MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/11/2011

“Agora, é entre nós dois”: O PAI GORIOT,de Balzac

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de março de 2000)

Há 150 anos, em março, Honoré de Balzac realizou um sonho, casando-se—enfim—com seu grande amor, Eveline Hanska, que entrara em contato com ele em 1832. Não sobrava muito tempo para o criador da Comédia Humana e ele morreria ainda em 1850.

O destino melancólico de Balzac não difere muito dos destinos dos seus próprios personagens. Há sempre um processo de “ilusões perdidas” (o título do seu maior romance) no universo da Comédia. Uma boa chave para penetrá-lo é O pai Goriot (Le père Goriot),publicado em 1835: foi ao escrevê-lo que Balzac começou a pensar em fazer um gigantesco ciclo de narrativas, no maior empreendimento ficcional do século XIX.

Eugène de Rastignac, o herói, é a encarnação definitiva—talvez mais ainda do que o Lucien de Ilusões perdidas—do jovem provinciano diante da metrópole. Ele vai a Paris como estudante e vê seus valores esmigalhados pelo mundo da grande cidade babilônica. Morando na sórdida pensão Vauquer, Rastignac procura a “proteção” de uma mulher mais velha (tema típico balzaquiano) para poder entrar na alta sociedade. Para isso, entra em contato com uma parente distante, madame de Beauséant, digna ancestral da duquesa de Guermantes, de Em busca do tempo perdido, para auxiliá-lo na caça à mulher certa.

Caberá a outro hóspede da pensão, Vautrin, na verdade um ex-prisioneiro foragido, chefão do submundo parisiense, abrir intelectualmente os olhos do provinciano Rastignac para o funcionamento da sociedade, já que as visitas aos salões das damas da moda ainda o mantiveram no mundo das ilusões, ainda não perdidas. Vautrin tentará ser o Mefistófeles do jovem Fausto balzaquiano, procurando conduzi-lo a um estranho pacto, no qual o espectro do homossexualismo não deixa de rondar.

Na pensão Vauquer também vive, suportando o desprezo de todos, um ex-comerciante, o Pai Goriot. Os estudantes que ali fazem suas refeições julgam que ele sofre de “idiotismo”. Rastignac descobre que, de fato, Goriot sofreu um processo de empobrecimento material e embotamento mental por causa do excessivo amor às duas filhas, ambas damas da alta sociedade que sugaram todos os seus bens e rendas.

Ele apaixona-se (se é que se pode falar de enamoramento num impulso onde o cálculo é tão evidente) por uma delas, Delphine de Nuncingen. A dissecação que Balzac faz das etapas dessa paixão mútua, na qual se mesclam interesse, ambição e egoísmo, é provavelmente o ponto alto de O Pai Goriot e terá efeitos duradouros (e às vezes deletérios) na literatura francesa, mestra em autopsiar sentimentos.

Essa “paixão medida” (para utilizar a expressão drummondiana) atrapalha os planos de Vautrin, porém o destino conspirará para que ele seja afastado no momento certo. Um grande lance teatral levará  a narrativa à angustiante descrição do abandono final e agonia do velho Goriot. Assistindo-a do início ao fim, Rastignac completará seu “aprendizado negativo” dos “valores” da metrópole e enterrará seu romantismo junto com o velho, lançando um desafio a Paris: “Agora nós dois”.

Pena que uma obra-prima do naipe de O Pai Goriot circule numa tradução tão sem vida, tão descuidada, como a de Sérgio Rubens (para a Ediouro, aliás uma editora que cobra muito pelo pouco que oferece em termos de qualidade gráfica e de cuidados editoriais). O leitor perguntará, então, por que não ler a tradução do livro que consta da edição completa da Comédia Humana organizada por Paulo Rónai. Simplesmente porque, apesar da inquestionável importância desse empreendimento, ali fez-se a infelicíssima opção de abrasileirar os nomes próprios e é muito difícil engolir os Eugênios, Delfinas e quejandos.

Assim, de uma forma ou de outra, desfiguraram um autor que estabeleceu as leis gerais para o romance realista, principalmente suas diretrizes psicológicas. E, de certa forma, ainda vivemos no mundo de Balzac. Quem tiver dúvida, basta dar uma olhada na história (apesar dos seus rasgos folhetinescos) de Rastignac e Goriot, personagens em que ele, com curiosa presciência, projetou não só suas ambições e expectativas, mas também sua derrocada melancólica, formando um arco que emoldura com precisão o tecido social que se alimenta da desagregação, da corrupção e da degradação para manter um pouco mais a sua sobrevida.

(uma outra versão dessa resenha foi publicada em 25 de fevereiro de 2003, e abaixo transcrevo o que ela apresenta de diferente):

   É preciso fazer justiça a alguns selos editoriais pequenos, que vêm se destacando por cuidadosas edições de clássicos. Já comentei  nesta coluna exemplos da Nova Alexandria, da Iluminuras, da Revan. É o caso, também, da Estação Liberdade, que lançou recentemente uma nova tradução de O Pai Goriot, um dos livro fundamentais e paradigmáticos do século XIX, realizada por Marina Appenzeller (…)

Além da boa tradução, incluiu-se como prefácio um excelente ensaio de Philippe Berthier, O festim das aranhas, que dá uma visão quase apocalíptica dos mecanismos de desejo e de interesse que movem os personagens balzaquianos (…)

A respeito do “aprendizado” de Rastignac, Berthier comenta: “em vez do espetáculo comovente de uma crisálida que se torna borboleta,  assistimos, como em um filme de terror, a metamorfose maléfica de um monstro que nasce”.

18/11/2011

UM TERRÍVEL OBSTÁCULO: o centenário de “Sob os Olhos do Ocidente”, de Joseph Conrad

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/26/digamos-para-comodidade-narrativa/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

 

https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

 resenha publicada originalmente, sem as notas em rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2011

“Difference of nationality is a terrible obstacle for our complex Western natures.” (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente)

Há cem anos, quando Joseph Conrad (1857-1924)  publicou um de seus mais importantes romances[1], Sob os olhos do Ocidente (Under Western Eyes; que eu saiba só foi feita uma tradução por aqui, a de Marcos Santarrita, lançada em 1984 pela Brasiliense), havia uma inquietação ocidental em torno da Rússia, dos seus acontecimentos político-religiosos, do tipo de terrorismo que eles inspiravam, similar à que constatamos atualmente com relação aos países islâmicos. Sempre é a mesma coisa: os valores “democráticos” de repente encontram-se questionados e ameaçados, e um outro olhar sobre a realidade parece suspeito, como se trouxesse, latente em si, a ruína  de uma civilização, a qual no entanto exclui das suas benesses boa parte da população.

O que não é mais a mesma coisa, decerto, é a convicção do narrador de que “Para nós,  europeus do Ocidente,  todas as idéias de tramas e conspirações políticas parecem infantis, invenções grosseiras para o teatro ou um romance” (“To us Europeans of the West, all ideas of political plots and conspiracies seem childish, crude inventions for the theatre or a novel”). Acho que isso não era verdade nem em 1911, Conrad exagera de propósito, enfatizando uma certa “inocência” ocidental, que nos lembra aquela “inocência”, também entre aspas, da alta sociedade novaiorquina do romance de Edith Wharton, e que tardiamente faria praça em O americano tranqüilo, de Graham Greene.

Grande parte da ação de Sob os olhos do Ocidente transcorre em Genebra, “a respeitável e desapaixonada morada da liberdade democrática, a cidade do espírito sério, de hotéis pavorosos, proporcionando a mesma indiferente hospitalidade a turistas de todos os países e a conspiradores de todos os matizes” (“the respectable and passionless abode of democratic liberty, the seriousminded town of dreary hotels, tendering the same indifferent, hospitality to tourists of all nations and to international conspirators of every shade”[2].

O narrador é um professor de línguas inglês, já entrado em anos, que tem estreitas relações com a Pequena Rússia genebrina, em minha condição de muda testemunha das coisas russas, desenrolando sua lógica oriental sob meus olhos ocidentais” (“in my character of a mute witness of things Russian, unrolling their Eastern logic under my Western eyes”;o mote reaparece  de forma estratégica—e, a meu ver, com uma certa malícia—em  diversos momentos, como—para dar outro exemplo: “pois esta é uma história russa para ouvidos ocidentais, que, como já observei, não estão afinados para certos tons de cinismo e crueldade, de negação moral, e mesmo de angústia moral, já silenciados em nossa ponta da Europa”;“for this is a Russian story  for Western ears, which, as I have observed already, are not attuned to certain tones of cynicism and cruelty, or moral negation, and even of moral distress already silenced a tour end of Europe”).  Todavia, justamente por sua condição de “estrangeiro”, ele próprio se desqualifica como narrador confiável, que tenha entendido todos os fios da trama ou as motivações dos protagonistas. Para começar, ele insiste muito no fato de que sua história é “real” e portanto é contado com o desajeitamento que a realidade vivida tem, e não com as manhas e alinhavamento da arte, afirmação contrariada pela montagem que exerce sobre os acontecimentos.

E como ele se apaixona platonicamente por Natália Haldin, que ali vive com a mãe, é difícil tirar sua figura do caminho como isenta e imparcial. Talvez ele não tenha importância para os círculos revolucionários, mas seu papel dificilmente é secundário, mesmo porque ele tem acesso a todas as informações importantes (“Pode-se ficar surpreso pelo fato de um homem na posição de um professor de idiomas saber tudo isso com tanta precisão. Um romancista diz tudo sobre seus personagens, e se souber como dizê-lo com bastante convicção não será questionado sobre as coisas que inventa, as quais se tornam suficientemente claras numa frase reveladora, numa imagem poética, no tom da emoção. Mas eu não tenho arte…” etc etc (“Wonder may be expressed at a man in the position of a teacher of languages knowing all this with such definiteness. A novelist says this and that of his personages, and if only he knows how to say it earnestly enough he may not be questioned upon the inventions of his brain in which his own belief is made sufficiently manifest by a telling phrase, a poetic image, the accent of emotion. Art is great! But I have no art…”),; e exerce função de  “desinteresse interessado”, nos bastidores, como o Conselheiro Aires dos romances tardios de Machado de Assis[3].

Após a notícia de um atentado na Rússia, no qual foi assassinado um eminente e odiado estadista, descobrem que o autor do ato terrorista foi Victor Haldin, irmão de Natália, logo depois capturado e executado, tornando-se um mártir reverenciado pelos movimentos revolucionários.

Logo depois, chega a Genebra o estudante Razumov, que todos suspeitam estar fugindo da Rússia por causa de uma pretensa participação no atentado. Natália procura-o então, para saber dos últimos momentos do irmão e o que aconteceu de fato.

De fato, o que aconteceu foi que Haldin procurou refúgio nos aposentos de Razumov e este—que abominava a ideologia revolucionária—o entregou secretamente à polícia. Devido ao seu temperamento taciturno e insondável (e também pela admiração do irmão de Natália por ele), todos acreditam que ele era íntimo camarada de idéias e ações do morto.

A polícia secreta russa utiliza esse equívoco para enviá-lo aos círculos conspiratórios do ocidente e assim espioná-los. Dessa forma, o leitor conhece uma colorida fauna de extremistas, cujo espectro abarca desde um decalque caricatural de madame Blavastsky até um agente duplo, particularmente sádico.

Mas Sob os olhos do Ocidente não seria um livro de Joseph Conrad sem um dilema moral cavalheiresco. Com sua vida e seu futuro promissor de estudante brilhante “destruídos” de certa forma por ter sido procurado por Victor Haldin, Razumov entrega-se selvagem e fanaticamente à tarefa de enganar os conspiradores; entretanto, ao conhecer Natália e seus “olhos confiantes”, ele se sente compelido a confessar sua traição, o que levará a trama a um desenlace violento, bizarro e instigante, que não contarei aqui porque ele só é “crível” no movimento narrativo do romance, onde tudo parece ter lógica própria.

Mas, o mais genuinamente conradiano no texto, e que faz esse mundo dostoievskiano adquirir nuances de Henry James ou o Machado de Assis tardio é mesmo o enviesamento da narrativa. O velho professor de línguas tem acesso aos fatos sempre de maneira indireta, tentando entender a “lógica não-ocidental” que os guia e guiado por sua predisposição sentimental com relação à miss Haldin. Essa interposição de perspectivas, o fato de que na montagem da sua narrativa os fatos já sabidos a posteriori se imiscuem na narração dos eventos, lançando sua sombra,  atrapalha a visão clara e objetiva e torna suspeita—no sentido literário—a narrativa, e  é o que torna o romance tão vivo hoje como há cem anos. Um clássico.


[1] E indubitavelmente o mais estranho e peculiar

[2]  Ainda que em muitas passagens Conrad equacione o extremado e extremista Razumov (e, por extensão, o terrorismo e o radicalismo político)  a Genebra enquanto berço de Jean-Jacques Rousseau (cuja estátua está sempre próxima do protagonista de Sob os Olhos do Ocidente em suas perambulações), o qual é referido significativamente como o autor do Contrato Social,  a visão que fornece ao leitor da cidade, a qual para o conservador e anti-revolucionário Conrad seria um pólo negativo a todos esses personagens destrutivos, não deixa de ser ambivalente e até derrisória. Razumov vê nela “a perfeição da mediocridade, finalmente atingida após séculos de trabalho e cultura” (“the very perfection of mediocrity attained at last afer centuries of toil and culture”), e várias páginas adiante como “esta odiosa cidade da liberdade” (“this odious town of liberty”).

[3] Eu diria que o papel estratégico do professor de línguas representa com relação a Razumov é similar aos dos protagonistas do primeiro romance escrito já em inglês por Vladimir Nabokov, A verdadeira vida de Sebastian Knight (1941), onde o narrador é um russo exilado que mantém o pé na pátria natal, e por isso tem quase uma não-existência, e o escritor—seu meio irmão—procura apagar as marcas da nacionalidade. Polonês, com um pé na Ucrãnia, Conrad escreve em inglês, utilizando um curioso personagem inglês sobre um mundo que o afetou diretamente na infância e juventude.

Os ritos enganosos e embaraçosos da escrita já são tematizados no extraordinário início do romance:

“Para começar, quero negar a posse daqueles altos dons de imaginação e expressão que teriam possibilitado à minha pena criar para o leitor a personalidade do homem que se chamava, à maneira russa, Cirilo, filho de Isidoro—Cirilo Sidorovitch—Razumov.

    Se algum dia possuí tais dons, em qualquer espécie de forma viva, eles há muito foram varridos da existência, sepultados sob uma selva de palavras. As palavras, como todos sabem, são as grandes inimigas da realidade (…) Para o professor de idiomas, chega uma época em que o mundo é apenas um lugar de muitas palavras, e o homem parece um simples animal falante, não muito mais digno de admiração que um papagaio.

   Sendo assim, eu não poderia ter observado o Sr. Razumov nem concebido sua realidade por força da intuição e muito menos tê-lo imaginado como era. Mesmo inventar os mais simples fatos de sua vida estaria absolutamente fora de meus poderes…”

(“To Begin with I wish to disclaim the possession of those high gifts of imagination and expression which would have enabled my pen to create for the reader the personality of the man who called himself, after the Russian custom, Cyril son of Isidor—Kirylo Sidorovitch—Razumov.

    If I have ever had these gifts in any sort of living form they have been smothered out of existence a long time ago under a wilderness of words. Wordas, as is well known, are the great foes of reality (…) To a teacher of languages there comes a time when the world is but a place of many words and man appears a mere talking animal not much more wonderful than a parrot.

   This being so, I could not have observed Mr. Razumov or guessed at his reality by the force of insight, much less have imagined him as he was. Even to intent the mere bald facts of his life would have been utterly beyond my powers”.)

JOSEPH CONRAD: MEDO DA ANARQUIA POLÍTICA & RECONHECIMENTO DA ANARQUIA INTERIOR

CONRADum anarquista

 

 PRIMEIRA ANOTAÇÃO (23.06.09)

Lendo Alexandre Dumas, a viagem do seu último herói, o Cavaleiro de Sainte-Hermine, pelas selvas da Birmânia me veio à mente Coração das Trevas, de Joseph Conrad. E resolvi então ler a seleção que Dirceu Villa fez de quatro contos de A set of six (1908) para a editora Hedra. Era um grupo de seis, ficaram quatro que se tornaram Um anarquista & outros contos. O tradutor explica por que foram deixados os outros dois (um deles, O duelo, já tem seu próprio caminho, independentemente da coletânea ao qual pertencia originalmente), e são boas razões, mesmo assim ainda acho que foi um erro e uma perda. Se o polonês que foi mestre da língua inglesa Conrad (1857-1924), e era extremamente consciente do ato de escrever (num grau só comparável ao de Henry  James), queria reunir um grupo de seis, com certeza é porque esse grupo tinha afinidades entre si. Quem quiser pelo menos a set of five em português, há três traduções de O duelo bem recentes, só mesmo Gaspar Ruiz eu desconheço se foi traduzido alguma vez no Brasil.

Conrad é um autor essencial. Para se ter uma idéia da dimensão que eu (seguindo tantos outros) dou à sua obra, na virada do milênio me pediram para listar os maiores romances do século passado e coloquei Nostromo (1904) entre os dez primeiros (o  mesmo para O coração das trevas na lista das dez maiores “novelas”), junto com A montanha mágica (Mann), Luz em agosto (Faulkner), O castelo (Kafka), As ondas (V. Woolf), Em busca do tempo perdido (Proust), As asas da pomba (H.James), Ulisses (Joyce), O estrangeiro (Camus) e O homem sem qualidades (Musil).

A primeira narrativa de Um anarquista & outros contos é  O informante e quem leu O agente secreto (1907) vai reconhecer a atmosfera similar: Londres, os anarquistas refugiados, a mistura de indolência e pregação abstrata & atentados e grupos conspiratórios, cheios de gente mal resolvida e perigosa, mais do que ideologicamente, patologicamente.

A narrativa, como sempre em Conrad, é bastante enviesada: temos um primeiro narrador que toma contato com um monstro sagrado do anarquismo, o sr. X, que parece perfeitamente refestelado numa vida confortável, sibarita, filistéia, enquanto escreve os panfletos mais incendiários e demolidores. Num jantar, esse sr. X se torna o segundo narrador da história, ao contar que veio de Bruxelas a Londres, uma vez, para investigar por que uma célula anarquista só obtinha fracassos quando tudo era tão bem planejado. É preciso ler a descrição derrisória que o sr. X faz de diversos membros do grupo, no qual está obviamente infiltrado um informante da polícia, para o qual ele prepara uma armadilha (uma falsa batida da polícia no local onde o grupo se reúne).

Descobre então que um dos mais entusiasmados e aparentemente singelos e devotados membros é na verdade o informante, que era um inimigo ferrenho da causa. Ele só se entrega porque se apaixonou por uma outra participante do grupo (e dona do imóvel no qual eles se reúnem) e achando que ela pode ser presa pela polícia, acaba se denunciando e ingerindo um veneno. Porém, ela só está no movimento por pose, sem uma verdadeira convicção revolucionária, como uma atriz num papel vivendo-o histrionicamente. No final, vemos a obsessão de Conrad pelos dilemas cavalheirescos (que dominam, por exemplo, Lord Jim & Chance- A força do acaso) que sobrepujam os problemas ideológicos. Há também o contraste entre o primeiro narrador que leva a sério a ameaça do anarquismo (pelo qual Conrad tinha um horror ambivalente) ou outros movimentos revolucionários e a frivolidade com que o segundo narrador, o sr. X, vê os revolucionários de araque, ou então igualando aqueles que são fervorosamente “pelo” movimento e os que são fervorosamente “contra”.

Joseph_Conrad01

O primeiro narrador é alguém que, de fora, vê as coisas em estado puro: “Anarquistas, suponho, não têm famílias –de qualquer forma, não do modo como entendemos essa relação social. A organização em famílias talvez responda a uma necessidade da natureza humana,mas em última instância é baseada na lei, e  portanto deve ser algo odioso e impossível para um anarquista. Mas, de fato, não entendo os anarquistas. Um homem dessa… dessa facção permanece anarquista quando só, totalmente só e indo dormir, por exemplo? Ele deita sua cabeça no travesseiro, puxa suas mantas e vai dormir com a necessidade do ´chambardement général´, como na gíria francesa, o ´bombardeio geral´, sempre presente em sua mente? Se sim, como pode? Estou certo de que se tal fé (ou fanatismo) se apossasse de meus pensamentos, jamais seria capaz de compor-me suficientemente para dormir ou comer ou realizar quaisquer das rotinas da vida diária. Não desejaria esposa, ou filhos; não poderia ter amigos, me parece… Enfim, não sei. Tudo o que sei é que o sr. X fazia suas refeições num restaurante muito bom, que eu também freqüentava.”

      Já o sr. X, o panfletário, o incendiário, é totalmente pragmático e adepto da “Real Politik”. Ao comentar a figura do informante (note-se que não estou dando maiores detalhes da trama para não estragar a leitura desse “conto irônico”, como está no subtítulo): “A parte mais interessante era o seu [do informante] diário; pois esse homem, metido num trabalho tão mortal, teve a fraqueza de manter um registro do tipo mais condenatório. Lá estavam seus atos e pensamentos, desnudados diante de nós. Mas os mortos não se importam com isso… Um humanitarismo vago mas ardente o havia impelido em tenra idade para os mais amargos extremos da negação e da revolta. Você já ouviu falar de ateus convertidos. Eles se tornam fanáticos perigosos, mas a alma permanece a mesma. Após ter conhecido a garota, encontram-se naquele seu diário estranhas rapsódias político-amorosas. Tomasva as poses de soberania dela com seriedade circunspecta. Ansiava por convertê-la… não sei se você se lembra, faz uns bons anos já, da sensação jornalística do Mistério da Hermione Street; encontraram o corpo de um homem no porão de uma casa vazia;  o inquérito, algumas prisões, várias conjecturas, e então silêncio, o final costumeiro para muitos mártires e confidentes obscuros. O fato é que ele não era suficientemente otimista. É preciso ser um otimista selvage, tirânico, impiedoso, um faz-tudo como Horne [outro membro do grupo], por exemplo, para resultar num bom rebelde social do tipo extremista”. O narrador pergunta sobre a garota: “Você quer realment saber?  Confesso a pequena malícia de ter-lhe enviado o diário de Sevrin [o informante]. Ela retirou-se; foi, então, para Florença; daí, recolheu-se a um convento. Não saberia lhe dizer onde irá depois. E isso importa? Gestos! Gestos! Meros gestos de sua classe! … Por isso essa raça está com os dias contados”.

MORTE EM NÁPOLES (25.06.09)

A Itália é muito perigosa, pelo menos na alta ficção. O icônico Morte em Veneza, de Thomas Mann, está aí para provar. Mais benigno, porém trabalhando na mesma direção de forças libidinosas represadas explodindo de forma inquietante, temos  Um quarto com uma vista, de E. M. Forster. E contemporâneo, de certa forma, aos dois (todos foram escritos nos primeiros quinze anos do século XX), um dos textos traduzidos em Um anarquista e outros contos: Il Conde. Se O informante é um conto “irônico” e “O duelo” um conto “militar”, Il Conde é um “conto patético”. Parecem andamentos diferentes de uma sinfonia, cada um com sua modulação. Essa analogia é ainda mais apropriada (e já deve ter sido feita por alguém) porque Il Conde repete o mesmo esquema narrativo de O informante: temos novamente um narrador original, que conhece um outro personagem, seu interlocutor pela narrativa inteira, que lhe narra um episódio.

É preciso examinar um pouco esse “primeiro narrador” genérico desses textos conradianos. O grande autor de Sob os olhos do Ocidente criou um narrador memorável, Marlow, normalmente identificado nos textos dos quais participa por sua biografia ligada ao mar (é o caso de Mocidade, aqui também traduzido como Juventude, de Coração das trevas e de Lord Jim). Os narradores de O informante e Il Conde poderiam ser a mesma pessoa, só que não Marlow. Conrad parece ter criado a quintessência do “homem do mundo”, viajado, com conhecidos em capitais importantes, cidadão europeu civilizado, culto, mas não pedante, bem nascido, mas não insolente ou esnobe, com bom gosto, mas não demasiadamente refinado e lânguido, observador, sagaz, mas muito voltado para os princípios “sadios” da boa sociedade para não se deixar abalar por tudo o que essa sociedade não tem de sadio. Todos os detalhes que ele pinça nos seus interlocutores parecem refletir seus próprios dilemas éticos e cavalheirescos diante dos aspectos “desagradáveis” da vida.

Pois, veja-se, nos dois contos, o narrador e seus interlocutores se conhecem com a mediação de coleções de alto interesse estético e artístico.

O informante se inicia do seguinte modo:  “O sr. X veio a mim, precedido pela carta de recomendação de um bom amigo meu em Paris, especificamente para ver minha coleção de porcelana e bronzes chineses”. Ao receber a visita do famoso revolucionário, ele afirma: “Não falamos senão sobre bronzes e porcelanas. Era de uma sensibilidade notável”. Para depois nos dizer: “Onde estava hospedado, não sei”.

Il Conde, por sua vez, abre com este parágrafo: “Conversamos pela primeira vez no Museu Nacional, em  Nápoles, nas salas do piso térreo que contém a famosa coleção de bronzes de Herculano e Pompéia, aquele maravilhoso legado de arte antiga, cujas delicadas perfeições foram preservadas pela fúria catastrófica de um vulcão”. No parágrafo seguinte: “Ele se dirigiu a mim primeiro, a respeito do celebrado Hermes em repouso que estávamos observando lado a lado. Disse as coisas certas sobre aquela peça inteiramente admirável. Nada profundo. Seu gosto era antes natural que cultivado. É óbvio que havia visto muitas coisas refinadas em sua vida, e as apreciava, mas não possuía o jargão do diletante ou do connaisseur… Falava como um cosmopolita inteligente, um cavalheiro limpo de toda afetação” (é evidente que essa caracterização também reflete a auto-imagem do narrador, e tanto num quanto noutro conto haverá uma reversão, irônica e patética, dessa lisonjeadora caracterização inicial). Poucas páginas adiante lemos (o Conde está hospedado no mesmo hotel que o narrador): “Tinha um castelo, creio que na Boêmia. Isso foi o mais próximo que cheguei de conhecer sua nacionalidade. Seu próprio nome, por estranho que pareça, nunca mencionou”.

Como se pode ver, há muitas similaridades:  informações vagas sobre as circunstâncias mais corriqueiras (residência, num caso; nome e nacionalidade, no outro) tornadas irrisórias pela descrição da imagem cavalheiresca (estou observando muito isso nestes dias, já que em O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Dumas, o nobre Hector de Sainte-Hermine, após sua degradação, se apresenta simplesmente como “René” e todos o respeitam e recebem porque sentem que nesse prenome sem maiores detalhes há uma nobreza inata; aliás, comecei este LEITURA DA SEMANA afirmando que lembrei de  Coração das Trevas por causa da expedição de Hector à Birmânia, o que me levou a esta leitura dos contos de, entretanto também podia afirmar o mesmo de O duelo, que transcorre durante as guerras napoleônicas).

O retrato inicial do Conde é assim rematado: “…era um bom europeu –falava quatro línguas, pelo que sei—e um homem rico. Não muito rico, evidente e apropriadamente. Imagino que ser rico demais lhe teria parecido impróprio… demasiado indecoroso. E, obviamente também, a fortuna não havia sido obra sua. Não se pode amealhar uma fortuna sem alguma rudeza”.

O Conde gosta particularmente de Nápoles porque o clima lhe faz bem à saúde prejudicada (tem uma afecção reumática). Ele e o narrador se tornam companheiros de horas agradáveis e gentis até que o segundo tem de se afastar da cidade por cerca de dez dias (a cena em que o conde o acompanha à estação é emblemática da “ideologia de civilidade” que percorre essas páginas).

Quando ele retorna, encontra o conde mortificado e com um comportamento á mesa pouco tranqüilizante (“em vez de ficar ereto, fitando toda a sua volta com urbanidade alerta, curvava-se sobre o prato. Parei por algum tempo diante dele antes que erguesse os olhos, um pouco feroz, se palavra tão forte pode ser associada à correção de sua aparência”). Diga-se de passagem, o texto de Conrad não podia ser mais perfeito como nesse passo, pois podemos ver como se entremeia no discurso do narrador as marcações que indicam os gestos, a fala, o discurso do seu interlocutor, até suas pantomimas. É um momento virtuosístico da arte da narração.

Como em O informante inicia-se uma “segunda narração”, ainda que feita através de uma instância entre nós e o narrador original, que é justamente o primeiro narrador, e portanto essa segunda narração é enviesada e ambígua, temos de levar em conta, seu efeito sobre esse primeiro narrador. E é por isso que fiz questão de caracterizá-lo detalhadamente.

O que o conde tem a contar é um assalto um tanto incomum de que foi vítima durante um concerto musical ao ar livre. O rapaz que o assalta (encostando uma faca na sua barriga) o trata com certo desprezo porque ele carrega pouco dinheiro consigo e um relógio barato (segundo o Conde, havia deixado com o guarda-livros do hotel uma grande quantia no mesmo dia, e seu relógio de ouro estava no relojoeiro para limpeza ), e some na multidão. É um rapaz com todos os traços típicos da região e o Conde, meio abalado pela experiência, julga vê-lo depois em todos os lugares e em todos os rapazes (curiosamente, já tivera a mesma sensação, antes do assalto, quando sentara numa mesinha ao lado de um rapaz que pode ser o assaltante). Apesar de tudo,  sente-se também bastante esfomeado e resolve comer um risoto, utilizando uma “barra de ouro de vinte e cinco francos” que carrega no fundo do bolso caso haja algum “acidente” (“todos estão sujeitos a um furto, algo bastante diferente de um assalto descarado e ultrajante”). Ora, no  Café Umberto onde faz sua refeição, ele vê um rapaz idêntico ao seu assaltante, mas sendo tratado com deferência pelos garçons. Informam-lhe: ele pertence à Camorra, a máfia prototípica.

O Conde paga suas despesas com sua barrinha de ouro, o rapaz também paga, levanta-se, atravessa o café, “aparentemente com o objetivo de mirar-se no jogo de espelhos do pilar mais próximo ao assento do Conde.  Estava todo vestido de preto e com uma gravata borboleta verde-escura. O Conde olhou à volta e se assustou por encontrar um olhar maligno  vindo do canto dos olhos do outro… falou alto, o bastante apenas para que o Conde o ouvisse. Falou de entre os dentes com o mais insultante veneno de desprezo e olhando diretamente no espelho: Ah! Então você tinha ouro aí, seu velho mentiroso, velho birba-farfante! Mas eu não terminei com você, ainda.”

Eis a razão da consternação e mortificação do Conde, que está decidido a deixar Nápoles, apesar de ser uma decisão desastrosa para sua saúde. A explicação do narrador para essa decisão está fortemente enleada pela sua caracterização inicial: “A delicada concepção de sua dignidade fora maculada por uma experiência degradante. Isso era intolerável. Nenhum cavalheiro japonês, ultrajado em seu extremo senso de honra,  teria se preparado para o harakiri com maior resolução”. Depois ele associa a decisão do Conde com o adágio napolitano que serve de epígrafe a essa história “patética”: Vedi Napoli r poi mori, Veja Nápoles e depois morra, que ele considera vaidoso e patrioteiro. Porém, por mais que ele rejeite a idéia, o adágio parece que “pega” e se associa à figura do Conde que ele já vê como moribundo:

“Ele havia visto! Havia visto com alarmante completude –e agora ia para seu túmulo. E ia até ele no train de luxe da Companhia Internacional de Vagões-Dormitórios, atravessando Trieste e Viena. Quando os quatro longos e graves vagões deixaram a estação, eu ergui meu chapéu com o sentimento solene de prestar os últimos respeitos em um cortejo fúnebre…”

O que eu deixei para o final é a ambigüidade do episódio, calcado no equívoco sexual (e magistralmente “invisível” no texto do primeiro narrador). Tudo bem que se pode ignorar esse aspecto e mostrar todo o abalo sentido pelo Conde (e, por tabela, pelo narrador) pelo prisma da ameaça de um membro da Camorra, que mostra que não existe segurança, não há “civilização” suficiente que nos proteja do submundo, do que há para se ver  “com alarmante completude” (“Sua tranqüilidade fora licenciosamente profanada. A requintada gentileza de perspectiva de toda a sua vida havia sido desfigurada”). E também não gosto daqueles que procuram sub-textos homossexuais em tudo que é história ou texto.

Mas acredito que, sem forçar a barra, tratou-se de um episódio que, sem anular a informação sobre a Camorra (mas o próprio Conde diz que a pessoa que lhe deu essa informação é um mentiroso contumaz), há aquela velha situação da “caça”. A ida do senhor idoso de aparência impecável e abastada ao concerto público, ele sentando na mesa com um rapaz desconhecido, fitando-o muito (porque, segundo ele, via nesses traços típicos da região uma atitude de consternação profunda que o deixava alheado do que estava à sua volta e de quem estava ao seu lado), depois o afastamento da multidão para cantos mais solitários do parque, a visão do rapaz (muito parecido com o outro, sentado num banco, na mesma atitude taciturna), as passeadas para lá e para cá que sempre o fazem passar pelo tipo, a intimidade descarada com que o outro o assalta, e principalmente a desfaçatez insolente e desdenhosa com que ele o adverte e desacata no Café Umberto. E só para arrematar, a seguinte passagem, extraída da narração do assalto (cujo cerne é o fato de o Conde não estar de posse de bens que a sua aparência prometia):

 

“Aquele jovem poderia largar a faca num instante e fingir que eu era o agressor. Por que não? Poderia ter dito que o atacara. Por que não? Seria uma história incrível contra a outra! Poderia dizer qualquer coisa, levantar uma acusação desonrosa contra mim, como saber? Pelo modo de vestir, não era um ladrão comum. Parecia pertencer às melhores classes. O que eu poderia dizer? Ele era italiano, eu sou estrangeiro. É claro, tenho meu passaporte, e temos o nosso cônsul, mas ser preso, arrastado à delegacia de polícia à noite, como um criminoso!”

    Sem dúvida, um conto “patético”. Como também aquele do escritor Aschenbach vagando por uma Veneza que lhe traz a vida e a morte.

NAVIO PSICOPATA E BORBOLETA RARA

(28.06.09)

Ainda encontramos um primeiro narrador e um interlocutor nos dois outros contos, A bruta (que já foi traduzido no Brasil como A fera numa antologia de horror selecionada por Alberto Manguel) e Um anarquista. A diferença é que esses interlocutores já não pertencem a uma classe “cultivada”, como o ideólogo (o qual, apesar da apologia revolucionária, refestela-se com o mundo burguês, e afinal é um homem culto, um intelectual) de O informante e o personagem-título de Il Conde, são de classes mais populares, sendo o interlocutor de Um anarquista um proletário.

A bruta mostra o narrador chegando a uma taberna e ouvindo os comentários de três marinheiros. O leitor, a princípio, pensa que esses comentários são a respeito de alguma mulher fatal que finalmente teve a sua punição. Não. Antecipando Christine, o carro-assassino criado por Stephen King, com uma sutileza que o criador de Carrie jamais poderia sonhar, trata-se de uma embarcação, orgulho de uma família (tanto que seu nome é “A família Apse”), que sempre causa mortes e acidentes que os marinheiros atribuem à sua vontade maligna, numa personificação dos seus temores e pressentimentos: “Há embarcações difíceis de manobrar, mas em geral, conta-se com o fato de agirem racionalmente  [ isso quer dizer que eles contam com uma providência racional, benéfica]. Com essa,o que quer que você fizesse, nunca sabia como ia acabar. Era uma besta maligna.  Ou talvez fosse apenas louca… Por que não? Por que não haveria algo na sua constituição, em seu desenho, correspondente  a… –o que é a loucura? É só uma minúscula coisa errada na feitura do cérebro. Por que não haveria uma embarcação louca –digo, louca como uma embarcação pode sê-lo, e em ocasião alguma pudéssemos saber se ela ia fazer o que qualquer outra embarcação razoável naturalmente faria? Há navios de leme duro de manobrar e navios de estabilidade não confiável; outros requerem vigília cuidadosa quando navegando numa tormenta e, ainda, pode haver um navio que faça de uma brisa leve um tempo feio. Mas daí se supõe que seja sempre assim. Considera-se como parte de seu caráter de navio, assim como a gente repara nas peculiaridades de temperamento de um homem, quando lida com ele. Com essa embarcação, não. Imprevisível. Se não era louca, era então a mais bruta, ardilosa e selvagem que jamais flutuou”. O cerne da narrativa é a viagem que o interlocutor-segundo narrador faz na Bruta com seu irmão mais velho, Charles, como imediato. Charles está apaixonado e fica noivo de Maggie Colchester, que está a bordo (“O tio estava lhe dando uma viagem de navio para o bem de sua saúde. Não tenho idéia do que poderia haver de errado com a sua saúde. Tinha uma cor bonita, e um danado de um, monte de cabelo loiro. Não ligava a mínima para vento, chuva, jato d´água, sol, o mar verde, nem nada. Era um jóia de menina de olho azul, das melhores, mas o jeito como era atrevida com o meu irmão me assustava”, note-se a modulação do segundo narrador, bem diversa da dos anteriores). Ele tem como meta vencer a Bruta, fazendo sua primeira viagem “tranqüila”, sem tragédias (“… e antes de mais nada, ponha na sua cabeça que não deixaremos a Bruta matar ninguém nesta viagem. Vamos acabar com a sua farra”). Quando está prestes a cumprir seu objetivo, quase atracando, há um acidente no qual Maggie acaba morrendo (“Maggie subira na âncora de bombordo deixada no convés do castelo de proa. Ela havia sido colocada corretamente em sua base de carvalho, mas não houvera tempo de prendê-la com uma volta. De qualquer forma, estava bem segura, lá onde estava, para ir ao cais, mas pude ver claramente que o cabo de reboque levaria de roldão a pata da âncora em um segundo. Meu coração veio à boca, mas não antes que pudesse gritar: Se afasta daquela âncora! Mas não tive tempo de berrar seu nome. Não acho que chegou a me ouvir. No primeiro toque do cabo contra a pata de âncora, ela caiu…”). Há uma bela descrição da prostração do irmão após essa vingança da bruta: “Charley não se parecia em nada consigo mesmo”.

Vou deixar para os futuros leitores desse “conto indignado” (na antologia de Alberto Manguel, o sub-título aparece como “um caso de invectiva”) a “justiça poética” que dá cabo da embarcação psicótica. Só resta mesmo a “justiça poética” neste nesta nossa condição em que “o universo é basicamente inóspito e nós o povoamos com os nossos afetos”.

Todos os quatro textos de Um anarquista &  outros contos são notáveis. O que dá título à seleção, então,  é excepcional, um dos melhores que já li. O seu sub-título é “um conto desesperado”.  Novamente, como em O agente secreto, Sob os olhos do Ocidente e O informante, há o horror-fascínio preconceituoso, cauteloso, com relação à ação revolucionária, mas também há uma compreensão profunda de uma certa patologia que o stalinismo evidenciou plenamente. E também há as grandes imagens demoníacas de um capitalismo selvagem: o primeiro narrador, cuja ocupação é “caçar borboletas” pelo mundo afora, chega a Caiena e se instala (a um custo de 15 mil libras ) por alguns meses, numa ilha na qual funciona uma grande propriedade de exploração pecuária de uma “famosa companhia manufatora de extrato de carne”. As primeiras páginas do conto são dedicadas a mostrar essa vasta intrujice e fabricação de mentira universal que é a propaganda (isso, num texto do início do século XX), que é praticamente liquidada e caracterizada de uma vez por todas. O detalhe que eu achei mais delicioso é a propaganda dos produtos baseada em “informações científicas”, principalmente porque uma das coisas mais irritantes do nosso consumismo atual é que ele sempre se baseia “nas mais avançadas pesquisas” e o público assiste a anúncios onde se fala  de O% de gordura trans e o caralho a quatro (desculpem o meu francês), ou seja, de coisas de que quase ninguém realmente tem noção do que se trata (eu adoro especialmente aquela comercial de shampoo anti-caspa em que se fala de componentes químicos extraordinários e no final Helena Ranaldi diz enfaticamente: “Estou convencida!”): “É claro que o capital de um país deve ser empregado de modo produtivo. Não tenho nada contra a companhia. Mas sendo animado por sentimentos de afeição para com meus semelhantes, entristece-me o sistema moderno de propaganda. Qualquer que seja a evidência de iniciativa, engenho, ousadia e habilidade em certos indivíduos, ela prova para a minha inteligência apenas a ampla supremacia da degradação mental chamada credulidade”. Mais adiante: “Seja qual for a forma de degradação mental de que (não sendo senão humano) eu possa sofrer, não é dessa forma popular. Não sou crédulo.”

Além da propaganda, a propriedade em si, na ilha (onde ele está porque está atrás de uma espécie rara de borboleta que só existe ali, e de fato ele descobrirá no seu interlocutor um espécime raro), é descrita de forma demoníaca: “Ressoava com os mugidos de inumeráveis rebanhos, um som profundo e aflitivo a céu aberto, elevando-se como um protesto monstruoso de prisioneiros condenados à morte”. Além disso, há um administrador estúpido, boçal, auto-satisfeito, que faz inúmeras alusões debochadas ao esporte que o narrador pratica (“Seu deboche seria bem inofensivo se a intimidade comunicativa, na ausência total de sentimentos amistosos, não fosse uma coisa detestável em si mesma”).

    Após essas primeiras páginas introdutórias ao mecanismo infernal que sustenta o capitalismo moderno (e que continua o mesmo, de 1908 para cá), conhecemos o futuro interlocutor do primeiro narrador: o mecânico encarregado de fazer a manutenção de um barco a vapor de que se serve a propriedade insular). O odioso administrador vive mexendo com ele, provocando-o, chamando-o de Crocodilo (porque passa parte do tempo na água), mas sua provocação favorita é chamá-lo de “un citoyen anarchiste de Barcelone”, um cidadão anarquista de Barcelona, embora ele não saiba direito a origem do mecânico e nem sequer se ele é um anarquista. Ele tem certeza de um fato: é fugitivo da lei. E por isso o tiraniza, humilha e explora como ao gado condenado à morte. O narrador pergunta ao administrador quanto ele paga ao rapaz: “Salário! E para que ele quer dinheiro aqui? Comida ele pega na minha cozinha, e roupa, no depósito. Claro que vou dar alguma coisa para ele no fim de ano, mas você acha que empregaria um condenado e lhe daria o mesmo dinheiro que daria a um homem honesto? Estou zelando pelos interesses da minha companhia, antes e acima de tudo… se tivesse certeza de que ele é um anarquista e se tivesse a pachorra de me pedir dinheiro, eu lhe daria o bico da minha bota. Entretanto, que fique com o benefício da dúvida. Estou pronto a aceitar a idéia de que não tenha feito nada além de espetar uma faca em alguém… Mas aquela coisa podre de subversivo sanguinário que manda para o inferno toda lei e ordem do mundo faz subir o meu sangue. É de tirar o chão sob os pés de cada pessoa decente, respeitável e trabalhadora, simplesmente. Insisto que as pessoas que têm essa consciência, como você e eu, devem ser protegidas de algum jeito, ou então o primeiro salafrário de meia-tigela que aparecesse iria valer o mesmo que eu. Não iria? E isso é absurdo”. Confesso que durante a leitura desse quase-manifesto arrogante, eu fiquei tentado a imaginar toda a lei e ordem desse tipo do mundo indo para o inferno, e tudo que há de subversivo em mim, se não se apoltronou (termo tão caro a Lygia Fagundes Telles) veio à tona. E também fiquei imaginando o que poderia passar pela mente do narrador ouvindo um discurso que o iguala ao administrador, “as pessoas que têm essa consciência, como você e eu”…

Um dos primeiros adjetivos de que o narrador se vale para caracterizar suas impressões do “cidadão anarquista de Barcelona” é “delicado”, o que sem dúvida causa forte contraste com o nada delicado administrador e toda a sua positividade opressiva: “Ao som dos nossos passos levantou um rosto austero, com queixo pontudo e um minúsculo bigode loiro. O que podia ser cisto de seus traços delicados, sob manchas de graxa, parecia-me desgastado e lívido à sombra esverdeada da árvore enorme que estendia sua folhagem sobre o vapor atracado junto à margem”. Como o inesquecível personagem-título de Bartleby, de Hermann Melville, que tinha o seu exasperante bordão “Preferia não fazer”, esse mecânico delicado tem o seu, igualmente misterioso, “Não nego nada”.

Porém, ao contrário de Bartleby, ele se entrega a confidências (no seu catre, como o Kurtz moribundo de Coração das Trevas, e ele mesmo tem o seu quê de “prostrado”) . Ele conta sua história e, vejam só, foi realmente ligado ao anarquismo revolucionário, não em Barcelona, já que era um operário parisiense, conformado com a vida, juntando o seu dinheirinho na poupança. No seu aniversário de vinte e cinco anos, foi comemorar com dois colegas da oficina (e logo apareceram mais dois companheiros, os quais ele não conhecia, mas a quem convidou para se juntarem à comemoração) e bebeu… bebeu…bebeu. E nunca se sentiu tão feliz, pleno e satisfeito: “Mas uma coisa extraordinária aconteceu. Os estranhos disseram que, por algum motivo, sua animação se foi. Idéias melancólicas dispararam em sua mente. O mundo todo fora do café lhe pareceu um lugar mau e funesto, onde uma multidão de pobres infelizes tinha de trabalhar como escrava para o único objetivo de que uns poucos indivíduos andassem de carruagem e vivessem libidinosamente em palácios. Envergonhou-se de sua felicidade. A piedade pelo destino cruel da humanidade oprimiu seu coração [ temos na verdade aqui o velho sentimentalismo do homem bêbado]. Numa voz engasgada de mágoa ele tentou expressar esses sentimentos. Acha que alternadamente chorou e xingou” [aqui temos a narração da narração do acontecido de forma clara].

O que acontece é confusão, vidros quebrados, brigas, chegada da polícia, um cassetete na cabeça do nosso Crocodilo e a prisão. Que por culpa de um advogado ambicioso  se torna uma pena relativamente severa para um réu primário.  Saindo da cadeia, não conseguindo emprego em parte alguma, dele se acerca uma célula subversiva que acompanhara seu caso e não o deixam mais: “…uma existência impossível!Vigiado pela polícia, vigiado pelos camaradas, não pertenço a mim mesmo. O quê? Não poderia sacar uns poucos francos da minha poupança no banco sem um camarada plantado na porta para garantir que eu não fugisse! E a maior parte deles não era nada mais nada menos que arrombador. Os inteligentes, quero dizer. Roubavam dos ricos, apenas retomavam o que era deles, diziam. Quando bebia um pouco, eu acreditava neles. Havia também os tolos e os loucos. Des exaltés, quoi! Quando estava bêbado, eu os adorava. Quando ficava mais bêbado, me enfurecia contra o mundo. Era o melhor momento. Achava refúgio contra a miséria na raiva. Mas não é possível estar sempre bêbado…” É típico de Conrad frisar esse lado malsão da experiência revolucionária, ideólogos manipuladores e gente exaltada ou embriagada, patologicamente servindo a um ideal vão. Os revolucionários quase que caracterizados como mafiosos, um submundo. E assim, nosso herói vai preso novamente, e deportado para Caiena, na prisão da Ilha São José, com dois companheiros da célula anarquista.

Há um motim, maravilhosamente narrado (inclusive com o detalhe caracteristicamente conradiano porque cavalheiresco em que há uma mulher que pode ser atacada e estuprada pelos amotinados e pela qual o operário desviado resolve se sacrificar e dar a vida; a situação não chega a tanto, todavia). Resumindo, os três companheiros anarquistas escapam num bote e aí é que se dá a crise para a qual o relato se encaminha:  toda a revolta do operário enganado pela ilusão revolucionária, as figuras desagradáveis e calculistas dos companheiros, suas artimanhas e mesquinharias, a Real Politik. Como tinha um revólver, ele os domina no bote e os obriga a remar. Um deles, ultrajado, o chama de Camarada: “Não tem camarada aqui. Sou seu patrão”. Mais adiante: “… enquanto falava, remava; e Simon continuou remando, também. Isso me fez sorrir. Ah! Esses dois amavam a vida, nesse mundo maligno deles, assim como eu amara minha vida, também, antes que a arruinassem com suas frases… Lembrei de suas mentiras, de suas promessas, suas ameaças e de todos os meus dias de miséria. Por que não me deixaram em paz quando saí da prisão? Olhei para eles e pensei que, enquanto vivessem, eu não seria livre. Nunca. Nem eu nem outros como eu, com sangue quente e cabeça leve. Pois eu sei que não tenho uma cabeça boa, monsieur”.

Apossa-se dele uma “fúria negra”, “mas não contra a injustiça da sociedade, oh não”. E grita para os camaradas-algozes-reféns no bote: “Eu quero liberdade”. Os outros acham que é uma palavra de ordem (já que avistaram um navio) e também gritam “Viva a liberdade”, afirmando que vão fazer a sociedade burguesa sentir a sua volta. Então ele os assassina. O navio que o recolhe tem a tripulação toda negra, comandada por um mulato que é o único que o compreende um pouco. Eles é quem o colocam em terra na ilha de propriedade da  “famosa companhia manufatora de extrato de carne”, após alguns dias ameaçadores e estranhos de convivência forçada. E é ali, na sujeição e na abjeção, em pleno coração da injustiça e da exploração (da vida humana e animal) que ele encontra a sua libertação do mundo da ideologia e seus rumos ambíguos: “… tentei induzi-lo a deixar o vapor atracado onde estava e ir para a Europa comigo, de lá mesmo e naquele momento. Teria sido delicioso imaginar a surpresa e o desgosto do excelente administrador com a fuga daquele pobre diabo. Mas recusou com obstinação inquebrantável”. O narrador lhe diz que não pode viver para sempre ali, naquela situação: “Devo morrer aqui…Longe deles.” Um pouco antes, no relato, o narrador tentara um diagnóstico do seu estranho interlocutor, da sua borboleta rara (mas mesmo de um tipo raro uma borboleta pertence  a uma espécie geral) encontrada na ilha: “… a minha idéia é a de que ele era mais anarquista do que confessou a mim ou a si mesmo e, de parte as características muito específicas desse caso, ele era muito parecido com muitos outros anarquistas. Sangue quente e cabeça leve, eis a solução da charada; e é fato que as mais amargas contradições e os mais mortais conflitos do mundo são levados adiante pelos corações individuais, capazes de sentimento e paixão”.

E o narrador o imagina deitado, de olhos abertos (ele sofre de insônia), na pequena oficina da ilha, que lhe serve de moradia: “o anarquista escravo da propriedade”.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

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CERTIFICADO COMEMORATIVO CONRADIANO

O MARIDO ERA O CULPADO MESMO

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I

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 04 de março de 2003)

Nesta minha coluna de “A Tribuna”, um dos livros de Joseph Conrad (1857-1924), Nostromo (1904), foi escolhido como um dez maiores romances do século XX, mas bem poderia ter sido O agente secreto (1907), igualmente extraordinário e igualmente pioneiro quanto à sua temática. Tanto que a editora Revan oportunisticamente procura (em sua edição da tradução de Paulo  Cezar Castanheira) relacioná-lo aos eventos de 11 de setembro de 2001 que culminaram com a destruição do World Trade Center. Eles deram tanta atenção a essa vinculação que esqueceram até de incluir a dedicatória do autor a H.G. Wells.

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira e nada faz”. Nesta fala de um personagem sinistro, artesão de bombas, o Professor, revela-se a classe de gente em que se movimenta o agente secreto Adolf Verloc, o qual mantém uma sórdida loja de artigos pornográficos no Soho, em Londres. Ele trabalha para uma misteriosa embaixada estrangeira. Sua missão: infiltrar-se nos círculos revolucionários, dos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, de um departamento secreto da polícia inglesa.

A situação de Verloc, confortável durante tantos anos, se complica porque o Sr. Vladimir, seu novo contato na embaixada, exige dele uma ação efetiva: um atentado contra o Observatório de Greenwich, referência mundial para o horário, ou então seus pagamentos serão suspensos.

Verloc é casado. Moram com ele, além da esposa, a sogra (que, no meio da narrativa, resolve transferir-se para um asilo) e o cunhado, Stevie, deficiente mental. A razão por que Winnie casou-se com um antigo hóspede da mãe foi justamente para proporcionar segurança para o irmão, a quem se dedica totalmente. Devido á complacência do marido com Stevie, ela vai acreditando-se feliz, atendendo aos fregueses escusos da lojinha, aturando os “amigos” dogmáticos de Adolf, e sobretudo não se fazendo nenhuma pergunta que perturbe a aparente placidez do seu quotidiano.

A  grande tragédia de O agente secreto acaba sendo mais doméstica do que política, como diz outro personagem, com ironia. Verloc dá o artefato explosivo para Stevie carregar, ele tropeça e seu corpo é todo despedaçado. Quando descobre que o marido levou o irmão à morte, Winnie Verloc tem de se fazer todas as perguntas incômodas anteriormente abafadas, e termina por assassinar Adolf (na sua versão cinematográfica, aliás, de rara beleza plástica, Sabotage- O marido era o culpado, Hitchcock concentrou-se mais nesse aspecto do livro, explorando de forma sensacionalista a morte de Stevie e exagerando a maldade do personagem Verloc).

Enquanto isso, há uma surda competição entre o Inspetor Heat e seu superior, o Comissário-assistente, com relação ao caso do atentado.

O que impressiona em O agente secreto é esse atentado feito por motivos puramente econômicos, para não dizer alimentares. Verloc quer manter seu estilo de vida, assim como os revolucionários ociosos, praticamente inócuos e patéticos (menos o Professor). Essa grande ironia (um agente quase de mentirinha, gerando uma rede de situações problemáticas e pequenas situações conspiratórias ao seu redor), décadas mais tarde renderia outros dois livros: o maravilhoso Nosso homem em Havana, de Graham Greene (que teve também uma ótima adaptação para o cinema, de Carol Reed) e o competente O alfaiate do Panamá, de John Le Carré (tão mal filmado por John Boorman). Só que, neles, o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o sr. Verloc  vive uma situação ainda mais patética, num clima dito revolucionário, que não ameaça nada, não desestabiliza nada, mas que justifica sua atividade e proventos, bem com os de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas.

Outro aspecto fascinante do livro é a poesia das cidades, nesse caso, a de Londres. A grande metrópole, engolfando os movimentos dos personagens e refletindo suas preocupações pessoais, através das suas ruas e bairros, admiravelmente bem descritos. Por outro lado, as cenas da vida doméstica de Verloc com a esposa, o cunhado e a sogra, são geniais. E o ponto alto do romance é o capítulo em que se confrontam Adolf e Winnie, um dos maiores da história da ficção.

Esperemos que a Revan publique todos os livros de Conrad, como está prometendo, e com menos pressa e mais cuidado. Cadê Julieta Cupertino?

II

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 13 de junho de 1995 )[1]

Em 1936, Hitchcock filmou O agente britânico (Ashenden), de Somerset Maugham, com o título de O agente secreto. Seu filme seguinte, por sua vez, baseava-se no livro O agente secreto, de Joseph Conrad, e, por razões óbvias, foi intitulado Sabotage (no  Brasil, seu título é uma jóia rara: O marido era o culpado). Curiosamente, anos mais tarde, já no seu período “americano”, Hitchcock faria um filme sábado Sabotador, que nada tem a ver com os outros dois. Esse labirinto para se estabelecer o que é o quê, qual é qual, esse risco de uma coisa não ser exatamente o que parece, bem poderia sair de um livro de do polonês , que passou a viver e escrever na Inglaterra, dividindo com Henry James o título de  Mestre da Ambigüidade na ficção.

O agente secreto do seu livro é Adolf Verloc. Mantendo uma loja em Londres, como fachada (além de uma família), ele trabalha para uma potência estrangeira. Sua missão, ao longo dos anos, foi permanecer em contato com círculos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, do Departamento de Crimes Especiais da polícia inglesa. Verloc é pressionado por um novo funcionário da embaixada do país para o qual trabalha a apresentar um motivo mais concreto por que deva ser mantido na folha de pagamentos. Resolve, então, preparar um atentado contra o Observatório de Greenwich, utilizando seu cunhado meio trelelé, Stevie, para carregar a bomba. O que acontece com essa bomba e Stevie, os efeitos que esse evento tem sobre madame Verloc, e em meio a isso tudo, a guerra de vaidade entre eminente “revolucionários” e também entre Heat e seu superior, o Comissário, são o assunto desse grande romance publicado em 1907 (e aqui traduzido por Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos [2]), e absolutamente pioneiro quanto à temática, como se pode observar.

Hoje em dia, depois de tantas tramas de espionagem (quer maniqueístas, quer ambivalentes), parece que não pode haver grande novidade ou interesse numa história desse tipo. Isso aconteceria se a ação fosse o interesse principal de Conrad. Não é. O que impressiona em O agente secreto é como a comédia humana em que Verloc se envolvia, um tanto abstratamente, um mundo de revolucionários paralisados e ociosos, perfeitamente inócuo, encaminha-se aos poucos para a tragédia. Ou seja, um agente de mentirinha acaba criando uma rede de situações problemáticas e pequenas conspirações ao seu redor), tal como Graham Greene (bastante devedor de Conrad) fará décadas mais tardes em Nosso homem em Havana. Só que no romance de Greene o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o senhor Verloc vive uma situação patética, um clima “revolucionário” que não ameaça nada, mas que justifica a sua atividade, a de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas. Nessa atmosfera trágica, avulta Winnie Verloc.

Mas há toda a parte final, que não convém contar, embora não se possa deixar de chamar atenção para o fato de O agente secreto ser um dos mais cabais exemplos da poesia da cidade pós-baudelairiana, o uso da metrópole como espaço real e simbólico a um só tempo,  o que faz com que as cenas da vida doméstica de Verloc (com a esposa, o cunhado e a sogra) sejam  um ponto alto na produção admirável do autor de Sob os olhos do Ocidente, Nostromo, Lord Jim e O coração das trevas (o texto que inspirou Apocalipse now, de Coppola).Em se tratando do homem que escreveu esses textos, dizer que essa parte pode ser considerado um ápice da sua ficção é dizer que estamos no terreno da pura genialidade.


[1] Nota de 2010- Eu na verdade sobrepus a essa resenha de 1995, outra resenha, também publicada em “A Tribuna” , em 24 de fevereiro de 2007, em razão do centenário de O agente secreto, e que se iniciava assim:

Joseph Conrad nasceu há 150 anos. Além disso, uma das suas obras-primas, O agente secreto, torna-se centenária agora em 2007. O leitor brasileiro tem duas traduções disponíveis: a de Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos (cuja publicação mais recente é pela Imago) e a de Paulo Cezar Castanheiro (pela Revan).

Sobre Nostromo escrevi em 25 de dezembro de 2004, numa resenha sobre livros que se tornavam centenários naquele ano:

Em 1904, morria Anton Tchecov e estreava nos palcos sua obra-prima O jardim das cerejeiras. Não faltaram lançamentos tchecovianos (Minha vida, O duelo, A gaivota, As três irmãs) em 2004 para que se descobrisse o magnífico  (praticamente redefiniu os dois gêneros) contista e dramaturgo. No mesmo ano nasceu um escritor do calibre de Alejo Carpentier, pioneiro e expoente da melhor ficção latino-americana.

Dois romances incríveis de 1904 já foram comentados nesta minha coluna, Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A taça de ouro (The golden bowl), de Henry James. Ainda nesse ano, Romain Rolland iniciava um ciclo romanesco que iria marcar época, Jean-Christophe (completado em 1912). Ainda se trata de uma obra muito apegada ao espírito do século anterior, enquanto as de Machado e James representavam uma revolução, ao contrariar as expectativas do leitor quanto ao enredo e à psicologia dos personagens. Esse mesmo ímpeto revolucionário (que aparece mais discretamente, porém não menos decisivamente, em Tchecov) está presente nos agora também centenários O falecido Matias Pascal, de Luigi Pirandello, e Nostromo, de Joseph Conrad.

Embora com duas versões brasileiras (as de Mário Silva e Helena Parente Cunha), o genial livro de Pirandello anda sumido do mercado há alguns anos. Apresenta um narrador meio Brás Cubas,um herdeiro arruinado, um boa-vida extravagante (“não tinha aptidão para nada, e a nomeada que adquirira com minhas façanhas juvenis e a vida de vadio certamente não convidava ninguém a dar-me trabalho), que nos conta (apesar de não acreditar no ato de escrever livros) como morreu não uma, mas duas vezes: “Já posso considerar-me como que fora da vida, logo, sem obrigações nem escrúpulos de qualquer natureza”. Sempre brincando com o leitor (Como é que sei essas coisas? Ora, como sei. É boa!”), radicaliza uma postura narrativa que marcará o romance modernista. Matias Pascal parece não ter sofrido a influência do tempo. É uma leitura deliciosa.

Já não se pode dizer o mesmo do soberbo Nostromo (outro que tem joduas versões, a de José Paulo Paes e a de Donaldson M. Garschagen). Tal qual a outra obra-prima suprema de 1904, A taça de ouro, exige muito do leitor, inclusive a disposição de se aventurar por dilemas morais que parecem anacrônicos (será?). No entanto, trata-se de um visionário estudo do imperialismo, da passagem do domínio europeu para o norte-americano: a ação se passa em Costaguana, país da América Latina, em cuja cidade mais próspera, Sulaco, instala-se um casal inglês, os Gould, possuidor de uma mina de prata que catalizará a ação do romance. Durante uma daquelas recorrentes revoluções, nas quais surge um candidato a ditador, um carregamento de prata da mina é colocado nas mãos do capataz Nostromo (a alcunha vem da expressão “nosso homem”, pois ele goza da fama de homem de confiança e indispensável), que acaba ficando com o tesouro, o qual todos acreditam ter afundado.]

E o leitor de 2004 sente um arrepio ao se deparar com a visão que o poderoso milionário estadunidense, mr. Holroyd, principal investidor da mina, tem do destino do seu país: “O próprio tempo tem de esperar no maior país de todo o universo de Deus. Estaremos dando a palavra oficial com relação a tudo: indústria, comércio, direito, jornalismo, arte, política e religião, desde o cabo Horn até o Estreito de Smith, e até além dele, se aparecer no Pólo Norte alguma coisa que valha a pena controlar. E a seguir daremos tempo ao tempo, para tomarmos as ilhas oceânicas e os continentes da terra. Haveremos de dirigir os negócios do mundo, goste ou não o mundo.”

Nota de 2010- Eu quis manter o clima labiríntico proporcionado pelo próprio livro, nessa minha transcrição de resenhas, mas devo dizer que a mais sucinta e precisa das que se ocupam de O agente secreto, a meu ver, é justamente a de 2007. Porém, ainda há mais uma volta do parafuso, uma resenha publicada em 15 de junho de 2010, em razão da publicação de uma terceira tradução, e que segue muito de perto a versão de 2007, a não ser pelo início:

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira; e nada faz”, diz o Professor, sinistro artesão de bombas. É nesse mundo estagnado e conspiratório que se movimenta Adolf Verloc, o protagonista de O agente secreto, de Joseph Conrad, um clássico de 1907, que se tornou premonitório com o atentado às Torres Gêmeas, e lançado agora em edição bilíngüe pela Landmark.”

 

[2] Agora, em 1995, essa tradução passa a fazer parte de uma das melhores iniciativas editoriais dos últimos anos, a coleção Lazuli, a qual já publicou textos de Henry James, Flaubert, Nabokov e do próprio Conrad (Mocidade & O parceiro secreto)

16/11/2011

Água fria na fervura de uma velha trama: “O cemitério de Praga”, de Umberto Eco

uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2011

“Criamos um público que quer mais; talvez não me leiam para conhecer as tramas dos inimigos da Cruz, mas por pura paixão narrativa, como acontece com aqueles romances de peripécias em que o leitor é induzido a tomar o partido do criminoso…” (Umberto Eco, O cemitério de Praga)

I

No livro em que reproduz conferências feitas em Harvard, Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), Umberto Eco fez uma brilhante demonstração de como os Protocolos dos Sábios do Sião, que denunciavam um suposto complô judeu para dominar o mundo (e     que se tornaram um importante instrumento do antissemitismo, inclusive na ideologia hitlerista), se originavam das várias versões deturpadas de cenas de romances rocambolescos como O Judeu Errante, de Eugene Sue, e Joseph Balsamo, de Alexandre Dumas.

Na última conferência, Protocolos ficcionais, lemos (aqui em tradução de Hildegard Feist):

“…se a atividade narrativa está tão intimamente ligada à nossa vida cotidiana, será que não interpretamos a vida como ficção e, ao interpretar a realidade, não lhe acrescentamos elementos ficcionais?

   Eu gostaria de contar uma história espantosa que, sem sombra de dúvida sempre foi ficcional—porque foi baseada em citações explícitas de fontes ficcionais—e que no entanto muitas pessoas infelizmente assumem como verdadeira.

   A construção de nossa história se iniciou há muito tempo, no começo do século XIV, quando Filipe, o Belo, aniquilou os templários. Desde então inventaram-se muitas histórias sobre as atividades dos sobreviventes da Ordem. Ainda hoje podemos encontrar sobre esse assunto dezenas de obras recentes(…)

   No século XVII surgiu outra história—a da Rosa-Cruz(…) Salvo umas poucas insinuações, ninguém admitia pertencer à irmandade, pois o grupo era secreto e os autores rosa-cruzes diziam que não eram rosa-cruzes. Isso significa que, ipso facto, todos os que mais tarde se declararam rosa-cruzes com certeza não o eram. O resultado é que não só não existe nenhuma prova histórica da existência dos rosa-cruzes, como por definição não pode mesmo existir (…) Nos séculos subseqüentes, os adeptos formaram incontáveis grupos esotéricos que se proclamaram os únicos e genuínos herdeiros dos rosa-cruzes originais e afirmaram possuir documentos indiscutíveis—os quais, no entanto, não podem ser mostrados a ninguém, uma vez que são secretos.

   No século XVIII, um ramo francês da maçonaria chamado Maçonaria Escocesa (também conhecida como Maçonaria Templária e Ocultista) tornou-se parte dessa construção ficcional. Os maçons escoceses não só fizeram suas origens remontarem aos construtores do Templo de Salomão, como ainda afirmaram que os construtores do Templo se relacionavam com os templários, cuja tradição secreta teria sido transmitida por intermédio dos rosa-cruzes. Essas sociedades secretas e a possível existência de ´Superiores Desconhecidos´que guiavam o destino do mundo foram tema de debate na época imediatamente anterior à Revolução Francesa (…)

    Entre 1797 e 1798, num esforço para explicar a Revolução, o abade Barruel escreveu suas Memórias para servir à história do jacobinismo, livro supostamente factual que parece um folhetim. Naturalmente, ele se inicia com uma discussão sobre os templários. Depois que seu grão-mestre Molay foi executado na fogueira, eles se transformaram numa sociedade secreta empenhada em destruir o papado e todas as monarquias e criar uma república mundial. No século XVIII, assumiram o controle da maçonaria(…) foram ainda responsáveis pela criação dos jacobinos. Todavia, quem controlava os jacobinos era uma sociedade ainda mais secreta, a dos Iluminados da Baviera—regicidas por vocação. Assim, de acordo com Barruel, a Revolução Francesa veio a ser o resultado final de uma velha trama.

   Até Napoleão encomendou relatórios sobre seitas clandestinas. O autor desses documentos foi Charles de Berkheim, que—como fazem em geral os espiões e informantes—obteve sua informação de fontes públicas e entregou ao soberano, como um fantástico furo de reportagem, todas as notícias que este poderia ter lido [por exemplo, nos livros de Barruel].Aparentemente Napoleão ficou tão impressionado com essas descrições horripilantes de um diretório de Superiores Desconhecidos capazes de governar o mundo que fez o possível para ingressar no grupo.

   As Memórias de Barruel não contêm nenhuma referência aos judeus. Contudo, em 1806, o abade recebeu uma carta de um certo capitão Simonini, o qual afirmava que Manés (o inventor do maniqueísmo) e o Velho da Montanha (grão-mestre da ordem secreta dos Assassinos e aliado notório dos templários) eram judeus; que a maçonaria fora fundada por judeus, e que os judeus se infiltraram em todas as sociedades secretas existentes. Parece que a carta de Simonini foi, na verdade, fabricada pelos agentes do ministro da polícia Joseph Fouché, que andava preocupado com o fato de Napoleão se aproximar da comunidade judaica francesa por motivos políticos.

   Barruel ficou assustado com as revelações de Simonini e consta que declarou reservadamente que a publicação da carta poderia provocar um massacre dos judeus. Não obstante, elaborou um ensaio no qual aceitava as idéias de Simonini, e, embora destruísse esse texto, os boatos já haviam começado a se espalhar. Só produziram resultados interessantes m meados do século, quando os jesuítas se alarmaram com os protagonistas anticlericais do Risorgimento italiano, como Garibaldi, que eram afiliados à maçonaria. Passaram então a dizer que os carbonari italianos eram agentes de um complô judaico-maçônico.

    Todavia, no século XIX, os anticlericais também tentavam difamar os jesuítas mostrando que conspiravam contra a humanidade. Foi o caso de muitos escritores ´sérios´(…); contudo, foi um autor de folhetins, Eugène Sue, quem deu a maior publicidade a tais acusações. Em seu romance O judeu errante, o perverso monsieur Rodin, a encarnação da conspiração jesuítica mundial, é claramente mais uma versão romanesca dos Superiores Desconhecidos. Monsieur Rodin retorna no último romance de Sue, Os mistérios do povo, onde o plano diabólico dos jesuítas é exposto até o último detalhe criminoso num documento enviado a Rodin (personagem ficcional) pelo diretor da Ordem, padre Roothaan (figura histórica). Sue retoma ainda outra personagem ficcional, Rodolphe de Gerolstein, de seu romance Os mistérios de Paris (um autêntico livro ´cult´, a ponto de milhares de leitores enviarem cartas a suas personagens). Gerolstein se apodera do documento e revela ´quão astuciosamente se urdiu essa trama infernal e que terríveis sofrimentos, que pavorosa escravização, que horrendo despotismo significaria para a Europa e o mundo se ela tivesse vingado´.

   Em 1864, depois de publicados os romances de Sue, um tal Maurice Joly criticou Napoleão III escrevendo um panfleto liberal em que Maquiavel, que representa o cinismo do ditador, conversa com Montesquieu. A conspiração judaica inventada por Sue… agora é atribuída a Napoleão—e detectei nesse panfleto nada menos que sete páginas que, se não são plágio, no mínimo estão repletas de extensas e inconfessas citações de Sue. Joly foi preso por causa de seus escritos anti-imperiais, passou quinze anos no cárcere e depois se suicidou. Saiu de cena, porém vamos reencontrá-lo mais adiante.

     Hermann Goedsche, um funcionário do Correio alemão, que já publicara panfletos de caráter político caluniosos e difamatórios, escreveu em 1868, sob o pseudônimo de sir John Retcliffe, um romance popular intitulado Biarritz, no qual apresentava uma cena de ocultismo no cemitério de Praga. Seu modelo fora a cena da reunião (descrita em 1849 por Dumas em Joseph Balsamo) de Cagliostro, chefe dos Superiores Desconhecidos, com um grupo de outros Iluminados, para tramar o caso do colar de diamantes. Contudo, em vez de retratar Cagliostro e Cia, Goedsche remontou a cena com representantes das doze tribos de Israel, que se reúnem a fim de preparar a conquista do mundo pelos judeus—conquista que seu grão-rabino descreve em detalhes.

   Cinco anos depois, um panfleto russo (Os judeus, senhores do mundo) reutilizou a mesma história como se fosse verdadeira. Em 1881, o periódico francês Le Contemporain publicou a história mais uma vez, afirmando que provinha de uma fonte irreprochável, o diplomata inglês sir John Readcliff. Em 1896, François Bournand voltou a citar os discursos do grão-rabino (a quem chamou de John Readcliff) em seu livro Os judeus, nossos contemporâneos). A partir daí a reunião fictícia inventada por Dumas, acrescida dos projetos criados por Sue e atribuída por Joly a Napoleão III tornou o discurso ´real´ do grão-rabino e reapareceu em vários lugares.

    A história não termina aí. O russo Piotr Ivanovich Rachkovski (que não era personagem de ficção, mas bem que merecia ser) havia sido preso por seu envolvimento com grupos revolucionários esquerdistas e mais tarde se tornou informante da polícia; na virada do século, ingressou na organização terrorista de extrema-direita conhecida como as Centúrias Negras e acabou se tornando chefe da Okhrana, a polícia política do czar. A fim de ajudar o conde Sergei Witte, seu protetor, a livrar-se de um adversário político, Elie de Cyon, Rachkovski tratou de vasculhar a casa deste último; ali encontrou um panfleto que era uma cópia do texto de Joly contra Napoleão III com uma ressalva: Cyon ´corrigira´ para atribuir as mesmas idéias a Witte. Como todo adepto das Centúrias Negras, Rachkovski era um antissemita feroz (e esses fatos ocorreram mais ou menos na época do caso Dreyfus) e criou uma nova versão romanesca daquele velho texto, eliminando todas as referências a Witte e atribuindo a trama aos judeus. O nome Cyon lembrava Sion, e Rachkovski achou que uma trama de judeus denunciada por um judeu podia ser altamente confiável.

   O texto criado por Rachkovski foi provavelmente a primeira fonte dos Protocolos dos Sábios do Sião. Os protocolos são claramente ficcionais, pois neles os sábios expõem seus malignos projetos sem o menor pudor—o que seria plausível num romance de Sue. Porém é difícil acreditar que alguém agisse na realidade com tamanho descaramento. Os Sábios declaram abertamente: `Temos uma ambição ilimitada, uma cobiça voraz, um desejo impiedoso de vingança e um ódio intenso´ (…)

   Como os estudiosos observaram é fácil perceber que os Protocolos foram um produto da França oitocentista, pois estão repletos de referências a questões do fin-de-siècle francês (como o escândalo do Panamá e os rumores sobre a presença de acionistas judeus na Companhia do Metrô de Paris). Também é claro que foram baseados em vários romances famosos. Infelizmente, a história, mais uma vez, era tão convincente como narrativa que muita gente não teve dificuldade em levá-la a sério.  O resto é História: um monge itinerante chamado Sergei Nilus, que vivia entre a comunidade russa da França—uma figura bizarra, meio profeta e meio canalha, desde muito obcecado com a idéia do Anticristo—a fim de favorecer sua ambição de tornar-se conselheiro espiritual do czar, prefaciou e publicou o texto dos Protocolos. Depois, esse texto percorreu a Europa e foi cair nas mãos de Hitler. Vocês conhecem o resultado…”

II

A paixão de Eco por folhetins, por imposturas,  pelo lixo cultural  e pela tolice humana[1] (ou seja, o hábito de acreditar em qualquer coisa) fez com que ele desenvolvesse o esquema acima num romance, O cemitério de Praga (na deliciosa tradução de Joana Angélica D´Ávila Melo para Il cimitero di Praga). Como se vê, o título se refere a uma espécie de cena primordial, bebida nos romances, e urdida e reaproveitada pelo personagem principal, Simone Simonini: um encontro de rabinos representando as doze tribos de \Israel no referido cemitério, onde eles expõem a teia judaica para controlar as finanças mundiais, a ruína do cristianismo e dos valores ocidentais e a subseqüente dominação global.

Criado por um avô fortemente conservador e antissemita (e que seria o suposto autor da carta a Barruel), Simonini devora os livros de Sue e Dumas. Após a morte do velho, roubado por um tabelião, que o priva da sua herança, ele revela-se hábil na falsificação de documentos, em forjar papéis supostamente “autênticos” e, numa Itália ainda não unificada e assolada por conflitos, nos quais avulta a figura de Garibaldi,  inicia uma carreira como informante e agente duplo que o levará a se instalar na Paris de Napoleão III, da Comuna e da guerra (perdida) contra a Alemanha, e do caso Dreyfus, períodos em que os serviços secretos precisam sempre de “provas” contras os oponentes.

Temos, então, toda a atmosfera do folhetim: disfarces, conspirações, fomentação da opinião pública contra um determinado inimigo (jesuítas, maçons, comunistas, mas em especial os judeus, cada vez mais). Ficamos sabendo da trajetória de Simonini por meio de um diário que ele escreve (em 1897), ao perceber estranhos lapsos de memória, quando desconfia de que pode sofrer de dupla personalidade (a “outra” seria a identidade de um abade que ele assassinara e jogara nos esgotos embaixo da sua morada parisiense décadas antes[2]). Portanto, ao longo da reconstituição, as duas personalidades dividem o diário, gerando informações e fontes tipográficas diferentes (há uma terceira, que mostra a interferência do Narrador, que “edita” esse material para torná-lo palatável ao gosto contemporâneo).

Aqui no Brasil, o romance de Eco foi duramente criticado, num artigo do Estado de São Paulo, por Maurício Santana Dias, pelo excesso de referências eruditas, pelo seu estilo bricabraque (colagem, paródia de estilos). Uma besteira, como sabe quem leu e curtiu O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Esse conhecimento está entranhado no grande escritor italiano, não é uma erudição borra-botas à la Dan Brown e quejandos, flui sempre natural e com graça, o que é raríssimo.

O que incomoda em O cemitério de Praga, apesar de ser um bom romance (mas podia ser bem melhor; não posso deixar de ressaltar, entretanto, que Eco se mostra particularmente inspirado no achado final, a maneira como interrompe o diário de Simonini) é a combinação de três fatores. Em primeiro lugar, a dupla personalidade desagradável e odiosa que protagoniza a narrativa [3]. Isso não seria tão problemático (em O perfume, de Patrick Süskind, ou Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, os heróis também são horríveis) se a estrutura do romance não contradissesse a sua tese principal: Eco nos diz que as teorias conspiratórias são uma prova da credulidade geral, porém toda a sua trama é calcada em conspirações e jogos de poder bastante reais e documentados, que ratificam a noção de que o mundo é regido nas sombras, e mesmo que a paranóia e o racismo ditem certas concepções populares (como acontece até hoje com relação aos judeus[4]), ele nos oferece indícios suficientes de que há um controle subterrâneo do mundo e das informações.

Por último, e o defeito principal, a meu ver, é que—ao utilizar a moldura folhetinesca—ele contrariou as regras do jogo, e ao invés de injetar emoção e aventura, parece fazer um resumo acadêmico das situações e dos caracteres. Nunca sentimos uma convicção narrativa profunda (mesmo num nível paródico), a “pura paixão narrativa”, de todas aquelas peripécias coloridas e extravagantes.

É como um banho de água fria na fervura da intriga. Ao “editar” os excessos dos folhetins, Eco não conseguiu compensar em graça e verve aquilo de que nos privou. Parece que ele esticou—de forma inteligente e engenhosa, bem entendido—o tom da sua conferência de Seis passeios pelos bosques da ficção por 400 e tantas páginas. Uma pena.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/17/guglielmo-guilherme-william-os-trinta-anos-de-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/30/tratados-sobre-a-tolice-humana-os-romances-de-umberto-eco/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/16/ecoterapia-a-auto-ajuda-necessaria/


[1] A impostura e a necessidade das gentes de acreditar em qualquer coisa aparecem tematizadas de forma diferente em O pêndulo de Foucault e Baudolino (aliás, a questão da impostura, dos documentos forjados, tem um ilustre antecedente na literatura italiana, o magistral O conselho do Egito, de Leonardo Sciascia); o “lixo cultural” que permeia nossa identidade e forja afetos, gostos, tanto quanto a “cultura” ganhou uma formulação maravilhosa naquele que seria o maior romance de Eco se não existisse o genial O nome da rosa: A misteriosa chama da rainha Loana.

[2] E esgotos sempre evocam o lado “subterrâneo” da respeitabilidade burguesa, pelo aspecto físico sórdido e pestilento, e pela ambigüidade moral.

[3] Convenhamos, é muito difícil sintonizar com um enredo se não nos identificamos minimamente com o protagonista, e, em geral, tendemos a nos identificar com o personagem “do bem” (embora venhamos a nos divertir mais com os vilões). Há casos em que o herói é muito bocó e trouxão (há pouco tempo, li um romance de Dumas, O cavaleiro de Saint-Hermine em que acontecia isso), mas mesmo assim o movimento da história nos envolve e nos faz torcer por ele. Não acontece isso em O cemitério de Praga.

[4] Não resisto a ser cri-cri: dá até para entender esse ponto-de-vista quando se pensa no Estado de Israel, e como a dependência econômica dos EUA a ele, fez com que Obama adotasse uma atitude indigna na questão do reconhecimento da Palestina (sem falar que há uma grita geral devido à possibilidade de um programa nuclear no Irã, mas ninguém protesta com o arsenal nuclear e a fabricação de mísseis por parte dos israelenses). Não obstante, como é tudo às claras, despudoradamente às claras….

ECOTERAPIA: a auto-ajuda necessária

Resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em quinze de julho de 2003

Numa excelente entrevista a Roberto D´Ávila, Marcelo Gleiser afirmou que é muito difícil idéias ou pesquisas falsas/anti-éticas durarem muito tempo porque a comunidade científica tem sempre como comprovar ou negar sua validade e credibilidade.

Será? O que o físico teórico e autor de livros de divulgação científica (e pelo que está anunciando, futuro romancista) não levou em conta é que essas pseudo-idéias ou pesquisas não atingem somente a comunidade científica. A força do falso, um dos textos reunidos por Umberto Eco em SOBRE A LITERATURA, discute justamente como “no curso da história, tiveram crédito crenças e afirmações que a Enciclopédia [no sentido de saber consolidado]  atual desmente factualmente…” Eco informa até os sites nos quais teremos acesso a informações sobre a teoria da “Terra Oca”: “Existem por aí muitíssimos seguidores da teoria. E é inútil dizer que os sites (e os livros que divulgam) foram criados por alguns espertalhões que especulam com um público de tolos e/ou devotos da New Age. O problema social e cultural não é representado pelos espertalhões, mas pelos tolos, que evidentemente ainda são legião”.

Sempre imagino Eco com os traços psicológicos de Guilherme de Baskerville, o monge-detetive de O nome da rosa, presumivelmente inspirado em Sherlock Holmes. Pois é, ele pode até conter uma homenagem ao herói de Conan Doyle, contudo Baskerville é muito mais inteligente do que o limitado e superestimado Holmes (cujas qualidades como personagem são de outra ordem, a meu ver), muito mais perceptivo e compassivo em relação ao que é humano, ideológica e passionalmente falando. Assim também é o pensador Umberto Eco: sempre brilhante, mas sempre interessado pelos fenômenos humanos, pelas ideologias e pelos investimentos passionais da humanidade, até mesmo pelos tolos que ainda formam legião.

Muitos dos temas de SOBRE A LITERATURA, que resgata palestras e debates mundo afora, são difíceis. O método do grande escritor italiano é um pouco como o que descreve em Ironia Intertextual e Níveis de Leitura. Quem não perceber tudo não será excluído do prazer da leitura. Ele está se referindo a obras de ficção (incluindo as suas) que trabalham com um duplo código de leitura (o leitor é uma peça-chave nos esquemas teóricos de Eco). Poderia estar se referindo aos ensaios. A imagem que utiliza é ironicamente aristocrática, a ironia e o sabor da maneira como é colocada tirando o travo da antipatia classista que ela pudesse sugerir: “É como um banquete em que sejam distribuídos no andar de baixo os restos da ceia posta no andar superior: não os restos da refeição, mas os da panela e bem postos eles também e como o leitor ingênuo acredita que a festa desenrola-se em um andar apenas, há de saboreá-los pelo que valem (e serão, ao fim e ao cabo, saborosos e abundantes), sem supor que alguém tenha recebido mais”.

Assim, leitores do andar de baixo ou do andar superior podem apreciar a análise do Paraíso de Dante e do estilo retórico do Manifesto Comunista de Marx e Engels; ensaios sobre o conceito de símbolo e sobre a ideologia do estilo; a história de três gerações intelectuais italianas e sua relação com a idéia da América (leia-se EUA). São pontos altíssimos o ensaio (mais um, e que bom!) sobre Joyce, a intersecção entre a biblioteca de Dom Quixote de La Mancha e a biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges (e, depois, um ensaio maravilhoso sobre a influência do autor argentino na sua própria trajetória), o ensaio sobre os rípios (os pontos amorfos na estrutura de uma obra), além de um texto sobre a Poética de Aristóteles.

Eco prolonga o seu delicioso e inestimável Pós-escrito a O nome da rosa, de 1984, em Como escrevo, reflexão sobre sua produção ficcional que se estende a seus três outros romances já publicados (O pêndulo de Foucault; A ilha do dia anterior; Baudolino).

E no ensaio que deu origem ao título da coletânea, Sobre algumas funções da literatura, ele surpreendentemente parece se alinhas ás reflexões de Harold Bloom em O cânone ocidental da literatura como confronto com nossa mortalidade: “A função dos contos imodificáveis é precisamente esta: contra qualquer desejo  de mudar o destino, eles nos fazer tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-los. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos a necessidade de sua severa lição repressiva… Creio que esta educação ao fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

15/11/2011

UM LIVRO TOTAL: a ficção mais verdadeira que a vida

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-iii-quatro-ases-e-um-coringa-de-tolstoi/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-i-o-pregador-evangelico-e-o-diabo-fabulador/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-ii-tolstoi-em-capsulas/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/24/caucaso-cosmo/

https://armonte.wordpress.com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de setembro de 1997, aqui com acréscimos das resenhas publicadas em 17 de dezembro e 24 de dezembro de 2005)

Entre as muitas taras do mundo contemporâneo, uma das mais bizarras é a do diretor Bernard Rose, molestador de grandes artistas. Depois de transformar Beethoven numa figura ridícula em Minha amada imortal, Rose voltou sua sanha assassina contra Tolstoi e sua obra-prima, Anna Karênina, que apenas um Visconti talvez conseguisse traduzir bem cinematograficamente. Uma versão de Anna Karênina por Bernard Rose é tão apropriada quanto fazer a missa fúnebre da Princesa Diana na quadra da Mangueira em vez da Abadia de Westminster, carnavalizações bakhtinianas à parte. Rose está para Tolstoi como a macarena para a valsa. Macarena Karênina.

Anna Karênina (concluído em 1877) é, mais do que uma história de amor e adultério (por isso, foi comparado muitas vezes, de forma inadequada, a  Madame Bovary, mas estamos numa galáxia muito distante), uma fábula de opções morais, tomando como base a instituição do casamento que, mesmo no meio aristocrático em que se passa o romance,se apóia, como o casamento burguês (tão questionado pela literatura do século XIX) nas convenções. A narrativa começa com uma crise no casamento do irmão de Anna, Stiva Oblonski, o que a obriga a viajar a Moscou.  Graças à intervenção dela, mulher “irrepreensível”, tudo se resolve hipocritamente. Nessa viagem, entretanto, ela conhece Vronski, seu futuro amante, e a engrenagem começa a funcionar, colocando todos os personagens em xeque: não apenas Anna e Vrosnki, mas o marido dela, Alieksei Karênin, a irmã da cunhada de Anna, Kitty, e o futuro marido desta, Liêvin, sempre atormentado pelos mais diversos dilemas, desde a questão agrária (a divisão da terra) até a questão sem solução da morte.

Embora não tenha a amplitude panorâmica que torna inigualável o maior dos romances, Guerra & Paz, a história de Anna, Vronski, Karênin, Kitty e Liêvin retrata visceralmente a sociedade russa czarista, pré-Revolução, principalmente o contraste entre o mundo rural e o mundo urbano. Num pais como o nosso,onde a questão da reforma agrária é um impasse em plena virada do milênio, os conflitos que atormentam Liêvin sobre sua propriedade possuem uma pungência bem atual, embora seja muito difícil imaginar algum dos membros da bancada ruralista do nosso congresso com a grandeza de caráter desse grande personagem..

          Outra característica que mantém o livro muito atual é o fato de Tolstoi fazer com que cada momento da narrativa seja filtrado pela visão de um personagem, prendendo-nos às sensações, sentimentos e reflexões desse personagem. Assim, vemos o grande baile de Moscou (no qual Anna e Vronski ficam definitivamente apaixonados um pelo outro) pelos olhos de Kitty, candidata à noiva de Vronski nesse passo da trama. Vemos o momento em que Anna quase morre, ao dar à luz um filho de Vronski, pelos olhos de Karênin, o marido enganado. E assim por diante…

Dessa forma, ao mesmo tempo em que dá uma sensação de realidade como nenhum outro grande escritor (e isso impressiona todos os que lêem Tolstoi, a narrativa tão natural que nada parece “inventado”), o autor de A morte de Ivan Ilitch consegue também nos dar a sensação de incompletude das nossas experiências e relações, como estamos fechados em nós mesmos, e como ninguém pode pretender deter a verdade dos fatos e acontecimentos. Só podemos assisti-los e participar dele através de nossa própria jaula de emoções, preconceitos e referências. E conveniências.

        Acompanhamos os tormentos íntimos de Karênin, vemos como o marido frio, burocrático e meio ridículo pode ter assomos de generosidade, como pode ser escrupuloso, ter consciência das suas falhas e desejar perdoar. Ao mesmo tempo, compreendemos como a sociedade pode ridicularizá-lo e ser incapaz de enxergá-lo senão na figura convencional do “corno’. A grandeza moral não impede o estereótipo social. E mesmo conhecendo intimamente Karênin, também conhecemos (e mais ainda) os sentimentos de Anna, sabemos a repugnância invencível que o marido causa nela. O leitor sabe que há um lado mesquinho, egoísta e turvado pelo desejo de liberdade nessa aversão de Anna, mas pode compreendê-la totalmente. Tolstoi parece ter aplicado á  sua ficção o preceito de Spinoza, “non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligeri”. Não rir, não lamentar, nem odiar, mas compreender (pena que, na vida real, que ele captou como ninguém, seja tão difícil cumpri-lo).

Os personagens desse romance fascinante vão crescendo para o leitor e ficando mais reais, por assim dizer, a cada leitura. Nas primeiras vezes que o li, não tive muita simpatia pelo atormentado e inadaptado Liêvin, um dos mais evidentes alter egos do seu criador, assim como o Ievguiêni Irtiêniev de O diabo, o Stiepan Kasatskai de Padre Sérgio e o Andriei Bolkonski de Guerra & Paz.  Ao reler agora (sempre na magnífica tradução de João Gaspar Simões; fuja, se possível, leitor, da contrafação feita por Lúcio Cardoso), por causa da versão La vie en Rose Karênina , constato como minha percepção e apreciação de Liêvin mudou, como esse personagem que quer se manter puro e irrepreensível (não na acepção convencional com que essa palavra dava uma “aura” a Anna), o que me irritava nas outras leituras, porta-voz do moralismo tolstoiano, é traído, a todo instante, pelo fluxo da vida, que não deixa ninguém ser impecável, que não tem soluções em seus problemas básicos. E é justamente esse passo em falso constante em que Liêvin se vê enredado que dá a medida da verdade e da simpatia do personagem; assim como o moralismo tolstoiano é traído pelo seu sentido do concreto (como se pode  verificar num dos seus textos mais problemáticos e instigantes, Sonata a Kreutzer), o que o torna bem mais interessante e dá a medida da genialidade do extraordinário e transcendental escritor russo.

        É muito fácil gostar de Anna, Vronski, Kitty , do pai desta, o príncipe Tchierbátski (um daqueles homens que são o bom senso personificado, dos quais Tolstoi tanto gosta) ou de Oblonski. A grandeza de Anna Karênina  é fazer o leitor gostar de Karênin e de Liêvin (como, em Guerra & Paz, nos fazia gostar do difícil e intratável pai de Andriei) Qualquer outro autor faria do primeiro um vilão padrão do tipo atormentador, e disso não escaparam nem autores do calibre de George Eliot, ao criar Grandcourt em Daniel Deronda (sem falar no Casaubon de Middlemarch) e de Henry James, com o perverso Gilbert Osmond, que segue a linha dos personagens de Eliot, em Retrato de uma senhora; e do segundo, um daqueles insuportáveis idealistas românticos ou um pregador histérico, como certos protagonistas do grandioso D.H. Lawrence (o Birkin de Mulheres  apaixonadas, por exemplo).

E fazendo o leitor gostar dos personagens mais inesperados, faz com que ele se interesse pelos meandros do amor de Anna e Vronski, como também pela vida mundana de Moscou e São Petersburgo, pela atividade de segar um campo, pela longa morte de um tuberculoso desagradável ou pela visita ao ateliê de um pintor talentoso..E por infinitos outros detalhes…

E é na Itália,  na visita ao vaidoso Mikháilov, que Tolstoi parece dar a síntese do que um artista é. Ao mostrar como ele aprimora os traços de uma figura numa de suas telas, o narrador diz: “Era como se afastasse véus que não o deixavam ver. Sabia, é certo, que era preciso muita destreza para fazer desaparecerem, sem prejudicar a impressão geral, os véus, as aparências que escondem a verdadeira figura dos objetos; mas, na sua opinião, isso não fazia parte do domínio da técnica. Se uma criança ou uma cozinheira vissem o que ele via, eis quanto bastava para saberem dar corpo às suas visões.”. Ou seja, a arte é linguagem, mas também visão das coisas. Lição de coisas.

Adendo-  O live de Tolstoi reapareceu em 2005 com nova tradução (de Rubens Figueiredo) e nova grafia (Anna Kariênina) pela CosacNaify. O trecho que citei no artigo aparece assim traduzido: “Via muitas vezes a palavra ´técnica´ e não compreendia o que as pessoas queriam dizer com isso. Sabia que tal palavra subentendia a capacidade mecânica de pintar e desenhar, de forma totalmente independente do conteúdo.] Sabia que era preciso ter muita atenção e muito cuidado para, ao remover as camadas que recobriam as figuras, não estragar a própria obra, e também para remover a camada inteira; na arte de pintar, porém, não havia técnica nenhuma. Se a uma criança ou à cozinheira de Mikháilov também se revelassem aquilo que ele via, os dois seriam capazes  de descascar o que viam…”

14/11/2011

No meio da grande ruína: Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

Alain-Robbe-Grillet-001corintoa retomada


(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 23 de fevereiro de 2008)


“… escrevemos doravante, alegres, sobre ruínas…f ragmentos esparsos, colunas rompidas, sistemas falidos,  cacos de linguagem…” (Alain Robbe-Grillet)


   Alain Robbe-Grillet foi vítima da letal mania de reduzir uma pessoa a um repisado rótulo. “Um dos principais representantes do noveau roman”! Embora tenha escrito um ensaio polêmico, Por um novo romance (1963), e feito parte de um grupo de escritores da editora Minuit que se celebrizou com seus experimentos na renovação do gênero (repudiando o psicologismo que teria chegado ao limite com Marcel Proust, e também aquele estilo lapidar e cinzelado, característico da “alta” literatura francesa e consagrado por André Gide), o fato é que ter sido “um dos principais representantes do noveau roman pouco tem a nos dizer. Há todo um fascínio próprio da época (uma das mais contestatórias de que se tem notícia), entretanto é provável que Robbe-Grillet, como outros autores em cuja permanência aposto (é o caso dos geniais Marguerite Duras e Claude Simon, e como esquecer dos dois belos romances de Michel Butor, L´emploi du temps- Inventário do tempo e A modificação, ou de A encenação, de Claude Ollier, ou ainda da misteriosa Nathalie Sarraute ?), fique melhor apartado do rótulo “consagrador”, que só incita mal entendidos ou simplesmente má vontade.


    A princípio, fiquei fascinado com o Robbe-Grillet que escreveu o texto de O ano passado em Marienbad (1961), uma das obras-primas de Alain Resnais (talvez o cineasta mais apaixonante do cinema europeu, tirando Bergman), bem mais do que com o autor de La jalousie- O ciúme (1957) e  La maison de rendez-vouz/Encontro em Hong Kong (1965), embora tivesse achado esses dois romances extremamente bem engendrados:


O parque desse hotel era uma espécie de jardim à francesa, sem árvores, sem flores, sem nenhuma vegetação… O cascalho, a pedra, o mármore, a linha reta, marcavam nele espaços rígidos, superfícies sem mistério. Parecia, à primeira vista, impossível alguém se perder nele… à primeira vista… ao longo das alamedas retilíneas, entre as estátuas de gestos estáticos e as lajes de granito, onde você já estava quase perdida, para sempre, na noite tranqüila, sozinho comigo.”


 ano_passadoalain-robbe-grillet


    No universo francês cartesiano, tão certinho e límpido, de repente era possível perder-se. Aliás, na obra de Robbe-Grillet (que, seja dita a verdade, conheço relativamente pouco, apenas cinco livros), sempre houve um gosto pelo trompe-l´oeil (aquele tipo de pintura que procura, a um só tempo nos convencer de que é real, e fazer saber que não passa de um efeito ilusório), como a quinta Triste-le-Roy, palco do clímax de A morte e a bússola, de Jorge Luis Borges:


“Lönrot explorou a casa. Por antesalas e galerias saiu a pátios iguais e repetidas vezes ao mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente multiplicou-se em espelhos opostos; cansou-se de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, fora, o mesmo jardim desolado de várias alturas e vários ângulos… a casa lhe pareceu infinita e crescente…”[1]


    Os dois únicos textos do autor francês que, salvo engano, foram publicados no Brasil na última década, Os  últimos dias de Corinto(Sulina) e A retomada (Record), reafirmam esse aspecto de forma insistente. São excêntricos e brilhantes, apesar da irritante auto-referencialidade que parece ser um mal francês já que a obra de Marguerite Duras é toda assim também.


delphine-seyrigo filme marienbad


   A retomada  é o livro de virada do milênio de Robbe-Grillet. Apareceu em 2001 e representa, tal como Atonement- Reparação, de Ian McEwan (publicado na mesma época), um elogio da ficção, essa “loucura fabulatória ativa. O título nacional é muito mal escolhido, aclimata muito mal oLa reprise original, com seu sentido de reapresentação de espetáculo, de “vale a pena ver de novo”:


“Henri Robin tem agora, em todo caso, uma certeza: está de volta ao seu quarto de hotel, e foi lá que passou o final de uma noite agitada. Entretanto, embora tenha consciência de haver regressado muito tarde, não lembra de ter pedido para ser acordado a nenhuma hora… Aliás, pode-se dizer que a noção de tempo, exata ou mesmo aproximada, perdeu toda importância para ele, talvez porque sua missão especial tenha sido suspensa, ou então depois de ter submergido na contemplação do quadro de guerra pendurado naquele quarto infantil… De fato, a partir da espécie de deriva mental causada por aquela abertura duplamente cega, murada com um trompe-l´oeil, pleno de uma significação ausente,  os acontecimentos dessa noite lhe produzem uma desagradável impressão de incoerência, ao mesmo tempo causal e cronológica, uma sucessão de episódios que parecem não ter outros laços senão os da contigüidade (o que não permite dar a eles uma posição definitiva)…”


    Hoje que escrevo esse artigo-preito lamento (e olha que eu o possuo há vinte anos) não ter lido Le gommes- Entre dois tiros, seu primeiro romance publicado, em 1953, porque A retomada  parece ser a “reprise” da trama daquele livro, inclusive repetindo sua estrutura (prólogo, cinco capítulos correspondentes a cinco dias, epílogo) e sua trama edipiana. Portanto, há toda uma dimensão que eu perdi, ainda que isso não impeça a fruição de uma ótima narrativa a se desfiar, se destecer, se esboroar, progressivamente. Ao fim e ao cabo (exatamente de quê?),  Henri Robin, que já lançara mão de vários nomes, adota a identidade e condição social do seu duplo? irmão?, o qual tentara matá-lo, por achar que os dois eram demais para a mesma história, e cujas notas à sua própria narrativa tentavam destruir sua credibilidade já precária.


    A certa altura, dois policiais da dividida Berlim pós-guerra (e no início de um milênio, onde há ainda uma parte toda fracionada e ocupada da Europa, é muito pertinente esse fantasma de uma situação que definiu boa parte do século XX para a consciência ocidental), confrontam Robin com objetos encontrados na revista feita (sem que ele soubesse) em seu quarto de hotel: um sapato feminino de festa com a gáspea de escamas azuis cujo forro em couro de cabrito branco estava manchado de sangue; uma pistola automática Beretta nove mm; quatro cápsulas disparadas; uma bonequinha nua de celulóide cor de carne; uma calcinha de cetim com babados de renda, igualmente manchada de sangue; um frasquinho de vidro branco contendo um resto de líquido; um fragmento de uma taça de champanhe cuja ponta aguda apresentava marcas de sangue. Robin, então, pondera a respeito do frasquinho de vidro: “Este, na verdade, é o único elemento no heteróclito conteúdo da maleta que não me recorda nada”. Porque todos os outros aparecem e reaparecem, saindo do baralho de forma protéica, fazendo parte de situações diferentes que se anulam, se contradizem, ou se complementam de maneira a sempre deixar arestas: “Como era de se esperar, após o longo percurso naquele túnel profundo semi-alagado, estou agora na outra margem do canal sem saída, em frente à suntuosa mansão de múltiplas armadilhas, loja de bonecas, ninho de agentes duplos, comércio de carne fresca, prisão, clínica…” Mais adiante: “Eu me preparava para responder com franqueza, hesitando porém quanto ao que tinha direito de revelar à polícia berlinense sobre a suposta missão, cada vez mais obscura, da qual progressivamente eu me tornava a vítima.”


    Tênue trama (claro que pode ser “trompe-l`oeil”) amarra essa sucessão obscura de episódios mirabolantes: dois irmãos separados pela guerra e pela fuga da mãe da Alemanha (por ser judia, e não ter o apoio do marido, oficial em ascensão na Gestapo), se odeiam entre si e ao pai, a quem ambos assassinam (essa é a suposta missão de Henri Robin, ele chega a acreditar que a executou, mas quem a executa é o irmão); há ainda uma madrasta sedutora para apimentar a quizila e, comprovando sua vocação de romancista perverso (como nos diz em Os últimos dias de Corinto), uma ninfeta, Gigi; aos 14 anos amante de ambos, apesar de ser possivelmente filha do “duplo” de Robin, ou Ascher, homem das cinzas e das sombras.


    O próprio artífice não se furta de aparecer para reiterar o caráter de ilusão fabricada:


 


   “À esquerda e à direita deste vasto escritório de carvalho, cuja pomposa ornamentação napoleônica já descrevi em outros textos, cada vez mais invadido por todos os lados pelas insidiosas pilhas de papelório existencial que se acumula em estratos, ficam agora fechadas o dia inteiro as três janelas que dão para o parque, ao sul, ao norte e a oeste, a fim de não me dar conta do descalabro em que vivo após o furacão que devastou a Normandia logo depois do natal, marcando de maneira certamente inesquecível o final do século e a mítica passagem para o ano dois mil. A bela harmonia de folhagens, vales e relvados cede lugar a um pesadelo de que não se pode escapar, perto do qual parecem ridículos os estragos homéricos do tornado de 1987, já relatado por mim… Muitas vezes falei da alegre energia criadora que o homem precisa desenvolver para transformar em construções novas o mundo em ruínas. E eis que volto a este manuscrito após um ano poucos dias depois da destruição de uma parte considerável da minha vida, encontrando-me então em Berlim, após outro cataclismo, mais uma vez com outro nome, outros nomes, cumprindo um ofício de encomenda munido de diversos passaportes e de uma missão enigmática, sempre prestes a se dissolver, continuando porém a me debater com obstinação em meio a duplicações, aparições intangíveis e imagens recorrentes em espelhos que retornam.”


    “Já relatado por mim”. É verdade, ele o relatou (“…o parque de Mesnil foi devastado por um furacão nunca visto, conforme a memória humana, em toda a Normandia e a Bretanha, desfiguradas desta vez em poucas horas) em Os últimos dias de Corinto, o final de uma trilogia iniciada com O espelho que retorna e continuada por Angélique ou O encantamento, uma forma de autobiografia invadida pela ficção, e também pela memória (“consciente de sua própria impossibilidade constitutiva) do próprio fazer literário, isto é, da fabricação dessa ficção. Temos mais um estrangeiro viajante e pedófilo, Henri de Corinto, mais meninas quase impúberes, e novamente um sapato de baile feminino aparecendo por toda parte (até na costa uruguaia; o Brasil também é cenário), mais duplos, mais bonecas que parecem vivas (ninfetas e bonecas…):


“… um relâmpago da memória, inapreensível, e talvez imaginário, Corinto tem a impressão muito viva de já ter visto em outro lugar esses sapatos de baile…” etc.


    Já ao iniciar-se (“A carne das frases sempre ocupou, sem dúvida, um grande espaço no meu trabalho), brinca-se com a produção anterior do autor, parodiando o célebre início de La maison de rendez-vous, “A carne das mulheres sempre ocupou lugar de relevo em meus sonhos”. E o livro todo vai nessa toada. É claro que eu não consegui “pegar” todas as referências, já que, como disse, conheço só algumas poucas obras. Porém, eu me diverti muito. E saí da leitura convicto de que, qualquer que seja o seu destino literário, o autor de Os últimos dias de Corinto  não merece ser somente “um dos principais representantes do noveau roman.




[1]Lönrot exploró la casa. Por antecomedores y galerías salió a patios iguales y repetidas veces al mismo patio. Subió por escaleras polvorientas e antecámaras circulares; infinitamente se multiplicó en espejos opuestos; se cansó de abrir o entreabrir ventanas que le revelaban, afuera, el mismo desolado jardín desde varias alturas y varios  ángulos… la casa le pareció infinita y creciente…”


08/11/2011

PERDAS E DANOS: tragédias familiares em dois romances da ciclópica Joyce Carol Oates

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, de forma um pouco mais condensada, em 08 de novembro de 2011)

Quem tem medo de Joyce Carol Oates?

Eu tenho, leitor. Não exatamente por sua aparência, digamos “exótica”, onde ela usualmente  exibe um ar de Morticia Adams (ver abaixo). E sim porque é temível acompanhar a sua obra. Atualmente com 73 anos, ela continua num furor criativo que só encontra paralelo no de António Lobo Antunes, lançando romances imensos (além de textos de outros gêneros) ano a ano, sem descanso, nem para si mesma nem para seus leitores mais fiéis. Tirando sua já enorme produção anterior[1], de 2000 para cá ela publicou os romances Blonde, Middle age (2001), Levo você até lá (2002), The tattoed girl (2003), As cataratas (2004), Missing mom (2005), Black girl, white girl (2006, traduzido em Portugal, com o título Rapariga negra, rapariga branca), A filha do coveiro (2007), Minha irmã, meu amor (2008), Little bird of Heaven (2009), A fair maiden (2010).

Nesse frenesi prolífico aflitivo, o último livro que eu conseguira ler da admirável  e ciclópica escritora norte-americana tinha sido Missing Mom (aqui no Brasil, A falta que você me faz), no qual a mãe da protagonista era assassinada e acompanhávamos todo o seu processo de luto, numa clave mais intimista e delicada, um tanto incomum no universo de Oates, geralmente mais carregado e exuberante. Na verdade, o livro me decepcionou. Após as 80 páginas iniciais muito intensas e promissoras, ela parecia ter tentando cortar as carnes do seu cadáver para entrar na atmosfera dos romances de Anne Tyler (outra escritora maravilhosa, ou pelo menos costumava ser), sem nunca conseguir plenamente (ela conseguira essa atmosfera e intimista nos relatos curtos de Educação sentimental, um de seus melhores livros[2]).

E não se contentando com o fato já brutal do assassinato da mãe, ela ainda amplificava como descobertas cósmicas (mesmo porque o livro tem 400 páginas) “segredos” da vida pregressa da morta, como o amor adolescente por um almofadinha que virou padre, o aborto decorrente desse romance frustrado (a mãe, que era uma pessoa leve e positiva, também havia encontrado a própria mãe banhada em sangue, após cortar os pulsos); mas o pior mesmo é que toda a narrativa se encaminhava para a consolidação do romance entre a personagem principal e o policial que investigara o caso, uma solução bisonha e até constrangedora. Mais bisonho e estranho ainda era que, mesmo com todos esses gritantes defeitos, a narrativa nos prendia. Eu me irritei muito com Missing mom, só que nunca pensei em largar sua leitura.

       Minha irmã, meu amor (My sister, my Love, traduzido esplendidamente por Vera Ribeiro, responsável também pela versão brasileira de Missing mom; outra coisa que os dois livros têm em comum nas edições brasileiras, uma da Nova Fronteira, outra da Alfaguara,  é a escolha de capas lamentáveis) é de outro escopo, aliás mais afinado com as características oateanas peculiares: aqui,  o assassinato de Bliss Rampike, irmã do narrador, Skyler, é estridentemente explorado pela mídia de uma forma que pulveriza a família e ganha uma dimensão ainda mais atemorizante porque inunda a “cloaca do ciberespaço” (termo de Skyler), como um “eterno retorno” infernal.

O livro se baseia num caso real: uma menininha de seis anos, célebre como patinadora no gelo mirim, morta no porão da sua casa e deixada numa postura “sexy”. Um pedófilo chega a ser preso, contudo o caso nunca é devidamente esclarecido e suspeitas pairam até mesmo sobre os familiares.

Em Minha irmã, meu amor (título deliberadamente apelativo, já fincando pé nesse universo de exploração sensacionalista), após desistir do filho, Skyler (que sofre um acidente numa aula de ginástica e fica eternamente “troncho”, fadado a ser um fracassado), Betsey Rampike (ela e o marido, Bix, são as grandes criações de Oates; quando ele abre a boca em suas perorações sobre o mundo, o texto é um arraso), sentindo-se desdenhada pelas pessoas do meio social para o qual mudaram (um lugarejo chique em Nova Jersey), seguindo a ascensão profissional de Bix (que, ao contrário dela, é um peixe dentro d´água em qualquer hierarquia social), encasqueta transformar a filhinha caçula numa estrela. Por sorte, Edna Louise tem vocação para a patinação no gelo (ao contrário de Skyler, e Betsey bem que tentou), único lugar onde não parece apática e estranha. A partir daí, a loucura multiplica-se: plásticas, injeções de vitaminas, remédios, treinadores, choques elétricos nos folículos capilares, tudo para transformá-la numa “queridinha do público”. Chega-se ao ponto de obrigá-la a aceitar um novo nome: Bliss.

Qualquer um que tenha visto alguma matéria sobre concursos infantis de todo tipo nos EUA sabe que não há exagero algum no retrato traçado por Oates. Eu, feroz opositor da intervenção do estado na vida privada, até já fui tentado pela veleidade de que se tirasse a guarda dos filhos de gente que rouba sua infância, tratando-os como investimento, exigindo uma postura profissional (sem falar na sanha competitiva) ou mesmo um uso do tempo “produtivo”, como se elas já tivessem que “contribuir” para a sociedade ou exercer um papel qualquer.

Apesar do minucioso e poderoso painel (pois o que move Joyce Carol Oates é ainda aquela ambição à Zola, da qual Theodore Dreiser talvez tenha sido o maior representante em seu país,  da tranche de vie, de mostrar uma “fatia de vida”) dessa loucura por sobressair-se que tomou conta do mundo e que se reparte em mil subculturas, e também à sátira ao clichê da “superação” (a mãe de Bliss comanda toda uma indústria de vendas de livros e produtos chamados “Emanações do Céu” após a morte precoce da filha), o que impediria Minha irmã, meu amor de ser algo similar a um episódio de Law & Order-Special Victims Unit ou a um telefilme “baseado em fatos reais”?

É que não há apenas a “tranche de vie” (de fato, nem em Zola nem em Dreiser havia só isso, apesar dos estereótipos consagrados, é preciso fazer essa justiça a eles: em ambos há um furor visionário que os aproxima, curiosamente, de Melville). A narração  de Skyler, cuja vida foi detonada antes e depois do assassinato de Bliss e que às vésperas do crime completar dez anos, se joga com fúria num relato ciclópico tentando descobrir se foi ou não o autor do crime, já que não se lembra exatamente dos fatos, é construída na tradição digressiva e jocosa de Sterne (é preciso dizer, no entanto, que–ainda mais se tratando de um texto norte-americano–que sentimos a sombra de Holden Caulfield e sua inadaptação ao mundo, em O apanhador no campo de centeio pairando sobre Skyler) : auto-comentada, cheia de notas de rodapé, de soluções tipográficas inesperadas,  de provocações ao leitor, enfim, um triunfo de virtuosismo, e leva o texto muito além do melodrama e da exposição naturalista da ânsia por celebridade. Para mim, é como se Skyler, ainda saindo da adolescência, mas já um jovem-velho, projetasse o afã de Joyce Carol Oates, velha-jovem, de dar conta do mundo de hoje, incluindo a “cloaca do ciberespaço”. É possível um romance que dê conta do mundo, através de uma “fatia de vida”, as aspirações suburbanas norte-americanas? Sim, se Zola dividir suas tarefas com Sterne, há uma grande possibilidade. Pelo menos, foi o que achei após a leitura das 600 páginas de Minha irmã, meu amor.

É certo que depois do assassinato consumado, depois que nos mergulhou  em  350 páginas da “tranche de vie”, mesmo com a exuberância sterniana de Skyler, o livro cai um pouco, principalmente ao narrar exaustivamente um caso de amor da sua adolescência (que só acentua seu desespero e sua inadaptação). No entanto, ele logo se recupera nas cem páginas finais (mesmo porque reaparece Bix): após anos de afastamento, nosso herói recebe uma mensagem conciliatória da mãe e decide procurá-la para um confronto esclarecedor, onde saberemos o que ocorreu de fato.

Ler Joyce Carol Oates é às vezes uma experiência de excesso, só que é igualmente  uma injeção de adrenalina em meio à pasmaceira. A overdose nos espreita, mas o risco vale a pena.


[1] Evidentemente, o livro mais famoso de Oates continua sendo Them- Eles. Eu acho  mais  impressionante um romance um pouco mais antigo, Um jardim de delícias.  Dos posteriores a Eles que eu conheço, meu favorito ainda é You must remember this- Para jamais esquecer.

Numa obra com essa quantidade de títulos, entretanto, essas eleições são sempre provisórias. Tenho pena do masoquista que resolve eleger Oates para tema de dissertação de mestrado ou tese. Terá de ser, antes de tudo, um forte.

[2] Traduzido no Brasil em 1985 por Lia Wyler para a editora efêmera editora Anima.

03/11/2011

Uma linguagem que não rebenta: a poesia de João Cabral de Melo Neto

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de outubro de 1999)

Neste ano morreram muitos escritores (Iris Murdoch, Mario Puzo, Dias Gomes, Marcos Rey, Morris West, Heinz G. Konsalik, Marion Zimmer Bradley). Se dedicasse espaço a cada um deles, bom ou ruim, importante, discutível ou insignificante, esta minha coluna transformar-se-ia num instrumento necrológico, embora a grande Iris Murdoch (que escreveu romances do quilate de A moça italiana e O mar, o mar) merecesse muito mais do que aparecer numa mera lista.

Mas pelo menos do maior poeta brasileiro do século é preciso falar. Aliás,é uma curiosa coincidência que os dois supremos nomes da nossa poesia tenham nascido em Pernambuco: Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

É evidente que, ao falar da obra de João Cabral neste artigo não será possível abordar todos os seus aspectos. É uma obra multifacetada, prismática. E certamente há prismas que nunca me interessaram ou agradaram muito, por exemplo, os inúmeros poemas sobre pintores, os poemas sobre Sevilha, a Espanha em geral.

Há o caso, ainda, do comovente e bonito, mas irritantemente superestimado (com relação ao resto da obra cabralina), Morte e Vida Severina, o qual ainda por cima tem o agravante de ser citado até por governantes que transformam numa vida cada vez mais Severina a existência da população brasileira. Temo que, no futuro, João Cabral será sempre o autor desse auto-de-natal.

Torna-se necessário repetir algo já dito várias vezes em textos anteriores desta coluna: não se pode gostar de tudo, não se pode ter interesse por tudo. A solução é apresentar claramente as fichas para o leitor.

Um dos prismas fascinantes da produção poética de João Cabral, por outro lado, é o seu poder de extrair poesia das coisas, de tentar penetrar, através da palavra, na sua realidade irredutível. É o caso do magnífico O ovo de galinha (de Serial), como se pode ver em alguns trechos:

“O ovo revela o acabamento

a toda mão que o acaricia

daquelas coisas torneadas

num trabalho de toda a vida (…)

 

No entanto, o ovo, e apesar

da pura forma concluída

não se situa no final

está no ponto de partida (…)

 

A reserva que um ovo inspira

é de espécie bastante rara

é a que se sente ante um revólver

e não se sente ante uma bala.

 

É a que se sente ante essas coisas

que conservando outras guardadas

ameaçam mais com disparar

do que com a coisa que disparam.”

 

Outro exemplo do mesmo livro, O relógio:

 

“Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro

dentro das quais, como em jaula

se ouve palpitar um bicho.

 

Se são jaulas não é certo

mais perto estão de gaiolas

ao menos pelo tamanho

e quebradiço da forma.

 

(…) e de pássaro cantor

não pássaro de plumagem

pois delas se emite um canto

de uma tal continuidade

 

que continua cantando

se deixa de ouvi-lo a gente

como a gente às vezes canta

para sentir-se existente.”

 

Noutro livro, Educação pela pedra, encontram-se dois poemas paradigmáticos. Um deles, Catar feijão, é uma construção metalingüística, prática comum de um autor que refletia sempre sobre o próprio ofício:

 

“Catar feijão se limita com escrever.

Joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na da folha de papel.

E depois joga-se fora o que boiar.”

    

O outro é Tecendo a manhã, que descortina a tela social da qual depende cada pincelada individual:

 

“Um galo sozinho não tece uma manhã

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo

para que a manhã, desde uma tela tênue

se vá tecendo, entre todos os galos

 

(…) A manhã, tecida de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.”

 

Do título de uma das suas obras-primas, Uma faca só lâmina, poder-se-ia tirar uma idéia geral do seu estilo e da sua visão de mundo:

 

“da imagem em que mais

me detive, a da lâmina

porque é de todas elas

certamente a mais ávida

 

pois de volta da faca

se sobe à outra imagem

aquela de um relógio

picando sob a carne

 

e dela àquela outra

a primeira, a da bala

que tem o dente grosso

porém forte a dentada

 

e daí à lembrança

que vestiu tais imagens

e é muito mais intensa

do que pôde a linguagem

 

e afinal à presença

da realidade, prima

que gerou a lembrança

e ainda gera, ainda

 

por fim à realidade

prima, e tão violenta

que ao tentar apreendê-la

toda imagem rebenta.”

 

   Para uma obra que rebenta qualquer tentativa de apreendê-la totalmente, o modesto apanhado acima tem somente a pretensão de açular a atenção do leitor, iscando-a para o risco de uma poesia superior. Esperemos que a posteridade sopre da glória de João Cabral de Melo Neto o leve, o oco, a palha e o eco, como sua lamentável adesão à Academia Brasileira de Múmias  (bem, desse ridículo nem Guimarães Rosa se furtou) e a duvidosa honra de ser conhecido APENAS como o autor de Morte e Vida Severina. Seria bom para qualquer outro,não para o homem que escreveu O cão sem plumas.

 

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