MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/01/2012

Uma paródia brilhante do universo sherloquiano: O SECRETÁRIO ITALIANO


“__ O tempo é menos importante do que a hora…

__Está tentando condescender com a minha estupidez?

__ Ora vamos, Watson, não deve desencorajar os meus esforços de ser frívolo! Estava simplesmente me referindo ao fato de que escurecerá em breve. E, com a escuridão, virão —sua voz tornou-se teatral, ao se virar para mim—aquelas coisas que amam a escuridão.

    Eu não estava com disposição para pilhérias.

__ Com a escuridão, virá o jantar, espero…”

Um fenômeno recorrente, e que chama a atenção, com relação à manutenção do “mito” Sherlock Holmes, é o fascínio perene que ele exerce sobre escritores norte-americanos, que o pasticham e parodiam com mais força até do que os ingleses da gema: em 1974[1], Nicholas Meyer, com Uma solução sete por cento, trouxe à baila aspectos insuspeitos da persona sherloquiana, e gerou  uma das ondas de reaparição do personagem de Arthur Conan Doyle. O problema é que a maior parte dos exercícios pós-Meyer caíram no pastiche, no pior sentido da palavra (e pena que a adaptação cinematográfica foi dirigida pelo pouco inspirador Herbert Ross).

Em 2005, em contrapartida, Caleb Carr (autor dos admiráveis, pelo menos para mim, O alienista & O anjo das trevas) escreveu uma paródia (no sentido estrito da coisa, a sério, como se fora o próprio Conan Doyle) da mais alta qualidade das aventuras sherloquianas: O secretário italiano (The italian secretary, em tradução de Domingos Demasi). Com uma ressalva: Carr mostra mais estofo para o romance do que o próprio autor original.

Explico-me melhor: a princípio, O secretário italiano faria parte de uma antologia de contos escritos à moda dos relatos do dr. Watson (que renderam 56 aventuras originais “curtas”) e com o fito de roçar o sobrenatural, o imaginário dos fantasmas tão poderoso na mentalidade vitoriana.

O texto de Carr ganhou um desenvolvimento inesperado e acabou sendo publicado à parte. Portanto, temos um “plot” à moda de um conto curto, e um tratamento de romance. Os contos de Doyle (até mesmo os melhores como O problema final) sempre me deixam insatisfeito porque subaproveitam as situações e são mais blábláblá do que histórias bem contadas; os romances são descosidos e enchem lingüiça. As qualidades que descobrimos (e o charme que nos envolve) sempre aparecem “apesar” desses defeitos essenciais.

O secretário italiano nos coloca no melhor dos dois mundos: com sua meticulosidade fantástica, Carr aproveita todos os detalhes da sua trama, e as 280 páginas do livro são coesas, bem-amarradas, uma verdadeira urdidura. E ainda por cima tem essa coisa do tom, de realmente ressuscitar o modo próprio de contar do dr. Watson, que eu não me lembro de ter sido tão bem executado.

Holmes e Watson são convocados por Mycroft (através de um telegrama cifrado), irmão do primeiro e conselheiro pessoal da Rainha com relação à sua segurança (houve nove atentados contra a sua vida, e um possível “mandante” é o kaiser alemão), para embarcarem num trem especial que os levará a Escócia, a Holyroodhouse, onde a família real se hospeda quando em Edimburgo (no momento, ela está no campo, em Balmoral).

A ala da propriedade na qual ficavam os aposentos de Mary Stuart, começaria a ser restaurada. O arquiteto responsável e um operário foram encontrados mortos, assassinados.

Além da malfadada rainha escocesa, a ala também ostenta um crime lendário (no século XVI): a morte de David Rizzio, seu secretário, conforme Holmes disserta durante a viagem de trem (em meio a ataques criminosos):

“…os nobres […] queriam erradicar finalmente toda a influência católica sobre a sua rainha, a começar pelos cortesãos papistas, estrangeiros e escoceses,  com quem ela continuava a povoar seu círculo mais íntimo […] Restava […] apenas a escolha de uma vítima… David Rizzio…professor de música, mestre dançarino, tanto bufão quanto ´secretário´. Certamente não se encontrava na corte escocesa uma criatura de influência mais limitada e superficial. Aliás, sua relativa insignificância apenas revelou a falta de imaginação e a maldade de seus algozes… daria no mesmo se eles matassem um dos spaniels da rainha […] Muito mais importante, se a verdade fosse conhecida, era o simples fato de ser italiano e, como tal, poderia ser descrito para os ignorantes e os idiotas como um agente do ´bispo de Roma´…”

Rizzio é morto através de dezenas de golpes das adagas dos seus algozes. E da mesma forma foram mortos os dois homens no século XIX (só que o cadáver do operário revelará surpresas inquietantes). Há um teor sobrenatural, já que o secretário italiano parece assombrar aquela ala e há até a lenda de uma mancha de sangue que nunca seca, no piso.

Como sempre acontece, antes mesmo de chegarem ao local Holmes já deduziu várias coisas, daquele seu jeito exibido (que parece ficar mais pronunciado na proximidade do irmão) e, uma vez lá, começa aquele habitual duelo de inteligência dele com um vilão oculto nos bastidores (descobrimos que não há agentes alemães envolvidos, e sim um nobre bem próximo à Rainha).

Até o confronto final (bem cênico e movimentado, com direito a uma catapulta, explosões, flechas, incêndios, e até uma suposta aparição do fantasma de David Rizzio, que não fica nada deslocada no mundo de um crente no espiritismo como Conan Doyle), Holmes e Watson vão descobrir uma moça desonrada, que se esconde na ala mal sinistra, um colchão que contém uma pequena fortuna, dois irmãos que organizam um esquema de turismo pelos aposentos mal assombrados, e um pub onde se reúnem militares de uma guarnição e que na verdade é um antro dos malfeitores, com um esquema para lá de corrupto. Watson sempre estará em ação, terá sua quota de deduções, incentivado por Holmes, contudo sempre será embasbacado pelo amigo, que sempre está vários passos adiante (até mesmo do arguto e poderoso irmão, que se deixa enganar pelo arqui-vilão).

E, como acontecia nas histórias de Conan Doyle, o mistério, o “quem” matou, é o que menos importa. O que vale é a atmosfera, o jogo intelectual, e pode-se dizer que literalmente Holmes coloca a casa (Holyrood) em ordem, pois há anos ela estava sob o jugo de malfeitores.

Só resta lamentar que a primorosa paródia de Caleb Carr apresente-se meio apunhalada por diversos golpes (quero crer, a despeito de já ter achado, por outras experiências com traduções de Demasi, nem sempre haver o devido esmero de sua parte, que a mixórdia de tempos verbais disseminada pelo livro seja fruto de uma má revisão e de um copidesque desatento). Há vários casos de passagens estranhas, mal assombradas: “… e a pessoa estaria em posição de infligir um ferimento grave e até mesmo fatal, sobretudo se a vítima já estivesse debilitada pela juventude…” (!!!???, página  80), ou então (na página 146): “…um  som que era tudo  menos sobrenatural, um leve fungada, seguida pela mais delicada das tosses. Mesmo assim, se a verdade era para ser conhecida, foi somente quando ouvi a voz que veio depois—baixa, trêmula, mas inconfundivelmente humana—que a minha respiração voltou ao ritmo normal…”.

Não importa. Ler O secretário italiano, mesmo com tais atentados, ainda é uma delícia.


[1] Pelo menos na literatura, pois a BBC nos apresentou várias séries memoráveis que giram em torno de Holmes ou de Doyle e o inspirador “real” do detetive, o dr. Bell.

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