MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2011

A SEM-VERGONHICE GENIAL DE REGINA RHEDA


Esta resenha vai ter de apelar para a sua imaginação, leitor. O assunto, aqui, é um livro pornográfico, Amor sem-vergonha, de Regina Rheda. Será, portanto, um texto que pudicamente se auto-censura e pede a colaboração da sua fantasia. Mas a pornografia não é isso mesmo?

    Em  Amor sem-vergonha, composto por dez contos que Rheda escreveu para uma “revista de mulher pelada”, segundo ela mesma, onde há pelo menos uns quatro com títulos impublicáveis, e, no mínimo, umas cinco obras-primas, o leitor encontrará: um homem apaixonado pelo próprio membro; um sessentão que precisa de uma violenta fantasia sexual para satisfazer a esposa no aniversário de casamento, única data em que ainda mantêm relações; dois marginais que procuram satisfazer a gula e as necessidades de uma garota seqüestrada; uma mulher a qual, entediada em uma daquelas excursões naturebas que se revelam verdadeiros programas-de-índio, procura arranjar um parceiro sexual para matar o tempo (esses são os contos com títulos impublicáveis); um viciado em sexo anal com mulheres que procura ajuda terapêutica (“O vício”); um marido infiel que descobre na protagonista do filme pornô visto no motel a esposa (“O supermotel”); o homem casado que resolve seduzir a ninfeta que o melhor amigo trouxe para um fim-de-semana em comum entre casais (“Uma promessa de amor e sexo”); um erudito alemão que se apaixona por uma puta carioca (“A princesa encantada”); uma mãe fogosa que tem o péssimo hábito de transar com os namorados da filha (“Coração de mãe”); dois casais vizinhos que se traem mutuamente (“Entre amigos e vizinhos”).

    Mas em se tratando de Regina Rheda a coisa vai mais fundo (sem trocadilhos), apesar da superfície graciosa e radiante. Antes de mais nada, nunca é demais exaltar a perícia com que ela trabalha as histórias, fazendo com que os contos fiquem estruturalmente perfeitos, redondos, sem uma palavra a mais ou a menos.

     Depois, é impressionante como, ao narrar as situações, a autora paulista desvela cirurgicamente, na verdade, a codificação que as pessoas fazem das fantasias sexuais, as “receitas” que compõem o limitado imaginário sexual. Nessa perspectiva, as maiores vítimas dos contos são justamente os aparentes destinatários: os homens. Na maior parte dos casos, a situação erótica reverte contra o próprio macho, que fica recoberto de ridículo, como o protagonista do fantástico “Uma promessa de amor e sexo”, o qual pensa estar levando a melhor sobre o amigo e ao fim e ao cabo está sendo enganado por ele: a “ninfeta” é uma profissional contratada para distraí-lo, deixando o terreno livre para que o amigo e a esposa continuem seu romance.

    Os nomes dos personagens de “Uma promessa de amor e sexo” são Aldelair, Lourival, Gorete, Daphne Verônica. Nos outros contos desfilam Josmaracindo, Adamastor, Noelandy, Havanir,  Munhoz, Eloá, Leilane, Oberdã, Edileusa, Edimílson, Nádia Helena, Dulce Jane, Gildete, Noronha, Gaudêncio. E, entre fantasias e situações codificadas pelo repetitivo repertório pornô do ser humano, destila-se a crueldade com que Rheda vê o cotidiano, e a crua precisão com que consegue, com um mínimo de recursos, caracterizar uma pessoa, um lugar, uma situação. Humorista e perversa por natureza (uma perversidade humorística que nada tem a ver com perversidade sexual, pois não há nada de bizarro nas situações apresentadas), cada vez mais, a cada livro que publica, a autora do sensacional Pau-de-arara: classe turística, me lembra, guardadas as devidas proporções, o estilo de Vladimir Nabokov, o grande autor de Lolita e Desespero, no qual as complicações sexuais das tramas eram apenas engrenagens do motor do seu “veneno retórico”.

    Veja-se “O supermotel”, um dos melhores momentos (e um dos momentos citáveis) da coletânea. Munhoz e Leilane, sua secretária, vão para o motel, que “misturava estilos arquitetônicos diversos a complicados arabescos paisagísticos, e objetos caríssimos de gosto duvidoso a equipamentos de alta sofisticação”. Em poucas, seletivas, implacáveis palavras, temos um “perfil” da secretária, cuja reação ao motel assim descrito é: “Que luxo… Se eu tivesse dinheiro, compraria um lugar assim para morar”. A secretária, na ótica de Munhoz, é um estouro. Porém, em certo momento, ela coloca os óculos “que combinavam tanto com a sua nudez deliciosa quanto os objetos de decoração do motel entre si”.

    Portanto, Regina Rheda, essa humorista que Deus (que não é bobo) mandou para a terra aliviar nosso tédio e afiar nossa mente com o gume da sua inteligência, mesmo escrevendo para uma revista masculina não conseguiu fugir do seu estilo e da sua percepção peculiaríssima das comédias da vida privada, que se desenrolam com pessoas que podem ser qualquer um de nós, nossos amigos, parentes e vizinhos, que pensam “naquilo”, enquanto  passam óleo de urucum para bronzear o corpo ou repelente para espantar muriçocas, ou quaisquer outros detalhes comezinhos que não escapam do olho vigilante de um dos maiores talentos surgidos nesta década.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de junho de 1997, aqui ligeiramente modificada)

 
 
 

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