MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/12/2011

O labirinto do puritanismo e do empedernimento do espírito: “A LETRA ESCARLATE”


 

(o que se lê abaixo é a combinação de duas resenhas, ambas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos: uma, em 05 de dezembro de 1995; a outra, em homenagem aos 150 anos do livro, em 25 de abril de 2000)

Alguém em Hollywood impressionou-se talvez com o sucesso do estapafúrdio O piano (uma das maiores abobrinhas já vistas nas telas) e pensou: por que não filmar A LETRA ESCARLATE (The Scarlet Letter, 1850), um dos romances mais geniais da literatura, geralmente considerado a maior obra de ficção dos EUA? Afinal, nele também aparecem roupas pretas, uma mulher que luta contra as convenções e os homens, puritanismo e hipocrisia vs. desejo, e indígenas por perto.

Por desgraça ou castigo dos céus, a tarefa coube ao ridículo Roland Joffé, que já cometera atentados como Os gritos do silêncio, A missão, Cidade da esperança. O resultado é um samba do crioulo doido, uma hecatombe de ruindade, versão picaretíssima e demagógica, certamente um dos piores filmes da década, com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall em caracterizações que nada têm a ver com o espírito da história criada por Nathaniel Hawthorne.

Esqueçamos o horror, o horror cinematográfico. O livro se inicia em Boston, no século XVII, com o castigo infligido a Hester Prynne, enviada à América pelo marido, homem bem mais velho e pelo qual esperou em vão por longo tempo. Engravida e é presa. Exposta em praça pública, recusa-se a revelar o nome do cúmplice e é obrigada doravante a carregar no peito a letra A de adúltera.

Justamente no dia em que é marcada dessa forma,aparece seu marido, que exige dela silêncio sobre sua identidade e passa a atuar como médico, com o nome de Roger Chillingworth. Seu objetivo: descobrir a identidade do amante de Hester e vingar-se dele. Sua vítima é o reverendo mais querido da cidade, Arthur Dimmesdale. Chillingworth torna-se seu amigo íntimo, passa a dividir casa com ele e assim inicia-se uma trama que abrange anos de torturas psicológicas e dilemas morais.

Pode-se ler A LETRA ESCARLATE sob esse prisma de discussão a respeito da moralidade convencional e puritana. Já na impactante (só ela já valeria a leitura) Introdução à sua obra-prima, Hawrhorne investe de forma dissolvente contra o conservadorismo paralítico e a mediocridade da Nova Inglaterra. Há, no livro, uma visão ácida, embora ambígua em sua crítica, do puritanismo enquanto empedernimento religioso, sufocando as possibilidades da América como o tão apregoado Novo Mundo.

No entanto, o triângulo Chillingworth-Hester-Dimmesdale e mais a menina que surge da união ilícita entre os dois últimos, Pearl (que o leitor brasileiro só encontrará com seu nome original na tradução de Sodré Viana, publicada pela José Olympio; as duas outras traduções que conheço, a de Elaine Farhart Sírio, pelo Círculo do Livro, e a de A. Pinto Carvalho, a única encontrada nas livrarias no momento1—na sua edição pela Ediouro, tendo sido lançada originalmente na antiga Coleção Saraiva—apresentam-na como Pérola), oferecem mais ao leitor atento.

Tal como O morro dos ventos uivantes, Moby Dick ou os contos de Poe, A LETRA ESCARLATE transcende o Romantismo convencional e projeta-se dentro da nossa época com uma surpreendente modernidade: através do aprisionamento mental do casal Hester-Dimmesdale à sufocante Nova Inglaterra do século XVII, o leitor vai percebendo coisas mal resolvidas dentro do coração humano (não é à toa que Dimmesdale liga-se à Chillingworth), que inconscientemente fazem com que procuremos o sofrimento ou laços que nos angustiam.

Hester poderia ir para outro lugar, outro continente, mas prefere ser a mulher da letra escarlate (como, mais tarde, outra personagem marcante preferirá ser a mulher do tenente francês, a figura feminina mal falada de outra cidadezinha): “…existe uma fatalidade, um sentimento que se impõe a nós, irresistível e inevitável, que quase invariavelmente compele os seres humanos a freqüentar e a rondar, como almas do outro mundo, os locais onde algum notável acontecimento influiu de modo decisivo em suas existências… O pecado e a ignomínia de Hester eram as raízes que a apegavam ao solo. Foi como um segundo nascimento, com maior poder de assimilação do que o primeiro, houvesse convertido a terra das selvas, com a qual outros peregrinos e imigrantes ainda não se tinham compatibilizado, em lúgubre e fatídico lar onde essa mulher transviada tinha de passar os restantes dias de vida…”

Esqueça-se o antiquado da linguagem, embora ela tenha a ressonância da retórica bíblica que faz da grande literatura norte-americana (e William Faulkner, para não falar de Herman Melville, é o maior exemplo disso) um assombro de beleza. Atente-se para a capacidade de escavar as motivações do ser humano, capacidade que torna um dos capítulos mais famosos e extraordinários do romance, O ministro no labirinto (que já foi traduzido também como O ministro confuso, por Farhart Sírio, e como O pastor no labirinto, por Sodrá Viana2), um dos grandes picos na região da sondagem psicológica. E pensar que em 1850, aqui no Brasil, os leitores tinham Joaquim A moreninha Manoel de Macedo para fazer frente à trinca norte-americana Hawthorne-Poe-Melville. Mas nos vingaríamos de forma avassaladora, décadas depois, com o riso de escárnio vindo do Além que povoa as memórias póstumas de Brás Cubas. Antes tarde do que nunca.

 

Adendo- O final acima segue a resenha de 2000. Na de 1995, era assim: Teríamos que aguardar ainda, em matéria de escavação do essencial, por Machado de Assis. Talvez o lado positivo da telenovelesca (a)versão de Joffé para A LETRA ESCARLATE seja fazer o leitor entrar em contato com um autor que escreveu outras coisas geniais, como o romance A casa das sete torres e contos como Os retratos proféticos e O véu negro do ministro.

1 Nota de 2011- A Companhia de Letras (em associação com a Penguin ) lançou, enfim, uma nova versão do romance neste ano, em tradução de Christian Schwartz; nela encontramos também Pearl. A tradução de A. Pinto Carvalho foi lançada também pela Matin Claret.

   Quanto ao filme de Joffé, ele só existe para mim, atualmente,  em associação mental  á engraçadíssima sátira ao Oscar e à loucura de ser indicado, realizada por Christopher Guest em For your consideration (2006), um dos melhores filmes dos últimos anos. Apesar de os “alternativos”–filme e atrizes—não conseguirem a indicação, nós conhecemos  os oficialmente indicados, e um deles é uma produção chamada, impagavelmente, de  O orgulho do rochedo de Plymouth, que resume o espírito dos filmes à  Joffé.

 

2 Na edição recente, foi traduzido como O pastor num labirinto.

10 Comentários »

  1. Olá, Alfredo.

    Sem querer encher o seu saco, mas você não teria também umas resenhas de Saul Bellow por aí? É que eu estou interessado no Herzog dele.

    Comentário por Bruno Marcondes — 19/12/2011 @ 15:31 | Responder

    • Nunca escrevi sobre “Herzog”, que considero uma obra-prima, assim como “O legado de Humboldt” e “O planeta de Mr. Sammler”, mas na minha coluna de A TRIBUNA o incluí na lista de 100 maiores romances do século XX, na virada so milênio.
      Aqui no blog, há comentários sobre três livros do Bellow: a coletânea de contos “Trocando os pés pelas mãos”, sobre a novela “The actual”, intitulada no Brasil “Presença de mulher”, e sobre o romance “Ravelstein”.
      Abração, Bruno.

      Comentário por alfredomonte — 21/12/2011 @ 15:06 | Responder

  2. a letra escarlate é um fenômeno mesmo; vou reler! não detestei tanto o filme quanto vc, mas de fato não chega mesmo aos pés do livro… (a da claret não é a tradução do sodré viana?)
    fico curiosa com esse a. pinto de carvalho pela saraiva. há um tradutor até bem conhecido, antônio pinto de carvalho, que era professor em assis nos anos 1950, se não me engano; até meio latinista, mas traduzia basicamente filosofia – kant, hegel, aristóteles – e sempre por intermédio do francês; fez um homero tb. engraçado…

    Comentário por denise bottmann — 20/12/2011 @ 13:49 | Responder

    • Eu só vi o filme uma vez, talvez passado o impacto da vez em que o assisti na telona, teria outra visão, mais divertida. É que me pareceu um tal desperdício do Oldman e do Duvall (principalmente do primeiro, por quem tive um longo período de admiração irrestrita, acho que já conversamos sobre isso), e acho o diretor tão medíocre, que fui cruel.Nem era para tanto.
      Acho “O piano” até pior porque mais pretensioso.
      No meu texto, coloquei que a tradução publicada pela Martin Claret é a do A. Pinto de Carvalho.
      Abração, e obrigado.

      Comentário por alfredomonte — 21/12/2011 @ 15:01 | Responder

  3. está muito estranha essa história, alfredo. o círculo do livro nunca, jamais funcionou editorialmente, isto é, não tinha a etapa da tradução; fazia apenas a parte de impressão gráfica (e olhe lá) e distribuição no sistema domiciliar e de bancas. apenas licenciava junto a outras editoras o direito de uso de suas traduções (como faziam tb a abril cultural, a nova cultural, a abril agora, a coleção folha, a biblioteca folha etc.). então seria de se imaginar que a tradução publicada por eles teria sido publicada em outra editora tb. acontece que não encontrei nada, nem antes nem depois, além das edições e respectivas traduções que vc menciona – essa tradução de elaine sírio teria saído única e exclusivamente nessa edição do CL – o que me parece de uma improbabilidade única.
    por outro lado, encontrei uma edição de 1949 e reed. em 1950 pelo clube do livro, que notoriamente se apropriava de traduções alheias, em geral portuguesas, adaptava ao português do brasil e tascava na capa “traduzido especialmente para o clube do livro” ou “tradução especial de Fulano de Tal para o clube do livro” (josé maria machado assinou uns bons pares dessas “traduções especiais”).

    estou boa de comprar um exemplar do clube do livro e um do círculo do livro para compará-los – quanto à tradução do clube do livro em si, teria de ver se é legítima ou espúria… se for “especial”, e como a romano tôrres portuguesa lançou sua trad. da letra escarlate nos anos 40, não seria impossível pesquisar nessa direção. mas é o tipo de coisa que só me animo a fazer se tiver desdobramentos mais recentes, isto é, se tiver alguma ligação com essa misteriosa edição do círculo do livro (pela data – 1989? -, aparentemente posterior ao fechamento da abril cultural, significa já a gestão da C.L.C., holding que veio a criar também a nova cultural, useira e vezeira nessas malandragens, mas a partir de 1995, até onde eu sabia).

    por ora, estou me fiando apenas na do sodré viana (antigona, datada, e não é que ele fosse exímio tradutor, mas pelo menos era legítimo) e na do christian schwartz… a do pinto de carvalho, já comentei minha surpresa.

    Comentário por denise bottmann — 20/12/2011 @ 14:18 | Responder

    • Mas o caso não é único, Denise. A tradução de Gilda Stuart para “Retrato de uma senhora” saiu pelo Círculo do Livro anos antes de sair pela Companhia das Letras. Tanto que em 1993, quando fiz a minha resenha, coloquei-a como o evento literário daquele ano. E ao que me parece a tradução dela de “The mill on the floss” (O moinho sobre o rio) só saiu pelo Círculo. Posso estar enganado, é claro, mas também há o Fausto II (o primeiro, não) cuja tradução só apareceu pelo Círculo.
      Nem saberia como verificar isso, só estou lançando esses dados a título de curiosidade.
      E, como sempre, que bela contribuição que você dá aos meus posts.

      Comentário por alfredomonte — 21/12/2011 @ 14:57 | Responder

  4. interessante, alfredo. acho que me confundo bastante com essa partilha meio complicada da abril – de fato, vendo melhor, quando surge a nova cultural, ela é criada como uma divisão do círculo do livro ltda.; depois é que vem aparecer (como a bestseller) como empresa do grupo c.l.c.

    Comentário por denise bottmann — 24/12/2011 @ 13:41 | Responder

    • Outra coisa interessante a respeito do Círculo é a questão da revisão. Em alguns títulos, eles nos proporcionaram a melhor edição encontrável: é o caso de “A Montanha mágica” (compare a edição do Círculo dom a da Nova Fronteira, e mesmo a antiga da Globo) ou “Os Buddenbrooks”.
      E há as curiosidades: eles dão o crédito ao tradutor e no entanto fazem mudanças nos textos. Entre vários caso, “A escolha de Sofia” (onde mexeram algumas vezes no texto de Vera Neves Pedroso), no de “Roteiro para um passeio ao inferno” (onde mexeram também no texto de Luzia Machado da Costa), e por aí vai…
      É por isso que sempre tenho um exemplar do Círculo junto ao da editora original. Sempre há surpresas. Às vezes boas, às vezes não…
      Você consegue me explicar por que acontecia isso?

      Comentário por alfredomonte — 26/12/2011 @ 14:57 | Responder

  5. Olá meu caro Alfredo, teria você o livro em português para me enviar? Tenho um trabalha a fazer e estou precisando do mesmo. Lhe agradeço desde já. Obrigado.

    Comentário por William Silva Pibnto — 23/03/2013 @ 10:46 | Responder

    • Caro William, há duas edições bem baratas e acessíveis : a da Martin Claret, que tem a bela tradução que eu utilizei, e uma recentíssima, da Penguin/Companhia das Letras. Caso não haja outro alternativa, me envie seu endereço por e-mail. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 23/03/2013 @ 14:12 | Responder


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