MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/12/2011

DESTAQUES DE 2011 (primeira parte)

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 11:25
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(publicado, de forma mais condensada e sem notas de rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 27 de dezembro de 2011)

Arrolo, aqui, destaques entre as novas traduções de livros importantes (foram muitas), até como uma homenagem ao trabalho dos tradutores: é preciso enfatizar como é essencial para o leitor de um país a existência de legítimos (e em tantos casos, apaixonados) profissionais?

Claro, é preciso advertir: não se pode ler tudo nem gostar de tudo, sempre digo que as minhas listas refletem os limites de uma experiência pessoal, e as lacunas são inevitáveis. Assim, por exemplo, em 2010 deixei escapar a tradução de Francis Petra Jansen e a maravilhosa edição da CosacNaify paraO Outono da Idade Média (1919), o magistral estudo do historiador holandês Johan Huizinga1. Mas fica a dica.

De saída, a mais festejável entre as versões recentes foi a de Bruno Gambarotto (Ed. Hedra) para Folhas de relva- Edição do Leito de Morte, que permite ao leitor brasileiro ter acesso à organização final que Walt Whitman deu à maior e mais original obra—na área poética—do continente americano, de forma rigorosa e confiável.

Também se destacaram, sem qualquer ordem hierárquica (e desculpem os comentários genéricos):

Guerra e Paz (CosacNaify)- Rubens Figueiredo traduziu diretamente do russo o maior de todos os romances e a editora arrasou no aparato gráfico (só não o considero o maior lançamento do ano porque já havia boas traduções, mesmo que indiretas, como a de João Gaspar Simões, e a comparação entre as traduções  deixou isso mais claro);

Divina Comédia (Ateliê/Unicamp)- Uma das mais bonitas edições nacionais do monumental poema cosmogônico-florentino de Dante, na tradução de João Trentino Ziller, com desenhos de Sandro Botticelli. E bilíngüe ainda por cima.

Odisséia– O poema épico fundamental do Ocidente ressurgiu em duas novas versões, uma delas ousada e polêmica (de Trajano Vieira, para a Ed.34) e outra mais “certinha”, de Frederico Lourenço para a coleção de clássicos da Penguin/Companhia. É um prazer comparar as duas;

O Eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos (1923-1925)– A Companhia das Letras e Paulo César de Souza prosseguem na publicação de uma nova versão das Obras Completas de Freud, em vinte volumes (em ordem não-linear). Esse volume 16 contém alguns dos mais seminais textos freudianos, incluindo sua admirável autobiografia.

O Clube do Suicídio e outras histórias (CosacNaify)- importantíssima seleção de alguns das mais paradigmáticos e geniais textos curtos de Robert Louis Stevenson. Tradução de Andréa Rocha.

A letra escarlate (Penguin/Companhia)- Há décadas não aparecia uma tradução do grande romance norte-americano, um mergulho sobre o empedernimento puritano. Tradução de Christian Schwartz2.

Vida e Proezas de Aléxis Zorbás (Ed.Grua)- Versão direta do grego (por Marisa Ribeiro Donatiello & Silvia Ricardino), finalmente, do famoso elogio de Nikos Kazantzakis à vitalidade, que deu origem a um clássico cinematográfico de Michael Cacoyannis, falecido em 2011 (filme no qual o grande Alan Bates está inesquecível).

Vinte mil léguas submarinas– linda edição da Zahar com as ilustrações originais para o muito amado clássico de Jules Verne (que rendeu uma bela interpretação do grande James Mason no cinema), em tradução mais arejada de André Telles.

Sobre a revolução (Companhia das Letras)- O magnífico ensaio de Hannah Arendt (publicado aqui no Brasil no final dos anos 80) sobre os descaminhos dos processos revolucionários, com sua eloqüente demonstração de que o grande desafio da humanidade é o exercício da liberdade,  ganha uma nova e bela tradução de Denise Bottmann.

Origem do drama trágico alemão (Autêntica)- Uma versão surpreendente do português João Barrento (a anterior e pioneira, de Sérgio Paulo Rouanet, saiu em meados dos anos 80) para o estudo revolucionário do grande amigo de Hannah Arendt, Walter Benjamim, que entrelaçou teoria literária, história e filosofia e criou conceitos utilizados até hoje pela crítica.

Herzog (Companhia das Letras)- Enfim, após décadas, uma nova tradução (de José Geraldo Couto) da obra-prima que confirmou Saul Bellow como o provavelmente mais notável romancista da 2ª. metade do século XX nos EUA. Em tempo: que capas horrorosas essas da Companhia para os livros de Bellow!

O duplo (Ed.34)- Embora considerado um Dostoiévski menor, esse texto da juventude (foi seu segundo romance) é uma ótima introdução ao seu universo febril e visceral, em tradução direta do russo de Paulo Bezerra.

O olho (Alfaguara)- Outro caso de texto considerado menor, e no caso lançado no Brasil numa obscuríssima edição, que tentava vendê-lo como livro policial (como O olho vigilante). Trata-se de um dos primeiros textos de Vladimir Nabokov e, assim como outros recentes relançamentos nabokovianos (caso das obras-primas A verdadeira vida de Sebastian Knight & Lolita), traduzido pelo experiente José Rubens Siqueira.

Peter e Wendy seguido de Peter Pan em Kensington Gardens (L&PM)—A tradução de Rodrigo Breunig traz de volta o menino que não queria crescer. O primeiro romance, que se originou de uma peça, e que é conhecido no mundo inteiro (no Brasil, com a clássica versão de Monteiro Lobato) comemorou seu centenário em 2011.

Fiquei tão decepcionado com O sonho do celta, o mais recente Vargas Llosa que até esqueci que a Alfaguara vem publicando novas traduções de suas obras, e neste ano foi a vez do esplêndido Lituma nos Andes, talvez sua última obra-prima até agora, em tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman.

Por último, mas não menos importante, embora não sendo uma nova tradução, todos concordarão comigo que a nova edição de Angústia (Record), comemorativa dos 75 anos do extraordinário romance de Graciliano Ramos, tem que estar nesta lista, mesmo como hors concours. É a roupagem que um dos melhores textos da nossa literatura merecia.

 

1 A minha desculpa é que não o tinha visto ainda nas livrarias até o início deste ano. Por princípio, não recebo regularmente livros de editoras (para não criar um círculo vicioso, aquela obrigatoriedade de comentar um livro porque está sendo lançado naquele momento). É perambulando por elas que fico sabendo o que sai, geralmente.

2 Há vários títulos dessa coleção de clássicos que a princípio mereceriam menção, entretanto alguns deles já têm diversas traduções recentes (caso de Orgulho e Preconceito, Ilusões Perdidas & Outra volta do parafuso) e não queria inflacionar minha lista.

4 Comentários »

  1. […] a do jornal espanhol El País e a de Alfredo Monte, diretamente do seu blog em duas partes (parte I e parte […]

    Pingback por Links e Notícias da Semana #69 — 30/12/2011 @ 13:01 | Responder

  2. Admirável sua lista. Só discordo integralmente com a menção de que a tradução do Rubens Figueiredo para Guerra e Paz tenha outras “indiretas” que lhe ombreem. Para mim, todas aquelas traduções do francês são horríveis.

    Abraço.

    Comentário por charlles campos — 11/01/2012 @ 5:29 | Responder

    • Pois não me fizeram mal nenhum, muito pelo contrário (tirando a de Oscar Mendes). Tanto que, embora admire intensamente o trabalho de Rubens Figueiredo, não senti que sofri nenhum prejuízo considerável por não ter lido uma tradução direta do russo nesses v20 e tantos anos que sou leitor do romance.
      Obrigado pelo comentário.

      Comentário por alfredomonte — 11/01/2012 @ 14:54 | Responder

  3. […] listar as traduções que mais se destacaram no ano de 2011, Alfredo Monte, em seu Monte de Leituras, fez uma lista com os lançamentos que mereceriam destaque […]

    Pingback por destaques de 2011 : lançamentos « trajes lunares — 13/02/2012 @ 18:05 | Responder


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