MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/11/2011

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!?????????????????? O leitor de Isabel Allende é, antes de tudo, um forte


Há, em Eva Luna, um trecho significativo para a compreensão do universo de Isabel Allende: “…procuro viver a vida como gostaria que fosse… como uma novela…” Vivendo há certo tempo nos EUA, a Danielle Steel chilena radicalizou a afirmação. O resumo dos seus últimos romances, Filha da Fortuna e RETRATO EM SÉPIA, poderia ser: “procuro viver a vida como gostaria que fosse… como uma minissérie norte-americana”.

Retrato em Sépia (que está nas listas dos mais vendidos no momento, na tradução de Mário Pontes para a Bertrand Brasil) é a história de Aurora del Valle, neta de Eliza Sommers (a Filha da Fortuna), desde o nascimento, em 1880,em San Francisco, até os 30, quando tenta se estabelecer como fotógrafa e mulher independente, apesar de ser mal vista, pois abandonou o marido (no Chile).

Com a morte pós-parto de sua mãe, Lynn (a maior beldade de San Francisco), Aurora é criada até os cinco anos pelos avós maternos, adorando especialmente o avô, o chinês Tao Chi´en, que a chama de Lai Ming. Por seu envolvimento na luta contra o tráfico de meninas para exploração sexual em Chinatown, Tao Chi´en é espancado brutalmente (na presença de Aurora) e morre. Eliza resolve entregar a neta para Paulina del Valle, mãe de Matías, o qual negara a paternidade (Lynn acabou casando com o primo dele, Severo, que anos depois tornar-se-á o pai de Clara, a protagonista de A casa dos espíritos).

A dominadora Paulina retorna ao Chile com a neta, sempre mantendo para ela e para os outros o mistério  sobre sua origem,que persegue a menina em pesadelos e lembranças difusas e fantasmagóricas (por exemplo, ela não tem muita certeza de que Tao Chi´en existiu realmente). No país natal, marcado pela instabilidade política, Aurora segue o destino tradicional da mulher: casa-se com Diego, filho de um latifundiário, e descobre que a união era apenas uma fachada para que ele pudesse manter seu caso amoroso com a esposa do irmão. Por isso, Aurora resolve enfrentar a sina da mulher “separada”: “Nas minhas costas as pessoas dizem coisas desagradáveis a meu respeito, é inevitável; vários parentes e conhecidos fazem o sinal da cruz quando me vêem na rua…”

Mas para onde a mão de Isabel-Steel-Pilcher-Delinski-Roberts-Cartland-Allende e a trajetória de Aurora nos levam, mais do que a San Francisco, ao Chile, a Paris (onde ela conhece seu futuro marido), a Londres (onde conhece o seu futuro grande amor, o médico Ivan Rudovic, quando sua avó opera um tumor), ou ao “plano infinito”, é para o continente da subliteratura, já tão explorado pelas suas comadres do best seller. Ao escrever, parece que a autora de Retrato em Sépia mantém junto de si um manual de lugares-comuns e frases cafonas. E temos de aturar os “retalhos de inocência”, a “silenciosa tenacidade de um amor maduro”; Lynn Sommers, a mãe de Aurora, é vista como “um cordeiro na mesa do sacrifício, ignorando a própria sorte” (!!!??), “isso não a impediria de ir direto para o matadouro, cega de amor” (!!!!!!!!???????). Seu sedutor é envolvido numa “armadura de sarcasmo”. Aurora casa e dá-lhe clichê: “Quando me despedi da minha avó, senti que uma parte de minha vida estava terminando em definitivo” (!!!???). E a noite de núpcias: “Em algum momento sua espada me trespassou” (!!!!!!!!!!!!!!!!!??????????).

Apesar dos sofrimentos,  a chata de galocha descobre, como o pequeno príncipe, que “o essencial é quase sempre invisível, o olho nu não o capta, só o coração” (!!!!!!!??????).E resta-lhe o consolo de que “galopar por aquelas imensidões apaziguava um pouco minha fome de amor” (!!!???). A mãe do marido é “uma alma translúcida que se refletia na água mansa dos seus olhos azuis” (!!!!!??????). O casal dorme em camas separadas: “…a distância entre as duas camas era maior e mais hostil do que a torrente de um rio encachoeirado” (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!????????????????). Ao descobrir a traição do marido: “… o frio glacial da noite se apoderou inexorável de minha alma” (!!!!!!!!!!!!!???????????). O marido a desafia com um “olhar de aço” e existe um “dique de orgulho” entre eles. Mas o amor da sogra, “suave e incondicional, atuou como um bálsamo e fui-me curando lentamente” (!!!!!!!!!!!!!!!!!!??????????). “Se fosse capaz de exteriorizar meus sentimentos, talvez sofresse menos, mas eles permaneciam obstruídos dentro de mim, como um imenso bloco de gelo, e podiam passar anos antes que o gelo começasse a derreter” (!!!!!!!!!!!!!!????????). “É certo que durante alguns meses me senti ferida na asa…”!!!!!!!!!!!!??????????

  É preciso continuar?

Felizmente, há pouquíssimos toques sobrenaturais desta vez, só que além da sua irremediável breguice, Retrato em Sépia repisa um dos piores defeitos de Isabel Allende: ao invés de aprofundar os personagens, ela dá ao leitor relatórios sobre cada um; mais ainda, quando narra eventos históricos, parece colocar textualmente material pesquisado na Internet.  Não se percebe a mínima elaboração literária em cima da informação. Por exemplo: “Aquela constituição, regida pela aristocracia com a idéia de governar para sempre, outorgava faculdades amplíssimas ao executivo; quando o poder caiu nas mãos de alguém com idéias contrárias, a classe alta rebelou-se. Balmaceda, homem brilhante e de idéias modernas, na erdade não vinha se saindo mal… Contudo, a aristocracia não lhe perdoava o fato de ter melhorado a situação da classe média e tentado governar com ela; por sua vez, o clero não podia tolerar que Estado e Igreja fossem separados, que o casal civil substituísse o religioso” etc etc etc.

Chega um momento em que Aurora descobre que “tudo que existe te relação com alguma coisa,faz parte de um apertado tecido, o que à primeira vista parece um emaranhado de casualidades, quando exposto à minuciosa observação da câmara vai se revelando com suas simetrias perfeitas. Nada é casual, nada é banal”.

Em Isabel Allende, nada que aconteça em suas “sagas de mulheres” é casual. Mas tudo é banal.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  12 de junho de 2001)

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