MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/01/2012

O Flaubert borgiano de BIBLIOMANIA


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em12 de fevereiro de 2002)

   Em 23 de outubro de 1836, em Paris, a Gazette des Tribunaux publicou o relato de um correspondente sobre os crimes cometidos por um livreiro de Barcelona, D. Vicente, que detestava a idéia de se separar de seus livros e por isso matava seus fregueses. Quando perguntam a ele se não lhe repugnava “lançar a mão sobre uma criatura feita à semelhança de Deus”, responde: “Os homens são mortais. Um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, Deus carregará. Mas os bons livros, é preciso conservá-los”.

     Se o caso fosse verdadeiro, D. Vicente já pareceria ter escapado das  páginas de Luis Borges. Atualmente, porém, acredita-se que o “crime do livreiro catalão” tenha sido uma mistificação literária (impetrada por Prosper Mérimée, autor de Carmem, ou, com maior probabilidade, por Charles Nodier), o que torna tudo mais próximo ainda do universo borgiano.

    Em 1836, Flaubert (1821-1881) tinha quinze anos e tomou como verdadeiro o relato. A partir dele, o maior dos autores franceses escreveu um conto incrível, BIBLIOMANIA (em tradução de Carlito Azevedo para a Editora Casa da Palavra; a edição traz como apêndice “O Crime do Livreiro Catalão”), no qual prefigura temais centrais em sua obra, e seu próprio destino: quando se sabe como ele,um homem considerado belíssimo, “se acabou”, lutando obsessivamente com a escrita (que lhe exigiu uma vida de recluso) não deixa de ser arrepiante ler a descrição que faz do livreiro Giácomo: “Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvada como a de um ancião; seus cabelos eram longos, mas brancos; suas mãos eram fortes, nervosas, mas secas e enrugadas etc etc”. Veja-se a o que escreve sobre Flaubert num fascículo da antiga Abril Cultural: “Aos trinta anos, pouco tem do belo porte da juventude. A doença, o afã de escrever, a viagem ao Oriente, o desencanto amoroso haviam-lhe aniquilado a beleza. O rosto agora está sulcado de veias vermelhas. A boca oculta-se através de grossos bigodes. Os cabelos rareiam…”

    O livreiro de Flaubert segue em linhas gerais os passos do suposto livreiro real, só que se percebe já um talento precoce e imenso modelando a história de modo a realçar os aspectos mais interessantes. Um exemplo é o tratamento dramático magistral com que aproveita o detalhe mais desconcertante da confissão de D.Vicente: o desejo de possuir o único exemplar existente de um livro e o desespero em que mergulha ao saber que existem outros exemplares.

   A famosa precisão do estilo flaubertiano já é evidente: “Guardava todo o seu dinheiro, tudo o que tinha, todas as suas emoções, para os seus livros; fora monge, e por eles abandonou a Deus; mais tarde, sacrificou-lhes o que os homens têm de mais caro depois de seu Deus: o dinheiro; a seguir, ofereceu-lhes o que se tem de mais caro depois do dinheiro: sua alma”.

   O que faz de BIBLIOMANIA uma prefiguração do universo flaubertiano é a concepção basicamente negativa que apresenta desse “amor aos livros”, não tanto por ser uma negação dos impulsos vitais (embora esse elemento também seja importante), quanto por mostrar a estupidez e mediocridade que se ocultam nesse apego à palavra escrita. Esse é o tema de duas das suas obras-primas, Madame Bovary e Bouvard & Pécuchet, nas quais os personagens se apegam não tanto à verdadeira substância dos livros, não ao que eles possuem de vivo e necessário, e sim aos seus aspectos mais superficiais, na tentativa de abafar ou corrigir o tédio do cotidiano (no caso específico da dupla Bouvard & Pécuchet, a tentativa de aplicar o lido ao vivido ganha um formato quase surrealista. Um trecho impagável pode dar uma idéia ao meu leitor: “Para prever o tempo… como o barômetro os enganava e o termômetro não lhes ensinava coisa alguma, recorreram ao expediente imaginado no reinado de Luís XV por um padre de Touraine: uma sanguessuga metida num vidro devia subir em caso de chuva, manter-se no fundo em caso de bom tempo, agitar-se quando ameaçava tempestade. Mas a atmosfera quase sempre desmentia a sanguessuga. Meteram mais três no vidro: as quatro se comportavam de maneira diferente”).

    Júpiter, deus máximo da Antiguidade, diz em A tentação de Santo Antônio: ‘…por toda parte triunfam a estupidez das multidões, a mediocridade do indivíduo”. Estupidez, mediocridade, palavras-chaves em Flaubert. O amor de Giácomo pelos livros é, assim como o de Emma Bovary e de Bouvard & Pécuchet, estúpido e medíocre (e, em última instância, sem sentido), apesar da capa passional:  “Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava… amava um livro porque era um livro: amava seu cheiro, sua forma, seu título…Mal sabia ler”.

     Curiosamente, a reverência excessiva ao que está em forma de livro e que norteou o zelo documental do próprio Flaubert para escrever seus livros, especialmente A tentação de Santo Antônio e Salambô (em todo caso, certamente o romance mais perfeito da história da literatura, uma coisa impressionante e única), tornou-se seu calcanhar-de-aquiles. O grande poeta Paul Valéry não o perdoou: “…provoca no leitor uma sensação crescente de estar preso em uma biblioteca repentina e vertiginosamente libertada, onde todos os tomos tivessem vociferado seus milhões de palavras ao mesmo tempo e onde todas as ilustrações revoltadas tivessem vomitado suas estampas e desenhos ao mesmo tempo. Ele leu demais, diz-se do autor, como se diz de um homem bêbado que ele bebeu demais”.

    Borges, que conhecia o direito e o avesso da bibliomania, afirmou certa vez que o paraíso deveria ser parecido com uma grande biblioteca. Aos quinze anos, Flaubert já intuía que o inferno também.

 

2 Comentários »

  1. Caro MONTE.
    No passado recente, publiquei algo sobre Flaubert, de quem nós francófonos gostamos muito, isso pode ser visto aqui >>> http://youtu.be/vramMq5DOfM <<<
    Depois, tem um post perdido sobre uma conversa minha com o ateu Milton Ribeiro (de quem me desliguei pelos tantos ataques ao Papa e a Igreja, so sorry) e a gente falava justamente de Bibliomania.
    Abraço fraterno.
    BetoQ.
    P.S.: Sempre bom voltar aqui. Tens publicado bastante, o que é ótimo!

    Comentário por Adalberto Queiroz — 14/01/2012 @ 23:26 | Responder

    • Valeu, Beto. Mas sou obrigado a dizer que também sou intolerante quanto à figura do papa, em si mesma anacrônica e ridícula, ainda mais com os dois últimos exemplares (o atual, vivo-morto, então, nem há o que dizer…)
      Helas, nem tudo na vida pode ser Flaubert.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 15/01/2012 @ 11:29 | Responder


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