MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/11/2011

UM LIVRO TOTAL: a ficção mais verdadeira que a vida


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(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de setembro de 1997, aqui com acréscimos das resenhas publicadas em 17 de dezembro e 24 de dezembro de 2005)

Entre as muitas taras do mundo contemporâneo, uma das mais bizarras é a do diretor Bernard Rose, molestador de grandes artistas. Depois de transformar Beethoven numa figura ridícula em Minha amada imortal, Rose voltou sua sanha assassina contra Tolstoi e sua obra-prima, Anna Karênina, que apenas um Visconti talvez conseguisse traduzir bem cinematograficamente. Uma versão de Anna Karênina por Bernard Rose é tão apropriada quanto fazer a missa fúnebre da Princesa Diana na quadra da Mangueira em vez da Abadia de Westminster, carnavalizações bakhtinianas à parte. Rose está para Tolstoi como a macarena para a valsa. Macarena Karênina.

Anna Karênina (concluído em 1877) é, mais do que uma história de amor e adultério (por isso, foi comparado muitas vezes, de forma inadequada, a  Madame Bovary, mas estamos numa galáxia muito distante), uma fábula de opções morais, tomando como base a instituição do casamento que, mesmo no meio aristocrático em que se passa o romance,se apóia, como o casamento burguês (tão questionado pela literatura do século XIX) nas convenções. A narrativa começa com uma crise no casamento do irmão de Anna, Stiva Oblonski, o que a obriga a viajar a Moscou.  Graças à intervenção dela, mulher “irrepreensível”, tudo se resolve hipocritamente. Nessa viagem, entretanto, ela conhece Vronski, seu futuro amante, e a engrenagem começa a funcionar, colocando todos os personagens em xeque: não apenas Anna e Vrosnki, mas o marido dela, Alieksei Karênin, a irmã da cunhada de Anna, Kitty, e o futuro marido desta, Liêvin, sempre atormentado pelos mais diversos dilemas, desde a questão agrária (a divisão da terra) até a questão sem solução da morte.

Embora não tenha a amplitude panorâmica que torna inigualável o maior dos romances, Guerra & Paz, a história de Anna, Vronski, Karênin, Kitty e Liêvin retrata visceralmente a sociedade russa czarista, pré-Revolução, principalmente o contraste entre o mundo rural e o mundo urbano. Num pais como o nosso,onde a questão da reforma agrária é um impasse em plena virada do milênio, os conflitos que atormentam Liêvin sobre sua propriedade possuem uma pungência bem atual, embora seja muito difícil imaginar algum dos membros da bancada ruralista do nosso congresso com a grandeza de caráter desse grande personagem..

          Outra característica que mantém o livro muito atual é o fato de Tolstoi fazer com que cada momento da narrativa seja filtrado pela visão de um personagem, prendendo-nos às sensações, sentimentos e reflexões desse personagem. Assim, vemos o grande baile de Moscou (no qual Anna e Vronski ficam definitivamente apaixonados um pelo outro) pelos olhos de Kitty, candidata à noiva de Vronski nesse passo da trama. Vemos o momento em que Anna quase morre, ao dar à luz um filho de Vronski, pelos olhos de Karênin, o marido enganado. E assim por diante…

Dessa forma, ao mesmo tempo em que dá uma sensação de realidade como nenhum outro grande escritor (e isso impressiona todos os que lêem Tolstoi, a narrativa tão natural que nada parece “inventado”), o autor de A morte de Ivan Ilitch consegue também nos dar a sensação de incompletude das nossas experiências e relações, como estamos fechados em nós mesmos, e como ninguém pode pretender deter a verdade dos fatos e acontecimentos. Só podemos assisti-los e participar dele através de nossa própria jaula de emoções, preconceitos e referências. E conveniências.

        Acompanhamos os tormentos íntimos de Karênin, vemos como o marido frio, burocrático e meio ridículo pode ter assomos de generosidade, como pode ser escrupuloso, ter consciência das suas falhas e desejar perdoar. Ao mesmo tempo, compreendemos como a sociedade pode ridicularizá-lo e ser incapaz de enxergá-lo senão na figura convencional do “corno’. A grandeza moral não impede o estereótipo social. E mesmo conhecendo intimamente Karênin, também conhecemos (e mais ainda) os sentimentos de Anna, sabemos a repugnância invencível que o marido causa nela. O leitor sabe que há um lado mesquinho, egoísta e turvado pelo desejo de liberdade nessa aversão de Anna, mas pode compreendê-la totalmente. Tolstoi parece ter aplicado á  sua ficção o preceito de Spinoza, “non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligeri”. Não rir, não lamentar, nem odiar, mas compreender (pena que, na vida real, que ele captou como ninguém, seja tão difícil cumpri-lo).

Os personagens desse romance fascinante vão crescendo para o leitor e ficando mais reais, por assim dizer, a cada leitura. Nas primeiras vezes que o li, não tive muita simpatia pelo atormentado e inadaptado Liêvin, um dos mais evidentes alter egos do seu criador, assim como o Ievguiêni Irtiêniev de O diabo, o Stiepan Kasatskai de Padre Sérgio e o Andriei Bolkonski de Guerra & Paz.  Ao reler agora (sempre na magnífica tradução de João Gaspar Simões; fuja, se possível, leitor, da contrafação feita por Lúcio Cardoso), por causa da versão La vie en Rose Karênina , constato como minha percepção e apreciação de Liêvin mudou, como esse personagem que quer se manter puro e irrepreensível (não na acepção convencional com que essa palavra dava uma “aura” a Anna), o que me irritava nas outras leituras, porta-voz do moralismo tolstoiano, é traído, a todo instante, pelo fluxo da vida, que não deixa ninguém ser impecável, que não tem soluções em seus problemas básicos. E é justamente esse passo em falso constante em que Liêvin se vê enredado que dá a medida da verdade e da simpatia do personagem; assim como o moralismo tolstoiano é traído pelo seu sentido do concreto (como se pode  verificar num dos seus textos mais problemáticos e instigantes, Sonata a Kreutzer), o que o torna bem mais interessante e dá a medida da genialidade do extraordinário e transcendental escritor russo.

        É muito fácil gostar de Anna, Vronski, Kitty , do pai desta, o príncipe Tchierbátski (um daqueles homens que são o bom senso personificado, dos quais Tolstoi tanto gosta) ou de Oblonski. A grandeza de Anna Karênina  é fazer o leitor gostar de Karênin e de Liêvin (como, em Guerra & Paz, nos fazia gostar do difícil e intratável pai de Andriei) Qualquer outro autor faria do primeiro um vilão padrão do tipo atormentador, e disso não escaparam nem autores do calibre de George Eliot, ao criar Grandcourt em Daniel Deronda (sem falar no Casaubon de Middlemarch) e de Henry James, com o perverso Gilbert Osmond, que segue a linha dos personagens de Eliot, em Retrato de uma senhora; e do segundo, um daqueles insuportáveis idealistas românticos ou um pregador histérico, como certos protagonistas do grandioso D.H. Lawrence (o Birkin de Mulheres  apaixonadas, por exemplo).

E fazendo o leitor gostar dos personagens mais inesperados, faz com que ele se interesse pelos meandros do amor de Anna e Vronski, como também pela vida mundana de Moscou e São Petersburgo, pela atividade de segar um campo, pela longa morte de um tuberculoso desagradável ou pela visita ao ateliê de um pintor talentoso..E por infinitos outros detalhes…

E é na Itália,  na visita ao vaidoso Mikháilov, que Tolstoi parece dar a síntese do que um artista é. Ao mostrar como ele aprimora os traços de uma figura numa de suas telas, o narrador diz: “Era como se afastasse véus que não o deixavam ver. Sabia, é certo, que era preciso muita destreza para fazer desaparecerem, sem prejudicar a impressão geral, os véus, as aparências que escondem a verdadeira figura dos objetos; mas, na sua opinião, isso não fazia parte do domínio da técnica. Se uma criança ou uma cozinheira vissem o que ele via, eis quanto bastava para saberem dar corpo às suas visões.”. Ou seja, a arte é linguagem, mas também visão das coisas. Lição de coisas.

Adendo-  O live de Tolstoi reapareceu em 2005 com nova tradução (de Rubens Figueiredo) e nova grafia (Anna Kariênina) pela CosacNaify. O trecho que citei no artigo aparece assim traduzido: “Via muitas vezes a palavra ´técnica´ e não compreendia o que as pessoas queriam dizer com isso. Sabia que tal palavra subentendia a capacidade mecânica de pintar e desenhar, de forma totalmente independente do conteúdo.] Sabia que era preciso ter muita atenção e muito cuidado para, ao remover as camadas que recobriam as figuras, não estragar a própria obra, e também para remover a camada inteira; na arte de pintar, porém, não havia técnica nenhuma. Se a uma criança ou à cozinheira de Mikháilov também se revelassem aquilo que ele via, os dois seriam capazes  de descascar o que viam…”

2 Comentários »

  1. […] mais: UM LIVRO TOTAL: a ficção mais verdadeira que a vida « MONTE … Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag ficÇÃo, livro, mais, monte, […]

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  2. […] Alves resenhou A Morte e A Morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado. Em seu blog, Alfredo Monte teceu alguns comentários acerca do romance de Tolstói, Anna […]

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