MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/12/2011

ENCRUZILHADA DE BECOS PARA PORTUGAL


(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de maio de 2011)

“Talvez ir para a França fosse uma espécie de guerra, talvez estivesse a ir no sentido de tudo aquilo de que queria fugir. Para onde ia? Subitamente, a vida parecia-lhe uma encruzilhada de becos”.

“A Adelaide pensou que aquele papel faria a viagem contrária à que ela própria tinha feito. Talvez a tia pousasse o envelope sobre o balcão da loja, talvez o pousasse sobre a mesa da cozinha, haveria de fazê-lo certamente. Deu consigo a sentir falta do balcão da loja e da mesa da cozinha, onde pousou os cotovelos tantas vezes. Ali, numa rua francesa, feita de cores diferentes e de materiais diferentes, pareceu-lhe estranho que ainda existisse esse lugar de cigarras no verão, inconcreto como o dia anterior, como o mês anterior, o ano anterior, a infância. Mas, sim, aquele papel haveria de chegar a esse tempo, aquelas palavras haveriam de chegar ao que foi e, no seu íntimo, continuava a ser”.

Portugal pode estar em recessão, sua literatura não: a cada obra que leio de José Luís Peixoto mais me convenço de que ele é o grande autor surgido neste novo século, ao menos no âmbito da nossa língua. Se ainda restasse alguma dúvida, teria sido dissipada por seu último romance, Livro (Portugal, 2010), com o qual fechou sua primeira e gloriosa década de carreira, abordando  o mais clássico e batido dos temas: o desencontro entre um jovem casal enamorado. Mais ainda, o desencontro com a própria terra natal.

Ilídio e Adelaide são jovens de uma cidadezinha nos cafundós lusitanos. Apaixonam-se. Por conta disso, a tia dela, Lubélia, que não aprova o namoro e é amarga e ressentida, a envia à força para a França (ainda na época de Salazar, com caravanas constantes e clandestinas). Ilídio emigra para encontrá-la (a narrativa das duas viagens é extraordinária nessa prosa tocada pela “nitidez de todas as arestas”), acompanhado do amigo Cosme, que foge do recrutamento militar.

Residindo no mesmo país, suas vidas permanecem paralelas (um pouco por conta das artimanhas de Lubélia, um pouco por conta do destino, um tanto pelo próprio temperamento de ambos). Ela chega a casar-se com outro português, Constantino,  que recebe da mesada da família e alimenta sonhos esquerdistas (fomentados pelos acontecimentos revolucionários dos anos 60).

De Ilídio, Adelaide guarda o mais insólito dos talismãs (já que nenhum dos dois é o que se pode chamar de letrado): um livro, que nunca saberemos qual é. Entretanto, o filho dela chamar-se-á Livro. E português nascido na França, voltará ao país da mãe, para viver (com ela, que terá a grande chance de se acertar com Ilídio) na aldeia, após atropelar sem querer (e fugir) uma conterrânea incauta nas ruas de Paris. E embora não saibamos qual é o livro-tesouro amoroso de Adelaide, teremos diante dos olhos o livro que Livro escreve e que talvez seja o livro que estamos lendo…

Apesar do jogo metalingüístico e da pós-modernidade que vai se impondo em Livro, mais uma vez Peixoto surpreende com seu raro olhar sobre o universo camponês ou pelo menos a mentalidade “camponesa” que permaneceu latente até mesmo em portugueses citadinos, embora cada vez mais em refluxo, evidentemente. Não há nada mais bonito do que o estilo do autor de Cemitério de pianos e Uma casa na escuridão, e ele se mostra especialmente inspirado e certeiro na evocação de uma atmosfera que pareceria, a princípio, para um autor tão jovem (nasceu em 1974) e de aparência e  atitude tão “modernosa”, remota e arcaica.

Com Livro, aliás, matei a charada do feitiço que seus textos provocam em mim: sempre me senti meio agente duplo, pois gosto tanto de autores onde o mundo material aparecia em sua plenitude, e a narrativa é fortemente ancorada na “realidade factual”, como de autores onde a insubstancialidade do mundo é a tônica, e somos levados de roldão numa tabula rasa do que seria o real e o concreto.

As vidas de Ilídio e Adelaide vão ficando cada vez mais frágeis e fantasmáticas na França, e Livro é um personagem confrontado com a própria condição insubstancial. Ele não pode ser como a velha Lubélia, sobre a qual lemos: “… acreditava que era por isso que, com quase trinta anos, quando já tinha desistido de casar, aceitou trabalho naquela vila. Foi tomar conta de uma velha sozinha e amarga. Nunca gostou da velha, mas herdou-lhe a loja e encontrou nela um exemplo da própria amargura (…) Por costume, amaldiçoava cada grão daquela terra, mas era ali que pertencia. Sentia paz quando fechava os olhos e, para lá da inveja, desprezo e ódio que alimentava por um grupo vasto de pessoas, sentia uma certa comunhão com aquele lugar. Sabia o nome de todas as ruas, becos e travessas. Sabia de cor o nome completo de todas as pessoas adultas da vila”.

Todavia, num incrível feito, o mundo material avulta mesmo assim em Livro, daí as cenas inesquecíveis do menino (Ilídio) que é abandonado pela mãe e fica à sua espera interminavelmente à beira de uma fonte contaminada, até desistir, e procurar aquele que será seu pai simbólico (Josué); as já referidas cenas de emigrantes em jornada clandestina para a França; a casa de um dos companheiros de Ilídio, com um irmão inválido física e mentalmente, e uma coorte de pombas esvoaçando em meio à escuridão e ao cheiro da pobreza, quase da miserabilidade. E também a solidão de Adelaide na França, trabalhando como faxineira numa casa de família e também numa biblioteca (onde conhece Constantino e tem início uma insólita forma de paquera), e mais ainda como mulher casada, não compreendendo e não sendo compreendida pelos amigos engajados e “inteligentes” do marido.

E no final o mundo rural português, apesar de tão entranhado nas personagens (até naquele que ali não nasceu) é atropelado pela modernidade  pós-industrial como uma velha incauta na rua.

Acho que ninguém acertou mais na mosca do que o escritor angolano José Eduardo Agualusa quando afirmou que o universo de José Luís Peixoto era luminoso e ao mesmo tempo tristíssimo, “ou seja, absolutamente português”: “O Josué vinha a teimar consigo próprio quando entrou na Rua de São João. Setembro podia acabar, o telhado do jazigo estava quase pronto e o Josué tinha pressa de envelhecer um pouco mais. Dentro de poucos anos, talvez se pudesse sentar no terreiro, ao lado dos homens que não esperavam por nada”.

5 Comentários »

  1. Ei, rapaz, você me deixa em cada enrascada… estou no dilema: ou leio ou escrevo… e você fica me provocando a uma coisa e me cobrando a outra!

    Comentário por MValéria Rezende — 26/05/2011 @ 17:41 | Responder

    • Por falar nisso, aproveito para parabenizá-la, caríssima amiga e ótima escritora, pelos seus dez anos de carreira como ficcionista publicada, já que foi em maio de 2001 que tive o prazer de ler “Vasto Mundo”. E se os livros de Peixoto estão entre os melhores romances dessa primeira década do século, seu “O voo da guará vermelha”..
      Bjs.

      Comentário por alfredomonte — 27/05/2011 @ 7:37 | Responder

      • …não fica atrás, e o recomendo vivamente a quem ler este post.

        Comentário por alfredomonte — 27/05/2011 @ 7:41

  2. É mesmo, Alfredo… 10 anos, eu nem tinha me dado conta… por acaso estou preparando uma edição revista e aumentada do “Vasto Mundo – Farinhada revisitada” pra ver se alguém quer relançar…

    Comentário por MValéria Rezende — 27/05/2011 @ 10:58 | Responder

    • O público leitor só tem a ganhar com essa revisita a Farinhada.

      Comentário por alfredomonte — 27/05/2011 @ 12:54 | Responder


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