MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/12/2011

O “tudo que é sólido desmancha no ar” dostoievskiano: OS DEMÔNIOS

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/09/o-tudo-o-que-e-solido-desmancha-no-ar-turguenieviano-pais-e-filhos/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de fevereiro de 2005)

Na sua coluna da Caros Amigos, o saudoso Léo Gilson Ribeiro contava como desistiu de ler Dostoiévski em português porque achou abomináveis as traduções de Rachel de Queiróz e saúda a recente versão (feita do russo) de Os Demônios  (1872)realizada por Paulo Bezerra na esteira de Crime e Castigoe  O Idiota.

Pois bem, eu confesso que então me falta a compreensão do que é uma boa tradução. Conhecia Os Demônios e era apaixonado pelo livro, justamente através da tradução de Rachel de Queiróz (publicada pela José Olympio) e também a de Natália Nunes (nas Obras Completas da Aguilar, com seus erros e acertos), e sempre considerei ambas perfeitamente aceitáveis.

Instigado pelas palavras de Ribeiro, e mesmo tendo sido quase derrotado pelas traduções anteriores de Paulo Bezerra, enfrentei sua versão da história de Stávroguin & outros conspiradores. Ora, mais de uma vez foi preciso recorrer a dupla Rachel & Natália para que certos trechos ficassem claros. Mais ainda: o leitor que só conhecia Os Demônios em português através das outras versões conhece o essencial do livro e não perdeu nada. São escassos (e insignificantes) os momentos em que se acrescenta algo novo à compreensão das personagens, do seu modo de falar, das suas idéias e da atmosfera do romance. O que nos leva à conclusão, diante do alarde que certas versões recebem, que marketing existe até no insuspeito território da tradução.

Por exemplo, o início da 2ª parte (depois de uma série de cenas teatrais e extraordinárias, dignas de Shakespeare) foi traduzido assim por Rachel de Queiróz: “É claro que corriam a cidade estranhos rumores a respeito da bofetada, do desmaio de Lisa, e dos outros acontecimentos daquele domingo memorável. E aquilo muito nos admirava: como aqueles fatos teriam sido tão rapidamente espalhados, até nos pormenores mínimos ?” Natália Nunes, por sua vez: “Na cidade, não se falava, é claro, senão da bofetada, do desmaio de Lisa e dos outros acontecimentos daquele famoso domingo. Mas uma coisa nos espantava: como tudo quanto se passara tinha podido ser conhecido tão depressa e com tal precisão ?” Vejamos a “contribuição” de Paulo Bezerra para o leitor brasileiro quanto ao mesmo trecho: “É dispensável dizer que pela cidade correram os mais diversos boatos, isto é, a respeito da bofetada, do desmaio de Lizavieta Nikoláievna e de outros acontecimentos daquele domingo. Mas uma coisa nos deixava surpresos: através de quem tudo aquilo poderia ter vazado com tal velocidade e precisão?”

Não se está tentando diminuir, é evidente, o tour-de-force de um tradutor que tem enfrentado as obras mais intensas e tumultuosas da ficção, e a partir do original, mas é um esnobismo ridículo  desdenhar versões que fazem parte da nossa tradição de leitura.

No mais, depois de ter criado a mistura russa de Hamlet e Dom Quixote (com a sombra de Cristo pairando ainda por cima) em O Idiota (talvez seu mais belo livro), Dostoiévski surpreendia mostrando um grupo de terroristas ideológicos empenhados numa sutil operação de desmoralização e desestabilização de uma província. E isso através de uma narrativa oblíqua, complexa e devoradora. O que acontece nos bastidores é tão importante quanto o que acontece no palco. Daí a escolha genial de um narrador provinciano, que convive com os protagonistas, mas sempre está também à parte, atrasado,  diante de fragmentos contraditórios e controversos.

Como, depois de um livro desses, Dostoiévski ainda pode escrever Os Irmãos Karamázov, que parece ainda mais vasto e exorbitante ?

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em  05 de março de 2005)

“Proclamaremos a destruição…porque…porque mais uma vez essa ideiazinha é fascinante…Espalharemos incêndios…Espalharemos lendas… Aí qualquer grupo sarnento será útil. No meio desses mesmos grupos encontrarei pessoas tão dispostas que darão qualquer tipo de tiro e ainda ficarão agradecidas pela honra. Bem, aí começará o motim! Haverá uma desordem daquelas que o mundo nunca viu…A Rússia ficará mergulhada em trevas…”

Continua-se aqui o comentário a respeito da tradução de Paulo Bezerra (direta do russo) para Os Demônios, um dos quatro romances supremos de Dostoiévski (junto com Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov).

O fio condutor da trama (uma sábia decisão do autor) é a relação de amor irrealizado/ódio entre dois personagens inesquecíveis, Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski e Varvara Pietrovna Stavróguina. Ela se torna a protetora dele, um intelectual pomposo e inerte, que se resigna a um parasitismo abjeto, como agregado de luxo. Os dois principais “demônios” do título são os filhos de ambos, Piotr Stiepánovitch (de quem são as palavras acima) e Nikolai Vsievolódovitch, o famoso Stavróguin, que retornam à província e propagam conspirações, crimes, atos de terrorismo e desatinos à sua volta, chegando a envolver até o governador, Lembke e sua pretensiosa esposa, Yúlia Mikháilovna, que se julga “avançada” e pronta para orientar jovens, quando na verdade está sendo manipulada e desmoralizada.

O objetivo, segundo Chigalióv, um dos membros do grupo criado na província pelo filho de Vierkhoviénski, é “desacreditar constantemente, mediante uma propaganda sistemática de denúncias, a importância do poder local, gerar perplexidade nos povoados, engendrar o cinismo e escândalos, a total descrença no que quer que exista… e, por fim, lançando mão de incêndios como meio predominantemente popular, no momento determinado lançar o país até no desespero em caso de necessidade”.

Esse mesmo Chigalióv antecipa sinistramente os crimes cometidos em nome do socialismo, ao afirmar um sistema ideológico no qual, partindo da liberdade ilimitada, chega-se ao despotismo ilimitado. Noventa por cento da humanidade ficaria escrava do iluminado dez por cento que a colocaria para trabalhar e modificar sua natureza através de gerações.

Uma das maneiras de assegurar lealdade ao grupo é o crime cometido em comum, o sangue derramado servindo como elemento de coesão. A vítima escolhida é Chátov, tido como delator devido às intrigas do venenoso Piotr Stiepánovitch. Esse incidente é baseado num fato real que serviu como idéia-mestra de Os Demônios.

Não se pode deixar também de citar Kiríllov e seu projeto de matar-se para libertar o homem da idéia da morte e cujas idéias sobre suicídio foram amplamente discutidas por Albert Camus (o qual, aliás, adaptou Os Demônios para o teatro).

Há ainda outras complicadíssimas personagens femininas, como a irmã de Chátov, Dária, dama de companhia da mãe de Stavróguin, e Liza, mais uma representante das “histéricas” dostoievskianas, e não obstante, objeto da paixão de vários personagens, entre os quais o próprio narrador, esse ser tão ambíguo criado por Dostoiévski, que nos revela diálogos íntimos por inteiro, aos quais não poderia ter assistido, mas que deixa boa parte da ação ocorrer nos bastidores e está sempre a nos informar da sua insuficiência para o papel, mesmo tendo convivido com todos os protagonistas. Por exemplo, logo no início da 3ª parte: “É claro que ninguém está no direito de exigir de mim, como narrador, detalhes excessivamente exatos…”

O fato é que toda a recente onda de terrorismo trouxe novo interesse a um livro que já era fascinante, embora terrível de se ler, tortuoso e atravancado como é, e ainda tendo de açambarcar as tendências reacionárias do seu autor  e seu ajuste de contas dissimulado com inimigos na vida real. Mas com gênios o negócio é assim: tem que se aceitar o pacote inteiro.

07/12/2011

A CONDIÇÃO HUMANA: “Os irmãos Karamázov”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de janeiro de 2002)

A editora 34 lançou nova tradução de Crime e Castigo. A Ediouro, por sua vez, veicula mais uma vez (e com sucesso, segundo os livreiros) a já conhecida versão de Natália Nunes & Oscar Mendes para outro clássico dostoiévskiano, Os Irmãos Karamázov (dessa vez tiraram  o “i” que tradicionalmente fazia parte do título, seguindo o original russo, de 1880, Brátia Karamázovi).

É um volume gigante, com uma capa que chama a atenção, papel de boa qualidade, mas com vários problemas: apesar de haver uma preparadora de originais, uma responsável pelo copidesque e duas revisoras, o leitor se defronta com inúmeros erros,que muitas vezes atrapalham a compreensão (Ivan diz a Aliócha que está na região há “quatro anos”, quando na verdade só está há “quatro meses”) e que já devem vir acompanhando (mas para quê, então, tanta gente na equipe, se não fizeram nada?) as edições de uma tradução complicada, que ainda contém um forte sabor lusitano (por essa razão, sempre preferi—aliás, acho-a não só inegavelmente melhor, como também maravilhosa (opinião não muito compartilhada, devo dizer)—a de Rachel de Queiroz, publicada pela José Olympio e feita a partir da versão francesa)[1].

Na página 718, no final da defesa do advogado de Mítia Karamázov, aparece até um trecho enorme de um capítulo anterior. Isso sem contar as discrepâncias incômodas entre as duas traduções: numa, os fatos ocorreram há “treze anos”; noutra, há “trinta”!!!???

Mesmo com todos esses percalços, a releitura de Os Irmãos Karamázov reiterou o óbvio: é o maior romance do século XIX, junto com Guerra e Paz. Se Crime e Castigo era o Hamlet do grande autor russo, a história dos Karamázov, com seu conflito de gerações, é o seu Rei Lear;  por ter um grupo de personagens como protagonistas (embora o narrador insista no fato de que Aliócha é o herói da narrativa, por ser o elemento “positivo” da trama, aquele que aprende com os erros alheios e os próprios), e por se passar numa cidadezinha provinciana, longe da esfera de Petersburgo—a qual domina boa parte da obra dostoiévskiana, o livro se aproxima mais de outro Dostoiévski supremo, Os Demônios; além disso, ambos têm um narrador ambíguo e discutível —em termos literários, com relação à construção do ponto-de-vista narrativo—, que se apresenta como alguém da cidade, um cronista, que meramente acompanhou os fatos, mas que possui o poder da onisciência divina: sabe até o que os outros pensam e sentem.

Na cidadezinha de Skotoprigonievski, Fiódor Karamázov vê, de repente, todos os filhos à sua volta, embora nunca tenha ligado para nenhum deles, após a morte das duas esposas: Mítia, com o qual disputa os favores de Gruchenka (e, por essa razão, é ameaçado de morte pelo filho diversas vezes, principalmente quando ele sabe que o pai fica esperando por elas todas as noites), Ivan e Aliócha.

O que define os Karamázov (e Aliócha se salva por causa do exemplo do “stáretz” Zózima, homem santo cuja vida ocupa um dos inúmeros desvios narrativos do romance) é a voracidade, a avidez sem limites, que faz com que eles toquem os limites da condição humana e sintam que só podem se redimir pelo sofrimento (é o que diz Mítia, ao ser preso: “Quero sofrer e redimir-me pelo sofrimento”).

Ivan é como Raskólnikov (de Crime e Castigo): desenraizado, dominado por teorias racionalistas e niilistas, cujo sofrimento é estéril (porém comovente, leia-se o capítulo “A Revolta”), ao contrário do de Aliócha, o qual consegue se ligar ao povo e ser amado por ele (isso fica claro num capítulo suprimido na edição da Ediouro, mas que está na da José Olympio: o julgamento de Aliócha por executar a fuga de Mítia e sua absolvição aclamada pela audiência lotada).

Não é à toa que Ivan, prestes a ficar louco, receba uma das duas visitas mais famosas que o Diabo fez até hoje na alta ficção (a outra é feita a Adrian Leverkühn, em Doutor Fausto, de Thomas Mann). A fórmula decorrente da postura de Ivan, “se Deus  não existe, tudo é permitido”, leva o bastardo Smerdiákov, invejoso e cruel (vivendo como cozinheiro na casa de seu provável pai), a se julgar autorizado para executar o parricídio.

Assim, Dostoiévski radicaliza e complica o problema do crime, que já era central em Crime e Castigo: desta vez, o personagem possuído por teorias destrutivas não executa o crime, mas é o seu mentor intelectual. O parricídio, crime primordial, é atribuído a Mítia, o mais provável suspeito, que é preso, julgado e condenado, numa seqüência narrativa admirável.

Esbanjando seus recursos como ficcionista, certamente consciente de que atingia o auge da sua obra, Dostoiévski dissemina mil ironias, que ampliam seu drama familiar para um painel imenso: enquanto o padre Fierapont, um religioso fanático, inimigo do “stáretz” Zózima, vê em todos os lugares diabinhos, que ele supostamente “esmaga”, o Senhor do Mal age livremente em meio aos incrédulos (como Ivan) e até entre moças aparentemente inocentes (é  caso de Lisa, apaixonada por Aliócha, uma das personagens mais estranhas de Dostoiévski, não obstante TODAS as mulheres do livro apresentarem um comportamento dúbio).

Até em meio a uma aparente ramificação secundária da trama, onde aparece um grupo de meninos que se apega a Aliócha, o livro aprofunda um dos seus temais centrais: a tragédia que é a cisão entre pensar e sentir. O menino Kótia já é um pequeno ideólogo, com reservas contra a pieguice e o sentimentalismo. Não estaria nele a semente de um futuro Ivan Karamázov, isto é, de futuros crimes, sem uma influência positiva? Já não se estaria preparando um drama para a próxima geração?

Otto Maria Carpeaux (que eu geralmente considero superestimado, um crítico literário discutível—e desculpem-me se invisto aqui contra o senso comum) escreveu algo interessante sobre Os Irmãos Karamázov: “É um mundo completo. Tão completo que o leitor pode viver durante anos dentro dos muros desse mundo sem chegar a conhecê-lo completamente, ao ponto de perder-se, às vezes, nos corredores entre os quartos escjuros e entre as celas dos monges”. Ao tentar escrever sobre esse mundo, é que nos damos conta da verdade dessas palavras.


[1] Em duas resenhas, publicadas originalmente em 13 e 20 de dezembro de 2008, comentei o lançamento de uma nova tradução.

Abaixo, o texto:

O lançamento de Os Irmãos Karamázov marca o auge das traduções que Paulo Bezerra vem realizando (diretas do russo0 da obra de Dostoiévski, já que se trata do maior romance da literatura mundial, ao lado de Guerra e Paz e Madame Bovary.

É a história de um parricídio: Fiódor Pavilovitch é assassinado e a culpa real recai sobre o filho mais velho, o desbragado Dmitri, mas os outros filhos também poderiam ter assassinado o pai: o místico Aliócha, o niilista Ivan e o bastardo Smerdiákov (uma mistura de Iago com Calibã).

Além de painel perturbador das contradições sociais da Rússia imperial, um alucinante clima simbólico perpassa Os Irmãos Karamázov, cujo objetivo é mostrar extremos da condição humana. Dois personagens reúnem-se aos Karamázov para que o livro consiga esse efeito: Grúchenka (pomo da discórdia entre o velho Karamázov e o filho) e o stárietz Zóssima, um santo homem. Através do triângulo amoroso, descortina-se o papel das pulsões sexuais. O stárietz, por sua vez, representa o dilema da espiritualidade, o salto da fé. Nem ele é poupado: quando morre, seu corpo começa a feder de forma intolerável e blasfema. Zóssima é o contraponto de Fiódor Pavlovitch para que Aliócha possa se tornar o princípio positivo do romance.

Aliás, a obra-prima suprema de Dostoiévski tornou-se um marco ao mostrar inequivocamente que nós somos porque nos confrontamos com consciências alheias, fazendo a vocação mais original do romance (enquanto gênero literário) ser a polifonia, como nos ensinou o grande compatriota do autor de Os Demônios, Mikhail Bakhtin: a estratificação da narrativa em várias vozes que se entrechocam, entredevoram-se e criam um efeito de amplitude como nunca se viu antes na milenar atividade de contar histórias.

Quando se escreve sobre Os Irmãos Karamázov nunca se deixa de ter em mente o capítulo “O Grande Inquisidor”, no qual Ivan demole as igrejas enquanto instituições, colocando-as como a grande impostura da Humanidade. A certa altura, afirma-se que o paraíso não vale uma lágrima de criança. E atinge-se, então, aquela revolta que Albert Camus considerava a mais nobre virtude do homem: “Por que entre eles não poderia aparecer nenhum sofredor, atormentado pela grande tristeza, e que amasse a humanidade? Supõe que entre esses que só desejam bens materiais e sórdidos tenha aparecido ao menos um como meu velho Inquisidor, que comeu ele mesmo raízes no deserto e desatinou tentando vencer a própria carne para se tornar livre e perfeito, mas, não obstante, depois de passar a vida inteira amando a humanidade, de repente lhe deu o estalo e percebeu que é bem reles o deleite moral de atingir a perfeição para certificar-se ao mesmo tempo de que para os milhões de outras criaturas de Deus sobrou apenas o escárnio, de que estas nunca terão condições de dar conta de sua liberdade, de que míseros rebeldes nunca virarão gigantes para construir a torre, de que não foi para esses espertalhões que o grande idealista sonhou a sua harmonia. (da resenha de 13 de dezembro)

Na semana passada, comentando a nova tradução de Os irmãos Karamázov, deu-se destaque aqui ao capítulo “O Grande Inquisidor”, que teria especial interesse em nossa época (dominada pelo pensamento e pela figura de Nietzsche, o Dostoiévski da filosofia), no qual  Ivan, o mais intelectualizado dos irmãos Karamázov, demole as igrejas enquanto imposturas. Citando Nietzsche, “Deus está morto, a piedade pelos homens matou-o”. Ou seja, o cristianismo tinha desfibrado o homem, transformando-o em escravo. Mas atenção: nenhum personagem pode ser tomado como porta-voz de Dostoiévski, e no fato de declararem a morte de Deus ele via o perigo supremo, pois se o Ser Supremo, se a nossa idéia de transcendência (que permite julgar os atos terrenos), estão mortos, “tudo é permitido” e nada subsistiria: a moral, a ética, e por extensão, a existência “humana”.

Essa dilaceração entre o extremo a que se pode chegar na linha das idéias e o horror gerado por elas é um dos pontos mais fascinantes entre os muitos da obra-prima de Dostoiévski, que parece a síntese (não por acaso foi seu último livro) das várias experiências anteriores através do drama da família-título (o livro se move em torno do assassinato do pai). Temos de Crime e Castigo a idéia do “crime intelectual”, racionalizado; temos de O Idiota (talvez o mais belo entre os supremos livros dostoievskianos) a tentativa de uma existência “espiritual” no mundo contemporâneo que se revela quixotesca e só atrai desgraças; temos de Os Demônios o tom da narrativa (feita por um morador da cidade provinciana, onde se passam os acontecimentos) e as discussões ideológicas; e temos de todas elas, e mais outras tantos (como Notas do Subsolo; O Sósia, Um Jogador, por exemplo) o clima “febril”, a sensação de que mergulhamos um pouco numa alucinação. De brinde, o livro tem uma das duas visitas do Diabo mais importantes da história do romance (a outra aparece em Doutor Fausto). Pudera, tanto em Dostoiévski quanto em Mann, ele não poderia faltar em uma reflexão sobre o destino de um povo. (da resenha de 20 de dezembro)

06/12/2011

CRIME E CASTIGO: obra-prima polifônica, folhetim, tragédia metafísica, thriller policial, teatro, debate ideológico, drama de redenção, história edificante de superação, auto-ajuda…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de dezembro de 2001)

“Eu não matei para obter recursos e poder… Eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim… não era do dinheiro, Sônia, que eu precisava, quando matei; não era tanto o dinheiro que me fazia falta quanto outra coisa… Eu precisava saber de outra coisa,outra coisa me impelia naquela ocasião; eu precisava saber, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não?  Eu ouso inclinar-me e tomar ou não? Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de…[…]Sim, mas como matei? Aquilo lá é jeito de matar? Por acaso alguém vai matar como eu fui naquele momento? Algum dia eu te conto com eu fui. Por acaso eu matei a velhota? Foi a mim que eu matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre.”

Não se pode terminar o ano sem comentar um dos seus principais eventos: a tradução de Paulo Bezerra para Crime e Castigo (Prestuplenie i Nakazanie, 1866), o primeiro dos quatro romances supremos de Fiódor Dostoiévski (os outros são O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázovi).

Não que faltassem traduções poderosas do livro, como a de Rosário Fusco (do francês) e a versão portuguesa de Natália Nunes, que são as que eu já lera integralmente. Mas o grande tradutor colocou-se o desafio monumental de enfrentar o original russo de um texto que exige uma intensidade de leitura que talvez nem mais seja possível hoje em dia.

Pois quem já leu Crime e Castigo jamais consegue esquecer determinadas cenas, fora a atmosfera toda do romance, permeada pelo assassinato da velha usurária e de sua irmã. Por exemplo, quem consegue esquecer a cena em que Raskólnikov, na primeira visita em que faz à prostituta Sônia, inclina-se até o chão e beija seus pés, dizendo: “Eu não me inclinei diante de ti, eu me inclinei diante de todo o sofrimento humano”?

Algum outro autor que não fosse um Dostoiévski conseguiria partir o coração do leitor com uma cena tão potencialmente ridícula (e, aliás, não faltam elementos “ridículos” em todos os grandes textos dostoiévskianos)?

O mesmo Raskólnikov, muito tempo depois, na Sibéria, sofre o impacto da revelação do seu amor por Sônia (a quem tratava tão mal, apesar de ela ser a “representante viva do sofrimento humano”), ao olhar pela janela do hospital da prisão: “Ela estava em pé e parecia esperar algo. Nesse momento alguma coisa cortou o coração de Raskólnikov.” E do leitor também, por mais que lute contra essa emoção quase masoquista.

E o suicídio do inesquecível vilão psicológico que é Svidrigáilov (apaixonado por Dúnia, irmã de Raskólnikov), estourando os miolos e dizendo: “Para a América!”?

E as maravilhosas cenas que envolvem  Catierina Ivánovna (madrasta de Sônia), a personagem feminina mais marcante de um livro onde não faltam personagens marcantes? A reunião de exéquias do marido dela, a sua loucura pelas ruas de Petersburgo, e a sua morte (ela é tuberculosa) são momentos indescritíveis, que mostram bem a diferença entre ler uma cena genial e comentá-la.

Como Dostoiévski pode ter criado um Raskólnikov, um Svidrigáilov, um Porfiri Pietrovitch (o funcionárilo da Justiça russa que suspeita de Raskólnikov e atormenta-o em um jogo de gato e rato) e uma Catierina Ivánovna num mesmo livro?

É engraçado haver tanta gente que lê histórias “edificantes”, de “superação” (quando não religiosas), e Crime e Castigo, essa obra-prima da literatura, é o livro mais edificante e religioso já escrito.

Todo o processo narrativo consiste em humilhar o orgulho intelectual de Raskólnikov, que o levou a cometer um crime para verificar se pertencia à família dos grandes homens (a quem é “permitido tudo”), até que ele aceite com humildade a sua redenção através do amor cristão de Sônia (nas anotações sobre o romance, pode-se ler: “Não existe felicidade no conforto, a felicidade adquire-se em troca de sofrimento. O homem não nasceu para a felicidade”). É duro de engolir, é piegas, leitor, é isso que você está pensando? Experimente, então, ler impunemente o romance. Todos os julgamentos desse tipo ficam suspensos diante de Dostoiévski.

Por outro lado, Crime e Castigo revela, com terrível realismo, os mecanismos de uma sociedade opressiva, no sentido policialesco e autoritário. Sonhando em ser um Napoleão no seu cubículo, Raskólnikov só percebe o quanto é restrita a liberdade após cometer seu crime. Antes de Kafka, Dostoiévski mostra a engrenagem burocrática e jurídica que tolhe o movimento do indivíduo. É por isso que o livro parece ainda tão moderno e influenciou de maneira definitiva a ficção, inclusive uma das suas grandes tendências: o romance policial.

Raskólnikov, o Hamlet russo que no final é derrotado por sua Ofélia, ao contrário do ancestral dinamarquês, é também um personagem histriônico, como se seu drama se desenrolasse diante de um público. Esse aspecto teatral fornece um grande dinamismo aos livros de Dostoiévski (facilitado pelo fato de que poucas vezes os personagens conseguem ficar sozinhos—geralmente estão cercados por uma multidão, como a que se reúne no cubículo de Raskólnikov), e aqui nos acompanhamos verdadeiras performances, seja a de Marméladov (o pai de Sônia e marido de Catierina Ivánovna, bêbado contumaz que morre em conseqüência de um atropelamento), sejam as de Svidrigáilov, as de Porfiri Pietróvitch, e especialmente as de Catierina Ivánovna.

Ao teatro (Dostoiévski foi um grande fã de Shakespeare e parece ter tirado muito proveito disso) se une o folhetim: é o caso da grande cena, na qual outro vilão apaixonado por Dúnia, Lújin, acusa Sônia de roubo em meio às exéquias do pai dela. E pensar que o nosso público de hoje acredita encontrar emoções nos aborrecidos, amorfos e inúteis folhetins da tevê.

Teatro, folhetim, drama psicológico e metafísico, parábola de redenção mística, debate de idéias, painel social. É isso Crime e Castigo e a obra desse russo que viveu de 1821 a 1881: é apenas um pouco menos que a Bíblia.

05/12/2011

LUSCO-FUSCO, o CRIME E CASTIGO de Rosário Fusco

Dedico esse post a Denise Bottmann e seu admirável trabalho

Acesse: www.naogostodeplagio.blogspot.com

“…David fechou a porta com a chave… como se executasse algo premeditado há séculos…começou a esmurrar, no rosto da proprietária, todas as caras–homens, mulheres e crianças–que conhecia” (Rosário Fusco, O  Agressor)

“Era como um espírito sobrepairando a tantas miseriazinhas e sentia-se único e solitário (…) Revoltava-se ainda mais contra esses olhares porque o atingiam, na sua insatisfação de errático às vezes entregue a uma verdadeira volúpia de rebaixamento, acostumado às rameiras sem idade, como sem cara, acontecidas nas esquinas obscuras de sua vida. E lhe davam ainda maior consciência da sua abjeção física, fermentação de apetites e baixezas, igual à dos outros…” (João Alphonsus, O mensageiro)

No começo dos anos 80,  li Crime e Castigo, de Dostoievski, pela primeira vez. A Abril Cultural, àquela época, estava lançando a série “Obras-Primas” em edições caprichadíssimas quanto a capas, papel, lombada, tudo de primeira, e muito barato. A tradução era de Natália Nunes (a mesma que consta das Obras Completas pela Aguilar).

Em 2001, pela editora 34 apareceu a tradução de Paulo Bezerra, ao que consta a única direta do russo.

Entre uma e outra (“biquei” também nas minhas diversas e fragmentadas voltas ao livro a tradução de Luiz Cláudio de Castro, que saiu pela Ediouro), descobri nos sebos a edição que a José Olympio fez das obras de Dostoievski e creio que ali encontrei o “meu” Crime e Castigo, o de Rosário Fusco (sua tradução foi publicada, em primeira edição, em 1949;  tenho a edição de 1955, onde não se modernizara ainda a transcrição dos nomes russos, eles estão todos à francesa; mais tarde, em edições posteriores, Guimarães Rosa supervisionou a nova transcrição).

Quem é Rosário Fusco? Um grande nome do modernismo mineiro (nasceu em 1910 e morreu em 1976), membro do grupo que em Cataguazes manteve a revista “Verde”. Como ele está praticamente esquecido, ainda mais com esse nome exótico, devo dizer que só soube mais da sua existência e da sua obra quando estava estudando o modernismo mineiro para minha tese de doutorado sobre Autran Dourado. Há um capítulo nela chamado “O tamanho mineiro do modernismo”, em que estudo textos de Godofredo Rangel, João Alphonsus e Cyro dos Anjos e também comento algo a respeito de Fusco e Afonso Arinos. Para mim, durante anos, Fusco foi única e exclusivamente o esplêndido tradutor de nome insólito de Crime e Castigo. Na época em que escrevia a minha tese (final dos anos 90 e começo desta nossa década) era ainda muito refratário à Internet, praticamente não a utilizava, e meu método de pesquisa era muito pouco ortodoxo, um pouco guiado pela “música do acaso”. E essa música me fez encontrar, na biblioteca da escola onde dava aula, justamente um exemplar de O Agressor, de Fusco, numa obscura edição de 1976 da Francisco Alves. Um romance aliás todo dostoievskiano, mostrando a tensão crescente entre o protagonista David e uma dona de pensão autoritária, “disciplinadora”. Também li por essa época a obra de João Alphonsus e um de seus contos, O Mensageiro, apresenta o mesmo tipo de embate, com as mesmas características raskólnikovianas de oscilação entre o sentimento de onipotência e o auto-rebaixamento.

Sei que vou espantar e decepcionar os puristas e adeptos de traduções vertidas diretamente do original, mas a tradução feita do francês do grande escritor mineiro é, para mim,  a que melhor capta o espírito, mais que a letra, do romance mais famoso do grande autor russo. Há algo na cadência febril do estilo de Fusco, algo na sua fuliginosidade, que o aproxima mais do texto do que todos os esforços, mais que louváveis, decerto, do grande Paulo Bezerra (diga-se de passagem, é  bom que ambas as versões existam).

Pois bem, após o começo dos anos 80, meu Raskólnikov se tornou mais Fusco, e a Abril Cultural virou a Nova Cultural e foi aquela decadência… Eles volta e meia relançavam a série “Obras-Primas” mas sempre em edições progressivamente pioradas. A última versão então apresentava traduções suspeitíssimas assinadas por nomes que eu duvido que existam (ficamos menos crédulos e mais espertos graças à persistência e disciplina  de Denise Bottman e seu site  Não gosto de plágio). A última edição de Crime e Castigo apresentava outro deslize grave: ali não constava o nome do tradutor.

Agora em 2010, passando por uma banca, vi que tinham novamente lançado a série. Pensei: mais um ato de picaretagem. Mas resolvi arriscar (afinal, R$14,90!) e qual não foi a minha surpresa ao ver que, além da qualidade, dessa vez resgataram a tradução de Rosário Fusco. Eis o motivo desse meu post. Acho é um texto que faz parte do nosso patrimônio cultural, e que não poderia ficar soterrado pelas areias do tempo. É uma grande tradução, que acerta o centro, o coração do lusco-fusco em que se movimentam os tipos dostoievkianos.

Para o leitor ter uma idéia de cada uma das quatro traduções, e ver qual a que mais o atrai, vou transcrever  o início de cada uma delas.

A de Rosário Fusco começa assim:

“Numa dessas tardes mais quentes dos princípios de julho, um rapaz saía do pequeno quarto que alugara, no Beco S., dirigindo-se, o passo tardo, vacilante, para a ponte K. Teve sorte de não encontrar, na escada, a senhoria.

    A água-furtada fica no alto de uma casa enorme, de cinco andares, e parecia mais um armário do que um cômodo habitável. A criatura que lhe alugara o cubículo, com comida e serviço de empregada, morava, justamente, logo embaixo  de maneira que era obrigado, cada vez que saísse,  a passar pela frente da respectiva cozinha, cuja porta, geralmente escancarada, dava para a escada.  Nessa ocasião, sua expressão se contraía e vinha-lhe, sempre, aquela vaga sensação mórbida de pavor que o humilhava…”

A de Natália Nunes:

“Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K.

     Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugava, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar.E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e o fazia franzir o sobrolho.”

    A de Luiz Cláudio de Castro:

“Em um maravilhoso entardecer de julho, extraordinariamente cálido, um rapaz deixou o quarto que ocupava no sótão de um vasto edifício de cinco andares no bairro de S., e, lentamente, com ar indeciso, se encaminhou para a ponte de K.

     Teve a felicidade, ao descer, de não encontrar a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava sempre escancarada, dava para as escadas. Sempre que se ausentava, via-se o moço na contingência de afrontar as baterias do inimigo, o que o fazia passar pela forte sensação de quem se evade,  que o humilhava  e lhe carregava o sobrecenho.”

A de Paulo Bezerra:

“No cair da tarde de um início de julho,  calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na travessa S, ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.

     Saiu-se bem, evitando encontrar a senhoria na escada. Seu cubículo ficava bem debaixo do telhado de um alto prédio de cinco andares, e mais parecia um armário que um apartamento. Já a senhoria, de quem ele subalugava o cubículo com cama e mesa, ocupava um apartamento individual um lanço de escada abaixo, e toda vez que ele saía para a rua tinha de lhe passar forçosamente ao lado da cozinha, quase sempre de porta escancarada para a escada. E cada vez que passava ao lado, o jovem experimentava uma sensação mórbida e covarde, que o envergonhava e levava a franzir o cenho.”

Só uma observação: a tradução de Luiz Cláudio de Castro erra feio em usar termos como “maravilhoso” e “cálido” para esse entardecer de julho, uma vez que logo a seguir Dostoievski se esmera em dar um retrato quase apocalíptico do verão de São Petersburgo, no qual só encontramos os pobres, muitos deles embriagados, porque os endinheirados deixaram a cidade para suas residências de verão, fugindo do mau cheiro pestilento. Por isso, é muito difícil que, num lugar assim, o entardecer fosse “maravilhoso” e “extraordinariamente cálido”. É um lugar de pesadelo, apropriado para a andança febril do protagonista.

04/12/2011

SOBRE MENINOS E LOBOS: a sedução dos contos de Nilton Resende

“A nossa saída do casebre foi muito diferente de quando saímos de casa pela manhã; e a incerteza sobre o estado do Rei deixava-nos silenciosos. Não nos encarávamos, Luís não dirigia palavras a ninguém; nenhum de nós conversava. Pensei por um tempo se tinha ou não raiva por ele ter me repelido daquele jeito, mas ao fim, como a borra precipitada no fundo de uma xícara, restou-me uma estranha sensação de poder, de como agachado, choroso, ondulante e frágil, por trás de arbustos, mesas, cortinas, mas sempre me mostrando frágil, era assim que devia permanecer, amando o ofício  que desde sempre conhecia, o de portinhola, durante a caminhada, fui-me deixando ir atrás, para poder ver sem ser visto, e para poder decorar os contornos de Luís, que de costas lembrava-me o mesmo Luís que eu tinha visto quando se estirou na cerca e pulou nu e rodopiando, o pião mais belo que já vi…”  

(Nilton Resende, Ofício)

“Percebe que estivera parada tempo demais, emolduram-se rostos nas janelas dos carros, as pessoas já estão olhando, então espalma as mãos, levando-as ao rosto, à boca, ao buço, à base do nariz, espalmar de prece-petição. Os cotovelos apoiados no ventre, a boca semi-aberta e o passo largo, que agora já-já o semáforo irá fechar. E é preciso que haja pressa, um carro está buzinando, e ela assim, tão lerda, tão contida em uma concha. Algumas vezes fora quieta, sem necessidade de ser vista, mas hoje não. Não hoje, por favor!, que se transforma em pura expansão se tomada de imensa alegria, como pela manhã indo às compras. Expansão. Os braços em volta dos filhos, dos netos, do esposo, quando os tinha. Sorrisos em esboço para o outro, porque não se é dono da própria face; esta, quando não se está só, é de quem a vê…”

(Nilton Resende, Não é tempo de maçãs)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2011)

Diabolô, coletânea de nove contos que marca a estréia de Nilton Resende no gênero[1], apresenta tal força que já pode ser considerado um dos destaques entre os lançamentos deste ano.

Os dois textos que emolduram o livro, A ceia e A fresta, apresentam guris envolvidos em jogos perversos e ainda incompreensíveis para eles mesmos: no primeiro, há um duelo sub-reptício com o avô, com o menino fazendo maldades e delatando supostos abusos, até que os pais mandem o velho para um asilo; no segundo, enquanto os adultos se embebedam, a descoberta das delícias e as dores do voyeurismo.

O mundo da infância, segundo a ótica do talentoso escritor alagoano, é um repertório de códigos de desejos e segredos aprendidos e alimentados, à margem da educação “oficial”. Não há inocência, porque em algum momento a fresta se abriu, as tentações se apresentaram, e os lobos maus estão dentro de nós, já no latejar do sangue e no ritmo do corpo: “Põe-se na ponta do pé e espia por uma frincha da janela. O homem beija e alisa com a língua o joelho de uma mulher de pernas abertas, enquanto toca a mão nas carnes em meio aos pêlos, esfregando os dedos e forçando-os na entrada. Ainda mexendo cm os dedos, ele sobe a língua até os peitos dela e chupa-os. Deita-se, e a mulher coloca a mão no negócio dele, que está duro. O menino encosta-se na parede, pressionando o corpo e esfregando-se.”.

É o caso, emblemático, de A canção e a sombra, no qual o narrador—também um garoto—viaja com os pais para a fazenda da avó e lá é “iniciado” por uma “tia louca”, na verdade, um patético homem trancafiado pela família, como um segredo vergonhoso. Note-se, entretanto, que antes mesmo de conhecer o mistério da “tia”, o menino já pressente em si todo um território perigoso: ”Eu quis dormir, mas vi um rio que surgiu repentino, muito fino, ao lado dos mulungus. Não dava para ver se corria, ou se andava, mas antes me parecia uma superfície parada, um espelho acompanhando a cerca morta-viva. Na escola eu havia aprendido que os rios correm. E agora me surgia aquele tão calmo. Comecei a rir, já me preparando para gozar da cara da professora, mas engoli o riso: num ponto, o espelho se estilhaçou, fez uma curva e passou por entre as árvores, desaparecendo numa depressão. Ainda olhei para trás, mas não consegui ver aonde ia dar. Tive medo e resolvi que o melhor agora seria realmente dormir. Fechei os olhos, deitei-me estirado no banco e comecei a contar carneirinhos que logo se transformaram em mulungus de braços estendidos e cabeleira elétrica, correndo atrás do carro com as bocas abertas. Adormeci.”

Em todos esses contos, assim como nos igualmente ótimos Flamor[2] (eu gosto muito de Diabolô, inclusive do título escolhido para a coletânea, todavia um dos poucos reparos que tenho a fazer é por conta dos títulos de vários contos, nada sedutores[3]) e Casaram-se numa quinta-feira (texto cruel, onde o desejo de paternidade como afirmação plena de si consome um homem), Resende mostra-se um urdidor habilidoso, que sabe nos envolver com uma história bem tramada, afora seus recursos de linguagem, invejáveis.

Mas a face talvez mais autenticamente pessoal, mais caracteristicamente sua, parece estar nos dois textos mais longos, Não é tempo de maçãs e Ofício, a meu ver, os pontos altos de Diabolô, mesmo sem um acabamento perfeito ou clareza narrativa, em sua tessitura densa. São sobrecarregados, frementes, agregam muitas imagens nem sempre harmônicas, e no entanto têm um poder aliciante que mostra quão proveitoso foi o convívio intenso de Resende com o universo de autoras do naipe de Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles.

Em Não é tempo de maçãs, um narrador ardiloso relata o suplício de uma senhora que ia comprar roupa para o casamento do filho, ao ser desprezada por uma vendedora (que fala, à socapa, mas é ouvida, para as colegas: “Essa vaca não toma banho? Se for inventar de provar tudo, a gente vai ter que lavar a loja inteira. Ela fede a azedo…”) e que envenena empadas numa vingança que é mais uma auto-imolação.

Ofício mostra as brincadeiras de infância de um grupo de garotos que delineiam uma hierarquia sexual, uma aprendizagem de papéis estereotipados (“Afastei-me para pegar uma toalha. Quando ia voltando, vi o Rei discutir com Luís e Afonso, dizendo que era ´uma merda da porra´ eles ficarem  comigo ali, o pessoal ia ficar falando e eles iam levar fama sem  ter feito nada, se pelo menos eu fizesse ´o favor de dar o cuzinho, ele disse e encheu a mão no calção, dizendo ´olha aqui o que eu tenho pra ele´’); ao mesmo tempo, é de um erotismo impregnante.

É no equilíbrio tenso entre sua vigorosa veia narrativa e sua tendência  a ser “excessivo”, derramado, agônico, isto é, de liberar a linguagem quase que sem freios, num ritmo fluvial, que Nilton Resende poderá produzir uma obra singular. Apesar da presença marcante do homoerotismo, sua escritura foge tanto dos clichês e apelações da infausta “literatura de gênero” quanto do “típico nordestino[4]”. É prosa ficcional de primeira. Só fico esperando o que vem pela frente.


[1] Nilton também é homem de teatro (fez uma adaptação de Mário e o Mágico, um texto com um argumento  fascinante de Thomas Mann) e poeta (tem uma coletânea publicada, O orvalho e os dias), Além disso, tem blogs (ligados a todas esss atividdes artísticas):

www.trajeslunares.wordpress.com

www.ciaganymedes.wordpress.com

www.niltonresende-portfolio.blogspot.com

[2] Um trecho de Flamor:

“O moço olhou para trás e levantou a mão.

A moça pensou que fosse com ela e sorriu. Já indo levantar a sua mão, também, ensaiou uma corrida, quando um senhor a ultrapassou e foi ter com o rapaz.

Para não perder o gesto e a corrida no ar, procurou algo no chão, encontrou um ramo com uma flor e abaixou-se para pegá-lo. Levantando-se, e levando uma folha à boca, beijou-o como se fosse a barriga daquele moço.”

[3]  Curiosamente, os dois textos que menos aprecio (por uma questão de temperamento, não pela qualidade—tenho certeza de que serão elogiados e amados por outros leitores; como sempre digo,  não se pode gostar de tudo) têm títulos bacanas: Manual de como manusear & Balada da noite insone.

Um trecho do primeiro: “Seja forte, seja extremo, seja farpa. E se tudo isso dito é debalde, por ser úmido o teu rosto se se vê de frente ao outro; se ele treme, só em pensar nalgum toque; se a boca freme toda só de ver os outros lábios {…} e tualma, só em vê-lo, muito e toda se alarga—corre  aos montes, que é morte essa onda que se dobra caudalosa.” Só um autor de categoria (o que é o caso aqui) consegue utilizar termos como  “freme” sem cair no ridículo.

Um trecho do segundo (onde há um exercício à La Cântico dos Cânticos, a paródia verdadeira, a sério): “E então entrou à casa. E o sorriso que levava foi de chofre reprimido; e lhe perguntou o homem o que era aquele cheiro. E puxou-o para perto e cheirou-lhe o pescoço. E empurrou-o para o chão. E o outro levantou-se, gargalhando, que o cheiro era nada, fora tudo brincadeira, para ver como agia o amado se sentisse por acaso o perfume doutro homem permeando sua pele, pra testar o sentimento, uma prova de que tanto quando dito o amava.

      E a vela foi acesa. E as bodas, de festivas, transformaram-se em luto, que o homem, raiva e choro, levantou, para perto de seu rosto {…} E do homem, nunca mais se viu espectro, voz, perfume, riso, nada.”

[4] Outros que fogem do “típico nordestino” e que se destacaram nos últimos anos são Pedro Salgueiro e André Laurentino (autor do belo romance A paixão de Amâncio Amaro).

03/12/2011

A paixão de Amâncio Amaro: a bela estréia de André Laurentino

andré laurentinoa paixão de amãncio amaro 

   Um menino não consegue decorar seu próprio nome pois este, completo, ocupa três páginas inteiras do livro de batismo da matriz de Santana. Pior ainda: qualquer chamado que ouve é um susto, sempre pode ser para ele. Esse é um dos tantos motivos que o levam para lugares isolados dentro dos canaviais, onde em meio a intensas atividades masturbatórias, reconta e corrige os fatos biográficos da sua insustentável leveza de ser. São suas  “ilhas de vontade”: “Sem ter nem para quê, no susto, sem planejamento prévio, veio-lhe o pai a pedir perdão. Não sem antes tomar uma bela sova de um só golpe, que pôs o homem no lugar que lhe cabia, prostrado no chão. Outra vez não escaparam à imaginação de Amâncio os detalhes. Tão exatos que faziam tudo ser mesmo passível de verdade; que fariam até Deus se confundir sem saber se aquilo fora ou não fruto de Seus próprios desígnios…Tudo perfeito! Na calmaria dos partidos de cana o mundo era seu.”

     Amâncio sofrerá uma cruel queda desse paraíso artificial, cujo Verbo (“no início…”) talvez tenha sido o motivo que levou seu pai a criar uma pedra dentro de uma gaiola como passarinho fosse,  não um qualquer, e sim um passarinho específico.

    Os parágrafos acima procuram sugerir ao leitor, ainda que de forma pálida, a surpreendente criatividade e a esmerado trabalho de linguagem de A paixão de Amâncio Amaro. Não dão conta é do flexível enredo, que narra, em alternância, a história dos pais do protagonista, igualmente fraturados em sua identidade. Para se ter uma idéia: Culadinha, a mãe, tem um defeito descrito pelo povo como “olhos trocados” e que a torna muito feia. Mas ela encontra nos cacos de espelho (que passam a ser seu refúgio) o avesso da sua imagem e a perfeição: uma moça linda.

    Não se espere desse belo romance de estréia do pernambucano André Laurentino coronéis, quengas, jagunços, beatas, seca, disputa de terra, as receitinhas (das quais a tevê e o besteirol se apropriaram) habituais da ambientação nordestina.  Laurentino às vezes até faz lembrar os melhores aspectos das peças de Ariano Suassuna, mas sua Santana é muito pessoal, peculiar como só um universo literário que vem da intuição e da experiência pode ser.

    Os escorregões na qualidade do livro se devem justamente ao uso de truques e elementos derivativos, frutos dessa necessidade brasileira de manter o Nordeste no pitoresco: é o caso da habilidade fantástica do pai de Amâncio em se disfarçar (poste, pote d’água, por exemplo), da vingança de Exú contra ele, da febre por refrigerantes motivada por essa vendeta (eles viram remédios caseiros e afrodisíacos). São episódios divertidos, entretanto soam falso e acrescentam pouco à dicção renovadora que A paixão de Amâncio Amaro traz a um terreno do qual já não se esperava nada nesse sentido: o regionalismo, mais especificamente o nordestino, o qual finalmente dá mostras de ressurreição, como se pode verificar também nas obras de Maria Valéria Rezende, Vasto Mundo e O vôo da guará vermelha.

    O legítimo talento de Laurentino está em esboçar com perícia a paixão que já foi de Cristo, já foi de G.H. e agora  também é a do seu herói: “Estava outra vez sozinho no canavial. Mas de um jeito diferente, muito distinto daquele em que, naquele mesmo lugar, era senhor de si e das coisas…Desejava o poder de sumir, mas calhou desta vez de desejar sem poder. As coisas que pensava não aconteciam.

    Tudo o que a vida tem de dissolvente e evanescente crucifica Amâncio Amaro, contudo o alto quilate revelado pela linguagem do seu criador acaba resgatando-o e  tornando-o bastante palpável para nós, que vivemos paixão similar, embora com menos nomes. Ou talvez todos os nossos nomes, juntos, sejam o dele também.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, de forma um pouco mais condensada, em 07 de abril de 2007)

ENCRUZILHADA DE BECOS PARA PORTUGAL

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de maio de 2011)

“Talvez ir para a França fosse uma espécie de guerra, talvez estivesse a ir no sentido de tudo aquilo de que queria fugir. Para onde ia? Subitamente, a vida parecia-lhe uma encruzilhada de becos”.

“A Adelaide pensou que aquele papel faria a viagem contrária à que ela própria tinha feito. Talvez a tia pousasse o envelope sobre o balcão da loja, talvez o pousasse sobre a mesa da cozinha, haveria de fazê-lo certamente. Deu consigo a sentir falta do balcão da loja e da mesa da cozinha, onde pousou os cotovelos tantas vezes. Ali, numa rua francesa, feita de cores diferentes e de materiais diferentes, pareceu-lhe estranho que ainda existisse esse lugar de cigarras no verão, inconcreto como o dia anterior, como o mês anterior, o ano anterior, a infância. Mas, sim, aquele papel haveria de chegar a esse tempo, aquelas palavras haveriam de chegar ao que foi e, no seu íntimo, continuava a ser”.

Portugal pode estar em recessão, sua literatura não: a cada obra que leio de José Luís Peixoto mais me convenço de que ele é o grande autor surgido neste novo século, ao menos no âmbito da nossa língua. Se ainda restasse alguma dúvida, teria sido dissipada por seu último romance, Livro (Portugal, 2010), com o qual fechou sua primeira e gloriosa década de carreira, abordando  o mais clássico e batido dos temas: o desencontro entre um jovem casal enamorado. Mais ainda, o desencontro com a própria terra natal.

Ilídio e Adelaide são jovens de uma cidadezinha nos cafundós lusitanos. Apaixonam-se. Por conta disso, a tia dela, Lubélia, que não aprova o namoro e é amarga e ressentida, a envia à força para a França (ainda na época de Salazar, com caravanas constantes e clandestinas). Ilídio emigra para encontrá-la (a narrativa das duas viagens é extraordinária nessa prosa tocada pela “nitidez de todas as arestas”), acompanhado do amigo Cosme, que foge do recrutamento militar.

Residindo no mesmo país, suas vidas permanecem paralelas (um pouco por conta das artimanhas de Lubélia, um pouco por conta do destino, um tanto pelo próprio temperamento de ambos). Ela chega a casar-se com outro português, Constantino,  que recebe da mesada da família e alimenta sonhos esquerdistas (fomentados pelos acontecimentos revolucionários dos anos 60).

De Ilídio, Adelaide guarda o mais insólito dos talismãs (já que nenhum dos dois é o que se pode chamar de letrado): um livro, que nunca saberemos qual é. Entretanto, o filho dela chamar-se-á Livro. E português nascido na França, voltará ao país da mãe, para viver (com ela, que terá a grande chance de se acertar com Ilídio) na aldeia, após atropelar sem querer (e fugir) uma conterrânea incauta nas ruas de Paris. E embora não saibamos qual é o livro-tesouro amoroso de Adelaide, teremos diante dos olhos o livro que Livro escreve e que talvez seja o livro que estamos lendo…

Apesar do jogo metalingüístico e da pós-modernidade que vai se impondo em Livro, mais uma vez Peixoto surpreende com seu raro olhar sobre o universo camponês ou pelo menos a mentalidade “camponesa” que permaneceu latente até mesmo em portugueses citadinos, embora cada vez mais em refluxo, evidentemente. Não há nada mais bonito do que o estilo do autor de Cemitério de pianos e Uma casa na escuridão, e ele se mostra especialmente inspirado e certeiro na evocação de uma atmosfera que pareceria, a princípio, para um autor tão jovem (nasceu em 1974) e de aparência e  atitude tão “modernosa”, remota e arcaica.

Com Livro, aliás, matei a charada do feitiço que seus textos provocam em mim: sempre me senti meio agente duplo, pois gosto tanto de autores onde o mundo material aparecia em sua plenitude, e a narrativa é fortemente ancorada na “realidade factual”, como de autores onde a insubstancialidade do mundo é a tônica, e somos levados de roldão numa tabula rasa do que seria o real e o concreto.

As vidas de Ilídio e Adelaide vão ficando cada vez mais frágeis e fantasmáticas na França, e Livro é um personagem confrontado com a própria condição insubstancial. Ele não pode ser como a velha Lubélia, sobre a qual lemos: “… acreditava que era por isso que, com quase trinta anos, quando já tinha desistido de casar, aceitou trabalho naquela vila. Foi tomar conta de uma velha sozinha e amarga. Nunca gostou da velha, mas herdou-lhe a loja e encontrou nela um exemplo da própria amargura (…) Por costume, amaldiçoava cada grão daquela terra, mas era ali que pertencia. Sentia paz quando fechava os olhos e, para lá da inveja, desprezo e ódio que alimentava por um grupo vasto de pessoas, sentia uma certa comunhão com aquele lugar. Sabia o nome de todas as ruas, becos e travessas. Sabia de cor o nome completo de todas as pessoas adultas da vila”.

Todavia, num incrível feito, o mundo material avulta mesmo assim em Livro, daí as cenas inesquecíveis do menino (Ilídio) que é abandonado pela mãe e fica à sua espera interminavelmente à beira de uma fonte contaminada, até desistir, e procurar aquele que será seu pai simbólico (Josué); as já referidas cenas de emigrantes em jornada clandestina para a França; a casa de um dos companheiros de Ilídio, com um irmão inválido física e mentalmente, e uma coorte de pombas esvoaçando em meio à escuridão e ao cheiro da pobreza, quase da miserabilidade. E também a solidão de Adelaide na França, trabalhando como faxineira numa casa de família e também numa biblioteca (onde conhece Constantino e tem início uma insólita forma de paquera), e mais ainda como mulher casada, não compreendendo e não sendo compreendida pelos amigos engajados e “inteligentes” do marido.

E no final o mundo rural português, apesar de tão entranhado nas personagens (até naquele que ali não nasceu) é atropelado pela modernidade  pós-industrial como uma velha incauta na rua.

Acho que ninguém acertou mais na mosca do que o escritor angolano José Eduardo Agualusa quando afirmou que o universo de José Luís Peixoto era luminoso e ao mesmo tempo tristíssimo, “ou seja, absolutamente português”: “O Josué vinha a teimar consigo próprio quando entrou na Rua de São João. Setembro podia acabar, o telhado do jazigo estava quase pronto e o Josué tinha pressa de envelhecer um pouco mais. Dentro de poucos anos, talvez se pudesse sentar no terreiro, ao lado dos homens que não esperavam por nada”.

01/12/2011

Destaque do Blog: o sertão kafkiano de Pedro Salgueiro (“Inimigos”)

“Na verdade, antes de mim, jamais se ouviu um relato confiável a respeito desses supostos inimigos…”

(trecho de A grande fogueira)

( uma  versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2011)

Em 2006, em Dos Valores do Inimigo, Pedro Salgueiro fez uma seleção entre os textos curtos que publicara até então (nas coletâneas O Peso do Morto, O Espantalho e Brincar com Armas). O conjunto assinalava um escritor de admirável sobriedade e controle da narração, sintético e cheio de lampejos brilhantes, mas traia igualmente certa timidez narrativa (que se sobrepunha ao talento imaginativo), poucas vezes indo até o fim do que sugeria com suas histórias. O adjetivo “curto” para os textos era tanto índice de qualidade quanto de limitação[1].

Essa oportunidade de rever seu percurso anterior permite valorizar ainda mais o salto que Inimigos, uma das obras de ficção mais notáveis publicadas no Brasil dos últimos anos, representa. Salgueiro utilizou alguns dos incluídos na antologia citada, juntando-os a outros (num total de 20) de altíssimo nível,  criando uma tessitura  ao mesmo tempo cerrada e porosa, que faz do conjunto de contos  um livro tão “pensado” como  tal que cria o efeito de um romance (uma mistura ainda muito rara, cujo antepassado mais ilustre aqui no Brasil é Vidas Secas, mas que tem outros grandes representantes como O risco do bordado, de Autran Dourado), e nos propondo uma idéia de sertão completamente desvinculada de quaisquer clichês ou personagens “típicos”. Um sertão minimalista.

As histórias se referem a Papaconha, povoado cuja inquietante característica é não ser fixo. Segundo o que corre no sertão, seus habitantes são os “inimigos” que estão sempre de mudança, aproximando-se, e podem chegar e invadir a região (um processo que leva gerações): “O boato corrente na região dava conta da existência de um povo estranho, que pretendia invadir e saquear todos os lugarejos, escravizar seus homens, aproveitar-se de suas mulheres e comer suas criancinhas. Mas a distância que os separava era tanta que, se um bando deles se dispusesse a andar até os vilarejos, certamente morreria no caminho, e as poucas crianças que porventura os acompanhassem chegariam tão velhas que nem forças teriam para contar as histórias do percurso”. Por isso, dissemina-se um sentimento de expectativa, de angústia, de fim de mundo, “esse medo que nos consome desde o começo dos tempos”.

Há quem acredite (como o narrador de Um Batedor) que infiltrados de Papaconha ocultem-se entre os moradores locais—e os “inimigos” podem estar entre quem menos se espera, como a esposa de  Fronteira (o marido “cavou trincheiras no jardim e montou um observatório no galho mais alto da ingazeira do quintal”, nem se dando conta de que o adversário “se infiltrara há muito tempo em sua guarda, já organizava junto com ele as mil situações de defesa, sussurrando em seu ouvido opiniões absurdas, desfocando lentes, cuspindo debochado no assoalho da sala enquanto ganhava a sua confiança. Se não olhasse para tão longe já o teria visto, de sorriso maroto, destampando as panelas do fogo).

Há quem se sinta forasteiro e “inimigo” como o narrador de Descoberta, ou nostálgico, como o de Madrugada (um daqueles textos anteriores, nos quais a intuição certeira do grande escritor cearense identificou as marcas desse universo de valores em choque, sem que possamos decidir qual é o lado “certo”); há quem se perca pelo mundo e acabe em povoados que podem ter a marca de Papaconha, e de qualquer forma são quase experiências com alienígenas, como os narradores de Aleine, A grande aventura e Perdido.

O peculiaríssimo universo sertanejo de Pedro Salgueiro, a ambivalente tensão que estabelece entre os pólos do atraso e da modernização, nos remete às parábolas e fábulas de Kafka como, por exemplo, Uma mensagem imperial ou Um médico rural[2], um mundo onde as pegadas morais se apagam, as certezas se dissolvem, a realidade se torna ameaçadora (e muitas vezes cômica), como se também nos perdêssemos por trilhas inesperadas, sem que haja um único elemento sobrenatural, como experimenta o marido atrás da esposa desaparecida: “De repente, um medo tomou conta de mim… e disparei na mais apressada carreira de que as minhas pernas foram capazes… Corri a madrugada inteira, subi e desci serras, encontrei nova estrada—sempre me afastando. Hoje não me arrisco a perguntar por Aleine, apenas observo disfarçadamente os rostos femininos em meio à multidão. Não olho muito para não despertar suspeitas, pois sei que—enquanto eu a procuro—muitos fariam de tudo para me impedir de chegar a ela”. Tudo e todos se tornam estranhos e absurdos. E a linguagem brilha,  absolutamente irretocável, nessa obra-prima (acho que já dá para arriscar essa avaliação ousada) da nossa literatura atual.

TRECHO SELECIONADO

“Foi assim de repente, quando menos se esperava (em plena tarde morna) o sol tornou-se pálido, para sumir logo em seguida. O povo ainda não havia acabado de se assustar—ouvimos no meio da escuridão um bater de asas atravessando o vilarejo, como se um bando de pássaros saísse em revoada. Um pouco antes de os moradores da vila abandonarem suas casas em grande alvoroço, os bichos já alarmavam o acontecido: galinhas cacarejavam, galos cantavam em desespero, porcos fugiam pelas ruas atropelando as pessoas…

    O relógio do mundo parecia ter sido alterado, os sons se intensificavam mais e mais; e não havia quem não gritasse ou corresse de um lado para o outro. Mulheres procuravam seus maridos, mães chamavam pelos filhos, ninguém se entendia.

    Alguém com voz desesperada anunciou  o fim do mundo: suas palavras ecoaram  em outras bocas, e o que se ouviu depois foi um desfiar de rezas e choros. Os mais agitados gritavam o nome de Deus, pedindo ajuda; outros sussurravam um padre-nosso em meio  ao soluço intenso. A maioria andava de um canto a outro feito barata tonta.

    (Estávamos apreensivos desde a semana anterior ao acontecimento, quando a chegada de três grupos de forasteiros fez com que todos saíssem para as ruas e corressem, admirados, atrás dos automóveis, que pela primeira vez cortavam a poeira de nossas ruas. Das três equipes somente uma falava de maneira compreensível, as outras duas apenas trocavam entre si uns mungangos. De início se instalavam na praça da matriz, armaram barracas de lona e começaram a abrir grandes caixas trazidas nos automóveis […] Com uma semana todos os aparelhos já estavam montados, grandes canhões apontavam, de diversos cantos da praça, para o céu. Os mais entendidos da vila, fingindo compreender as explicações dos invasores, tentavam acalmar a maioria, que permanecia apreensiva com tudo aquilo. Antes que os moradores dos povoados se acostumassem com os visitantes e suas extraordinárias maquinas de apontar para o céu, o mundo escureceu pela primeira vez às três da tarde.)

    Mas também de repente, como tinha escurecido, começou a clarear […] Na praça, os estrangeiros davam pulos de alegria e estouravam garrafas de espuma […] os que falavam melhor tentaram, em vão, explicar aos curiosos o que havia acontecido […]  porém não souberam explicar de onde surgiu e para onde foi o imenso pássaro que sobrevoou a vila na escuridão.

    No mesmo dia desmontaram os aparelhos e foram embora…”

(de A passagem do dragão)


[1]   Já não tenho mais essa opinião.  A leitura de Pedro Salgueiro, aliás, está me demonstrando mais uma vez como é interessante e absorvente acompanhar a “evolução”, por assim dizer, de um determinado universo criador. No momento em que escrevi a espinha dorsal do texto acima, não havia lido nem O peso do morto nem Brincar com armas, cuja leitura modificou consideravelmente os dados. A obra de Salgueiro é um pouco como a sua cidade de Papaconha: nunca fixa, sempre movente, e inquietante.

[2]  Discordo, nesse ponto, de  Miguel Sanches Neto, o qual escreveu um simpático posfácio à edição da 7 Letras (Coleção Rocinante, 2007), em que afirma: “Se fosse para eleger um parentesco literário, poderíamos dizer que a vila dos contos e a cidade móvel chamada Papaconha […] são desdobramentos das orbes fictícias de Italo Calvino (As cidades invisíveis), o que significa dizer que elas guardam as mesmas latitudes imaginárias, funcionando mais como  metáforas do que como pontos em um mapa.” A meu ver, isso passa longe do coração do universo de Salgueiro, uma vez que—sem ser menos profundo ou complexo—o universo de Calvino tem uma benignidade, uma deliberada leveza, uma transparência, muito pouco afins de Papaconha e das vilas que aparecem em Inimigos, mais próximas de Kafka, de José J. Veiga e Juan Rulfo, com um sentido mais trágico e “pesado” da existência.

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