MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/12/2011

EM ROLETEMBURGO


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 2003)

É impressionante como várias editoras estão publicando obras de Dostoiévski e como estas ainda vendem bastante. Neste ano de 2003 mesmo, entre os lançamentos figuram novas edições de O idiota e de O JOGADOR  (comentado —aqui— na tradução de Moacir Werneck de Castro), sendo este último particularmente apropriado para uma época onde tanta gente “comum” investe seu tempo e dinheiro no bingo.

Dostoiévski já tinha há anos a idéia de um romance sobre o vício do jogo, do qual ele mesmo era vítima. Apesar disso, a forma que tomou O JOGADOR, escrito em poucas semanas (num período em que ele terminava Crime e Castigo, portanto já estamos na sua grande fase), em 1866, aconteceu porque seu editor o pressionou para entregar um romance pronto dentro de determinado prazo. Isso explica a evidente pressa que marca o andamento do texto (cujos elementos demandariam talvez um vagar maior) e algumas discrepâncias da história. Há até passagens que parecem, num primeiro momento, cochilos do excelente tradutor, como na página 136, onde se lê: “não a encontrara nem uma vez depois do incidente”, contudo parece ser um engano do próprio autor, uma vez que na tradução de Oscar Mendes (nas Obras Completas da Aguilar), pode-se ler: “nem uma vez lhe havia dirigido a palavra depois do incidente” (na edição da José Olympio, Costa Neves parece ter corrigido por sua conta o deslize).

O resultado final de O JOGADOR ficou um pouco estranho: boa parte do tempo aprece uma daquelas histórias curtas, jocosas e humorísticas do tipo A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes; perto do final, entra no clima delirante, abeirando-se do trágico—que não se consuma aqui, mas é o tom que permeia O idiota, por exemplo.

Apesar do título, o narrador-protagonista, Aleksei Ivanovitch, só mergulha no mundo do jogo no capítulo 14 (num total de 17), de modo irreversível, ao que parece. Dostoiévski escapa daquele didatismo naturalista que sempre empana um pouco as histórias sobre vícios e que detalham sua gênese e seus momentos críticos, seja o alcoolismo, sejam as drogas ou outra coisa qualquer, como Farrapo humano, Diário de um adolescente e um vasto etc.

Antes de Aleksei tornar-se jogador, sua narrativa concentra-se na pequena comédia humana em que está envolvido, em Roletemburgo (a qual representa as estações de água onde se pratica a roleta, como Baden Baden ou Wiesbaden), agregado (como preceptor) ao clã de um General arruinado, explorado por gananciosos franceses (a visão xenófoba de Dostoiévski fica bem clara na caracterização de certos personagens não-russos). Todos aguardam a notícia da morte da “babulinka” Antonida Vassilievna, a vovó rica da família.

As pequenas conspirações em torno do General só ganham importância para Aleksei na medida em que envolvem sua enteada, Polina, por quem é apaixonado e que é a típica representante de uma categoria marcante de mulheres no universo dostoievskiano: meio histérica, dúbia, destrutiva e destruidora. Por sua casa, Aleksei se  comporta de modo absurdo, muitas vezes degradante, como se vivesse em estado febril e dissociativo, uma atmosfera que desde O sósia (1848) vai caracterizar o herói típico do grande escritor russo.

As coisas tomam um rumo burlesco quando ao invés de um telegrama anunciando seu esperado “passamento”, aparece em Roletemburgo a “babulinka” em pessoa, a qual, durante dias, joga obstinadamente, perdendo cem mil rublos, acompanhada muitas vezes por Aleksei, que dessa maneira faz o seu aprendizado como futuro jogador. Tirando os capítulos finais, nos quais toda a paixão pelo jogo é descrita com  minúcias admiráveis, a intervenção dessa extraordinária senhora é o grande achado de O JOGADOR e permite, ao leitor, aproveitar o Dostoiévski humorístico, tão fantástico quanto o Dostoiévski trágico. Talvez o romance não tenha saído como ele queria e sonhava. Talvez seja mesmo um livro “menor”. Se essa é uma parcela pequena do gênio do seu autor, na roleta da literatura seria considerada uma fortuna para qualquer outro.

(em 05 de fevereiro de 2005, em A TRIBUNA de Santos, foi publicada a resenha abaixo, a qual reproduzo “enxugada” das passagens que repetem informações do texto acima):

A editora 34 continua firme com as obras de Dostoiévski (1821-1881), e por isso podemos contar novamente com a versão de Boris Schnaiderman para UM JOGADOR[1], já publicada há muito tempo, e onde se contraria, com seu uso do artigo indefinido, a tendência geral em que o título fica mesmo O jogador (é o caso da tradução, também recentemente relançada, de Moacir Werneck de Castro). Isso dá um ar ainda mais universal à pequena tragicomédia do protagonista-narrador, Aleksei Ivanovitch.

Dostoiévski era vítima do vício da roleta e escreveu o pequeno romance às pressas para cumprir prazos de entrega assumidos com seu editor. O resultado final acabou meio dividido, híbrido: boa parte do tempo parece pertencer a um filão recorrente nas suas primeiras obras; aproximando-se do final, entra num clima quase trágico. Comédia de erros se transforma em O mercador de Veneza.

Aléksei Ivanovitch  leva quatorze capítulos para descer ao inferno do jogo (…)

E, de repente, “baboulinka” irrompe em Roletembergo muito viva, roubando a cena, jogando dias e dias obstinadamente, lançando fora cem mil rublos: “Ela trocara sucessivamente todos os seus valores, apólices de cinco por cento, títulos de dívida interna e ações. Cheguei a admirar-me de como ela suportava ficar na cadeira aquelas sete a oito horas, quase sem se afastar da mesa, mas Potapitch contou que, por umas três vezes, ela realmente começara a ganhar muito, e, entusiasmada novamente com a esperança, não conseguira mais afastar-se dali. Aliás, os jogadores sabem como uma pessoa pode passar quase vinte e quatro horas sentada com um baralho, sem desviar os olhos das cartas”.

A intervenção dessa extraordinária senhora continua a ser, para mim, o achado maior de UM JOGADOR, embora a intensidade dos capítulos finais, nos quais a paixão por jogar é descrita, seja algo de definitivo quanto ao tema.

E após toda a discussão a respeito do fechamento dos bingos que envolveu o país, nada mais atual.


[1] No meu exemplar da José Olympio, como tradutor consta Costa Neves, mas Schnaidermann afirma que a tradução lançada nas “Obras Completas” é dele, e não há motivo para duvidar.

5 Comentários »

  1. alfredo, essa sua nota sobre o boris dizendo que a tradução da josé olympio foi ele que fez realmente me deixou perplexa. não creio, claro, que ele teria qq razão para afirmar algo que não fosse verdade. mas tampouco creio que a josé olympio e o próprio costa neves tivessem qq razão para adulterar os fatos – na edição da j.olympio consta uma minibiografia da obra própria e das obras de tradução de costa neves…. ademais, a primeira edição de um jogador pela j.olympio é de 1944, na época em que schnaiderman estava se iniciando em suas primeiras traduções, que saíram pela vecchi, com o pseudônimo de boris solomonov.

    aliás, no DITRA, dicionário dos tradutores montado pelo pessoal da UFSC a partir de depoimentos dos próprios tradutores, no verbete referente a schnaiderman não consta que ele tivesse feito essa tradução pela josé olympio, nem mesmo sob seu pseudônimo da época: e esse verbete do DITRA é de 2007.

    sinceramente eu não descartaria a hipótese de alguma ligeira confusão, de um lapso de memória, decorridos sessenta anos.

    acredito que a tradução de costa neves foi feita a partir do francês (un joueur: journal d’un jeune homme, de 1938) – constam detalhes como “Francfort”, por exemplo.

    Comentário por denise bottmann — 09/12/2011 @ 20:47 | Responder

    • Realmente, Denise, acho que foi caso de confusão devido à passagem do tempo, porque nunca ouvi faLar de qualquer falta de lisura no quesito “traduções” por parte da José Olympio, e, aliás, se me permite, apesar de não terem sido feitas do original russo, as edições das obras de Dostoiévski por essa editora ainda são um exemplo editorial impecável (acho-as melhor do que as Obras Completas da Aguilar).
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 10/12/2011 @ 13:46 | Responder

  2. aah, olha que interessante: isso explicaria e abrigaria as duas coisas ao mesmo tempo:

    VOLUME V: DOIS ROMANCES: HUMILHADOS E OFENDIDOS E UM JOGADOR (480 PÁGINAS). TÍTULOS ORIGINAIS: UNICHENYE I SKORBLENYIE E IGROK TRADUÇÃO: RAQUEL DE QUEIROZ E BORIS SCHNAIDERMAN PREF: OTTO MARIA CARPEAUX E J. L. DA COSTA NEVES
    http://www.traca.com.br/livro/355740/obras-completas-e-ilustradas-de-f-m-dostoievski-em-10-volumes

    trata-se da edição da josé olympio que saiu em 1962. é perfeitamente possível que tenham mantido apenas o prefácio de costa neves que saiu na ed. de 1944 e tenham substituído sua tradução pela de boris. faria todo sentido! fica por comparar a ed. 1944 e a ed. 1962, mas por ora me dou por satisfeita 🙂

    Comentário por denise bottmann — 09/12/2011 @ 22:21 | Responder

    • Sim, de fato isso explicaria bem a discrepância. Em 1962, houve uma revisão completa das Obras Completas inclusive no quesito transcrição dos nomes, e houve participação até de Guimarães Rosa. Eu tenho alguns volumes dessa edição, e outros da anterior (dos anos 50), e há algumas diferenças. Além do mais, eles reuniram em um único volume obras diversas traduzidas por diferentes pessoas. Mas acho que nenhuma é comparável à de Pietro Nassetti, nosso expert em todos os clássicos de todas as línguas.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 10/12/2011 @ 13:50 | Responder


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