação hamletiana: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe tua vã filosofia”. O apego à mente, ao ser racional e consciente, a “vã filosofia” que guiou, desviou e destruiu a vida de Sherlock Holmes, o que ficará bem melhor delineado na paixão que desenvolverá inutilmente pela tocadora de harmônio e pelo desamparo que fica diante de uma tragédia que tira a vida de Roger.

    Na verdade, esse questionamento é um tanto clichê e um caminho verdadeiramente perigoso, essa investigação do medo dos sentimentos, e a esterilidade emocional que pode acarretar, e o poder final da emoção, que mostra que há mais coisas entre o céu e a terra, etc etc.

 

     Mitch Cullin corria o risco de fazer um Quando Sherlock chorou, e não tenho certeza de ele não ter descambado aqui e ali nesse tipo de pieguice:

“Mas por que ele estava chorando tão facilmente, contudo sem emoção, as lágrimas saindo por si mesmas? Por que ele não conseguia chorar alto, soluçando entre as palmas das mãos?  E por que—por ocasião de outras mortes, quando a dor era igual à que ele sentia agora—havia evitado os funerais de famílias e nem uma vez derramou uma única lágrima, como se a própria tristeza fosse algo a ser censurado? Ele não se esforçaria para obter qualquer resposta (pelo menos não neste dia), nem jamais acreditaria que seu choro pudesse ser a soma total do resultado de tudo que ele havia visto, conhecido, cuidado, perdido e mantido abafado ao longo de décadas—os fragmentos de sua mocidade, a destruição de grandes cidades e impérios—então o enfraquecimento lento de companheiros afeiçoados e de sua própria saúde, da memória, da história pessoal, todas as complexidades implícitas da vida, cada momento profundo e diferente, condensadas em uma copiosa substância salgada em seus olhos cansados. Em vez disso, ele se abaixou sem mais delongas, sentando-se ali no chão como um estátua que tivesse sido inexplicavelmente assentada sobre a grama cortada…”[2]

    O efeito geral, porém, do seu romance, especialmente a narração da viagem pelo Japão e a evocação do caso que tanto o abalou, é muito marcante e desconcertante (parece que estamos lendo uma mistura de Conan Doyle com Bernardo Carvalho) para que o atolemos nessa dicotomia tão pobre. Também importante é saber que ao colapso da mente dedutiva, corresponde um colapso da noção de verdade, de algo que pode ser desnudado e evidenciado. Holmes diz ao Sr. Umezaki, “Francamente, meu amigo, perdi o desejo por qualquer noção de verdade. Para mim, há simplesmente aquilo que é—chame isto de verdade, se precisar… sou atraído para o que é visto claramente, reunindo tanto quanto posso do externo, e depois sintetizando tudo que reúno em algo de valor imediato. O universal, místico, ou implicações a longo prazo—esses lugares onde a verdade talvez resida—são sem interesse”. Na verdade, há aqui um elogio do relativo, do contingente, longe daquelas metas positivistas do século no qual o famoso personagem de Conan Doyle nasceu.

 (uma versão mais condensada deste texto foi publicado em A TRIBUNA, de Santos, em 18 de janeiro de 2011)


[1]Mas, nonagenário, ele queria o quê, também? Só de conseguir viajar, naquela época e nessa idade, da Inglaterra para o Japão, devia se dar por feliz pelo feito.

[2]Na seqüência dessa citação, há a explicação do título do romance: “Ele tinha se sentado ali anteriormente, no mesmo lugar—próximo ao  apiário, o local marcado por quatro pedras trazidas da praia dezoito anos antes… colocadas separadamente—uma exatamente na frente dele, uma atrás, uma á esquerda, uma à direita—, formando um sinal discreto, modesto, que no passado continha e abrandava seu desespero. Era um pequeno truque da mente, uma espécie de jogo, embora freqüentemente benéfico: no domínio das pedras, ele podia meditar, pensando com afeto naqueles que tinham partido—e depois quando saía daquele local, qualquer aflição que tinha trazido para o espaço era mantido ali, pelo menos por certo tempo.  Mens sana in corpore sano era o encantamento dele, dito uma vez quando adentrava o local, repetido posteriormente ao sair dele”.

08/01/2012

Leitura em espelho: “Swann”, de Carol Shields, e “Os crimes do acordeom”, de Annie Proulx

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de abril de 1999)

Nos últimos anos, duas autoras ganharam prestígio mantendo um pé nos EUA e outro no Canadá: E. Annie Proulx e Carol Shields. Tanto The shipping news (traduzido como Chegadas e partidas), de Proulx, quanto Os diários de pedra, de Shields, obtiveram o Pulitzer e o National Book Award, com protagonistas cujas vidas oscilavam entre os dois países.

Na minha opinião, é visível a superioridade literária de Os diários de pedra com relação à Chegadas e partidas, e, de um modo geral, de Carol Shields como escritora com relação à E. Annie Proulx. O leitor brasileiro pode confirmar o talento da primeira agora que a Record lança um romance anterior, SWANN (1987, em tradução de Luiz Antônio Aguiar & Marisa Sobral), que conta a história de pessoas interessadas na obra da obscura Mary Swann. Rústica, pobre e oprimida pelo marido numa pequena povoação canadense, ela produziu—apesar dessas condições adversas—uma centena de poemas.

No dia da sua morte (é assassinada e esquartejada pelo marido), ela entrega seus poemas para Frederic Cruzzi, dono de uma modesta editora. Impressionados pela sua originalidade e qualidade, Cruzzi e a esposa publicam um livro, A canção de Swann, numa edição limitada. Anos depois, enquanto está escrevendo uma tese enfocando o “prisma feminino” (seja lá o que for isso), Sarah Malonwy descobre A canção de Swann e o divulga para o mundo acadêmico.

Logo, Mary Swann se torna uma pequena celebridade para os entendidos, objeto de culto, alvo de artigos, interpretações, inclusive de um simpósio (que será o ponto de convergência de todos os personagens em SWANN). Como não podia deixar de ser, Morton Jimroy, afamado biógrafo, começa a escrever sobre a sua vida.

Há outras variações recentes quanto ao tema: a investigação sobre a vida e a obra de uma artista pouco conhecida afetando existencialmente quem investiga. É o caso de A verdade sobre Lorin Jones, de Alison Lurie, ou do maravilhoso Homens e anjos, de Mary Gordon, ou ainda da mais recente obra-prima de Doris Lessing, Amor, de novo. Além disso, SWANN tem de enfrentar a comparação, dentro da obra de Carol Shields, com um romance tão especial e marcante quanto Os diários de pedra.

Mesmo assim, é daqueles livros que vão envolvendo cada vez mais o leitor. Construído através de focos narrativos diferentes, com capítulos voltados para cada um dos personagens interessados em Mary Swann, os quais se preparam para participar do simpósio dedicado à autora assassinada, desemboca numa espécie de capítulo-roteiro cinematográfico, onde ao mesmo tempo são contados e comentados os estranhos (e muitas vezes divertidos) acontecimentos do simpósio.

Sim, estranhos. Porque, de uma forma ou de outra, tudo o que se refere a Mary Swann (fotos, um caderno, até mesmo os exemplares dos seus poemas e o que as pessoas escrevem sobre ela) acaba por desaparecer. Nada sobrenatural, ainda que essa possibilidade paire ambiguamente no ar durante certo tempo. Sabemos quem é o responsável, no final. Não se preocupe, leitor, sua identidade não será revelada neste artigo (só posso adiantar que é um dos achados mais felizes de SWANN).

Esse “mistério” em torno da passagem de Mary Swann pela Terra é o trampolim para uma áspera, corrosiva mesma, sátira ao desejo dos acadêmicos e dos biógrafos de tornar-se proprietários de um autor, de cravá-lo na coleção de borboletas que é o mundinho acadêmico , de etiquetá-lo, esclarecê-lo, transformá-lo m moeda de troca no mercado intelectual. Essa avidez evidencia-se mais patética ainda quando a narrativa vai nos mostrando as vicissitudes biográficas dos próprios “investigadores” e como são vistas e deturpadas pelos demais, e como eles próprios se deturpam em seus debates interiores (nesse ponto, o capítulo sobre a bibliotecária Rose é uma pequena obra-prima). Desde os livros de Simone de Beauvoir, como A convidada, Os mandarins & As belas imagens, não tínhamos uma descrição tão arguta dos encontros e desencontros de personagens como as imagens que estabelecem de si para os outros e para eles mesmos.

E há a ironia máxima da fábula: enquanto os participantes do evento angustiam-se com o roubo ou a perda de documentos importantes, o que ocasionaria terríveis “lacunas” na interpretação definitiva da obra de Mary Swann, Frederic Cruzzi (uá um anicão de oitenta anos) guarda um segredo que faria ruir toda a torre de babel erigida em torno da malfadada poeta rural: quando ela entregou os poemas a ele, devido a um acidente doméstico, eles ficaram molhados, com algumas palavras ilegíveis. Ao transcrevê-los para a sua edição pioneira, Cruzzi & eposa “chutaram” palavras e trechos (ou seja, já fizeram uma intervenção interpretativa). Dessa forma, não há nenhum terreno seguro para discutir a verdade sobre os textos de Swann, se ela era um gênio comprometido com a arte moderna, ou se, por razões desconhecidas, intuiu na solidão e desolação da sua vida imagens que a aproximaram da poesia contemporânea.

SWANN, portanto, flerta como romance de mistério e suspense enquanto ironiza o universo crítico-ensaístico-biográfico, mostrando que nunca se poderá conhecer de fato e por completo uma vida ou mesmo uma obra, e, ao mesmo tempo, ironia das ironias, nos faz penetrar no mundo de cada personagem como se conhecêssemos cada um deles a vida toda. Contradição que ilumina o livro e faz dele .

Em tempo: não deixe de conhecer Os diários de pedra, leitor,é uma das leituras “obrigatórias” desta década.

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de abril de 1999)

Pois é, leitor, os críticos às vezes pagam a língua, como se diz por aí. Uma semana depois de ter questionado os dotes literários de E. Annie Proulx, venho penitenciar-me, pois acabo de ler um romance empolgante, que ela publicou em 1996: Os crimes do acordeom (Accordion crimes, numa tradução esplêndida de José J. Veiga para a Bertrand Brasil).

São oito capítulos com os mais diversos tipos de imigrantes (ou seus descendentes) nos EUA: italianos, alemães, mexicanos, franceses (via Canadá), negros, poloneses, irlandeses e noruegueses, ao longo do último século. A presença do acordeom verde do título unifica os capítulos. Feito por um siciliano, que o leva para a América ao partir com o filho, passa pelas mãos dos mais variados grupos étnicos e dá azar a todos eles (há até um basco que aparece no capítulo dos irlandeses e que é mordido por uma cobra que se escondia dentro do acordeom).

O maior crime do acordeom verde, no entanto, é marcá-los como “os de fora”, mostrar que apesar de seus esforços e de suas bravatas de que “construíram a América”, que o país foi feito “com o seu suor”, e apesar de seu racismo ou preconceito contra outras etnias e nacionalidades, eles jamais abandonam sua condição de alienígenas numa sociedade que se mostra ao fim e ao cabo muito pouco democrática. É o caso dos alemães que fundam uma cidade (no segundo capítulo, um ponto alto de Os crimes do acordeom junto com o capítulo dos poloneses) e que são vistos como suspeitos quando estoura a guerra.

Tudo isso parece meio batido e E. Annie Proulx poderia ter soçobrado num best seller panorâmico e superficial, como há tantos, ao mostrar várias histórias e diversas etnias, amarradas por um motivo tão tênue. Aconteceu o oposto: ao mergulhar em tantas mentalidades (e é bom ressaltar que ela jamais cai na condescendência pitoresca, muito pelo contrário), em tantos preconceitos, em tantas tradições deturpadas e aculturadas, ela mostrou enfim todos os seus recursos como escritora, como contadora de histórias, como criadora de tipos.

E não são poucos esses recursos, já que não há um único capítulo frouxo, discutível ou amorfo nas quatrocentas páginas de Os crimes do acordeom, embora eu tenha de apontar algumas escorregadas no mau gosto, algumas colocações infelizes e, principalmente, o horroroso prefácio com agradecimentos que torturam o leitor quase tanto quanto o discurso de Gwyneth Paltrow na entrega do Oscar: só faltou agradecer ao cachorro do vizinho, aos pássaros por voarem, ao sol por brilhar e ao mundo por existir…

Curiosamente, Proulx foi aclamada, com seu livro Chegadas e partidas (vencedor do Pulitzer e do National Book), por ter “captado o ritmo da vida real” ou qualquer bobagem do tipo. E é justamente aí que esse romance falhava: tínhamos a trajetória de um bobalhão meio otário que resolve abandonar sua vida fracassada nos EUA e “voltar às origens”, ocupando uma antiga casa de família num ermo canadense. Nessa localidade, nada de muito interessante acontecia com ele: trabalhava, fazia amigos, tinha problemas, conhecia uma mulher, isto é, a vidinha de todo dia e de quase todo mundo ia acontecendo. O que pretensamente daria interesse à narrativa eram as histórias que os habitantes do lugar iam contando para ele. Só que, pelo menos para mim, e para quem não estiver muito interessado na topografia, na geografia, na geologia e nos dialetos do Canadá, essas vinhetas de vida soam chinfrins e, pior, contadas por gente chata, boçal. Em suma, desinteressante. Ao “imitar a vida”, Chegadas e partidas imitou-a no que tem de pior e mais amorfa.

Também em Os crimes do acordeom os personagens contam pequenas histórias uns para os outros. A diferença é que elas são infinitamente mais interessantes e a narrativa infinitamente mais envolvente. O livro revela que Proulx é uma grande narradora tradicional, que funciona melhor mantendo-se nas trilhas de uma intriga bem urdida e bem conduzida. Cada capítulo é quase um romance plenamente resolvido, cada momento é esférico, bem acabado, ardilosamente preparado.

Desistindo de imitar a vida, ela revela-se uma grande autora ao recontá-la como pura ficção, como um legítimo “mar de histórias”. Todos ganham com isso. Os crimes do acordeom restabelece no romance realista o fôlego das grandes miradas.

 

05/01/2012

O Flaubert borgiano de BIBLIOMANIA

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em12 de fevereiro de 2002)

   Em 23 de outubro de 1836, em Paris, a Gazette des Tribunaux publicou o relato de um correspondente sobre os crimes cometidos por um livreiro de Barcelona, D. Vicente, que detestava a idéia de se separar de seus livros e por isso matava seus fregueses. Quando perguntam a ele se não lhe repugnava “lançar a mão sobre uma criatura feita à semelhança de Deus”, responde: “Os homens são mortais. Um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, Deus carregará. Mas os bons livros, é preciso conservá-los”.

     Se o caso fosse verdadeiro, D. Vicente já pareceria ter escapado das  páginas de Luis Borges. Atualmente, porém, acredita-se que o “crime do livreiro catalão” tenha sido uma mistificação literária (impetrada por Prosper Mérimée, autor de Carmem, ou, com maior probabilidade, por Charles Nodier), o que torna tudo mais próximo ainda do universo borgiano.

    Em 1836, Flaubert (1821-1881) tinha quinze anos e tomou como verdadeiro o relato. A partir dele, o maior dos autores franceses escreveu um conto incrível, BIBLIOMANIA (em tradução de Carlito Azevedo para a Editora Casa da Palavra; a edição traz como apêndice “O Crime do Livreiro Catalão”), no qual prefigura temais centrais em sua obra, e seu próprio destino: quando se sabe como ele,um homem considerado belíssimo, “se acabou”, lutando obsessivamente com a escrita (que lhe exigiu uma vida de recluso) não deixa de ser arrepiante ler a descrição que faz do livreiro Giácomo: “Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvada como a de um ancião; seus cabelos eram longos, mas brancos; suas mãos eram fortes, nervosas, mas secas e enrugadas etc etc”. Veja-se a o que escreve sobre Flaubert num fascículo da antiga Abril Cultural: “Aos trinta anos, pouco tem do belo porte da juventude. A doença, o afã de escrever, a viagem ao Oriente, o desencanto amoroso haviam-lhe aniquilado a beleza. O rosto agora está sulcado de veias vermelhas. A boca oculta-se através de grossos bigodes. Os cabelos rareiam…”

    O livreiro de Flaubert segue em linhas gerais os passos do suposto livreiro real, só que se percebe já um talento precoce e imenso modelando a história de modo a realçar os aspectos mais interessantes. Um exemplo é o tratamento dramático magistral com que aproveita o detalhe mais desconcertante da confissão de D.Vicente: o desejo de possuir o único exemplar existente de um livro e o desespero em que mergulha ao saber que existem outros exemplares.

   A famosa precisão do estilo flaubertiano já é evidente: “Guardava todo o seu dinheiro, tudo o que tinha, todas as suas emoções, para os seus livros; fora monge, e por eles abandonou a Deus; mais tarde, sacrificou-lhes o que os homens têm de mais caro depois de seu Deus: o dinheiro; a seguir, ofereceu-lhes o que se tem de mais caro depois do dinheiro: sua alma”.

   O que faz de BIBLIOMANIA uma prefiguração do universo flaubertiano é a concepção basicamente negativa que apresenta desse “amor aos livros”, não tanto por ser uma negação dos impulsos vitais (embora esse elemento também seja importante), quanto por mostrar a estupidez e mediocridade que se ocultam nesse apego à palavra escrita. Esse é o tema de duas das suas obras-primas, Madame Bovary e Bouvard & Pécuchet, nas quais os personagens se apegam não tanto à verdadeira substância dos livros, não ao que eles possuem de vivo e necessário, e sim aos seus aspectos mais superficiais, na tentativa de abafar ou corrigir o tédio do cotidiano (no caso específico da dupla Bouvard & Pécuchet, a tentativa de aplicar o lido ao vivido ganha um formato quase surrealista. Um trecho impagável pode dar uma idéia ao meu leitor: “Para prever o tempo… como o barômetro os enganava e o termômetro não lhes ensinava coisa alguma, recorreram ao expediente imaginado no reinado de Luís XV por um padre de Touraine: uma sanguessuga metida num vidro devia subir em caso de chuva, manter-se no fundo em caso de bom tempo, agitar-se quando ameaçava tempestade. Mas a atmosfera quase sempre desmentia a sanguessuga. Meteram mais três no vidro: as quatro se comportavam de maneira diferente”).

    Júpiter, deus máximo da Antiguidade, diz em A tentação de Santo Antônio: ‘…por toda parte triunfam a estupidez das multidões, a mediocridade do indivíduo”. Estupidez, mediocridade, palavras-chaves em Flaubert. O amor de Giácomo pelos livros é, assim como o de Emma Bovary e de Bouvard & Pécuchet, estúpido e medíocre (e, em última instância, sem sentido), apesar da capa passional:  “Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava… amava um livro porque era um livro: amava seu cheiro, sua forma, seu título…Mal sabia ler”.

     Curiosamente, a reverência excessiva ao que está em forma de livro e que norteou o zelo documental do próprio Flaubert para escrever seus livros, especialmente A tentação de Santo Antônio e Salambô (em todo caso, certamente o romance mais perfeito da história da literatura, uma coisa impressionante e única), tornou-se seu calcanhar-de-aquiles. O grande poeta Paul Valéry não o perdoou: “…provoca no leitor uma sensação crescente de estar preso em uma biblioteca repentina e vertiginosamente libertada, onde todos os tomos tivessem vociferado seus milhões de palavras ao mesmo tempo e onde todas as ilustrações revoltadas tivessem vomitado suas estampas e desenhos ao mesmo tempo. Ele leu demais, diz-se do autor, como se diz de um homem bêbado que ele bebeu demais”.

    Borges, que conhecia o direito e o avesso da bibliomania, afirmou certa vez que o paraíso deveria ser parecido com uma grande biblioteca. Aos quinze anos, Flaubert já intuía que o inferno também.

 

DESTAQUES DE 2011 (segunda e última parte)

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 12:00
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(o texto abaixo foi publicado, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2012)

Como sempre alerto, em todas as listas há a certeza de lapsos ou lacunas. Em 2010, por exemplo, deixei passar A nau dos insensatos, (editora Octavo). Não se trata do belo romanção de Katharine Anne Porter (do qual gosto muito, por sinal; aliás, não tenho nada contra a adaptação de Stanley Kramer também, um filme ainda muito eficiente), e sim da clássica alegoria satírica de 1494, escrita por Sebastian Brant, que trata das tolices das quais a humanidade é useira e vezeira1.

 

  Também deixei passar O livro vermelho (Vozes), as anotações visionárias e literariamente relevantes (mesmo para quem não se convença do seu conteúdo, isto é, da sua mitologia pessoal) de Carl Gustav Jung num momento de crise pessoal, no qual ele destila—em imagens—os conceitos que irão se corporificar em textos futuros.

Com relação aos lançamentos de 2011, nenhum foi mais importante, a meu ver, do que a co-edição da Boitempo com a UFRJ para os Grundrisse, de Karl Marx, nada mais nada menos que os “rascunhos’, o material de pesquisa que supriu O Capital, e cuja leitura nos proporciona uma sensação análoga à de penetrarmos na cozinha ou no laboratório do bruxo, e saborearmos às escondidas as receitas dos seus quitutes ou de seus sortilégios2. Um momento editorial marcante.

 Também se destacaram, sem nenhuma hierarquia:

 Poemas, de Wislawa Szymborksa (Companhia das Letras), apaixonante seleção de 44 poemas (feita pela tradutora Regina Przybycien) que apresentaram ao leitor brasileiro a maravilhosa autora polonesa (Nobel de 1996) e as fórmulas mágicas da sua “simplicidade” lapidar;

 Os Sonâmbulos, de Hermann Broch (Benvirá)- A primeira tradução brasileira legítima (já que a da Germinal era um indecente plágio da versão portuguesa) da trilogia (de 1932) do autor austríaco (cujo A morte de Virgílio é, se possível, ainda mais genial), constituída por Pasenow ou o romantismo; Esch ou a anarquia & Huguenau ou a objetividade, na qual ele radiografa a Europa que foi destruída pela Primeira Guerra Mundial. Especialmente marcante é o terceiro volume, com várias formas narrativas justapostas, um marco do romance moderno3 (nas palavras de Hannah Arendt, “A obra de Broch pode ser vista como o elo perdido entre Proust e Kafka, entre um passado que perdemos irrecuperavelmente e um futuro que ainda não está à mão. Esse livro tenta lançar uma ponte sobre o abismo de espaço vazio entre o não mais e o não ainda…”);

 O romance histórico, de György Lukács (Boitempo)- Outra tradução “histórica”, prometida há muito tempo por outras editoras. Esse estudo fundamental (de 1937), sempre muito citado, permite ao leitor uma visão do tipo de romance que Hermann Broch tritura e dilacera em Os sonâmbulos. A Boitempo está planejando uma bem-vinda edição das obras do grande crítico e pensador húngaro, projeto iniciado em 2010 com o hiper-denso Prolegômenos para uma antologia do ser social;

 Livro da alma, de Avicena (Globo)- O tratado do grande filósofo do árabe, que viveu de 980 a 1037, é um ponto alto na tradição (que remonta a Aristóteles) de compreender os fenômenos físicos e espirituais através de categorias criados pelo pensamento. Uma viagem de erudição e beleza, graças a Miguel Attie Filho;

 Ponto Ômega, de Don DeLillo (Companhia das Letras)- De instalações pós-modernas ao deserto, um romance-síntese das obsessões do maior autor da nossa época, sempre assombrado e assombrador. Em 2011, ele completou 75 anos;

 A história das aventuras de Joseph Andrews e seu amigo o senhor Abraham Adams, de Henry Fielding (Ateliê/Unicamp)- Nessa maliciosa imitação à inglesa da dinâmica Quixote-Sancho Pança, publicada em 1742, o leitor de 2011 vai descortinando como o romance tal como conhecemos tomou forma. Mas prevalece o prazer da leitura. E mais uma dívida com um tradutor dedicado, no caso Roger Maioli dos Santos;

 A flecha de Deus, de Chinua Achebe (Companhia das Letras)- Aos poucos, e antes tarde do que nunca, estão traduzindo a magistral ficção do autor nigeriano. Este poderoso romance de 1964 mostra o insidioso ingrediente que a religião “branca” acrescenta ao conflito entre gerações e à questão da aculturação dos nativos africanos;

 A pianista, de Elfriede Jelinek (Tordesilhas)- Outra nobelizada (em 2004) que aporta por aqui, enfim. Já deveria ter sido traduzido esse perturbador romance de 1983, que deu origem ao filme de Michael Haneke no qual Isabelle Huppert mostrou por que é uma das maiores atrizes do mundo. Mais ainda: a descoberta chocante daquele pai tarado que trancou no porão da casa e violentou a filha por décadas demonstrou que Jelinek não exagerava ao mostrar o avesso de uma Áustria moderna e civilizada;

 Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia, de Rüdiger Safranski (Geração Editorial)- Talvez o mais ambicioso e original projeto do crítico e biógrafo alemão que vem esclarecendo para o leitor atual um período crucial do pensamento e da estética alemães, após suas biografias de Nietzsche e Heidegger e seu panorâmico Romantismo, uma questão alemã. E Schopenhauer, que não tem cura, apesar dos esforços risíveis de Irvin D. Yalom, é—com Kierkegaard—o grande pensador carismático do século XIX;

 Dublinesca, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- A sempiterna questão da morte do romance, e por extensão, a crescente diminuição de leitores, é enfrentada nessa delicada homenagem do autor espanhol tanto a Joyce quanto a Beckett. Parece que todos os caminhos levam a Dublin quando se trata de ficção moderna e pós-moderna;

Jakob von Gunten, de Robert Walser (Companhia das Letras)- Publicado em 1909, esse pequeno relato do autor suíço ainda se mantém absolutamente moderno, na sua subversão (inclusive na linguagem, que tende ao lacônico) do romance de formação tipicamente europeu. Não é à toa que ele sempre foi admirado pelos colegas de ofício “dissolventes”, de Kafka a Coetzee. É, mal comparando, o Don DeLillo do começo do século XX;

 A crítica no subsolo, de René Girard (Paz & Terra)- No ano do cinqüentenário do seu inovador (e às vezes irritante) Mentira romântica e verdade romanesca, uma coleção de ensaios modelares do pensador francês, inclusive seu famoso Dostoiévski: do duplo à unidade, o qual, em separado, foi publicado este ano (muito oportunamente, uma vez que O duplo de Dostoiévski foi recentemente lançado)  pela É realizações, editora que surpreendentemente vem lançando de forma sistemática as obras do autor de A violência e o sagrado;4

 Os últimos dias de Tolstói (Penguin/Companhia)- Jay Parini, que escreveu um romance sobre os últimos dias de Tolstói (A última estação, adaptado para o cinema com Christopher Plummer no papel do escritor, e Sua Majestade Helen Mirren como a esposa5) selecionou textos que vão desde 1882 até 1910, ano da morte do maior dos prosadores. Há de tudo um pouco: correspondência, doutrina, diatribes, confissões, páginas de diário. E uma genialidade suprema.

 O escritor e sua missão (Zahar)- Tolstói é um tema obsessivo nos ensaios de Thomas Mann, assim como Goethe. Doze deles foram reunidos nessa importante coletânea, na qual—a esses pólo de atração “benigno”, representado pelos dois gênios citados—ele opõe o pólo “demoníaco”, representado por Dostoiévski e Nietzsche, que igualmente o seduzia;

 As naus, de António Lobo Antunes (Alfaguara)- É tão confusa a agenda de lançamentos dos livros do fenomenal escritor português aqui no Brasil que às vezes fica difícil saber o que é inédito ou não. Em todo caso, este pequeno (para ele, que prefere o ciclópico) romance de 1988 é ao mesmo tempo bem diferente da sua série de obras desta última década, e igualmente ambicioso. E é um dos mais bonitos e menos pedrogosos de se ler. E, ufa, ainda bem que o título foi colocado no plural!;

 Nova história de Mouchette, de Georges Bernanos (É realizações). A editora relançou os grandes romances do escritor francês, Diário de um pároco da aldeia (um livro lindo) e Sob o sol de Satã (não sou tão fã deste, contudo é incontornável) e agora lança esta pequena novela sobre uma “mocinha” que parece já carregar a náusea de que sofria o Roquentin de Sartre. E tão desamparada quanto a protagonista de A participante do casamento, de Carson McCullers;

 Zuckerman acorrentado, de Philip Roth (Companhia das Letras)- tecnicamente, não seria verdadeiro dizer que este é um título inédito no Brasil, já que parte dele foi lançada com os títulos Diário de uma ilusão & Lição de anatomia. Mas como há 50% que não fora (não sei por que razão) ainda traduzido, e há o fato de os quatro formarem um todo excepcional, um dos pontos altos da obra rothariana, não vejo problemas em sua inclusão nesta lista. Prepare-se para o sublime afrontoso, leitor;

 Minha irmã, meu amor, de Joyce Carol Oates (Alfaguara)- A grande e prolífica escritora norte-americana no melhor da sua forma ao relatar um assassinato que desvenda a fome grotesca por celebridade destruindo literalmente a infância do protagonista e sua irmã. Todavia, é a construção do relato que representa o “show” do livro, por assim dizer, um dos melhores dos últimos anos;

 Tudo o que tenho levo comigo, de Herta Müller (Companhia das Letras)- O leitor pensa: ai,não, mais um relato sobre campos de concentração (no caso, alemães internados em campos soviéticos após a guerra), e se vê no entanto num universo concentracionário e alternativo onde há fome, desespero, opressão e morte, mas há uma poesia faminta, desesperada, opressiva e mortal que rompe os limites do romance. E a terceira vencedora do Nobel em anos recentes presente nesta lista mostra plenamente a que veio;

 O mundo em desajuste, de Amin Maalouf (Difel). Não apenas os pensadores como Zygmunt Bauman & Slavoj Zizek diagnosticam o nosso atual estágio civilizatório. Os grandes escritores também, caso das especulações a respeito do novo século, feitas com sensibilidade e percuciência, pelo romancista (jardins de Luz) libanês;

 –Assim mataram Adônis, de Sarah Caudwell (Tordesilhas). Como ninguém é de ferro, sugiro mergulhar no mundo de Caudwell e de sua (seu?) detetive Hilary Tamar (o gênero não foi definido pela autora), desafortunadamente explorado em apenas quatro romances. Esse foi o primeiro, em 1981, e ela já exercita a fórmula encontro de turminha de advogados—Tamar é um (uma?) erudito (erudita?), especialista em direito medieval—fofocas, maledicência entre e sobre amigos, leitura de cartas, especulações indiscretas sobre intimidades que chegaria à perfeição no seu derradeiro livro, A sibila em seu túmulo, Uma delícia.

 Por último6, gostaria de citar duas estréias ficcionais que considero marcantes: a do brasileiro Nilton Resende que com os contos de Diabolô (Edufal) se mostra um escritor já completo e cheio de recursos; e a do australiano (embora o texto original seja de 2008) Steve Toltz, cujo romance Uma fração do todo (Record) impõe novamente a indagação: por que os nossos jovens romancistas (com as exceções de praxe, penso especialmente no maravilhoso O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias) não se dedicam com mais afinco à velha e luminosa arte de contar histórias, como Toltz faz, com uma linguagem maravilhosa (muito bem traduzida por Janaína Marcantonio)?

 

1 São 112 capítulos de insensatezes (a tradução é de Karin Voluboef). Um exemplo:

“São Grosseirão é um novo santo, que agora todos querem cultuar com gestos e palavras obscenas e vulgares, buscando fazer pilhérias, mas conseguindo apenas ser toscos. O Senhor Decoro está morto e enterrado, os atoleimados seguram a porca pelas orelhas e sacodem-na, fazendo com que seu sino toque e ela cante uma canção suja. A porca agora dirige a dança e segura com o rabo o navio dos insensatos para que não afunde pelos seu peso, o que causaria uma grande tristeza na terra. Se os tolos não se encharcassem de vinho, ele não custaria mais do que uns centavos, mas agora a porca tem cria volumosa e o populacho rude suplantou a sabedoria, não deixando ninguém no jogo de damas, a porca é a única que traz uma coroa […] Senhor Acanhado =não distingue mais nada e isso aconteceu porque os camponeses estão todos bêbados. Senhor Malcriado abre o baile com Beberrão e Desfaçatez. Todos os tolos querem agir como porcos para não perder suas latas cheias de banha de burro […] A grosseria agora se espraia tanto que já mora em quase todas as casas, ficando pouco espaço para o bom-senso. Tudo o que agora se fala ou escreve veio daquelas latas […] A banha de asno nunca pára, sendo inclusive misturada à gordura de porco: um, que deseja ter um companheiro, esfrega-a no outro, que gostaria de ser grosseiro e não consegue. Não são poupados nem Deus nem a honestidade: fala-se de todas as vulgaridades, quem for o mais obsceno é presenteado com uma taça de vinho…”

2 Eu, que aos 40 anos me tornei um leitor fervoroso de Marx e Freud considero especialmente feliz a iniciativa da Boitempo de traduzir toda a obra marxiana (que foi mais descuidada no Brasil do que a freudiana), que venho estudando há dois anos (assim como a de Freud, há um pouco mais de tempo), sem nenhuma perspectiva de terminar algum dia ou chegar a um resultado prático, contudo com um prazer e uma alegria enormes.

 

3 Pensei até em colocá-lo no topo da lista. Mas sofri uma ligeira desilusão devido a um lapso na tradução de Marcelo Backes, logo no primeiro volume. Pasenow, o protagonista, ainda criança, sai a cavalgar sem permissão, o solo está escorregadio, o cavalo tropeça numa vala, e o menino tem de enfrentar a ira do pai, vomitando e caindo de cama. Então, na interpretação de Backes, lemos: “No dia seguinte, soube pelo médico que o pônei havia sofrido um traumatismo craniano e ficou orgulhoso de sua coragem”. Esse trecho me soou meio absurdo e fui conferir a tradução (esplêndida) do português António Ferreira Marques (que li em 1990, um ano mágico para mim pois li também de cabo a rabo Em busca do tempo perdido & O homem sem qualidades): “No dia seguinte, soube pelo médico que sofrera uma comoção cerebral e isso encheu-o de vaidade”. Ou seja, foi o menino que sofreu uma concussão ou algo que o valha, por isso vomita e cai de cama.

No entanto, o texto de Broch é cerrado, complexo, e por isso pequenos detalhes como esse não podem autorizar que empanemos ou desdenhemos uma tarefa como a de Backes, sempre uma proeza de todo modo, ainda mais depois da obscena empulhação que a Germinal nos impingiu.

nota sobre a nota- Leia os comentários, por favor, leitor.

 

4 Isso me permite me penitenciar por outra omissão de 2010, a do monumental estudo de Girard sobre Shakespeare, Teatro da Inveja (na verdade, Les feux de l´envie), que provavelmente deve ter despertado a ira de Harold Bloom, mas se soma aos estudos de Jan Kott, Frank Kermode, Northrop Frye e Bárbara Heliodora (e os do próprio Bloom) entre os melhores dedicados ao Bardo.

Por falar em Bloom e Shakespeare, não custa indicar dois divertidos e interessantes lançamentos de 2011: um, publicado pela Record, é As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum, que fala não das guerras que acontecem na obra de Shakespeare, mas por causa da obra de Shakespeare (num dos capítulos, mais corrosivos e gostosos de ler, “Você não pode tê-lo, Harold”, ele desanca Bloom e sua passionalidade como patrocinador erudito da obra shakespeariana contra um mundo hostil de desconstrucionismo e pós-estruturalismo); o outro, publicado pela Planeta, é 1599- Um ano na vida de Shakespeare,  de James Shapiro (Planeta) competente retrato de época (aquela outra coisa que Bloom odeia, o “contexto” de Shakespeare), melhor que a biografia de Park Honan. Vale a leitura.

 

5 Esse Plummer é um mistério: canastrão imbatível quando mais jovem (basta ver os filmes dos anos 60 e 70, penso especialmente em Real Caçador do Sol, no qual ele digamos interpreta constrangedoramente—parece o Ricardo Montalban como o Khan de Jornada nas estrelas—um desses líderes míticos da época da colonização espanhola, se não me falha a memória, Atahualpa), na velhice virou grandíssimo ator (por exemplo, sua extraordinária interpretação em O informante).

 

6 Por falta de tempo não pude ler e vou deixar de incluir, lamentavelmente, livros de quatro autores que muito aprecio e que certamente estariam na lista: O ano do dilúvio, da canadense Margaret Atwood, lançado pela Rocco (também, Atwood é como Carol Oates, não pára de lançar livros); O mestre de Gô, romance que estou doido para ler, de Yasunari Kawabata (devo ter algum problema sério porque adoro o mundo de perversidade do escritor japonês), lançado pela Estação Liberdade; O estranho no corredor (Ed.34), a primeira novela de Chico Lopes, que já nos deus três belas coletâneas de contos (Nó de sombras, Dobras da noite e Hóspedes do vento), que se diz da linhagem de Lúcio Cardoso, mas é muito superior a esse superestimado superstar da nossa ficção; e, por fim, A noite da borboleta dourada, volume que completa as Crônicas do Islã, do paquistanês Táriq Ali, uma das mais arejantes inteligências contemporâneas.

E deve haver muitos outros casos. Infelizmente, a bênção da leitura “mais vida, em tempo ilimitado” é só uma sensação (correspondente, é claro, a esse prazer que é ler), não exatamente a realidade da nossa condição temporal.

 

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