MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/01/2012

DENTRO E FORA DO TEMPO: MARCEL PROUST


proust_060509102040493_wideweb__300x375o tempo recuperado

“… me apercebia enfim (no que não pensara ao entrar naquele salão) que toda festa, ainda mais singela, nos causa, quando ocorre  muito tempo depois que deixamos de freqüentar a sociedade e mesmo que reúna poucas pessoas das que conhecêramos outrora, o efeito de uma festa à fantasia… um teatro de fantoches, onde, para se identificarem as pessoas conhecidas, fazia-se necessário decifrar, a um só tempo, vários planos situadas por detrás delas, e que lhes conferiam profundidade, obrigando a um trabalho mental, pois devia-se ver esses velhos fantoches tanto com os olhos quanto com a memória; um teatro de fantoches banhados nas cores imateriais dos anos, exteriorizando o Tempo, o Tempo que de hábito é invisível, que, para deixar de sê-lo, procura corpos e, onde quer que os encontre, deles se apodera a fim de mostrar, acima deles, a sua lanterna mágica”

    O trecho acima é de O tempo recuperado, tradução que completa o monumental trabalho de Fernando Py em oferecer uma nova versão (além daquela clássica, pela editora Globo) dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. É um dos feitos literários da década.

    Nesse ponto do romance, o narrador reencontra velhos conhecidos numa recepção após a Primeira Guerra, que reordenara a alta sociedade francesa de cunho aristocrático (o mítico “faubourg Saint-German”).

    A noção de tempo perdido, de desperdício da existência, vem da visão do depauperamento das pessoas, por causa da velhice ou da degradação moral. Marcel, que investira boa parte da sua freqüentando salões, vê então as distinções promovidas pelo exclusivista clã dos Guermantes caírem por terra e a própria Duquesa de Guermantes, a personificação do esnobismo chique, ser substituída pela cafona e vulgar Madame Verdurin.

    Proust descreve de maneira implacável a derrocada da sociedade que ele tanto se esmerara em cultivar e da qual foi afastando-se por conta da sua obsessiva relação com a ambígua (inclusive sexualmente) Albertine. Ele nos mostra retratos poderosos das pessoas que acompanhamos pelos volumes anteriores (como Saint Loup, Madame de Saint-Euverte, Barão de Charlus). Poderosos e perturbadores. Era preciso tanta crueldade?! É difícil gostar muito do ser humano após ler Proust.

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“… essas várias impressões que me proporcionaram bem-estar e que, entre elas, tinham em comum a faculdade de serem sentidas, ao mesmo tempo, no momento atual e num momento passado –o ruído da colher no prato, a desigualdade das lajes, o gosto do biscoito madeleine— até fazerem o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois me encontrava; na verdade, a criatura que então saboreava em mim essa impressão, saboreava-a naquilo que ela possuía em comum entre um dia antigo e o atual, no que possuía de extratemporal, era uma criatura que só aparecia quando, por uma dessas identidades entre o presente e o passado, podia achar-se no único ambiente em que conseguiria viver, desfrutar da essência das coisas, isto é, fora do tempo… Tal ser nunca viera até mim, nunca se manifestara senão fora da ação, do gozo imediato, todas as vezes que o milagre de uma analogia me fizera escapar ao presente”

    Proust é um artista platônico.  Como se sabe, para Platão havia o nosso mundo dos fenômenos, mundo imperfeito, réplica defeituosa de um mundo superior, o mundo das essências. Portanto, se no plano dos fenômenos, da realidade transitória, que nos  envelhece, exaure e carcome, Marcel soma e obtém zero,  no plano essencial, extratemporal, ele recupera, resgata, recaptura, reencontra esse tempo perdido, através das sensações e impressões despertadas por algumas coisas, geralmente impalpáveis para a Razão e a memória consciente. Enquanto chega para a recepção, envelhecido, desiludido e sentindo o fracasso do tempo desperdiçado, ele tropeça nas lajes assimétricas em frente ao palácio, e toda sua experiência em Veneza vem à tona. É o milagre da analogia, e um momento mágico da literatura e da capacidade perceptiva do ser humano (a quem não admiramos tanto no plano dos fenômenos). Toda a proposta final de O tempo recuperado é proporcionar o acesso ao mundo das essências. Aliás, é nesse último volume de Em busca do tempo perdido que está a famosa frase que poderia servir de epígrafe à obra de Fernando Pessoa (outro artista que desabrocha no “extratemporal”): “…os verdadeiros paraísos são aqueles que já perdemos”.

    E assim o último volume reata a conclusão do primeiro capítulo de No caminho de Swann, o volume inicial, que voltava-se para a infância de Marcel:

“… quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações”.

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    Mas é preciso que ele perca tanto tempo ao longo da vida, para se recolher no final do último volume e se dedicar a escrever a obra que começa com No caminho de Swann: o final de O tempo recuperado é o anúncio do Livro.

    A tradução de Py é boa? Poderia ser, às vezes, menos prosaica. Entretanto, só a façanha de traduzir sozinho um livro como esse já merece o louvor de quem gosta de ler. Mesmo assim, não custa prevenir ao meu leitor de que há uma magnífica tradução desse mesmo volume, feita por Lúcia Miguel Pereira (sucedendo Mário Quintana, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, responsáveis pelos anteriores), com o título O tempo redescoberto.

     Recuperado ou redescoberto, esse tempo é uma das coisas essenciais que se tem para ler na nossa vida de fenômenos transitórios.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de dezembro de 1996)

2 Comentários »

  1. Uma verdadeira Bíblia,para mim.

    Comentário por Chico Lopes — 07/02/2013 @ 7:05 | Responder

    • Parece que vai haver uma nova tradução brasileira, Chico. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 07/02/2013 @ 8:57 | Responder


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