MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/01/2012

MOÇAS DE ARAQUE E OBRA-PRIMA PARA TODA A VIDA


 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de setembro de 1993)

A Ediouro continua na sua iniciativa de oferecer aos leitores brasileiros uma nova tradução de Em busca do tempo perdido com o lançamento de À sombra das moças em flor. Há exatamente 80 anos, com o primeiro volume (No caminho de Swann), Marcel Proust iniciava a publicação do seu grande romance.

Não se trata, aqui, de comparar a tradução de Fernando Py com a de Mário Quintana (editora Globo), esta última um clássico da nossa língua, e sim de comentar a maravilha que é esse segundo volume (1919): Marcel narra sua adolescência, suas tardes nos Champs Elysées, a paixão pelo teatro e por Gilberte, filha de Swann, rejeitado pela sociedade por casar com uma mulher “duvidosa”.

Através da filha, Marcel penetra no círculo íntimo de Odette Swann, no qual o astro é justamente seu ídolo, o escritor Bergotte (baseado em Anatole France & Bergson), um dos três artistas inspiradores do narrador. Vinteuil (baseado em Debussy & César Franck) já aparecera no primeiro volume; Elstir (baseado em Degas), o pintor impressionista que, numa das coincidências meio forçadas da obra, já foi marido de Odette, aparece na segunda parte de À sombra das moças em flor, passada no balneário de Balbec, assim como dois outros personagens fundamentais para o desenvolvimento da “intriga”: Albertine, que será o grande amor de Marcel) e o Barão de Charlus, que …

Defeitos em Proust? Além do estilo único, do lirismo, do esplendor das imagens como (só para citar uma) a inesquecível analogia de um restaurante com um planetário e das caixas com astrólogos, o que torna especial À sombra das moças (felizmente modernizaram o título, porque o tradicional À sombra das raparigas em flor era dose, era quase odettiano) é o fato de ser o mais perfeito, o mais esférico e bem acabado volume da Recherche.

O romance completo (na tradicional publicação em sete volumes) é genial, todavia os seguintes (à exceção do sexto, outro ponto de perfeição) às vezes são um osso duro de roer, pelas manias, confusões, excessos, repetições, e principalmente pela irritante obsessão do autor, que faz seu narrador descobrir que quase todos os seus conhecidos são homossexuais.

Como se diz, a obra é prima porém está longe de ser perfeita. Mesmo assim, ninguém pode negar que é apaixonante. Um grande livro é vivo, tem sua dinâmica própria, nos conquista até pelos seus defeitos, que se tornam características como nas pessoas que amamos e admiramos. E conviver longamente com Proust nos causa esse efeito.

Moças?O senão do segundo volume é a dificuldade de acreditar nas ex-raparigas e agora moças em flor. Leiam-se as brincadeiras nos Champs Elysées, a liberalidade dos costumes em Balbec, para ver se dá para aceitar como verossímil o comportamento e direi mesmo a existência dessas “moças”.

Aliás, inverossimilhança por inverossimilhança, é difícil crer em conversações burguesas ao jantar tão sem meias-palavras como as da família de Marcel. E, mais que tudo, numa convivência tão estreita de um adolescente enfermiço, mimado e vigiado com uma anfitriã tão desabonadora como Odette Swann.

Mas, voltamos ao ponto: no final das contas, Proust é Proust. Do alto da sua estatura artística, ele nos tolera catando suas pulgas. Noblesse oblige.

 

 

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